<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-8234801168287087039</id><updated>2012-02-16T02:55:53.099-08:00</updated><category term='reocities geocities'/><category term='A Ressurreição de Cristo A Nossa Ressurreição na Morte  Leonardo Boff'/><category term='Leonardo Boff A Ressurreição de Cristo'/><category term='São Paulo Evangelho Jesus  Dr Chase'/><category term='A Ressurreição de Cristo A Nossa Ressurreição na Morte (parte I) Leonardo Boff'/><category term='Leão Tolstoi Cristianismo Anarquismo'/><category term='Anarquismo Bibliografia Anotada Michael Elliot'/><category term='Willian Barclay &quot;Quem é Jesus?&quot;'/><category term='A Nossa Ressurreição na Morte'/><title type='text'>despejado do geocities</title><subtitle type='html'>Na condição de mais um dos milhões dos despejados do geocities, que fechou as portas dia 26 de outubro de 2009, salvei quase todos os arquivos do projeto periferia (11 anos de batalhas). Aos poucos republicarei os textos e imagens mais importantes aqui no "despejado do geocities".</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://despejadodogeocities.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8234801168287087039/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://despejadodogeocities.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Taborita</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09448797140788846841</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='23' src='http://2.bp.blogspot.com/-8olRm7HDoq4/TiY26TcYT5I/AAAAAAAAArE/Gq-YHIfZizE/s220/cats.jpg'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>8</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8234801168287087039.post-643766222711481584</id><published>2010-05-20T18:07:00.000-07:00</published><updated>2010-05-20T18:24:05.872-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='reocities geocities'/><title type='text'>Geocities renasce como reocities</title><content type='html'>Bem-vindos ao ReoCities ...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Yahoo! fez uma coisa incrível, manteve GeoCities vivo enquanto pode. Mas achamos que seria um desperdício deixar a Internet com um buraco de tal magnitude. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No mínimo, o Yahoo! poderia simplesmente preservar o GeoCities como um monumento aos primeiros dias. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez fechá-lo para edição e simplesmente deixá-lo estático após livrar-se das páginas de spam de uma vez por todas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Atrás desta página minimalista estende-se a riqueza da história da Internet. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se nada disso foi feito tivemos que recuperá-la com êxito, e esperamos que te faça feliz vê-la restaurado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nós reconstruimos as muralhas das cidades e as ruas que grande parte dos primeiros colonos da World Wide Web utilizaram para viver. Você ainda pode encontrá-los onde eles estavam antes, mas nem todas as casas foram reconstruídas ainda. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com o passar do tempo, vamos tentar recuperar mais e mais do que foi perdido, pelo menos tanto quanto for tecnicamente possível. Se você quiser ajudar com este esforço, se você tem o seu conteúdo GeoCities em um velho backup, por favor, envie-nos um e-mail para j@ww.com, mas não antes de paramos de importar os dados que temos agora. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se você tem um site com links para conteúdo GeoCities, para conseguimos restaurar o conteúdo, gostaríamos lhe pedir para mudar os links do &lt;b&gt;G&lt;/b&gt;eocities.com de &lt;b&gt;R&lt;/b&gt;eocities.com. É apenas uma mudança que ajudará a Internet a trabalhar melhor o conjunto. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para corrigir links que apontam para páginas GeoCities velhas, fornecemos um pequeno &lt;a href="http://www.reocities.com/static/js/reocities.user.js"&gt;script Greasemonkey Firefox&lt;/a&gt;. Isso não é tão bom como fazer as links fixos nas próprias páginas, mas por enquanto, é uma boa ferramenta para ter. Isso evita que você receba mensagens de erro ou desembarque em locais que você não teve a intenção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não temos uma seção "FAQ" ainda, mas se há uma pergunta que continua aparecendo na minha caixa de correio é esta: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Por que isso? Por que não deixá-lo ir embora, era tudo lixo de qualquer maneira.&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nas milhares de páginas que temos arquivadas, há uma abundância dos tesouros. Por exemplo, há um link para uma página de uma pessoa que morreu muito jovem, e cuja contribuição duradoura para a internet e as nossas vidas futuras teria sido perdida se de alguma forma não fosse salva. Foi o que fizemos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nem todas as páginas aqui, ou a história por trás deles é tão comovente como esta, mas todas elas em conjunto, representam uma riqueza cujo valor só se tornará mais evidente ao longo do tempo, e que esperamos permanecerá conosco para sempre, de alguma forma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;&lt;a href="http://www.reocities.com/SunsetStrip/1838/"&gt;David Davelicious 'Feinman, com agradecimentos à Sylvia&lt;/a&gt;&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Espero que a resposta do 'porquê?' seja da mesma forma conclusiva. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Infelizmente, no momento não podemos oferecer-lhe uma forma de atualizar, apagar ou adicionar páginas. Nós não sabemos quem são os uploaders originais (estamos trabalhando em um método de verificação) e não temos acesso às credenciais da conta. Estamos ainda no processo de limpeza de páginas para restaurá-las à sua antiga glória. Dada a quantidade de dados, esperamos que este processo vai demorar um pouco. Nesse meio tempo, sinta-se livre para explorar. Você provavelmente conhece o caminho melhor do que aqui fazemos, mas se você precisar de alguma orientação, dê uma olhada &lt;a href="http://www.reocities.com/neighborhoods/"&gt;aqui&lt;/a&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;&lt;i&gt;O texto acima foi extraido e traduzido a partir de http://www.reocities.com/newhome/&lt;/i&gt;&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O nosso antigo site hospedado no finado geocities até 26 de outubro de 2009 parece que foi completamente restaurado e pode ser acessado em &lt;a href="http://www.reocities.com/projetoperiferia/"&gt;http://www.reocities.com/projetoperiferia/&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8234801168287087039-643766222711481584?l=despejadodogeocities.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://despejadodogeocities.blogspot.com/feeds/643766222711481584/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://despejadodogeocities.blogspot.com/2010/05/geocities-renasce-como-reocities.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8234801168287087039/posts/default/643766222711481584'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8234801168287087039/posts/default/643766222711481584'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://despejadodogeocities.blogspot.com/2010/05/geocities-renasce-como-reocities.html' title='Geocities renasce como reocities'/><author><name>Taborita</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09448797140788846841</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='23' src='http://2.bp.blogspot.com/-8olRm7HDoq4/TiY26TcYT5I/AAAAAAAAArE/Gq-YHIfZizE/s220/cats.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8234801168287087039.post-7263397738652769422</id><published>2010-04-24T13:44:00.000-07:00</published><updated>2010-04-26T18:25:14.074-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Anarquismo Bibliografia Anotada Michael Elliot'/><title type='text'>Anarquismo: Uma Bibliografia Anotada</title><content type='html'>&lt;span style="font-style:italic;"&gt;por Michael Elliot &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;[1] Primeiros escritores &lt;/span&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Bakunin, Michael &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;1983, Selected Writings, London, Cape &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;1973, Bakunin on Anarchy, London, Allen and Unwin &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;1984, Marxism, Freedom and the State, London, Freedom Press &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dos fundadores do anarquismo moderno, Bakunin (1814-76) passou grande parte de sua vida preso em diversos cárceres europeus. Teve uma vida tão ativa que conseguiu escrever apenas alguns artigos. Essa coleção proporciona uma boa introdução às suas idéias. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Berkman, Alexander &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;1987, The ABC do Anarchism, London, Freedom Press &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Berkman (1870-1936) saiu da Russia aos desessete anos de idade, foi um dos anarquistas que adotavam a remoção dos tiranos de forma violenta como caminho para a verdade e para a paz. Pela tentativa de assassinato de um magnata do aço norte-americano ficou preso durante 20 anos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Godwin, William &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;1926, An Enquiry Concerning Political Justice (2 volumes), New York, Alfred Knopf &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Godwin (1736-1856) foi um inconformado Ministro Ingles que, juntamente com sua esposa Mary Wollstonecraft (a primeira escritora feminista, autora de "A Vindication of the Rights of Women"), sua irmã Mary Shelley (autora de Frankenstein), seu filho adotivo Percy Bysshe Shelley e William Blake, compõem algumas as bases sobre os quais o moderno movimento anarquista foi construido. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;1981, The Anarchist Writings of William Godwin, Ed Peter Marshall, London, Freedom Press, &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma excelente introdução ao pensamento de Godwin. Além de expor os princípios anarquistas de Godwin, o livro faz incursões aos seus originais pontos de vista sobre a Natureza Humana, Ética, Política, Economia, Educação e Livre Sociedade. Marshall considera Godwin como "o mais radical filósofo britânico" e o "mais destacado expoente da filosofia anarquista". &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Goldman, Emma &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;1969, Anarchism and Other Essays, New York, Dover Publications &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outro imigrante Russo para os Estados Unidos, Goldman (1869l-1940) após experimentar a exploração ao trabalhar em uma tecelagem em New York, tornou-se um anarquista defensor dos direitos das mulheres, particularmente na liberdade de expressão e no controle da natalidade, juntamente com Berkman com quem foi deportado para a Rússia em 1919, se constituiram em críticos da Revolução Russa. "Se não posso dançar", dizia, "não quero participar de sua revolução!" &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Kropotkin, Peter &lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;1902, Mutual Aid: A Factor of Evolution, London, William Heinemann &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dos mais influentes textos anarquistas, esta obra contesta a popular teoria darwiniana de que o conflito leva ao progresso humano, através do exame das formas como os princípios de cooperação conduziram através da história o desenvolvimento harmonioso das espécies e comunidades. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;1906, The Conquest of Bread, London &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Kropotkim (1842-1912), Russo por nascimento mas por muitos anos residente na Inglaterra, foi um dos mais profícuos escritores da linha anarco-comunista. Em seus numerosos artigos ele defende uma sociedade cuja produção seja destinada ao uso e não ao lucro e onde a ciencia seja empregada para satisfazer as necessidades de todos e não apenas de alguns. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;1988, Act for Yourselves, London, Freedom Press&lt;/span&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma seleção de artigos curtos publicados no jornal anarquista "Freedom". Tão incisivo quanto "A Conquista do Pão", revela numa leitura leve e fácil uma pessoa totalmente mergulhada nos princípios e práticas anarquistas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Malatesta, Errico &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;1949, Anarchy, London &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Malatesta (1853-1932) foi um anarquista italiano que produziu uma série de panfletos considerados como dos mais bem escritos da literatura anarquista. &lt;br /&gt;É sua obra mais conhecida. Ele foi um notório oponente dos anarco-sindicalistas (aqueles que insistem em que os movimentos de trabalhadores sejam a vanguarda para as mudanças) defendendo o anarquismo clássico como a instância mais eficaz nos processo de libertação. Muitos o definem como sendo uma combinação das tres maiores tradições anarquistas: ética, liberdade e eudemonística (onde a felicidade é o assunto central). &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Proudhon, Pierre-Joseph &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;1876, What is Property? Princeton &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Proclamado por Bakunin como "o mestre de todos nós", Proudhon (1809-65) foi além de político e crítico francês, um influente pensador anarquista. Sua obra começou com a proclamação "A Propriedade é um Roubo", que contém em sua elaboração os elementos sobre os quais as doutrinas libertárias e descentralistas foram construídas. "Todo aquele que levantar a mão sobre mim para me governar é um usurpador, um tirano", escreveu ele. "Eu o declaro meu inimigo". &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;1989, General Idea of the Revolution, London, Pluto &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este é um dos clássicos da literatura anarquista, escrito logo após à Revolução Francesa em 1848. Proudhon aponta para a visão libertária de uma nova sociedade baseada na igualdade e na justiça. Suas críticas à atual sociedade, especialmente quando a compara à natureza autoritária tanto da Igreja quanto do Estado são soberbas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;[2] Obras Contemporâneas &lt;/span&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Baldelli, Giovanni &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;1972, Social Anarchism, Harmondsworth, Penguin &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Radicado há muitos anos em Londres, Baldelli é um escritor de tradições anarquistas que tomou os preceitos éticos como seu ponto de partida. É de particular interesse sua substituição de "competente" por "autoritário". &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Barclay, Harold &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;1990, People Without Government: An Anthropology fo Anarchy, London, Kahn and Averill&lt;/span&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No Prefácio deste livro Alex Comfort (um notório escritor anarquista) descreve anarquismo como "a filosofia política que defende a maximização da responsabilidade individual e a redução da concentração do poder". A obra de Barclay descreve um número de sociedades - em pequena escala, sociedades comunitárias, grupos de horticultores - dentre os quais a ausência de governo não é um sonho utópico mas uma inegável forma de organização política. Leitores interessados nessa área podem também consultar o capítulo "Liberty, Anarchism and the Noble Savage" no livro do autor indígena Jack Wetherford: "Como os Índios das Américas Transformaram o Mundo", New York, Ballantine Books, 1988. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Bookchin, Murray &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;1977, The Spanish Anarchists: The Heroic Years 1868-1936, New York, Free Life Editions &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Espanha nos providenciou a mais bem documentada experiência do estabelecimento do anarquismo em bases de larga escala. Este livro descreve um movimento e ao mesmo tempo dá uma excelente visão histórica do desenvolvimento do anarquismo. Os leitores encontrarão grande quantidade de informações da experiência espanhola e na organização anarquista nos setores de transporte, indústria textil, abastecimento de gás, eletricidade, bem como nas áreas de saúde e economia, através do Coletivo Gaston Leval na Revolução Espanhola, Freedom Press, London, 1975. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;1989, Remarking Society, Montreal, Black Rose Books &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bookchim é considerado o mais profícuo escritor anarquista contemporâneo. Um professor com particular interesse em ecologia. Sua análise vai além das idéias superficiais acerca de "biodiversidade" e "ponto de vista ecológico" para se aprofundar nos fatores sociais que são a orígem dos problemas. Em resposta aos fatores que produzem danos ecológicos às sociedades humanas, e quais fatores poderiam ser ecologicamente benéficos, ele se utiliza das idéias anarquistas como um mapa político, social e econômico, como o caminho para a reconstrução social em direção a um relacionamento harmônico entre a humanidade e a natureza. Ele também investiga os princípios éticos que nos guiarão a essa reconstrução. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Chomsky, Noam &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;1987, The Chomsky Reader, New York, Pantheon Books, (Editor: James Peck) &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Descrito pelo jornal New York Times como "sem dúvida, o mais importante intelectual vivo", Chomsky é mais anarquista no campo comunitário que individual. Como professor de linguística, sua obra expõe as diversas manifestações da inteligência humana e sua criatividade, aspectos globais da guerra e sobrevivência, o poder da manipulação da mídia, e critica a Política Externa dos Estados Unidos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Chistie, Stuart and Meltzer, Albert &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;1972, The Floodgates of Anarchy, London, Sphere Books, &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Contem excelente material analítico que demonstra porque alguns anarquistas rejeitam a idéia de uma revolução socialista, apesar de defender a luta de classes. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Goodman, Paul &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;1971, Compulsory Miseducation, Harmondsworth, Penguin, &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os anarquistas sempre tiveram grandes discussões em torno do papel da educação nas mudanças sociais (William Godwin, Herbert Read). Este trabalho é um exemplo singular de como anarquistas contemporâneos promovem uma  forma de educação libertária em oposição a uma sociedade repressora. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Goodway, David (ed.) &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;1989, For Anarchism, History, Theory and Practice, London, Routledge &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma coleção de documentos sobre conhecidos libertários contemporâneos e escritores anarquistas como Daniel Guerin, Peter Marshall e Murray Bocchin. Uma excelente introdução ao moderno pensamento e prática anarquista, provando que a teoria anarquista nunca foi tão relevante quanto o é hoje, uma vital e criativa tradição que necessita ser levada a sério. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Griffin, John &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;1991, A Structured Anarchism, London, Freedom Press&lt;/span&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este panfleto mostra um anarquismo que aparece forte na ética, na ecologia e nas ações práticas, mas que por outro lado parece enfraquecido e inconsistente na sociologia, na psicologia e na economia. Griffin analisa o debate entre coletivistas (Proudonianos, anarquismo de mercado) e comunistas anarquistas(Kropotkinianos, monetários). &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Guerin, Daniel &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;1970, Anarchism: From Theory to Practice, New York, Monthly Review Press &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Guerin é um contemporâneo escritor libertário Francês. Muitos consideram este livro como a melhor introdução moderna ao pensamento e prática anarquistas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Joll, James &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;1964, The Anarchists, Boston, Litle Brown &amp; Co. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma soberba explanação histórica focada nas personalidades dos pensadores anarquistas e nos movimentos que eles participaram. Joll mostra o anarquismo como um produto do impacto da industrialização nas comunidades artesanais e rurais do século desenove. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Landauer, Gustav &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;1978, For Socialism, St Louis, Telos Press&lt;/span&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Crítico feroz à burocracia e um ardente defesor do socialismo libertário, Laundauer ataca o marxismo autoritário que considera por si só opressivo e obstáculo ao desenvolvimento e à libertação humana. Amigo pessoal de Martin Buber, propagandeador das práticas anarco-socialistas no Movimento Sionista e dos pioneiros do kibbutz. Dotado de uma preocupação especial com a dimensão espiritual do anarquismo, ele é lembrado por suas convicções de que o Estado é uma forma de relacionamento institucionalizado. Nós não precisamos de uma revolução para superar o Estado, simplesmente temos que mudar a natureza e a qualidade dos relacionamentos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Marshall, Peter &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;1993, Demanding the Impossible: A History of Anarchism, London, Fontana &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Marshall é um dos mais profícuos escritores anarquistas da Inglaterra de nossos dias. Esta obra de 767 páginas traz como título um grafite produzido numa parede em 1968, "Seja realista! Peça o impossível",  é um compreensível guia de desenvolvimento do pensamento anarquista. O autor vai desde o surgimento de práticas anarquistas na China do século sexto, até o movimento popular contra a coleta de Impostos por parte do governo britânico em 1990. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;1998, William Blake, Visionary Anarchist, London, Freedom Press &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Inspirado na obra poética e literária de Blake, e examinando sua filosofia, sua crítica à sociedade e à cultura, e sua visão de um mundo livre, o autor coloca Blake como um marco do moderno anarquismo e da ecologia social. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Nozick, Robert &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;1980, Anarchy, State, and Utopia, Oxford, Blackwells &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nozick é Professor de Filosofia na Universidade de Harvard. Sua obra coloca em discussão a natureza do estado moderno, os direitos dos indivíduos e suas implicações éticas e filosóficas. O autor propõe uma saída libertária arguindo que o Estado por natureza é intrinsecamente imoral, e que o Estado, sem ninguem para lhe dar consistência, daria lugar a um contexto de anarquia natural. &lt;br /&gt;Ele todavia opta por um Estado mínimo, onde as funções do Estado seriam limitadas a proteção contra a força, roubo, fraude, quebra de contratos e nada mais. Pensadores anarquistas clássicos defendem que em uma sociedade anarquista, tais desvios não existiriam. Nozick é essencialmente um pensador conservador. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Plant, Sadie&lt;/span&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;1992, The Most Radical Gesture: The Situationist International in a Postmodern Age. London, Routledge &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há muitas discussões no que diz respeito a considerar os Situacionistas dos anos 50 e 60 como anarquistas. Com certeza eles foram libertários que definiram a sociedade capitalista como um circo montado não para divertir o público, mas para aliená-lo e satisfazer as experiências, emoções e desejos de uma classe dominante. Sua obra é uma introdução às demandas radicais da imaginação, da criatividade, do desejo e do prazer suscitado pelo projeto revolucionário, traços de ligação entre o Situacionismo e o pos-modernismo, e argumenta que os princípios do Situacionismo proporciona uma poderosa análise da sociedade capitalista. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Purkis, Jon &amp; Bowen, James [eds.] &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;1997, Twenty-First Century Anarchism: Unorthodox Ideas For a New Millennium, London, Cassell &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Comforme o título sugere, este livro coloca o anarquismo na ordem do dia. Esta coleção de ensaios passa a limpo algumas das dimensões históricas do anarquismo - por exemplo seu conceito sobre a natureza humana - e traça um paralelo entre cultura e anarquismo. Em seu capítulo final prevê a importancia do anarquismo no novo milênio. Os editores destacam alguns aspectos do anarquismo que consideram relevantes para nossa época, embora descartem algumas das "bagagens históricas" que o acompanha. Uma das contribuições destaca que "se o anarquismo pode depois de tudo ser pensado como uma ponderação, uma crítica, um cabedal de questões a serem respondidas no que diz respeito às relações de poder, muito mais que teoria ou proposta, está longe de ser uma ideologia descartada do passado". &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Quail, John &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;1978, The Slow Burning Fuse: The Lost History of the British Anarchists. St Albans, Granada &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quail argumenta que o sucesso da aliança socialista e comunista às custas da tradição anarquista e libertária teve como efeito reescrever e suprimir a história da classe trabalhadora. Uma tentativa de encobrir a história. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Read, Herbert &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;1974, Anarchy and Order, London, Souvenir Press &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Herbert Read, morreu em 1968, foi um destacado estudante, crítico e um profícuo escritor que adotou os pontos de vista anarquistas durante toda sua vida. Sua obra reflete seu interesse na cultura, na arte, na educação e traça o relacionamento do pensamento anarquista com a política, a psicologia e a estética. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Ward, Colin &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;1982, Anarchy in Action, London, Freedom Press &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este popular escritor, colunista semanal no jornal New Statesman and Society; é um arquiteto e projetista que não defende o anarquismo como algo que precisa ser alcançado, mas como algo que já existe nas diversas formas de organização humana que abdicaram de viver sob a opressão e a burocracia do estado. Anarquistas, argumenta, não tem que impor uma nova ordem, precisam apenas ampliar as áreas de livre ação existentes até que elas formem a base da sociedade. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;1991, Influences: Voices of Creative Dissent, Bideford, Green Brooks &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Meus ídolos não fundaram partido algum. Nem começaram guerras ou fizeram parte de governos. Nem tampouco levaram pessoas a odiar outras pessoas. Tudo isso já foi feito e falhou nessa decadente cultura". Ward documenta relatos biográficos de pensadores anarquistas na área de educação (Godwin e Wollstonecraft), política (Alexandre Herzen), economia (kropotkin), sociedade (Martin Buber), arquitetura (William Lethaby e Walter Segal) e planejamento (Patrick Geddes e Paul Goodman). &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Woodcock, George &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;1963, Anarchism: A History of Libertarian Ideas and Movements, Harmondsworth, Penguin &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;Este autor produziu os mais conhecidos e populares textos anarquistas. Ele descortina a história do pensamento libertário através das vidas de seis anarquistas: Godwin (O Homem da Razão), Proudhon (O Homem do Paradoxo), Stirner (O Egoísta), Bakunin (O Destruidor), Kropotkin (O Pioneiro),  e Tolstoy (O Profeta). Uma das melhores introduções ao pensamento anarquista, os últimos capítulos mostram a história do movimento na França, Itália, Espanha e Rússia. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;1992, Anarchism and Anarchists, Kingston, Quarry Press, &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Essa coleção de ensaios é uma crítica histórica e literária, publicada aos 80 anos do nascimento de Woodcock, cobre meio século de escritos sobre personalidades anarquistas e temas libertários. Ela proporciona críticas penetrantes (por exemplo, sobre Guerin e Chomsky definidos como Marxistas libertários e nunca como anarquistas) de qualquer forma, colocados com clareza, os princípios básicos do anarquismo repousam na crença de que os direitos dos indivíduos devem ser colocados acima do poder do estado. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;1980, The Anarchist Reader (Ed), London, Fontana &lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Woodcock juntou uma coleção onde aparecem todas as correntes de pensamento anarquista. Imprescindível para quem quer estudar a matéria. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;[3] Teólogos &lt;/span&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Berdyaev, Nicolas&lt;/span&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;1953, Slavery and Freedom, London, Geoffrey Bles &lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Influenciado tanto por Tolstoy como por Dostoyevsky, Berdyaev revela ser mais filósofo que teólogo. Todavia, todas suas considerações estão mergulhadas dentro de um contexto teológico. Nessa obra ele conclui que tanto o senhor como o escravo, o governante e o governado, o opressor e o oprimido, ambos  são vítimas da mesma aflição espiritual. O personalista e existencialista Berdyaev declarou que "apenas um homem livre é uma personalidade...". Outros trabalhos de Berdyaev relacionados a temas anarquistas são o Realm of Spirit and the Realm of Caesar, Solidão e Sociedade, e Filosofia do Espírito Livre. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Eller, Vernard &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;1987, Christian Anarchy: Jesus' Primacy Over the Powers, Grand Rapids, Eerdmans &lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Classificado como "uma dos mais agradáveis e importantes contribuições ao pensamento cristão, político e social nos últimos vinte anos", a obra de Eller  destaca o termo grego ARKI usado nos escritos de Paulo e traduzido por "principados". O anarquista é uma pessoa "não-arki" ou "an-arki", e no caso do Cristão, ele não pode se submeter a nenhum arki a não ser Jesus que é O ARKY. O livro é de valor pela excelente abordagem aos escritos teológicos de Karl Barth e sua relação com os preceitos anarquistas, também ressalta uma forma de anarquia espiritual que além de "insubmissa" traz consigo os elementos necessários a uma ação prática. Muitos cristãos anarquistas levam isso até as últimas consequencias. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Elliot, Michael &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;&lt;br /&gt;1990, Freedom, Justice and Christian Counter-Culture, London, SCM Press. &lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu livro assume a posição de que é tarefa tanto do Cristão como da Igreja promover a contra-cultura dos valores do Reino de Deus como uma crítica que se opõe à consciência dominante que encontra sua expressão no moderno estado. Traz em seu interior uma nova forma de ler as escrituras e critica as igrejas que  tem desenvolvido tanto modos capitalistas quanto socialistas em sua organização. Nos conceitos éticos básicos das escrituras como também na prática de Jesus nos são dados modelos de pensamento e prática anarquista. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Ellul, Jacques &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;1991, Anarchy and Christianity, Grand Rapids, Eerdmans, &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este pequeno e ótimo livro apresenta um dos melhores casos de anarquismo cristão contemporâneo. Ellul, que morreu recentemente, formou-se professor de direito, de sociologia e da história das instituições pela Universidade de Bordeaux. Escreveu mais de cinquenta livros, muitos deles classicos libertários. Nessa obra ele olha para o anarquismo de um ponto de vista cristão, e seleciona alguns livros e passágens bíblicas como suporte da anarquia. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Tolstoy, Leo &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;1984, The Kingdom of God is Within You and Peace Essays, London, Oxford University Press, 1935 (republished in a new translation by University of Nebraska Press &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tolstoy (1828-1910) é o mais famoso defensor do anarquismo cristão. Posicionando-se contra a justificação da violência pela Propaganda praticada pelos anarquistas, ele insistiu que a doutrina cristã de não-resistencia à violência, abandonada a muito pela Igreja, provê a única base para a conquista de uma mudança social pacífica. &lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1990, Government is Violence ed. David Stephens, London, Phoenix Press &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esta coleção de ensaios de orígem anarquista e pacifista proporciona uma acessível introdução ao pensamento de Tolstoy. "Sou tão anarquista", disse Tolstoy, "quanto Jesus e o sermão da montanha me fizeram". &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;[4] Anarquismo na Literatura &lt;/span&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Explora temas utópicos e visões anarquistas (nem sempre escritos por autores declaradamente anarquistas) que foram objeto de muitas novelas, dramas e poemas. Essas obras proporcionam uma melhor apresentação para o anarquismo que trabalhos acadêmicos e de propaganda: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;1916, My Days and Dreams, Carpenter, Edward, Allen &amp; Unwin &lt;br /&gt;1990, The Secret Agent, Conrad, Joseph, Penguin &lt;br /&gt;1908, The Bomb, Harris, Frank, London &lt;br /&gt;1986, The Island, Huxley, Aldous, Panther &lt;br /&gt;1987, The Princess Casamassima, James, Herny, Penguin &lt;br /&gt;1985, The Hustler, Mackay, John H, Alyson Publications &lt;br /&gt;1970, News from Nowhere, Morris, William, Routledge &lt;br /&gt;1984, Homage to Catalonia, Orwell, George, Penguin &lt;br /&gt;1960, Walden, Thoreau, Henry, New American Library&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8234801168287087039-7263397738652769422?l=despejadodogeocities.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://despejadodogeocities.blogspot.com/feeds/7263397738652769422/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://despejadodogeocities.blogspot.com/2010/04/anarquismo-uma-bibliografia-anotada.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8234801168287087039/posts/default/7263397738652769422'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8234801168287087039/posts/default/7263397738652769422'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://despejadodogeocities.blogspot.com/2010/04/anarquismo-uma-bibliografia-anotada.html' title='Anarquismo: Uma Bibliografia Anotada'/><author><name>Taborita</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09448797140788846841</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='23' src='http://2.bp.blogspot.com/-8olRm7HDoq4/TiY26TcYT5I/AAAAAAAAArE/Gq-YHIfZizE/s220/cats.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8234801168287087039.post-5679327462010553737</id><published>2009-12-08T20:09:00.000-08:00</published><updated>2009-12-09T14:29:08.039-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='A Ressurreição de Cristo A Nossa Ressurreição na Morte (parte I) Leonardo Boff'/><title type='text'>A Ressurreição de Cristo - A Nossa Ressurreição na Morte (parte I)</title><content type='html'>&lt;span style="font-style:italic;"&gt;por Leonardo Boff&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Ressurreição de Cristo&lt;br /&gt;A Nossa Ressurreição na Morte&lt;br /&gt;(parte I)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Leonardo Boff (*)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cancão à Morte&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;&lt;blockquote&gt;Eu espero a Morte como se espera o Bem-Amado.&lt;br /&gt;Não sei quando virá,&lt;br /&gt;nem como virá.&lt;br /&gt;Mas eu espero.&lt;br /&gt;E não há medo nesta expectativa.&lt;br /&gt;Há somente ânsia e curiosidade&lt;br /&gt;porque a Morte é bela.&lt;br /&gt;Porque a Morte é uma porta&lt;br /&gt;que se abre para lugares desconhecidos,&lt;br /&gt;mas imaginados.&lt;br /&gt;Como o amor,&lt;br /&gt;nos leva para um outro mundo.&lt;br /&gt;Como o amor,&lt;br /&gt;começa para nós outra vida&lt;br /&gt;diferente da nossa.&lt;br /&gt;Eu espero a Morte como se espera o Bem-Amado.&lt;br /&gt;Porque eu sei que um dia ela virá&lt;br /&gt;e me receberá&lt;br /&gt;em seus braços amigos.&lt;br /&gt;Seus lábios frios tocarão a minha fronte,&lt;br /&gt;e sob a sua carícia&lt;br /&gt;eu adormecerei o sono da eternidade.&lt;br /&gt;Como nos braços do Bem-Amado.&lt;br /&gt;E esse sono será&lt;br /&gt;um ressurgimento.&lt;br /&gt;Porque a Morte é a Ressurreição,&lt;br /&gt;a Libertação,&lt;br /&gt;a Comunicação total&lt;br /&gt;com o Amor total.&lt;/blockquote&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Maria Helena da Silveira (1922-1970)&lt;br /&gt;Poesia inédita escrita em 1944,&lt;br /&gt;aos 22 anos de idade.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;O homem é essencialmente homo viator: está em busca de si mesmo. Quer realizar-se em todas as suas dimensões. Não só na alma. Mas no homem todo, unidade radical corpo-alma. O pensar utópico é uma constante em todas as culturas. O homem quer superar todas as alienações que o estigmatizam como a dor, a frustração, o ódio, o pecado e a morte. O princípio-esperança é uma estrutura existencial do ser-homem. «Quem me livrará deste corpo de morte» (Rom 7-24)? Todos os homens sonham com a situação descrita pelo Apocalipse, onde a morte não existirá mais, nem mais luto, nem pranto, nem fadiga, porque tudo isto já passou» (21,4). O homem de hoje se coloca mais que em outras épocas perguntas radicais acerca de seu futuro. Está em busca do homem novo que ele crê vislumbrar no horizonte das possibilidades oferecidas pela manipulação genética. A pergunta que mais o preocupa não é tanto: quem é o homem? mas, que será dele? Que o espera? Nietszche sonhou com o Super-homem, com um corpo de César e uma alma de Cristo, um santo de uma espécie nunca dantes existente, capaz de dominar com suma responsabílidade o mundo por ele mesmo criado. A ânsia de realização pessoal e cósmica do homem é sempre frustrada pela morte. Ela é uma barreira para todas as utopias. Que resposta dá o cristianismo a semelhante questionamento? Frei Leonardo Boff, nascido em 1938, fez seus estudos filosófico-teológicos em Curitiba e Petrópolis. Especializou-se em Teologia Sistemática nas Universidades de Munique, Oxford e Würzburg. É o coordenador responsável pelas publicações teológicas da Editora Vozes, Redator das revistas Concilium e REB, autor de obras como A Igreja como Sacramento no horizonte da experiência do mundo, Paderborn 1971, O Evangelho do Cristo Cósmico, Vozes 1971 e Jesus Cristo Libertador, Vozes 1972. Em 1974 era Professor no Instituto Filosófico-Teológico Franciscano de Petrópolis e do CEFEPAL da mesma cidade.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;&lt;br /&gt;I -- Em Busca do Homem Novo&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MAIS que em outros tempos, nossa época se caracteriza pela preocupação do futuro e, nas penumbras dele, vislumbrar o homem de amanhã. Todos são nisso unânimes: o homem de hoje é alguém que deve ser superado. O verdadeiro homem é ainda um projeto. Ele não nasceu. Está latente dentro dos dinamismos da evolução. Essa busca do homem novo talvez seja um desses anseios que jamais fizeram progresso na história da humanidade. É uma constante permanente de cada cultura, seja na sua expressão mítica no pensamento selvagem, seja na sua formulação dentro do horizonte das utopias científicas do pensamento objetivo da modernidade. (1)&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;&lt;br /&gt;1. O homem novo no pensamento selvagem&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pensamento mesopotâmico produziu a epopéia de Gilgamés(2), interessante por nela se relatar também a criação do mundo e o dilúvio, à semelhança dos relatos bíblicos. Angustiado pelo drama da morte Gilgamés busca a árvore da vida que restitui a jovialidade ao homem velho e mortal. Quer juntar-se a Uta-Napis-&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;1 Cf. o livro que recolhe enorme material acerca do tema: Mühlmann, W., Chiliasmus und Nativismus. Studien zur Psychologie, Soziologie und historischen Kasuistik der Umsturzbewegungen, Berlin 21964; Bloch, E., Das Prinzip Hoffnuwg, 2 vol. Frankfurt 1959.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;2 Cf. Heidel, A., The Gilgamesh Epic and Old Testament Parallels, Chicago 1954; Contenau, G., Le déluge babylonien, Paris 21952, 192-200.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;9&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;htim, herói do dilúvio, que os deuses imortalizaram, colocando-o numa ilha maravilhosa. A ele Gilgamés suplica o segredo da vida eterna. Em sua caminhada impossível, o deus Sol (Shamash) ironicamente o apostrofa: «Para onde corres, Gilgamés? A vida que procuras jamais a irás encontrar»!(3) A divina ninfa Siduri também o adverte: «Quando os deuses criaram a humanidade, deram-lhe como destino a morte. Eles retiveram a vida eterna em suas mãos. Gilgamés, enche o ventre, goza a vida de dia e de noite. Alegra-te com o pouco que tens em tuas mãos».(4) Gilgamés não se deixa dissuadir. Chega à ilha maravilhosa do homem imortal. Ganha a árvore da vida. E regressa. No retorno a serpente bafeja com seu hálito a árvore da vida e lha rouba. O herói desiludido morre como todos e vai ao «país onde não há retorno, onde a comida se constitui de pó e barro e os reis são despojados de suas coroas».(5) O homem permanecerá sempre o mesmo, sob o signo férreo da morte. Sonhará com a imortalidade e novidade de vida. Mas não passa de um sonho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A civilização egípcia foi por excelência uma civilização centrada sobre o tema da morte e da imortalidade.(6) Professa-se nela um otimismo que transcende, no seu conjunto, à mensagem dos livros mais antigos do Velho Testamento: ao homem bom é prometida vida próspera e nova num outro mundo, no convívio com os deuses Osiris, Horos, Ré e Atum. O embalsamamento dos cadáveres era uma réplica do que acontecia no além: a personalidade consciente (ba) permanece na imortalidade unida ao corpo (jet) e ao seu princípio animador, de origem divina (ka)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O judaísmo bíblico criou o relato do paraíso que é uma profecia do futuro, projetada no passado. (7) Aí se pinta o homem e seu mundo como serão amanhã:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;3 Tábula X, em Heidel, op. cit., 69.&lt;br /&gt;4 Tábula X, em Heidel, op. cit., 70.&lt;br /&gt;5 Tábula VII, col. 4, em Heidel, op. cit., 60-61; 99-101.&lt;br /&gt;6 Cf. Croato, S., A esperança de imortalidade nas grandes cosmovisões do Oriente em Concilium 60 (1970) 1220 -1230, esp. 1224-1227.&lt;br /&gt;7 Mesters, C., Paraíso terrestre: saudade ou esperança? Vozes, Petrópolis 1971, 47-48.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;10&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;o homem matinal, na limpidez de sua relação harmoniosa com o mundo e com Deus, onde não haverá mais a dominação do marido sobre a mulher, nem as dores do parto, nem a seca, nem o trabalho escravo, nem a ameaça dos animais, nem a religião do medo, nem a morte. A pátria do homem será o jardim de Deus (Ez 31,7-9.16.18; 36,35 -- textos que influenciaram na elaboração de Gênesis 2-3), numa situação de paz total entre o homem e a natureza e os homens consigo mesmos e com Deus (Jer. 24,7; 32,39; 31,34). Tudo será novo e paradisíaco (Is. 66,22; 65,17; cf. Is 11,9 -- textos que também influenciaram na elaboração de Gên 2-3). O homem que Deus quis está sendo ainda plasmado em Suas mãos e pelas mãos dos próprios homens na história. Mas um dia ele nascerá, totalmente, imagem e semelhança do Criador (Gên 1,26). Essa é a grande esperança do Antigo Testamento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os nossos tupi-guaranis e apapocuva-guaranis criaram a utopia da «terra sem mal» (yuý maraeý) e da «pátria da imortalidade». Pesquisas históricas e antropológicas recentes(8) mostraram que esses índios viviam em constante mobilidade: da costa de Pernambuco, de repente, se deslocavam para o interior das selvas até às nascentes do Madeira; do interior da selva amazônica outro grupo se punha em marcha até atingir o Peru; dos limites com o Paraguai outro grupo se movia até à costa atlântica e assim por diante. Por muito tempo essas migrações permaneceram misteriosas e inexplicáveís aos antropólogos. O estudo de seus mitos, contudo, veio revelar um dado esclarecedor: o mito da «pátria da imortalidade» punha em marcha toda a tribo. O pajé profetizava: a «terra sem mal» irá aparecer no mar. E para lá rumavam esperançosos. Com danças, ritos e jejuns&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;8 Cf. Schaden, E., O mito do paraíso na cultura e na vida Guarani, em: Aspectos fundamentais da cultura Guarani (Univ. S. Paulo, Faculdade de Fil. Ciências e Letras, Boletim n. 188), S. Paulo 1954, cap. X; Métraux, A., Migrations historiques des Tupi-Guarani. em Jr. de Ia Soe. des Américanistes, N.S. 19 (1927) 1-45; Linding, W. H., Wanderungen der Tupí-Guarani und Eschatologie der Apapocuva-Guarani, em Mühlmann, W. E., Chiliasmus und Nativismus, Berlin, 1964, 19-40.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;11&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;criam tornar leve o corpo e ir ao encontro, nas nuvens, da pátria da imortalidade. Desiludidos regressavam para as selvas e lá aguardavam no coração da terra o emergir da utopia, com a destruição deste velho mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A expressão é selvagem. A linguagem é mítica. Mas ambas revelam o mesmo princípio-esperança que dilacera o coração do homem, como o sentimos nós hoje dentro de outro horizonte de experiência.&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;&lt;br /&gt;2. O homem novo no pensamento científico&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O homem de hoje não aguarda do céu o surgir do homem novo. Ele tenta críá-lo com os meios que as ciências e a manipulação biológica lhe fornecem. Nos nossos dias o experimento humanidade está em processo: as manipulações para se lograr um controle da natalidade, a imunização contra doenças genéticas, os transplantes de órgãos e tecidos, a inseminação artificial, que nos EUA chega à ordem de 25.000 por ano(9), a criação de embriões in vitro como os célebres experimentos dos Professores Daniele Petruci de Bologna e de Landrum Shettles da Univ. de Colúmbia, a manipulação sobre o cérebro humano e melhoramento genético através de mutações cromossomáticas, dão prova da extensão da pesquisa. Será que tudo isso se processa à revelia dos princípios éticos e de uma correta interpretação do homem e de sua posição no mundo? Essa pergunta se tornará ainda mais angustiante se ouvirmos as prognoses hiperentusiásticas de não poucos biólogos e geneticistas. Herman J. MüIler, prêmio Nobel de Medicina, fala de bancos de sêmen humano, descritos com seu pedigree exato em catálogos a serem fornecidos às mães potenciais.(10) Rostand prevê o tempo em que crianças humanas receberão&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;9 Veja-se o meu artigo A manipulação biológica do homem, em Vozes 65 (1971) 631-641 com a bibliografia aí citada especialmente os 5 vols. do Overhage, P., A caminho da pós-humanidade, Vozes, Petrópolis 1971; para o caso citado veja: Time, abril 19, 1971, 28.&lt;br /&gt;10 Cf. Kaufmann, R., Die Menschenmacher, Hamburgo 1964, 17s.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;12&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;uma dose padrão de ADN que lhes transmita as qualidades físicas e intelectuais mais desejáveis. I. B. S. Haldane, biólogo inglês, prognostica a criação de homens para viagens espaciais, homens que não possuem pernas, que não precisam se alimentar muito e que podem suportar altíssimas velocidades. «Para corpos celestes com grande gravitação, como por exemplo Júpiter, poderiam ser de vantagem homens de pernas curtas ou de quatro pernas». Th. Löbsack pensa que «nada, teoricamente, nos poderá impedir de criar homens que vivam no fundo dos oceanos ou tais que possam emigar para outros planetas e fazer deles sua nova pátria». Nathan Line e Mandred Clynes do Roekland-State-Hospitals de Nova York sugerem a produção de seres metade-máquinas-metade-homens, mais adaptados às viagens espaciais. Atwood vê a possibilidade de criar uma síntese de qualidades vegetais e animais no homem. Com isso nasceriam seres «com grande cérebro para poder dedicar-se à filosofia, e ao mesmo tempo com um campo fotosintético, nas costas, o que dispensaria a necessidade de alimentar-se». Ele vê ainda outras possibilidades: «Em lugar de um sistema complexo fotosintético poderíamos implantar no conjunto haplóide de cromossomos humanos uma série-ADN com a informação para a enzima-celulose. Neste caso, os indivíduos estariam em condições de alimentar-se de papel ou de serragem, porque possuiriam a enzima-celulose para digerir celulose como já o conseguem vacas e térmitas com o auxílio de microrganismos».(11) Desta forma e com a total manipulação genética poder-se-ia criar o verdadeiro super-homem, totalmente liberto de qualquer tara ou defeito físico, um corpo de César com alma de Cristo, com capacidade extraordinária de doação, amor, simpatia, equilíbrio, retidão e sensibilidade para os valores éticos e com uma profunda experiência religiosa. Como transparece nessas visões, que certa-&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;11 Exemplos tirados de Overhage, P., A caminho da pós-humanidade. Experimento Humanidade, 1, op. cit., 85-89 e de Hasenfuz, J., Biologische Atombombe. Der manipulierte Mensch, em Deutsche Tagespost n. 152 (1966) 18.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;13&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;mente muito têm de utópico e até de ingênuo, o homem se encontra diante de um terrível paradoxo, como o notou muito bem o grande biólogo Dobzhansky: «É o sucesso impressionante da evolução não só biológica, mas também cultural de nossa espécie que faz espalhar perigos e talvez até os germens da aniquilação própria». (12) Impressionante é o testemunho do grande biólogo francês Jean Rostand em seu livro Inquietudes d'un biologiste: «Os três verbos: ser, procriar, morrer não têm mais o mesmo conteúdo, depois dos últimos desenvolvimentos da ciência que nos trazem muitas vantagens, mas também muitas ameaças diretas. As próprias vantagens nos criam escrúpulos terríveis: as descobertas, entusiásticas para o biólogo, são, muitas vezes, desconcertantes para os moralistas». (13)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Diante de tais experimentos se esvaziam os conceitos clássicos de moral. Parece que é impraticável uma plena coibição do experimento-humanidade. Ela está se processando irresistivelmente. Urge criar uma visão religiosa e ética no homem que o capacite a orientar para uma maior humanização o tremendo instrumentário manipulador de que dispõe. A automanipulação para uma maior libertação físico-psíquico-pessoal da espécie humana não é em si ilegítima. Antes pelo contrário, parece-nos que emerge da própria tarefa imposta por Deus ao homem de subjugar e dominar a natureza. O homem, imagem e semelhança de Deus, foi criado para poder, na liberdade, cujas dimensões hoje atingem até o mundo genético, criar-se a si mesmo, primeiro diante de Deus com sua decisão e automanipulação para o bem ou para o mal, depois diante de seu próprio mundo hominizado, na fase psicossocial da evolução, e, por fim, diante dos próprios condicionamentos biológicos. Em seu persuasivo livro Come, Let Us Play God (Vamos, brinquemos de Deus, 1969) (14) o biofisico Leroy Augenstein afirma que talvez agora, pela primeira vez, o homem de fato pode&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;12 Overhage, P., op. cit., 34.&lt;br /&gt;13 Appolonio, U., O homem no ano 2000, Vozes, Petrópolis 1971, 25.&lt;br /&gt;14 Time, abril 19. 1971, 38.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;14&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;assumir o papel a ele confiado por Deus diante do mundo e de seu destino. Isso não significa hybris humana e rebeldia contra o Criador. Mas tomada de consciência radical daquilo que biblicamente se diz: o homem é imagem e semelhança de Deus, isto significa: ele é representante e lugar-tenente de Deus no mundo, o órgão pelo qual Deus continua a agir atuar na totalidade da criação. Essa perspectiva nos sugere a medida e o critério ético para a automanipulação biológica do homem, coisa que transcende o alcance deste trabalho.&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;&lt;br /&gt;3. O homem novo na experiência cristã&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como repercute no cristianismo a busca do homen novo? Ele faz diante disso uma afirmação inaudita: o homem novo, o homem das esperanças dos séculos, já emergiu na história, levando-a assim à sua meta. Ele se chama Jesus de Nazaré, o Cristo ressuscitado. Nele os anseios de plenitude, de potência total do ser e de reconciliação global com Deus, com os outros com o mundo se tornaram realidade concreta. O homo absconditus se revelou plenamente e saiu completamente de sua latência. Surgiu um sol que não tramonta mais. Por isso ele está em nosso meio. Os olhos fenomenais não o vêem, mas os olhos da fé o enxergam plenificando toda a realidade. Em razão disso o cristianismo se apresenta como a religião da jovialidade divina e humana. Se não se apresenta como a religião do Super-homem, quer ser contudo a religião do Homem-Deus. O futuro que anuncia aos homem não é um futuro manipulável biologicamente, como se a manipulação pudesse fazer o homem extrapolar de si mesmo e atingir o mistério de Deus, mas é o próprio futuro de Jesus Cristo. Ele é o primeiro dos homens, que atingiu a meta, como total transfiguração da existência humana, liberta da morte, das limitações e&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;15&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;estreitezas de nosso-ser-no-mundo. A utopia de imortalidade e de novidade de vida se traduziu em topia e realidade no seio do mundo. Por isso, por mais que um cristão participe da admiração pelas conquistas biológicas e possa alegrar-se pelos possíveis resultados humanizadores alcançáveis por elas, jamais confunde isso com aquilo que Deus nos prometeu com a ressurreição de Jesus, o novo Adão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com isso não se quer insinuar que o processo de evolução ascendente seja teologicamente irrelevante. Ele representa de alguma forma, germinalmente, a plenitude final, que já vai se manifestando ambiguamente e fermentando dentro do tempo. A ciência, a técnica e a manipulação biológica visando a criação de um homem melhor podem assumir até uma missão profética: fazer esse mundo mais semelhante com aquele no final do processo evolutivo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se a visão cristã do futuro do homem é assim otimista, não é menos concreta. Ela deixa aberta a possibilidade de que o homem com sua manipulação venha a cometer um erro irreversível. Assim como espiritualmente ele pôde se manipular de forma desastrosa para o ulterior desenrolar da história (pelo assim chamado pecado original), semelhantemente pode ele inaugurar um processo desumanizador e involutivo que reduza porções da humanidade a um estado de rebanho adaptado à arbitrariedade da ideologia e das forças reinantes. (15) Por isso impõe-se sempre uma reserva crítica e desconfiança em relação aos prognósticos sobre o futuro do homem novo. O cristão sabe que a capacidade do mal no homem não se reduz a uma questão de fígado ou de manipulação do genes. Ela se enraíza na própria estrutura espiritual do homem, pervadindo todas as dimensões de seu ser. E não está no poder do homem saltar sobre sua própria sombra. Mas é «muito consolador poder observar que os representantes da pesquisa científico-natural séria&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;15 Cf. Rahner, K., Experiment Mensch, em Schriften zur Theologie VIII, Einsiedeln 1967, 260-285, esp. 281-284; Id, Zum Problem der genetischen Manipulation, op. cit., 286-321.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;16&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;se restringem em geral a prognósticos a curto prazo, e os formulam com muita prudência... Propostas eugenéticas que se referem ao futuro distante do homem se encontram fora do campo da ciência».(16) Ademais o cristão por sua fé e esperança sabe que mesmo para o homem desastrosamente manipulado há um caminho pelo qual atinge seu futuro absoluto, prometido por Deus: a morte. A morte não significa somente o termo de um processo biológico, como o veremos pormenorizadamente mais adiante. Mas principalmente significa um acabar de nascer e o modo pelo qual o homem atinge a sua total plenitude através de uma derradeira decisão. A história, para o cristão, por mais manipulada que venha tornar-se a ponto de o homem mesmo absurdamente poder pôr termo a ela, irá irreversivelmente desembocar em Deus, seja para a salvação ou seja para a total perdição. Olhando para o Cristo ressuscitado o cristão contudo confessa-se um profeta do sentido e um inimigo figadal de todo o absurdo. A história pode ser profundamente transformada e o homem degenerar para um suicídio coletivo, mas em Jesus ela atingiu sua meta e realizou já seu ponto Ômega. Esse dado faz com que ele possa esperar contra toda a esperança.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O mito grego da esperança ganha agora um sentido certo: não será uma deusa enganadora dos homens mas a verdadeira posse do almejado. Segundo o mito dizia-se que Zeus, querendo confundir os homens, enviou-lhes a deusa Pandora. Ela trazia uma caixa cheia de presentes. Curiosa, Pandora abre a caixa. E lá se foram todos os presentes, tragados como por encanto. Aos homens restou apenas a esperança de que um dia eles voltassem. E os sábios gregos se perguntavam: é a esperança boa ou má? Uns diziam: é boa porque é a única deusa que permaneceu entre os homens, ao passo que todas as demais divindades se refugiaram no Olimpo. É ela que nos faz sonhar com mundos maravilhosos e nos enche de sentido os&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;(16) overhage. P., Experimento-Humanidade, op. cit, 56.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;17&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;dias de angústia. Outros retrucavam: a esperança é tão enganadora como Pandora. Ilude a vida com suas fantasias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para o cristianismo, por causa do irromper do homem novo em Jesus Cristo, a esperança tornou-se seu apanágio e sua mensagem. O homem não permanece como um eterno Prometeu. O coração anseia porque entrevê a utopia como uma possível realidade no horizonte de Deus. E ela se realizou em Jesus de Nazaré. Em função disso podia Dostoievski, ao regressar da casa dos mortos da Sibéria, confiante e esperançoso, formular seu credo: «creio que não existe nada de mais belo, de mais profundo, de mais simpático, de mais viril e de mais perfeito do que o Cristo. E eu o digo a mim mesmo, com um amor cioso, que não existe e não pode existir. Mais do que isto: se alguém me provar que o Cristo está fora da verdade e que esta não se acha nele, prefiro ficar com o Cristo a ficar com a verdade». (17)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Legitimar a emergência do homem novo e definitivo para a nossa esperança não é hoje uma tarefa fácil. Nem mesmo para os próprios cristãos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por isso nosso trabalho, num primeiro momento, irá referir e discutir a atual problemática em torno da ressurreição de Jesus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em seguida, procederemos a uma análise sucinta mas essencial dos textos que testemunham as aparições do Senhor ressuscitado e do sepulcro vazio. Veremos as dimensões antropológicas que tal evento introduziu dentro das coordenadas de nossa compreensão da existência humana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por fim nos perguntaremos pelo nosso próprio futuro. À semelhança de Cristo estamos destinados à ressurreição quando tivermos, na morte, atingido a meta de nossa existência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;17 Correspondence I, Calmann-Levy, Paris 1961, 157.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;18&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;II -- A Emergência do Homem Novo, Jesus Ressuscitado, no Crivo da Teologia Crítica&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DESDE o tempo dos apóstolos até os dias de hoje a fé na Ressurreição é questionada. A certeza que a Igreja possui é uma certeza de fé. Uma constante se nota nos relatos acerca da Ressurreição: o sepulcro vazio e as aparições não são de natureza tal que excluam a dúvida.(1) No final de seu evangelho Mateus deixa pairar no ar a frasezinha: «alguns porém duvidaram» (28,17b). Contudo, com a resposta que se dá à fé na Ressurreição resolve-se também a pergunta pelo ser ou não ser do Cristianismo. Se a Ressurreição não se verificou somos «falsas testemunhas de Deus», «vã é a nossa fé» e «somos os mais miseráveis de todos os homens» (lCor 15,14-19). Porque em vez de nos filiarmos ao grupo dos que dizem «comamos e bebamos porque amanhã morreremos» (1Cor 15,32) fugimos da realidade num mito de sobrevivência e ressurreição e iludimos outros com tais idéias. Nos últimos anos desencadeou-se uma grande discussão tanto na teologia protestante quanto na católica acerca do significado da profissão de fé «Deus o ressuscitou (Jesus) dos mortos» (At 3,15; 4,10). Assumiram-se posições radicais, provocando fortes reações dentro das comunidades.(2) A Comissão Romana dos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;1 Cf. Seidensticker, P., Die Auferstehung Jesus in der Botschaft der Evangelisten (Stuttgarter Bibelstudien 26), Stuttgart 2 1968, 91.&lt;br /&gt;2 Vejam-se as informações em Dietzfelbinger, W., Movimentos de restauração na Igreja protestante alemã, em Concilium 51 (1970) 89-97.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;19&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Congressos sobre a Teologia do Vaticano II organizou um simpósio internacional sobre esse tema, realizado em Roma de 31 de março a 6 de abril de 1970.(3) Um ponto deve ser salvaguardado, mesmo entre os mais radicais, e que foi esquecido no calor das disputas: não se trata de estabelecer se Cristo ressuscitou ou não. Ninguém dos implicados no debate duvida da fé na presença do Senhor vivo no meio de nós. Todos recitam o mesmo credo. A pergunta que se coloca é: O que significa para nós hoje a afirmação da fé antiga: «Cristo ressuscitou verdadeiramente e apareceu a Simão» (Lc 24,34)? Como se deverá interpretar semelhante frase para que tenhamos o mesmo impacto e retenhamos o mesmo conteúdo que a Igreja primitiva? É nesse horizonte que se situam os debates e que se coloca também nossa exposição. Referiremos o estado da questão no seio das teologias protestante(4) e católica.(5) Tomaremos uma posição crítica frente a cada uma das posições. No final ensaiaremos deslindar uma reflexão de ordem sistemática, onde se realçará particularmente o significado da Ressurreição para o nosso hoje e agora da fé.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;3 Cf, L'Osservatore Romano de 2,4,8,9,12 de abril de 1970. Veja-se um resumo das principais conferências em Rosa, G., Il cristiano di oggi dí fronte alia risurrezione di Cristo, em La Civiltà Cattolica 121 (1970) 365-377.&lt;br /&gt;4 Da parte protestante fizeram um estudo de visão de conjunto Geyer, H. G., Die Auferstehung Jesu Christi. Ein Überblick üter die Diskussion in der gegenwätigen Theologie, em Me Bedeutung der Auferstehungsbotschaft jür den Glauben an Jesus Christus por W. Marxsen, U. Wilkens, G. Delling e H G Geyer. GütersIoh 7 1968, 91-117; Diskussion um Kreuz und Auferstehung. Zur gegenwärtigen n Auseinandersetzung in Theologie und Gemeinde, publicado Por e. Klappert. WuPDertal 11968, onde estão reunidos os melhores estudos protestantes desde Bultmann, Barth, Bornkamm, von Campenhausen, Pannenberg e outros, esp. 9-52, 298-300.&lt;br /&gt;5 Da parte católica destacam-se Ebert, H., Pie Krise des Osterglaubens. Zur Diskussion über die Auferstehung Jesu, em HochIand 60 (1968) 305-331, - relatório anônimo em Herderkorrespondez 22 (1968) 322-328 e Léon-Dufour X no Bulletín d'exégèse du N.T. em Recherches de Sciences Religieuses 57 (1969) 583-622. Da imensa bibliografia que existe sobre o tema ressaltamos epenas alguns títulos mais significativos: Grass, H., Ostergeschehen und Osterberichte, Göttingen 2 1962; Kremer, J., Pie Osterbotschaft der vier Evangelien, Stuttgart 1968: Id., Das älteste Zeugnis von der Auferstehung Christi, Stuttgart 2 1967; Vários (Grelot, Delorme, Léon-Dufour) La Résurrection du Christ et l'exégèse moderne, Cerf, Paris 1969; Benoit, P., Passion Résurrection du Seigneur (Lire Ia Bible 6), Cerf, Paris 1966; Mussner, Auferstehung Jesu, München 1969; Lehmann, K., Auferweckt am dritten nach der Schrift, Freiburg-Basel-Wien 1968; Ponthot, J., Les traditions evangéliques sur Ia Résurrection du Christ. Perspectives théologiques et problèmes d'historicité, em Lumen Vitae 20 (1965) 649-673 e 21 (1966) 99-118; G., La Résurrection signe du monde nouveau, Cerf, Paris 1970; y mundo (vários autores) em Teologia y Vida 11 (1970) 75-99; Léon-Dufour, X., Présence de Jésus ressuscité em Études, abril 1970. 593-614; Schilier, H., Über die Auferstehung Jesu Christi, Einsiedeln 1968, todo o número 60 (1970) da revista Concilium e outros tantos estudos que serão citados oportunamente.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;20&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;I. INTERPRETAÇÕES DA FÉ NA RESSURREIÇÃO NA TEOLOGIA PROTESTANTE&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entre as várias posições dentro da teologia protestante como a de K. Barth, G. Ebling, H. Braun e U. Wilckens queremos relevar especialmente três: a de R. Bultmann, de W. Marxsen, e a de W. Pannenberg.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;1. R. BuItmann: Ressurreição não é um fato histórico mas expressão do significado da cruz&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os Apóstolos viram na cruz de Cristo não a morte de um amaldiçoado (Dt 21,23; cf. Gál 3,13), mas perceberam nesse fato histórico um significado transcendente e salvífico: «o juízo libertador de Deus sobre o mundo, o juízo de Deus que vence a morte».(6) Esse significado não é visto no fato bruto da cruz. Por isso ele não é histórico, no sentido de poder ser detectado pelo historiador ao analisar o fato com seu método histórico-crítico. Mas ele pode ser crido. Ora «dizer Ressurreição é exprimir o significado da cruz».(7) Falar em Ressurreição não é dizer que aconteceu historicamente algo em Jesus. Mas é dizer que aconteceu historicamente algo nos Apóstolos: a fé de que a morte de Cristo é vida para o homem.(8) Fé na Ressurreicão é a forma como se exprime a fé no significado salvífico da morte de Cristo. Nesse sentido a Ressurreição não é um fato histórico que qualquer um pode verificar. O que o historiador pode averiguar é que houve homens que creram e pregaram a Ressurreição. Só na fé a Ressurreição é um fato. A fé cristã, como fé, não se interessa pela reconstrução histórica de como surgiu a fé na Ressurreição. A ela interessa o significado existencial da morte de Cristo, como&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;6 Neues Testament und Mythologie, em Kerygma und Mythos 1, 4 1960, 44; veja urna valoração crítica por parte da exegese católica em Kremer, J., Das älteste Zeugnis von der Auferstehung Christi, op. cit., 98-114.&lt;br /&gt;7 ld. ibid.&lt;br /&gt;8 ld. ibid.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;21&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;salvação para nós.(9) E isso ela o sabe pela palavra da pregação. «Fé nessa palavra é, na verdade, fé na Ressurreição».(10) A palavra pertence também ao fato escatológico e conseqüentemente possui um caráter salvífico. Por isso pode-se dizer: «na, pregação o Ressuscitado está presente».(11) Na pregação Cristo ressuscita.(12) «As lendas do sepulcro vazio» e «os relatos da Ressurreição acerca das demonstrações da corporalidade do Ressuscitado são sem dúvida construções posteriores, das quais Paulo nada sabe».(13)&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;&lt;br /&gt;Tomada de posição&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para entender a posição de BuItmann convém saber o Sitz im Leben de toda a sua teologia e do programa da desmitização por ele inaugurado. Ele se situa entre os liberais do método histórico-crítico aplicado à Bíblia no século XIX e os apologetas. Aos liberais concede que não podemos reconstruir os fatos da vida de Jesus. Nem superar as contradições existentes nos textos acerca da Ressurreição. Contudo a fé não fica com isso abalada. Ela não se baseia na ciência histórica. Frente a eles BuItmann mantém firmemente a fé cristã. Frente aos apologetas argumenta Bultmann que a Ressurreição não é um fato como qualquer outro da história, verificável por quem quiser. Só a alguns foi dado ver o Senhor. Por isso a Ressurreição não pode ser considerada como uma «prova», face aos não crentes, da verdade da fé cristã. Nesse sentido específico devemos conceder razão a Bultmann: a Ressurreição não é um fato histórico mas estórico (kein historisches Ereignis, sondern ein geschichtliches).(14) Só é atingível pela fé. Esclarecendo: se dissermos --&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;9 Id.. 47, Das Verhältnis der urchristlichen Christusbotschaft zum historischen Jesus, Heldelberg 1962, 27;&lt;br /&gt;10 Kerygma und Mythos, op. eit, 46.&lt;br /&gt;11 Theologie des Neuen Testamentes, 5 1965, 305.&lt;br /&gt;11 Theologie des Neuen Testamentes. op. cit., 305.&lt;br /&gt;12 Marxsen, W., 11 Die Auferstehung Jesu aIs historisches und alo theologisches Problem, em Die Bedeutung der Auferstehungsbotschaft, op. cit., 13.&lt;br /&gt;13 Kerygma und Mythos, op. eit, 44; Theologie des Neuen Testamentes, 48.&lt;br /&gt;14 Cf. o livro de Greshake, G., Historie wird Geschichte. Bedeutung und Sinn der Unterscheidung von Historie und Geschichte in der Theologie R. Bultmanns, Essen 1963.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;22&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;a Ressurreição não é um fato histórico -- e com isso pensarmos que nada aconteceu depois da morte de Jesus, então interpretamos mal a Bultmann. Se pensarmos que aconteceu sim, mas isso é só acessível pela fé (estórico) e escapa ao historiador (histórico), então temos compreendido sua tese fundamental. Bultmann não quer perder muito tempo em discutir a base histórica das aparições e dos relatos do sepulcro vazio, Ele quer concentrar-se no cerne essencial, que muitíssimas vezes, devido às discussões sem fim, se perde totalmente. Este é: a Ressurreição é uma mensagem de vida para a existência humana. A morte foi vencida definitivamente pela cruz e por isso entrou um grande sentido em nossa vida. Para exprimir essa novidade BuItmann utiliza categorias não objetivistas e objetivantes da filosofia clássica mas a terminologia do existencialismo heideggeriano, mais apta para exprimir situações existenciais. Para compreender essa mensagem precisamos vivê-Ia pela fé. Assim como a existência verdadeira reside no processo mesmo de viver, da mesma forma o compreender a mensagem de fé se realiza na realização mesma da fé.(15) Para isso pouco vale saber se o sepulcro vazio é uma lenda ou não ou qual é o cerne histórico das aparições do Senhor. Importante é viver a fé na Ressurreição. Seria pena se o homem de hoje, pouco afeito a milagres e à admissão de intervenções freqüentes de Deus no mundo, viesse por causa disso a não aceitar essa chance oferecida por Deus de vida nova e cheia de esperança salvadora.(16) Contudo devemos, à luz de lCor 15,38, o mais antigo testemunho escrito da Ressurreição (entre 54 e 57), perguntar a Bultmann se a ligação da Ressurreição com a história é assim tão irrelevante como ele pensa. A Ressurreição não é um mito do qual se poderia dizer que «nunca aconteceu e contudo é». Embora não seja um fato his-&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;15) BuItmann, R., Moderne Bibelauslegung und Existenzphilosophie, em Jesus Christus und die Mythologie, Hamburgo 3 1967, 50-68; veja-se também Hasenhüttl, Der Glaubensvollzug. Eine Begegnung mit R. Bultmann aus katholischem Glaubensverständnis, Essen 1963.&lt;br /&gt;11 Bultmann, R., Die christliche Botschaft und die moderne Weltanschauung, em Jesus Christus und die Mythologie, op. cit., 37-49.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;23&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;tórico comum, está ligada à história de Jesus. Aquele que morreu e foi sepultado é que agora ressuscitou (cf. lCor 15,3-4; At 2,23-24), como atestam várias testemunhas, «das quais muitos ainda vivem, e alguns morreram» (1Cor 15,6). Isso não é uma prova da Ressurreição mas um argumento em favor da credibilidade da pregação apostólica acerca da Ressurreição. Nesse sentido as aparições e os relatos sobre o sepulcro vazio ganham relevância teológica: não visam constituir uma demonstração para o que não crê, mas um convite, fundamentado e cheio de razoabilidade para a fé. Bultmann quer destruir todas as bases e esteios racionais da fé, para purificá-la e fazê-la cada vez mais ela mesma. Isso é um postulado de seu sistema teológico, radicalização do princípio luterano da sola-fides, sem fundamento bíblico.(17) Semelhante fideísmo está a um passo do ateísmo dogmático. Como se há de distinguir fé de ideologia? Como se há de legitimar (não se trata de provar nem de demonstrar) nossa esperança a quem nos pede as razões dela (1Pdr 3,15) ?&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;&lt;br /&gt;2. W. Marxsen: A Ressurreição não é um fato histórico mas uma interpretação das aparições condicionada pelo horizonte apocalíptico&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bultmann bagatelizava o valor da pergunta pelo fato histórico. W. Marxsen, embora seja mais radical ainda que Bultmann, interessa-se por ela.(18) Sabemos, diz ele, como surgiu a convicção do fato da Ressurreição. Não se trata da constatação de um fato real, mas de uma interpretação condicionada pela cosmovisão apocalíptica da época. Pertencia a ela a esperança na&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;17 Cf. Scheid, E., Das Heilsgeschehen, Tod und Auferstehung im Lichte Entmythologisierung BuItmanns, Rom 1954, 41ss.&lt;br /&gt;18 Marxsen é professor de teologia bíblica e exegese do NT na faculdade protestante de Münster. Seu escrito principal acerca do tema é Auferstehung Jesu aIs historisches und aIs theologisches Problem, em Die Bedeutung der Auferstehungsbotschaft für den Glauben an Jesus Christus, op. 9-40 ou ainda por Gerd Mohn, Gütersloh 1967; ver ainda Das NT Buch der Kirche, GütersIoh 1966, 96-100.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;24&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ressurreição dos mortos. As aparições reais que os Apóstolos tiveram (essas possuem caráter histórico e agiram como um impacto -- Widerfahrnis -- sobre os Apóstolos) foram interpretadas dentro das categorias de ressurreição. Para o historiador nada se disse ainda sobre se a Ressurreição aconteceu ou não. (19) Ele constata historicamente que alguns assim interpretaram as aparições que tiveram. Essa interpretacão -- Jesus ressuscitou -- não é obrigatória para nós hoje. Porque não somos obrigados a assumir a cosmovisão, da época, passada e mítica. O próprio NT mostra como há uma outra possibilidade de interpretar as aparições, não como Ressurreição de Jesus, mas como missão de viver e de pregar a causa de Cristo adiante.(20) Paulo em lCor 9,1 fundamenta seu apostolado no fato de ter visto o Senhor. Portanto as aparições que de fato aconteceram após a morte de Jesus levaram os Apóstolos a refletir em duas direcões: uma funcional, voltada para o futuro: a missão. «A causa de Jesus vai adiante» (21), pela pregação «Jesus nos atinge hoje». (22) Outra voltada para o passado, pessoal: Jesus ressuscitou dos mortos. Essa afirmação está condicionada pela antropologia judaica, segundo a qual não há vida humana sem corpo. Por isso a insistência maciça de alguns textos em Lucas e João em afirmar a corporalidade do Ressuscitado. Se um grego tivesse refletido sobre as aparições do Senhor, ele diria, consoante sua antropologia, para a qual o corpo é um cárcere e um mal: «Jesus deixou realmente seu corpo». Ele teria afirmado a vida de Cristo sem precisar de falar em Ressurreição do corpo. (23) Isso não é um fato mas uma interpretação que deve hoje ser traduzida em nossa fé. Ressurreição é um modo de falar e não algo que aconteceu. O conteúdo de verdade desta expressão, que deve ser man-&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;19 Id., 19. ld,&lt;br /&gt;20 Id., 20.&lt;br /&gt;21 Id., 30: "Die Sache Jesu geht weiter"; cf. Schubert, K, em Kairos 11 (1969) 145-149.&lt;br /&gt;22 ld. ibid.&lt;br /&gt;23 ld., 33.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;25&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;tido por nós, reside nisso: pela Igreja e pelo Evangelho a causa de Cristo segue adiante e nos atinge a nós como atingiu outrora os discípulos de Cristo. «Se isso me atinge então eu sei: Ele vive. Exprimindo-o numa terminologia mais antiga (sabendo dos limites e condicionamentos daquela terminologia) posso eu hoje professar: Ele vive, Ele não permaneceu na morte. Ele ressuscitou».(24)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Tomada de posição&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Essa interpretação de Marxsen tem muito de sedutor e desencadeou uma discussão sem precedentes. Sua preocupação é pastoral: a fé na Ressurreição, diz ele, deve ser uma fé que compreende o que professa; deve falar à existência concreta e deixar de ser uma informação neutra.(25) Marxsen viu claramente onde reside o problema: nas aparições que agiram como um impacto sobre os apóstolos. Ninguém viu a Ressurreição. Existem testemunhas que afirmam a Ressurreição por causa de vivências que tiveram (aparições) após a morte de Jesus. É legítima a interpretação destas vivências como: Jesus ressuscitou? Ou é algo que se legitima só dentro das categorias apocalípticas do tempo dos apóstolos, de sorte que nós hoje deveríamos traduzir essa mensagem para outras coordenadas de compreensão? Para responder a isso devemos ponderar dois elementos. Primeiro: o conceito que o NT tem de Ressurreição não corresponde exatamente ao das esperanças apocalípticas de Ressurreição do judaísmo tardio.(26) Os saduceus negavam-na; os fariseus criam antes numa revivificação, isto é, numa volta às condições de vida deste velho éon. Em Mc 12,23 Cristo mesmo corrige semelhantes represen-&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;&lt;br /&gt;24 Id, 39.&lt;br /&gt;25 ld, 11.38.&lt;br /&gt;26 Cf. Grelot, P., La résurrection de Jésus et son arrière-plan biblique et juif, em La Résurrection du Christ et l'exégèse moderne, op. cit, 17-54, esp. 39ss; Schubert, K, Die Entwicklung der Auferstehungslehre von der nachexilischen bis zur frührabbinischen Zeit, em Biblische Zeitschrift (1962) 177-214; Id, Interpretament Auferstchung, em Wort und Wahrheit (1968) 78-80.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;26&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;tações. Ressurreição para o NT é a passagem do mundo presente ao mundo futuro, da história à metahistória, transfiguração e atualização radical e total das possibilidades do mundo presente. Numa palavra: Ressurreição é a realização do Reino de Deus para a condição humana. Ressurreição de Cristo não é a volta de um cadáver à vida biológica, mas a transfiguração de um estraçalhado na cruz. Mais: um amaldiçoado por Deus (Dt 21,23; Gá1 3,13) é «elevado», feito «sentar-se à direita de Deus» e «entronizado como Filho de Deus em poder» (cf. Rom 1,4; At 13, 33). Os apóstolos foram surpreendidos e dominados por tal impacto que estava fora de suas possibilidades de representação. Sem isso jamais teriam pregado o Crucificado como sendo o Senhor. Sem «essa alguma coisa» que aconteceu em Jesus não se explica o fato de a Ressurreição de Jesus sempre vir ligada, na pregação, com a morte e o sepultamento. Bem dizia Dahl, referindo-se a Bultmann, o que vale muito mais para Marxsen: «Os acontecimentos da páscoa não foram previstos pelos discípulos. Foram fatos que se realizaram, antes algo que deve ser interpretado (interpretandum) que uma interpretação do significado de Jesus e de sua morte». (27) E aqui abordamos um segundo elemento em que se deve refletir: precisavam os apóstolos fazer uma interpretação para este fato ser decifrado? As aparições narradas no NT não são algo de totalmente indeterminado e de vago que exigisse reflexão e interpretação para serem decifradas. Antes pelo contrário. Usa-se o termo que é considerado por bons exegetas como técnico na temática de revelação: óphte (aoristo medial ou passivo de oráo) significando: «ele deixou-se ver, ele apareceu». (28) Com isso se acentua a iniciativa vinda de fora e que agiu como um impacto sobre os apóstolos. Os apóstolos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;27 DahI, N. D., Eschatologie und Geschichte im Lichte der Qumrantexte, em Zeit und Geschichte, Tübingen 1964, 14; Kremer, J, Das älteste Zeugnis, op. cit., 128.&lt;br /&gt;28 Cf. Michaelis, W., em ThWNT V,315ss esp. 359; Grass, H., Ostergeschehen und Osterberichte, op. cit., 186-232 esp. 186-189. Cf. o próprio Marxsen, W., Die Auferstehung Jesu, op. cit., 20.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;27&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;tiveram encontros com o Senhor vivendo agora sob outra forma. O encontro pessoal é muito mais rico que um simples ver (óphte) : é comunhão de pessoas, um estar-aí frente a frente em mútua presença, é um diálogo de tu-a-tu, dentro do «esprit de finesse» da recíproca imediatez e não do «esprit de géométrie», que pede provas e averiguações científicas. Todo encontro humano rompe os esquemas pré-fabricados. Situa-se num outro painel de referências, onde vale a comunicação pessoal, a amizade, o amor, a gentileza e recíproca abertura numa simbiose de dar e receber. Isto fez os apóstolos afirmarem: «Jesus ressuscitou verdadeiramente» (Lc 24,34) e não tanto as representações e esperanças de uma ressurreição dos mortos, implicadas no horizonte apocaliptico em que se moviam.(29) Se quisermos admitir que a Ressurreição seja uma interpretação, então só com condição de dizermos: é uma metáfora que de fato e de forma adequada exprime o encontro pessoal dos apóstolos com Jesus vivo. Não é pois uma expressão que pode ser sem mais mudada por outra, como «a causa de Jesus é levada adiante» ou «Ele hoje nos vem ainda ao encontro». Os textos do NT deixam claro que pela Ressurreição aconteceu algo em Jesus e que isso provocou a fé nos apóstolos e não vice-versa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;3. W. Pannenberg: A Ressurreição é realmente uma interpretação das aparições, porém insubstituível, atingindo o fato histórico&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;R. Bultmann se desinteressava pelo fato histórico da Ressurreição. W. Marxsen vê interesse nele como uma interpretação condicionada pela atmosfera cultural da época mas se desinteressa pelo seu valor permanente, porque pode ser intercambiada por outra interpretacão. W. Pannenberg, professor de Teologia sistemá-&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;19 Nisso insistiu fortemente Schubert no Simpósio Internacional em Roma: cf. Rosa, G., Il cristiano di oggi di fronte ala risurrezione di Cristo, em Civiltà Cattolica 121 (1970) 369.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;28&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;tica protestante em Munique e chefe de um grupo de teólogos que se afastaram da problemática buItmaniana e propugnam por uma concepção da revelação como história, interessa-se exatamente pela interpretação das aparições como fator insubstituível também para nós hoje, atingindo o fato histórico-Ressurreição de Jesus.(30) Após a crucificação os Apóstolos foram surpreendidos por Jesus, ressuscitado dentre os mortos, comunicando-se com eles através de aparições. Para exprimir essa nova realidade, sem analogias dentro da história (a Ressurreição de Jesus é outra coisa que a revivificação do jovem de Naim (Lc 7,11-17), da filha de Jairo (Mc 5,35-43 par) ou de Lázaro (Jo 11) (31), os Apóstolos lançaram mão das metáforas do mundo apocalíptico. Uma delas era a da Ressurreição dos mortos, como um acordar do sono e um levantar-se. Semelhantemente acontecerá no final do mundo. Evidentemente a linguagem é simbólica: a realidade pensada e seu modo são toto caelo diversos. Os homens do velho mundo não podem fazer representações adequadas de como serão os homens no mundo novo. O NT assumiu a metáfora Ressurreição mas pensa bem outra coisa que uma simples revivificação de um cadáver, no sentido de um levantar-se e de um andar por aqui e por ali de um morto. Ressurreição é nova vida (cf. lCor 15,35-56): uma transformação radical da existência corporal para uma existência pneumática, totalmente determinada e repleta por Deus (lCor 15,38-42.50-53). Ao usarem a metáfora quiseram exprimir tal realidade absolutamente nova: Jesus vive uma existência corporal totalmente diversa da do velho éon. Isso é visto como o romper do mundo novo: Cristo é o primeiro entre muitos irmãos (Rom 8,29), as primícias dos que morreram e agora ressurgem (lCor 15,20; Col 1,18; cf. At 1,15; 3,15), aquele por quem todos somos vivificados (lCor 15,22). (32) Esse fa-&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;30 Grundzüge der Christologie, GütersIoh 3 1969, 47-112; Id., Dogmatische Erwägungen zur Auferstehung, em Kerygma und Dogma fase. 2 (1968) 105-109.&lt;br /&gt;31 Grundzüge, op. cit., 69-85.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;32 Id., 71-73.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;29&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;to só pode ser expresso na linguagem da expectativa escatológica, simbólica e insuficiente, porque tomada das categorias do velho mundo, porém insubstituível.(33) Sem ela perdemos a realidade pensada e testemunhaia pelos textos do NT. Se ela é de tal natureza que só pode ser expressa pela linguagem simbólica e anunciada por aparições então as aparições e as expressões simbólicas garantem o caráter histórico do fato-Ressurreição de Jesus. O historiador constatando as aparições atinge também o fato-Ressurreição manifestado nelas. Se as aparições possuem carãter histórico (o que não é posto em dúvida por W. Marxsen ao menos para o núcleo central) também o possui a Resrurreição. Caso contrário jamais poderíamos dizer que a Ressurreição aconteceu dentro de um determinado momento de nossa história.(34)&lt;br /&gt;Tomada de posição&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A posição de Pannenberg é familiar aos ouvidos católicos. Concede que a fé na Ressurreição é uma interpretação das aparições. Contudo uma interpretação imediata que atinge a realidade nova e a expressa de forma adequada à sua natureza (novo mundo, novo homem: 2Cor 5,17), isto é, simbolicamente. Como podemos falar senão simbolicamente do novo céu e da nova terra? Pannenberg insiste com razão na Ressurreição como fato histórico no sentido de que ela realmente se verificou dentro da história, embora o acesso seja indireto por via das aparições. Talvez Pannenherg (para evitar equívocos) se devesse exprimir como E. Dhanis o fez na relação conclusiva do Simpósio internacional em Roma sobre a problemática da Ressurreição distinguindo entre um fato diretamente histórico de outro indiretamente histórico. Aquele é atingível em si mesmo mediante os métodos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;33 Id., 95.&lt;br /&gt;34 Id., 96; cf. também Moltmann, J., Auferstehung und Jesu Christi, em Theologie der Hoffnung, München 1966, 125-209, na mesma linha que Pannenberg.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;30&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;próprios da pesquisa histórica; este, o indiretamemente histórico, só é atingível mediante a reflexão sobre fatos históricos. (35) A Ressurreição não é um fato diretamente histórico. Ninguém a viu. Contudo é um fato indiretamente histórico porque os Apóstolos, refletindo do sobre o sepulcro vazio, encontrando-se com Jesus vivo em aparições, puderam convencer-se e dizer «Deus o ressuscitou dos mortos» (At 3,15; 4,10). A Ressurreição não é uma revivificação de um cadáver mas é a entronização da realidade corporal de Jesus transfigurada na glória de Deus. Isso funda um fato de outro gênero que os fatos históricos comuns. Essa novidade de vida humana deixou contudo sinais e traços entre os homens, o sepulcro vazio, as aparições que refletidos e interpretados nos dão a certeza moral -- que é a certeza própria da história -- de que a história de Jesus não acabou na cruz mas na Ressurreição. A Ressurreição é o ponto de partida da cristologia. A partir dela os Apóstolos e os autores do NT começaram a se perguntar: Quem é esse Jesus de Nazaré que Deus ressuscitou dos mortos? E sob essa nova luz foram relendo e descodificando a história de Jesus kata sárka (segundo a carne), isto é, começaram a fazer e a escrever a cristologia. Nesse horizonte escreve também Pannenberg sua grandiosa cristologia, em grande consonância com a cristologia católica. (36)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;II. INTERPRETAÇÕES DA FÉ NA RESSURREIÇÃO NA TEOLOGIA CATÓLICA&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As discussões exegético-sistemáticas no campo protestante não deixaram de influenciar a teologia católica especialmente a exegese. No presente momento, graças à opinião de W. Marxsen, desencadeou-se também&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;&lt;br /&gt;35 Rosa, G., Il cristiano di oggi, op. cit.. 370-371.&lt;br /&gt;36 Cf. Schnackenburg, R., Christologie des Neuen Testamentes, em Mysterium Salutis III/1, EinsiedeIn-Zürich.KõIn 1970, 230-247: «A Ressurreição como ponto de partida e principio da Cristologia».&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;no lado católico uma série de reações, tomando posicão ou mesmo assumindo traços das soluções apresentadas. No que se refere à exegese, pode-se, sem exagero, dizer que os autores católicos não ficam em nada atrás de seus colegas protestantes, quer no espírito crítico, quer na utilização dos mais recentes métodos exegéticos (história morfo-crítica, das tradições, das várias redações etc.) e mesmo na ousadia e liberdade de sacarem conclusões das análises feitas. A título de sistematização dividiremos as tendências como seguem: (37)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;1. Tendência tradicional: a Ressurreição é indiferenciadamente um fato histórico&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Essa posição era assumida em toda sua linha por quase todos os manuais de teologia dogmática e de teologia fundamental. A Ressurreição era considerada a prova principal da divindade e veracidade do Cristianismo. Recentemente foi ainda proposta por E. Gutwenger. (38) Segundo esse autor a Ressurreição é um fato histórico sem mais, baseado na realidade das aparições. A convicção da Igreja primitiva, diz Gutwenger, mostra «que o Jesus redivivo se manifesta como um vivo entre vivos, de sorte que quem o via parecia ver um homem em sua vida diária».(39) De forma um pouco mais diferenciada mas fundamentalmente idêntica esta posição é defendida também por W. BuIst no recente dicionário Sacramentum Mundi.(40) A obra de F. X. DurrwelI, A Ressurreição de Jesus, ministério de salvação(41), representa da parte católica&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;37 Cf. bibliografia citada já na nota 5.&lt;br /&gt;38 Zur Geschichtlichkeit der Auferstehung Jesu, em ZKTh 88 (1966) 257-- vejam-se também as críticas movidas por Gaechter, P., Die Engelerscheinungen in den Auferstehungsberichten. Untersuchung einer Legende, em ZKTh 89 (1967) 191-202.&lt;br /&gt;39 Id. 279.&lt;br /&gt;40 Saclamentum Mundi I, Freiburg-Basel-Wien 1967, 413-416 e antes ainda no 1957, 1035-1038.&lt;br /&gt;41 Herder, S. Paulo 1970, traduzido da oitava edição francesa. Em linha semelhante parece estar a obra de J. Comblin, A Ressurreição, Herder, S. Paulo 1965; Cf. ainda artigos mais antigos como Jansens, A., De valore soteriologico resurrectionis Christi, em EThL (1932) 225-233; Grotty, N., The Redemptive Role of Christ's Resurrection, em The Thomist (1962) 54-106. Excelentes perspectivas sistemáticas oferece Klappert, B., ao livro coletivo Diskussion um Kreuz und Auferstehung: Aspekte des Auferstehungogeschehew, op. cit, 10-52.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;32&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;um Novum no sentido de apresentar uma sistematização impressionante da fé na Ressurreição em suas ligações com a redenção, com a história de Cristo, com a Igreja e seus sacramentos e com a consumação celeste. A preocupação crítica porém é, para as exigências do atual debate, muito exígua. É sintomático que a teologia de S. João ocupa o lugar principal em suas reflexões, o que mostra o caráter preferentemente teológico e menos exegético-crítico de seu trabalho. Frente a Gutwenger devemos ressaltar que Ressurreição não é o mesmo que revivificação. Por isso seu caráter histórico, como irrupção de uma realidade escatológica dentro de nossa história, não pode ser equiparado com outros fatos históricos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;2. Tendência da exegese moderna positiva: a Ressurreição é um fato de fé da Igreja primitiva&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A essa tendência filia-se aquele grupo de exegetas que com auxílio dos modernos métodos da exegese chegam a eruir a fé da Igreja primitiva, sem, tematizadamente, perguntar o que é influência do ambiente cultural, o que é histórico e o que é elaboração teológica sobre fatos históricos. O interesse se concentra nos textos tais quais temos, assegurados por séria análise crítico-literária. J. Schmitt(42) é um de seus melhores representantes. Ele constata que para os Apóstolos a Ressurreição era considerada um fato histórico como a vida e a morte de Cristo. Ressurreição é corporal, e é «mais que um fato histórico. É a 'palavra' decisiva do diálogo que Deus conduz com os homens, o argumento principal pelo qual Deus quer convencer os homens de sua fidelidade, de sua 'sabedoria' e de seu 'poder'».(43) Aos olhos dos Apósto-&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;42 Jésus ressuscité dans Ia prédication apostolique, Paris 1949; ainda o verbete Auferstehung do LThK 1, 1957 1028-1035, finalmente em Sacramentum Mundi I, 405-413.&lt;br /&gt;43 Sacramentum Mundi. op. cit, 408.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;33&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;los a Ressurreição é a resposta do Pai à submissão do Filho (cf. Mc 15,34 par), a recompensa por sua obediência até à morte (cf. Flp 2,9). Um pouco nesta linha vai o excelente livro de P. Benoit, Passion et Résurrection du Seigneur.(44) A crítica literária e histórica encontra em seu estudo um terreno privilegiado, ao lado da preocupação de deslindar o horizonte teológico típico de cada evangelista(45) que se mostra no modo como trabalham sobre o material tradicional.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A discussão como hoje é conduzida tem antes de tudo uma preocupação hermenêutica: como haveremos de entender nós hoje o que os Apóstolos entenderam outrora? Como vamos pregar e testemunhar a mesma novidade, expressa dentro de coordenadas que não são mais as nossas? Até que ponto os Apóstolos testemunham uma experiência original? Até que ponto fazem trabalho teológico, apologético, cultual? Os atuais textos têm em seu subsolo todas essas tendências. Daí que uma exegese que se concentra principalmente em eruir a fé do NT é necessária, porém insuficiente, em relação às perguntas que homens de hoje fazem.&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;&lt;br /&gt;3. Tendência da exegese hermenêutica: a Ressurreição é indiretamente um fato histórico anunciado dentro das categorias da época&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há um bom grupo de sérios exegetas católicos que não só se interessam pela fé do NT mas principalmente em ver a gênese desta fé, como deu origem a várias tradições, como foi evoluindo de elementos-cernes para elaborações cada vez mais amplas, terminando no atual estado dos textos.(46) Um elemento é unanimemente afirmado: a Ressurreição não é diretamente um fato histórico, possível de ser detectado&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;44 Do Cerf, Paris 1966 Veja-se também Sint, J, Die Auferstehung in der Verkündigung der Urgemeinde, em ZKTh 89 (1962) 129-151.&lt;br /&gt;45 id, 5.&lt;br /&gt;46 Cf. bibliografia na nota 5. Os artigos em revistas científicas são múltiplos nos vários idiomas. Segura perspectiva teológico-exegética oferece ainda M. Schmaus, Der Glaube der Kirche, München 1969, 453-486.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;34&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;pelo historiador. (47) É um fato que aconteceu em Jesus acessível pela fé baseada nos testemunhos dos que viram Jesus depois de ter sido crucificado. Sua nova vida não cai sob categorias biológicas (onde reina morte) mas pertence já à esfera divina da vida eterna. (48) Por isso o fato-Ressurreição entra na ordem do mistério que rompe as categorias do espaço e do tempo.(49) Seu anúncio só pode ser revelado (50) e se for manifesto dentro da história, e será velado por símbolos e aparições. (51) As categorias para exprimir esse novo modo de existir de Jesus são determinadas pelo ambiente da época: Ele é elevado junto a Deus, está sentado à direita de Deus, é entronizado como Filho de Deus em poder, foi feito Kyrios e Juiz universal atc.(52) É o emprego do esquema apocalíptico da humilhação-elevação do justo na interpretação do sepulcro vazio e das aparições. Os mesmos fatos foram interpretados também dentro das categorias escatológicas de Ressurreição dentre os mortos. O estado atual dos textos contém e combina ambas as interpretações.(53)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para a apologética tradicional o sepulcro vazio é um elemento importante para a credibilidade da Ressurreição. Uma compreensão mais diferenciada da realidade da Ressurreição levou exegetas católicos a afirmar seu caráter secundário. «Em nenhum dos quatro Evangelhos a descoberta do sepulcro vazio é um argumento convincente em favor da verdade do&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;47 Trilling, W, Jesus y los problemas de su historicidad, Barcelona 1970, 169; Sehnackenburg, R., Haben wir die Bibel falsch ausgelegt? em Alte Fragen Neue Antworten? Neue Fragen alte Antworten? Würzburg 1967, 119-121; Schierse, F. J., Um die Wirkliehkeit der Auferstchung Jesu, em Stimmen der Zeit 92 (1967) 221-223.&lt;br /&gt;48 Rahner, K, verbete Auferstehung no Sacramentum Mundi I, 420-425: Ratzinger, J, Einführung in das Christentum, München 1968, 249-257.&lt;br /&gt;49 Kessler, H., Fragen um die Auferstehung Jesu, em Bibel una Kirche 22 (1967) 21.&lt;br /&gt;50 Kolping, A., Auferstehung, em Handbuch theologischer Grundbegriffe 1. (publicado por H. Fries), Münehen 1962, 141.&lt;br /&gt;51 Michiels, R., Notre foi dans le Seigneur ressuscité, em Collectanea me Mechliniensia 55 (1970) 227253, esp. 242-245; Léon-Dufour, X, Apparitions e du ressuscité et herméneutique, em La Résurrection du Christ et l'exégèse moderne, op. cit., 153-173.&lt;br /&gt;52 Cf.. Brändle, M., Zum urchristlichen Verständnis der Auferstehung Jesu. Orientierung 6 (1967) 65-71.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;&lt;br /&gt;Cf. principalmente Seidensticker, P., Die Auferstehung Jêsu in der Botschaft der Evangelisten, Stuttgart 2 53 1968, 38-58; Wilckens, U., Die Überlieferungsgeschichte der Auferstehung Jesu, em Die Bedeutung der Auferstehungebotschaft, op. cit, 41-64.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;35&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;anúncio pascal. (54) Ela não causou a fé mas o medo e a fuga (Mc 16,8; Lc 24,5; Mt 27,8). (55) O tema do sepulcro vazio é tão secundário que não deve ser contado como condição para a verdadeira fé na Ressurreição. Segundo M. Brändle «o corpo da existência renovada (de Cristo) não vem do sepulcro mas do céu». (56) Ressurreição, pensa ele, não quer dizer glorificação do corpo terrestre mas autêntica nova criação de Deus. Já a biologia nos diz que de 7 em 7 anos quase todas as células de nosso corpo biológico são renovadas. Com que corpo haveremos de ressuscitar? Não conhecemos o que seja a matéria. Por isso não devemos arriscar fazer declarações dogmáticas sobre assuntos que podem ser a qualquer momento reformulados. A identidade de nosso corpo não se baseia portanto na identidade da matéria, mas na estrutura e em suas leis que regulam os processos da matéria. Essa identidade é conservada pela Ressurreição.(57) Por isso o sepulcro de Cristo não precisa estar vazio. H. Ebert, pensando na linha de Brändle e admitindo que Ressurreição não é sem mais nem menos a transformação de um cadáver depositado na sepultura, conclui: «Se assim fosse o sepulcro vazio não seria para nós hoje um milagre-sinal mas algo de estranho que mais dificulta do que ajuda a fé. Exagerando um pouco, deveríamos então crer não por causa do sepulcro vazio mas apesar dele».(58)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Contudo quer-nos parecer que essa solução se apresenta por demais minimalista. É sintomático que os quatro evangelhos relatem o fato do sepulcro vazio, e insistam na identidade do crucificado com o ressuscitado. Embora a priori pareça nada se opor ao pen-&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;54 Krem er, J., Die Osterbotschaft der Evangelien, op. cit., 136; Id, Ist Jesus wirklich von den Toten auferstanden? em Stimmen der Zeit 94 (1969) 310-320.&lt;br /&gt;55 Cf. Voegtle, A., Er ist auferstanden, er ist nicht hier, em Bibel und Leben 1966, 69-73.&lt;br /&gt;56 Musste das Grab leer sein? em Orientierung 31 (1967) 108-112, aqui 112.&lt;br /&gt;57 ld. 109.&lt;br /&gt;58 Ebert, H., Die Kríse des OstergIaubens, em HochIand 60 (1968) 305-1. 325; Broer, Das leere Grab. Ein Versuch, em Fest der Auferstchung keute (publicado por Th. Bogler) Ars Liturgica, Maria Laach 1968, 42-51 esp. 48; Schenke, L., Auferstehungsverkündigung und leeres Grab. Eine traditionsgeschichtliche Untersuchung von Mk 16,1-8, Stuttgart 1968, 33ss.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;samento de que o corpo glorificado seja outro que o corpo carnal, contudo existem razões suficientes para afirmarmos tal identidade. Primeiro, porque os próprios testemunhos apostólicos o fazem. Segundo, como se haveria de pregar de forma responsável a ressurreição de Jesus dentre os mortos se os habitantes de Jerusalém pudessem constantemente apontar para o cadáver de Jesus? Ademais há uma razão interna de ordem teológica. O corpo de Jesus, embora sárquico (fraco e limitado), não vinha inserido e maculado pelo pecado como vem estigmatizado nosso próprio corpo. Ele exprimia de forma humana e comunicadora a divindade. Nosso corpo é rebelde e não exprime adequadamente nossa interioridade. Em Jesus ele chegava à sintonia de quem superou já todas as alienações. Não era somente o órgão de Deus no mundo. Era Deus mesmo corporalmente presente. Por isso, se já em vida ele exprimia a comunhão e a interioridade divina e humana, quanto mais agora pela ressurreição não fora tal capacidade potencializada ao máximo? Desde o primeiro momento Ele fora carne nova que ia crescendo em idade e graça até lograr a plenitude pela ressurreição. Por aí, parece-nos podermos afirmar, com boas razões teológicas, a identidade pessoal do corpo de Jesus sárquico com o pneumático. Contudo como sempre insistimos e já o fazia Tomás de Aquino: «Ressuscitando, Cristo não retornou à vida comumente conhecida pelos homens. Mas assumiu a vida imortal e conforme com Deus» (Sum. Theol. III, q. 75, a. 2).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Contudo o fato decisivo para a fé na Ressurreição é constituído pelas aparições, interpretadas, como vimos há pouco, dentro de duas categorias de pensar que estavam à disposição dos discípulos: a apocalíptica e a escatológica. A exegese católica, como em J. Kremer, H. Ebert, Ph. Seidensticker, A. George, A. Kehl e outros(59), estudou bem a evolução por que pas-&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;59 Cf. George, A., Les récits d'apparitions aux Onze à partir de Luc 24, 36-53, em La Résurrection du Christ et l'exégèse moderne, op. cit, 55-74; Kehl M., Eucharistie und Auferstehung. Zur Deutung der Ostererscheinungen beim Mahl, em Geist und Leben 43 (1970) 90-125 esp, 113-125.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;37&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;saram as representações: desde as espiritualizantes em Paulo e Mateus, com concretizações crescentes por motivos apologéticos em Lucas e João, até as maciças representações da Ressurreição de Jesus nos apócrifos, especialmente no evangelho apócrifo de S. Pedro, na Epistula Apostolorum e no fragmento 7 do evangelho aos hebreus.(60) Caso à parte dentro da teologia católica ocupa o discípulo de M. Schmaus o teólogo e filósofo leigo H. R. Schlette.(61)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;4. H. R. SchIette: a Ressurreição é uma interpretação retroativa sobre a vida de Jesus&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Pano de fundo da interpretação de Schlette é seu conceito de epifania como história. Típico da teologia do AT é não a narração histórico-factual mas a detectação do sentido latente dentro dos fatos. Ver a mão de Deus no coração da história é detectar Sua epifania no mundo. Com a história de Jesus os apóstolos fizeram o mesmo processo. A vida de Jesus foi a máxima epifania de Deus: pregou o amor universal, entendeu-se como serviço para os outros e foi fiel à sua mensagem em nome de Deus, até à morte. Após sua morte os discípulos se reúnem, falam e se lembram dele, comentam suas palavras. «Parecia-lhes a eles impossível pensar que esse Jesus estivesse morto e relegado ao passado como Abraão, Davi e Jeremias; quando falam dele, se reúnem, comem e bebem juntos, assim crêem eles, ele está com eles. Javé, que o enviou, deixa-o agora vivo no meio deles».(62) Pode bem ser -- o que é difícil de constatar historicamente -- que nessa atmosfera se deram sinais e fenômenos, interpretados como a mão de Deus, assegurando entre eles a verdade: «Jesus e sua mensagem não se acabaram».(63) Essa reflexão interpretativa e retrospectiva sobre a&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;&lt;br /&gt;60 Cf os textos recolhidos e publicados por Seidensticker. P., Zeitgenoessische Texte zur Osterbotschaft der Evangelien, Stuttgart 1967, 55-65.&lt;br /&gt;61 Epiphanie ata Geschichte, München 1966, 66-83.&lt;br /&gt;62 Id 70-71.&lt;br /&gt;63 Id., 71.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;38&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;vida passada de Jesus, decifrando ali a máxima revelação epifânica de Deus, levou os apóstolos à afirmação: Ele ressuscitou verdadeiramente. Essa interpretação é legítima, pondera Schlette, para aquele que em sua fé consegue ver a epifania de Deus na história de Jesus. Ele não pode mais que afirmar: De fato ele vive, (64)&lt;br /&gt;Tomada de posição&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Essa interpretação de Schlette, marcadamente influenciada por W. Marxsen, recebeu forte contestação no campo católico. (65) Sua elaboração não se confronta com os textos do NT que constituem as únicas fontes e pontos de partida para qualquer reflexão acerca da fé pascal. Não cai Schlette na psicologização da escola de Tübingen com Strauss à sua frente? Ele aplica um esquema desenvolvido em confronto com a teologia do AT para um fenômeno novo e sem paralelos na história. Com isso ele força situações e não corresponde à falta de qualquer patos e à despreocupação descritiva das fórmulas mais primitivas acerca da Ressurreição em lCor 15,3-5 e At 25.&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;&lt;br /&gt;III. CONCLUSÃO&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A sumária exposição das principais tendências acerca da fé na Ressurreição deixa entrever que a frase Jesus ressuscitou não é simples. Não se trata num primeiro momento de negar ou afirmar a Ressurreição. Trata-se antes de tudo de saber o que se entende por Ressurreição, como as fontes neotestamentárias a interpretam e como a tradição refletiu sobre esses dados. Não é sinal de ortodoxia repetir velhas fórmulas sem o esforço de auscultar o presente e as per-&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;64 Id., 74-75.&lt;br /&gt;65 Apreciaram a concepção de Schlette: Ratzinger, J., em ThR 63 (1967) 34-36; Voegtle, A., Epiphanie ais Geschichte, em Oberheinisches Pastoralblat jan. 1967, 9-14; Schubert, K., Interpretament Auferstehung, em Wort und Wahrheit 1968, 78-80; apoiou decididamente a Schlette: Brändle, M., Musste das Grab leer sein? op. cit., 108-109.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;39&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;guntas que este coloca. Há heresias que se fazem no zelo em manter a tradição intocável. A verdade cristã só permanece viva e não uma coisa museal se for traduzida nas várias linguagens de nosso tempo. Só assim, diz-nos a Gaudium et Spes (n. 44), «a verdade revelada pode ser percebida sempre mais profundamente, melhor entendida e proposta de modo mais adequado». É nesse sentido que tentaremos encaminhar algumas reflexões de ordem sistemática acerca da verdade central de nossa fé. Antes porém, a título de orientação, convém referir, sumariamente, o atual estado da exegese sobre os textos que falam da Ressurreição.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;40&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;nota:&lt;br /&gt;(*) Genézio Darci Boff, catarinense de 56 anos, está afastado da Igreja. Seus livros, contrários aos dogmas da Igreja Católica por tratarem de temas polêmicos, lhe renderam o afastamento da Igreja Católica. O ex-frei Leonardo Boff pediu seu próprio desligamento da Ordem dos Franciscanos. Não foi punido e jamais deixou de viver de acordo com sua ideologia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Boff é contrário à hegemonia da Igreja Católica Apostólica Romana e aposta na teoria do multicatolicismo, como a quebra da "hierarquia da Igreja" e a libertação dos povos. Para o polêmico frei Leonardo Boff, a Igreja não exerce o verdadeiro sentido intimista do cristianismo, por não permitir a reformulação de seus conceitos a partir de experiências populares. Isso seria evidenciado pela abertura às religiões africanas e indígenas, muito discriminadas no atual contexto. A sociedade entende que a umbanda esteja ligada à feitiçaria e seja semelhante à macumba e que igrejas "tribais", como Santo Daime, utilizam práticas não-ortodoxas, como cantilenas indígenas e ingestão de alucinógenos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O principal ponto de choque entre Boff e a Igreja se resume no celibato clerical. Em várias entrevistas à imprensa nacional, Leonardo Boff admitiu ter sido fiel à castidade. Atualmente casado, Boff se dedica à pregação ecológica. Um de seus livros, o "Ecologia: Grito da Terra, Grito dos Pobres", tenta unir a religião com o ambientalismo, defende dogmas do budismo e ataca os papas que "teriam contribuído" com um genocídio dos índios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Polêmico, sensato e ao mesmo tempo agressivo, Boff participa da Conferência Continental das Américas, onde está sendo colocada em discussão a Carta da Terra. O evento acontece em Cuiabá e reúne ambientalistas, ecologistas e jornalistas de vários países da América do Sul. Entenda o posicionamento de Leonardo Boff diante da religião e da preservação ambiental.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;&lt;br /&gt;A Carta da Terra pode ser melhor compreendida no site http://www.cartadaterra.org.br&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8234801168287087039-5679327462010553737?l=despejadodogeocities.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://despejadodogeocities.blogspot.com/feeds/5679327462010553737/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://despejadodogeocities.blogspot.com/2009/12/ressurreicao-de-cristo-nossa_8240.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8234801168287087039/posts/default/5679327462010553737'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8234801168287087039/posts/default/5679327462010553737'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://despejadodogeocities.blogspot.com/2009/12/ressurreicao-de-cristo-nossa_8240.html' title='A Ressurreição de Cristo - A Nossa Ressurreição na Morte (parte I)'/><author><name>Taborita</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09448797140788846841</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='23' src='http://2.bp.blogspot.com/-8olRm7HDoq4/TiY26TcYT5I/AAAAAAAAArE/Gq-YHIfZizE/s220/cats.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8234801168287087039.post-3508887050596522881</id><published>2009-12-08T19:57:00.000-08:00</published><updated>2009-12-08T20:08:07.899-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='A Ressurreição de Cristo A Nossa Ressurreição na Morte  Leonardo Boff'/><title type='text'>A Ressurreição de Cristo A Nossa Ressurreição na Morte (parte II)</title><content type='html'>&lt;span style="font-style:italic;"&gt;por Leonardo Boff&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Ressurreição de Cristo&lt;br /&gt;A Nossa Ressurreição na Morte&lt;br /&gt;(parte II)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;III- O Caminho da Exegese Critica sobre os Textos da Ressurreição&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;OS ESTUDOS exegético-críticos acerca dos textos da Ressurreição tornaram-se um mare magnum, a ponto de ser difícil para os próprios especialistas poder orientar-se. O que aqui apresentamos quer ser apenas uma indicação das pistas pelas quais caminha hoje a exegese tanto católica quanto protestante.(66) Isso nos ajudará a compreender melhor as várias interpretações acima arroladas e deverá servir de base para nossas reflexões de ordem sistemática.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Como era a pregação primitiva sobre a Ressurreição?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os exegetas estão de acordo que a pregação primitiva da Igreja sobre a Ressurreição não deve ser buscada nos evangelhos nem em S. Paulo, mas sim nas fórmulas pré-paulinas e pré-sinóticas, que através dos métodos morfo-críticos descobrimos assimiladas em S. Paulo, nos evangelhos e especialmente nos Atos.(67) Nos discursos de Pedro nos Atos 2-5 e em Paulo lCor 3-5 encontramos essas fórmulas antigas. Paulo diz expressamente que «transmite aquilo que ele mesmo rece-&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;66 Veja a bibliografia já arrolada nos nn. 4 e 5.&lt;br /&gt;67 Cf. Delling, G., Die Bedeutung der Auferstehung Jesu für den Glauben an Jesus Christus. Ein exegetischer Beitrag, em Die Bedeutung der Auferstehungsbotschaft, op. cit., 67-90; Seidensticker, P., Die Auferstehung Jesu, op. cit, 9-58; Kremer, J, Das älteste Zeugnis, op. cit, 25ss.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;41&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;beu» (lCor 15,3). O próprio estilo literário de lCor 15,3-5 trai a antiguidade da fórmula que Paulo já encontrou fixa na comunidade de Jerusalém por volta do ano 35 quando de sua primeira viagem àquela cidade.(68) A estrutura formal rígida é a mesma nos Atos e em lCor 15,3-5: a) Cristo morreu... foi sepultado; b) foi ressuscitado (ou Deus o ressuscitou: At 2,4) ; c) segundo as Escrituras; d) apareceu a Kefas e depois aos doze (ou «E disso nós somos testemunhas»: At 2,32).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos discursos de Pedro nos Atos (2-5) a mensagem pascal é anunciada dentro de duas categorias de pensamento: uma apocalíptica e outra escatológica. Na apocalíptica, que florescia no judaísmo pós-exílico, havia a idéia do justo sofredor, humilhado e exaltado por Deus (cf. Sab 5,15s). Isso tornou-se um leit-motiv da cristologia antiga como em Lc 24,26 e Flp 2,611: «Ele se humilhou a si mesmo, por isso Deus também o exaltou». Nos discursos de Pedro encontramos semelhante explicação do acontecimento pascal: «Vós o matastes.. . contudo foi elevado à direita de Deus» (At 2,24.33). Mais adiante: «Deus o exaltou à sua destra como Autor (da vida) e Salvador» (5, 30.31; cf. 3,13-15). Com muita probabilidade esse esquema está ligado ao outro do ocultamento de Jesus (cf. At 3,21) como ao do profeta Henoc e Elias. Assim como Elias foi «arrebatado» ao céu (2Rs 2,9-11; lMac 2,58) da mesma forma Jesus (At 1,9-11.22; Mc 16,19; Lc 9,51; lTim 3,16; lTes 4,16.17 e Apc 13,5) . O emprego desta terminologia pôde certamente ser sugerido pelo fato do desaparecimento do corpo de Cristo (Mc 16,6; Mt 28,5; Lc 24,3.12; Jo 20,2) ao qual os textos dão certa importância. O Jesus de S. João fala a linguagem primitiva do anúncio pascal. A Ressurreição é entendida como elevação, glorificação e um ir para o Pai. Essa concepção está ligada ao tema do Messias, do Filho do Homem e do Servo Sofredor que é exaltado. Assim são nos Atos inter-&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;&lt;br /&gt;68 Kremer, J., Das älteste Zeugnis, op. cit., 25-30.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;42&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;pretados os salmos 110 (At 2,34s) e 2 (At 4,26). Os fatos pascais são vistos como a entronização do Messias-Rei como «Senhor e Cristo» (SI 2; At 2,36), sua elevação como «Senhor e Salvador» (5,31). A mensagem pascal é interpretada ainda por uma outra categoria de pensamento, a escatológica. Segundo esta, esperava-se para o final dos dias a ressurreição dos mortos. Os Apóstolos viram na Ressurreição de Jesus a realização de um fato escatológico. Se falam e anunciam a Ressurreição isso significa, nos moldes das categorias bíblicas, Ressurreição real e corporal. Vida sem corpo -- embora glorificado (Mc 13,43) -- é para um judeu impensável. Como as manifestações de Jesus mostravam um Jesus glorificado, no uso da terminología de ressurreição, fazia-se necessário deixar clara a identidade entre o crucificado e o glorificado. Os textos dos Atos (cf. 2,23; 3,15; 5,30) acentuam essa identidade bem como mais tarde, frente aos gregos, Lucas e João. Essa terminologia recalcou em grande parte a outra de origem apocalíptica. Isso por motivos óbvios, porque frente à negação do fato da Ressurreição se devia acentuar a realidade da transfiguração da existência terrestre de Jesus. Por aí vemos que os fenômenos das aparições, das falas de Jesus vivo após a crucificação e do sepulcro vazio não foram logo interpretados como Ressurreição da carne, mas como elevação e glorificação do justo sofredor. Esta interpretação parece ter sido a mais antiga. (69) Evidentemente ela pressupõe também o Cristo vivo e transfigurado e o sepulcro vazio. Mas a isso não se chamou ainda de Ressurreição. Mais tarde, devido às polêmicas e por motivos querigmáticos, os fenômenos acima referidos foram mais adequadamente interpretados como Ressurreição, no sentido de total transfiguração da realidade terrestre de Jesus. Por isso a Ressurreição é sempre referida à história de Jesus: à sua morte e sepultamento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A interpretação dos fenômenos pascais como Ressurreição já vem testemunhada por Paulo em lCor&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;69 Seidensticker, P., Die Auferstehung Jesu, oP. cit., 17.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;43&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;15,3-5, como referimos acima.(70) A expressão: foi ressuscitado ao terceiro dia, pode ser uma reminiscência histórica. Mas é também uma expressão oriental para dizer: Cristo permaneceu só temporariamente na sepultura. Segundo a crença geral após esse espaço de tempo a vida se separaria definitivamente do cadáver. Quatro dias significaria permanência definitiva (cf. Didaqué 11,5). (71) A expressão «segundo as Escrituras» não precisa se referir a nenhuma passagem explícita. Apenas quer exprimir a unidade da ação salvífica: o Deus que agiu outrora no AT agiu agora maximamente ressuscitando a Cristo. A referência aos testemunhos não precisa ser cronológica. A aparição a Pedro aparece já na fórmula, uma das mais antigas de todo o NT: «Jesus Cristo ressuscitou verdadeiramente e apareceu a Simão» (Lc 24,34). A aparição a 500 irmãos de uma vez só não precisa ser tomada ao pé da letra.(72) Talvez essa aparição seja a mesma indicada por Mt 28,16ss no monte na Galiléia. A referência de uma aparição a Tiago fala em favor da credibilidade desse testemunho paulino, porque o grupo de Tiago (Gál 2,12) se distanciara desconfiado do evangelho de Paulo acerca da liberdade cristã frente ao culto da Lei do judaísmo bíblico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As fórmulas de fé em lCor 15 e nos At 2-5 deixam entrever, por sua formulação rígida, que a Ressurreição não é nenhum produto da fé da comunidade primitiva, mas testemunho de um impacto que se lhes impôs. Não é nenhuma criação teológica de alguns entusiastas pela pessoa do Nazareno, mas testemunho de fenômenos acontecidos depois da crucificação e que os obrigava a exclamar: Jesus ressuscitou verdadeira-&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;70 Além da obra de Kremer acima citada veja-se ainda: Mussner, F., «Schichten» in der paulinischen Theologie, dargetan an 1Kor 15, em Biblische Zeitschrift 9 (1965) 59-70; Gnilka, J.. Das chistologische Glaubensbekenntnis lKor 15,3-5, em Jesus Christus nach frühen Zeugnissen des Glaubens, München 1970, 44-60 com a vasta bibliografia ai citada; Winter, P., lCorinthians XV 3b-7, em NT 9 (1957) 142-150.&lt;br /&gt;71 Cf. Lehman, K, Auferweckt am dritten Tag nach der Schrift, op. cit. 262-290: Gnilka, J., Das christologische Christusbekenntnis 1Kor 15,3-5, op: cit., 55; Metzger, M., A suggestion concerning the meaning of 1Cor 15,4b, em JThSt 8 (1957) 123; Dupont, J., Ressuscité «le troisième jour», em Bíblica 40 (1954) 742--761.&lt;br /&gt;73 Kremer, J., Das älteste Zeugnis, op. cit., 71.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;44&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;mente. Esse pequeno credo proclama os magnalia Dei realizados em Jesus e corresponde ao credo do povo judeu no Dt 26,5-11. (73) O sepulcro vazio não é objeto de pregação, mas é antes suposto. As aparições são sempre atestadas como fundamento das duas possíveis interpretações seja como elevação-glorificação do justo de Deus seja como Ressurreição no sentido de uma ação de Deus transfigurando em vida nova de glória o Crucificado. (74)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2. Donde veio a convicção dos Apóstolos na Ressurreição de Jesus?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ninguém viu a Ressurreição. O evangelho apócrifo de S. Pedro, descoberto em 1886 (surgiu por volta de 150 dC na Síria), narra o modo como Cristo ressuscitou diante dos vigias e dos anciãos judeus. Mas a Igreja não o reconheceu como canônico(73) porque certamente já a consciência cristã cedo percebeu que assim maciçamente não se pode falar da Ressurreição do Senhor. Possuímos apenas testemunhos que atestam duas coisas: o sepulcro está vazio e houve várias aparições do Senhor vivo a determinadas pessoas. Devemos portanto analisar as tradições que falam do sepulcro vazio e aquelas que referem aparições. Grande número de exegetas, independentemente de sua confissão religiosa, chegou à seguinte conclusão: primitivamente ambas as tradições circulavam autonomamente, uma ao lado da outra. (76) Em Marcos 16,1-8, onde se narra a descoberta do sepulcro vazio pelas mulheres, temos já trabalho redacional combinando as duas tradições. A ligação, porém, não se ajustou bem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;73 Cf. Goppelt, L., Das Osterkerygma heute, em Diskussion um Kreuz und Auferstehung, op. cit, 213. 74 Cf. Schnackenburg, R., Zar Aussgeweise Jesus ist (von Toten) auferstanden, em Biblische Zeitschrift 13 (1969) 1-17.&lt;br /&gt;75 Cf. o texto em Seidensticker, P., Zeitgenoessiche Texte, op. cit, 59-62.&lt;br /&gt;76 Cf. Delorme, J- Résurrecticn et tombeau de Jésus: Mare 16,1-8 dans la tradition évangélique, em La Résurrection du Christ et l'exégèse moderne, op. cit., 75-104 com a bibliografia aí citada; cf. ainda Lohfipk, G., Die Auferstehung Jesu und die historische Kritik, em Bibel und Leben 9 (1968) 37-53 ; Schenke, L., Auferstehungsverkündigung und leeres Grab, Stuttgart 1968.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;45&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os textos revelam tensões, ocasionadas pelos versos que tiram a unidade do relato. Se lermos Mc 16.1-5a.8, a homogeneidade do relato transparece límpida: As mulheres vão ao sepulcro; encontram-no vazio. Fogem. De medo nada contam a ninguém. A aparição do anjo com sua mensagem (5b-7) seria um acréscimo tirado da outra tradição que só conhece aparições e não o sepulcro vazio. Qual a função do relato do sepulcro vazio, testemunhado pelos quatro evangelistas? Qual o seu Sitz im Leben?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;a) O sepulcro vazio não deu origem&lt;br /&gt;à fé na Ressurreição&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Obviamente a tradição do sepulcro vazio se formou em Jerusalém. A pregação da Ressurreição de Jesus se teria tornado impossível na cidade santa se o povo pudesse mostrar o corpo de Jesus no sepulcro. Ademais a antropologia bíblica implica sempre o corpo em qualquer forma de vida, mesmo a pneumática. Os inimigos, seja nos tempos apostólicos, seja nas polêmicas rabínico-cristãs da literatura talmúdica, jamais negaram o sepulcro vazio. Interpretaram-no de modo diverso, como roubo por parte dos discípulos (Mt 28, 13) ou como quer recentemente D. Whitaker, roubo perpetrado por violadores de túmulos.(77) Exegetas tanto católicos quanto protestantes afirmam um núcleo central histórico, anterior aos evangelhos.(78) As mulheres encontraram o sepulcro vazio. Esse núcleo histórico foi tradicionado em ambientes cultuais. É sabido que os judeus veneravam os túmulos dos profetas.(79) Assim semelhantemente desde cedo os cristãos começaram a venerar os lugares onde se realizou o mistério cristão em Jerusalém. Dramatizavam-no em três&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;77 What happened to the body of Jesus, em The Expository Times 81 307-310 esp. 310.&lt;br /&gt;78 Especialmente Seidensticker, P., Die Auferstehung Jesu, op. cit., 77-83,90; Pannenberg, W., Grundzüge der Christologie, op. cit, 97-103; Fuller, D., The Ressurrection of Jesus and the Historical Method, em Journal of Bibel and Religion 34 (1966) 18-24.&lt;br /&gt;79 Cf. Jeremias, J., Heilige Gräber in Jesu Umwelt, Göttingen 1958.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;46&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;momentos principais: uma recordação (anamnese) da última noite de Jesus, por ocasião do ágape fraternal; uma liturgia da sexta-feira santa na hora em que se celebravam as orações judias; e uma ação litúrgica na manhã de páscoa com uma visita ao sepulcro de Jesus.(80) Por isso os textos do relato do encontro do sepulcro vazio mostram um interesse especial pelo lugar: «Ele não está aqui. Vede o lugar onde o depositaram» (Me 16,6b). Essa tradição porém não se preocupou em dar exatamente os detalhes. Basta comparar os paralelos sinóticos e João para se observar as divergências (no número de mulheres; no número de anjos; divergências nos motivos por que as mulheres foram ao sepulcro; diferença de horário; diferença na mensagem do anjo; diferença na reação das mulheres frente ao sepulcro vazio). O relato contudo atém-se ao essencial: O Senhor vive e ressuscitou. O sepulcro está vazio. O fato do sepulcro vazio porém não é feito, em nenhum evangelista, prova da Ressurreição de Jesus. Em vez de provocar fé originou medo, espanto e tremor, de sorte que «elas fugiram do sepulcro» (Me 18,6; Mt 28,8; Lc 24,4).(81) O fato do sepulcro vazio foi imediatamente interpretado por Maria Madalena como roubo. (Jo 20, 2.13.15). Para os discípulos ele não passa de um diz-que-diz-que de mulheres (Lc 24,11.22-24.34). O sepulcro vazio por si só é um sinal ambíguo, sujeito a várias interpretações. Somente a partir das aparições sua ambigüidade é dilucidada e pode ser lido pela fé como um sinal da Ressurreição de Jesus, As aparições são concedidas a testemunhas escolhidas. O sepulcro vazio é um sinal que fala a todos e leva a refletir na possi-&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;80 Cf. Schille, G., Das Leiden des Herrn: die evangelische Passionstraditíonen und íhr Sitz ím Leben, em Zeitschrift für Theologie und Kirche 52 (1955) 161 205; Delorme, J., Résurrection et tombeau de Jésus, op. cit., 125.129; Bode, E. L., A Liturgical Sitz im Leben for the Gospel Tradition of the Wornen's Easter Visit of the Tomb of Jesus?, em The Catholic Bíblical Quarterly 32 (1970) 237-242 afirmando a tese, como «very possible» (242).&lt;br /&gt;81 A visita de Pedro e João ao sepulcro vazio em Jo 20,8 parece não ser uma reminiscência histórica mas uma construção teológica do autor do evangelho de João, no sentido de colocar o chefe do grupo joaneu junto do chefe da Igreja, Pedro: cf. Benoît, P., Passion et Résurrection die Seigneur, op. cit., 284-286.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;47&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;bilidade da Ressurreição. É um convite à fé. Não leva ainda à fé.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um problema à parte oferece a aparição dos anjos junto ao sepulcro. A interpretação tradicional vê de fato neles seres supraterrestres e verdadeiros anjos. Contudo, sem questionarmos a existência dos anjos, deve-se dizer que esta interpretação, mesmo dentro dos critérios bíblicos, não é a única possível. O anjo (mal'ak Jahwe) está no lugar de Javé, cuja transcendência o judeu reafirmava absolutamente, de sorte que em vez de dizer Javé dizia Anjo de Javé (Gên 22,11-14; Êx 3,26; Mt 1,20). Outra interpretação poderia ser a seguinte: as mulheres encontram o sepulcro vazio e logo atinam com a Ressurreição de Jesus. Esta idéia é interpretada como uma iluminação de Deus. Exprimem-na na linguagem literária da época como sendo uma mensagem do anjo (Deus). Outra interpretação possível, e que se coaduna melhor com a análise que expusemos acima, se articularia da seguinte forma: as mulheres vão ao sepulcro. Encontram-no vazio. Estão desapontadas e com medo. Nesse entretempo regressam os apóstolos da Galiléia, onde tiveram aparições do Senhor. O testemunho deles é unido ao das mulheres. A mensagem dos Apóstolos: «O Senhor ressuscitou verdadeiramente e apareceu a Simão» (Lc 24,34, talvez a fórmula mais antiga) é considerada como uma revelação de Deus e expressa na linguagem da época, colocando-a na boca de um anjo (Deus). A fé na Ressurreição não encontrou sua origem na descoberta do sepulcro vazio e no testemunho das mulheres mas nas aparições dos apóstolos. Por isso a preocupação de Mc 16,7 de fazer as mulheres irem a Pedro e aos discípulos e comunicarem-lhes a mensagem do anjo. Eles souberam do sepulcro vazio primeiro pelas mulheres. Por isso eles podem responder às calúnias dos judeus -- de que tinham raptado o corpo de Jesus -- que por si mesmos nada sabiam do sepulcro vazio. Mt 28,11-16 (o conluio dos vigias com o sumo sacerdote) revela uma&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;48&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;clara tendência apologética de Mateus. Na forma de uma estória ele quer tornar ridícula a calúnia dos judeus acerca do roubo do corpo de Jesus.(82)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;b) As aparições de Cristo,&lt;br /&gt;origem da fé na Ressurreição&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A profissão de fé na Ressurreição de Jesus é a resposta às aparições. Só elas tiraram a ambigüidade do sepulcro vazio e deram origem à exclamação dos Apóstolos: Ele ressuscitou verdadeiramente! Os evangeIhos, ao nível redacional, transmitem-nos os seguintes dados: as aparições são descritas como uma presença real e carnal de Jesus. Ele come, caminha com os discípulos; deixa-se tocar, ouvir e dialoga com eles. Sua presença é tão real que pôde ser confundido com um viandante, com um jardineiro e com um pescador. Contudo, ao lado destas representações maciças, há afirmações que não se coordenam mais com aquilo que conhecemos do corpo: o Ressuscitado não está mais ligado ao espaço e ao tempo. Aparece e desaparece. Atravessa paredes. E nós nos perguntamos: quando isso acontece podemos falar ainda com propriedade de corpo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se considerarmos as aparições ao nível da história das tradições (das quais se originaram os evangelhos como os temos hoje), o problema se apresenta bem mais complexo. Aqui se verifica o seguinte fenômeno: de uma representação espiritualizante da Ressurreição como em lCor 15,5-8; At 3,15; 9,3; 26,16; Gá1 1,15 e Mt 28, passa-se para uma materialização cada vez mais crescente como em Lc e Jo, nos evangelhos apócrifos de Pedro e aos Hebreus.(83) A necessidade apologética obrigou os hagiógrafos a tais concretizações. Ademais as aparições, quanto mais recentes são os textos, tanto mais se concentram em Jerusalém e mais&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;82 Cf. Kremer, J, Die Osierbotschaft, op, cit., 25-28.&lt;br /&gt;83 Cf. Grass, H., Ostergeschehen und Osterberichte, op. cit, 94-112; 186-232.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;49&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;são aproximadas ao tema do sepulcro vazio. Um problema à parte é o das indefinidas tentativas de harmonização entre as aparições relatadas em lCor 15 . 5-8 e as narradas nos evangelhos.(84) Paulo refere cinco aparições do Senhor vivo. Mc 16,1-8 não conhece nenhuma aparição, mas diz claramente que Cristo se deixará ver na Galiléia (7b). O final de Mc (16,9-20) condensa as aparições relatadas nos outros evangelhos e, com boas razões, pode ser considerado um acréscimo posterior. Mt 28,16-20 conhece uma só aparição aos Onze, na Galiléia, «sobre o monte que Jesus lhes indicara». A aparição às mulheres, às portas do sepulcro vazio (28,8-10), é vista pelos exegetas como uma elaboração ulterior sobre o texto de Mc 16,7: as palavras do Ressuscitado são notavelmente semelhantes às do anjo.(85) Lc refere duas aparições, uma aos discípulos no caminho de Emaús e outra aos Onze e a seus discípulos em Jerusalém (24,13-35; 36-53). Jo 20 refere três manifestações do Senhor, todas elas em Jerusalém. Jo 21, considerado como um apêndice posterior ao Evangelho, refere outra aparição no lago de Genesaré, na Galiléia. Contudo a interpretação desse capítulo é mais coerente se admitirmos que seja a reelaboração de uma tradição pré-pascal acerca do chamamento dos discípulos (Lc 5,1-11), agora recontada à luz da novidade da Ressurreição com a clara intenção de relacionar o ministério de Pedro com o poder do Cristo ressuscitado. Os relatos revelam duas tendências fundamentais: Mc e Mt concentram seu interesse na Galiléia enquanto Lc e Jo em Jerusalém, com a preocupação de ressaltar a realidade corporal de Jesus e a identidade do Cristo ressuscitado com Jesus de Nazaré. A harmonização, feita geralmente pela exegese católica, afirmando que primeiro Cristo teria aparecido em Jerusalém e depois na Galiléia, está sendo abandonada. As dificuldades dos textos, da maneira das aparições e o melhor conhecimento das tradições e do trabalho redacional dos hagiógra-&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;(84) Cf. Kremer, J, Das älteste Zeugnis, op. cit., 65-82.&lt;br /&gt;85 Kremer, J, Die Osterbotschaft, op. cit, 3941.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;50&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;fos, induzem a concluir pelo seguinte: as aparições na Galiléia têm mais fundamento histórico; as de Jerusalém seriam elaboração de caráter mais teológico das vivências na Galiléia, com a intenção de relevar o significado histórico-salvífico da cidade e da comunidade primitiva aí formada. «A salvação vem de Sião» (SI 13,7; 109,2; Is 2,3; cf. Rom 11,26). Is 62,11 diz: «Eis que o salvador vem para ti, filha de Sião». A história da salvação atinge em Jerusalém seu termo e sua plenitude. Lc tanto no evangelho quanto nos At frisa esse motivo teológico ligado à cidade: páscoa e pentecostes se realizam aí. O Ressuscitado será anunciado, começando em Jerusalém até os confins do orbe (Lc 24,47; At 1,8). Essa tendência é mais acentuada ainda no evangelho de S. João: o Cristo joaneu age de preferência em Jerusalém por ocasião das festas do povo. A tradição da Galiléia interpretara a páscoa de Jesus não tanto como Ressurreição da carne mas como a elevação, glorificação e manifestação do Filho do Homem (cf. Dan 7,13ss), agora sentado à direita de Deus, utilizando a linguagem do mundo apocalíptico. Mt 28,16-20, representante da tradição da Galiléia, apresenta o Cristo ressuscitado constituído em Poder como Filho do Homem, transmitindo esse mesmo poder à sua Igreja enviando-a à missão. O Reino imperecível (Dan 7,14) é «traduzido» pela presença constante de Cristo na Igreja (Mt 28,19). A Ressurreição é vista como a Parusia do Filho do Homem agora presente na comunidade (cf, 2Pdr 1,16ss). (86)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A pregação e a catequese da páscoa de Cristo, elaboradas no horizonte da compreensão dos leitores e ouvintes gregos, obrigaram a uma tradução desta interpretação, na linha da Ressurreição da carne. O querigma fundamental agora na tradição do tipo de Jerusalém (Lc e Jo) soa da seguinte forma: «Eu estava morto. Mas eis que agora vivo pelos séculos dos séculos. Eu tenho as chaves da morte e do inferno»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;86 Cf. Seidensticker, P., Zeitgenoessische Texte, op. cit, 43-50; Id., Die Auferstehung Jesu, op. cit., 43-66.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;51&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Apc 1,18; cf Rom 6,10). O problema que surge reside em salvaguardar a realidade da Ressurreição. Cristo vive realmente e não é um «espírito» (Lc 24, 39) ou um «anjo» (At 23,8-9). Daí a preocupação em relevar a identidade do Ressuscitado com Jesus de Nazaré, descrever e tocar suas chagas (Lc 24,39; cf. Jo 20,20.25-29) e acentuar que ele comeu e bebeu com seus discípulos (At 10,41) ou que ele comeu diante deles (Lc 24,43). Os relatos de vivências do Ressuscitado por pessoas privadas, como Maria Madalena (Jo 20,14-18; cf. Mt, 28,9-10) ou dos jovens de Emaús (Lc 24,13-35), são cercados de motivos teológicos e apologéticos dentro do esquema literário das legendas para deixar claro aos leitores a realidade do Senhor vivo e presente na comunidade. Exemplo clássico de tal preocupação é o relato dos jovens de Emaús.(87) O modo como os dois jovens chegaram à fé no Ressuscitado é apresentado como modelo para os leitores: deixar-se instruir pelas Escrituras que falam de Cristo e deixar que os olhos se abram pela «fração do pão», isto é, pela Eucaristia. É o caminho pelo qual nós ainda hoje chegamos à fé na novidade pascal, pela palavra e pelo sacramento. O relato de Emaús (Lc 24,13-35) segue um estilo literário típico de Lucas, utilizado também nos Atos (8,26-39) ao narrar a conversão do camareiro etíope por Filipe. Em ambas as narrações encontram-se os seguintes paralelos: o Ressuscitado ou Filipe inspirado pelo Espírito explica o AT e o relaciona a Cristo. No final o camareiro ou os dois jovens externam um pedido. O ponto culminante do relato reside na recepção de um dos sacramentos que na Igreja primitiva eram fundamentalmente dois, a Eucaristia e o Batismo. Assim a fé na Ressurreição, para os tempos pós-apostólicos, se baseia na pregação e nos sacramentos da Igreja, que testemunham e tornam presente e visível o Cristo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;87 Cf. Dupont, J, Le repas d'Emmaus, em Lumière et Vie 31 (1957) 77-92; Orlett, An Influence of the Early Liturgy upon the Emmaus Account, em Catholich Biblical Quarterly 21 (1959) 212-219; Kehl, M., Eucharistie und Auferstehung. Zur Deutung der Ostererscheinungen beim Mahl, em Geist und Leben 43 (1970) 90-125, esp. 101-105.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;52&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ressuscitado. Mesmo que não houvesse sepulcro vazio e aparições, seria ainda possível e válida a fé na Ressurreição. Por causa da Igreja. Esse é o sentido último intencionado pelo relato da dúvida de Tomé em Jo 20 com a conclusão: «Felizes os que não vêem e apesar disso crêem» (20,29).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3. Tentativa de reconstrução&lt;br /&gt;dos acontecimentos pascais&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do exposto acima, dois fatos resultam claros e indiscutíveis: o sepulcro vazio e as apariçoes aos discípulos. Esses porém foram tradicionados e revestidos de várias tendências, conforme as necessidades do momento: necessidades de ordem teológica, apologética, catequética e cúltica. Reconstruir por isso os acontecimentos pascais constitui uma tarefa arriscada com resultados muito fragmentários e questionáveis. Contudo a fé que não se baseia num mito mas numa história sempre mostrará interesse pelo «como foi» a fim de eruir mais profundidade para «o que isso significa para mim». Os relatos da Ressurreição, como os temos agora, teriam como pano de fundo histórico os seguintes pontos: (88)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;a) A prisão de Jesus que fez realizar o que ele prevenira: «todos irão escandalizar-se de mim» (Mc 14,27; Mt 26,31). Os discípulos fogem (Mc 14,50; Mt 26,56).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;b) Eles o revêem ressuscitado primeiramente na Galiléia (Mc 14,28; Mt 26,32; Mc 16,7; Mt 28,7.16-20). Muito possivelmente, o relato dos jovens de Emaús está subordinado ao regresso dos discípulos à Galiléia, após o fracasso de Jesus em Jerusalém.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;(88) Cf. especialmente Seidensticker, P., Die Auferstehung Jesu, op. cit., 77-83.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;53&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;c) Um dia depois do sábado as mulheres têm as primeiras vivências pascais. O nome e o número das mulheres variam nos quatro evangelhos. Só Maria Madalena ocorre em todos eles. Elas vão ao sepulcro levar aromas (Lc 24,1; Mc 16,1). Nada sabem da sepultura selada (Mt 27,66). Encontram o sepulcro aberto e sem o corpo de Jesus (Jo 20,1; Mc 16,4; Mt 28,2; Lc 24,2). Fogem com medo e vão informar os apóstolos (Mt 28,8; Lc 24,9ss.23; Jo 20,2ss; Mc 16,7).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;d) Um fato determinante para a fé na Ressurreição deu-se algum tempo depois (cf. «depois de seis dias»: Mc 9,2; Mt 17,1 ou «uns oito dias depois»: Lc 9,28) (89) na Galiléia (Mc 16,7; Mt 28,7.16-20; cf. Mc 14,28; Mt 26,32). Cristo ressuscitado se deixa ver aos seus discípulos. Esses interpretam as aparições como encontros com Jesus de Nazaré agora elevado junto a Deus em vida eterna e em glória. Sobre as circunstâncias especiais de lugar, de modo e de número de discípulos pouco se pode, no atual estado da pesquisa, determinar exata e historicamente. Em todos os casos os discípulos viram nos acontecimentos pascais um fato escatológico, como realização plena e acabada da história de Jesus agora manifestado Messias e Filho do Homem e de toda a História da Salvação. Anunciar Jesus como o Salvador e Juiz universal e seu reinado sobre todas as coisas constitui a missão dos Apóstolos e da Igreja.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;(89) Já aludimos acima que a frase «ressuscitou ao terceiro dia» não contém uma reminiscência histórica mas é antes uma proposição dogmática. Cristo apareceu alguns dias após. A transfiguração de Cristo, colocada no tempo da vida terrestre de Cristo, contém traços claros de ser uma aparição do Ressuscitado reprojetada para o tempo antes de sua morte e ressurreição; agora como está, revela o processo de catequese da Igreja primitiva ainda em andamento onde elementos históricos de Cristo são retrabalhados com outros acontecidos depois da Páscoa do Senhor (anúncio da paixão com o convite a seguir a Cristo no caminho da cruz: Mc 8,31-38 par): cf. Seidensticker, P., Zeitgenoessische Texte, op. cit., 48-50.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;54&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Essa reconstrução é certamente precária. Porém ela contém os dados históricos fundamentais a partir dos quais emergiu a fé na Ressurreição de Jesus como escândalo para muitos (cf. lCor 1,23; At 17,32; 23, 6-9) e esperança e certeza de vida eterna para outros tantos (cf. lCor 15,50ss).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Resta saber o que significa para a teologia e para a existência humana de fé, hoje, a Ressurreição de Jesus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;55&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;IV- Reflexões de Ordem Sistemática:&lt;br /&gt;o Emergir do Novo Adão&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;COMO anunciar e viver a fé na Ressurreição de Jesus hoje dentro de nossa compreensão da existência? Se a Ressurreição é a verdade fundamental do Cristianismo e o motivo de nossa esperança onde situá-la dentro de nosso horizonte? Para que problemática nossa, hoje, a fé na Ressurreição seria uma luz e um ponto de orientação? Deve haver sempre uma correlação entre as verdades da fé e as experiências da vida. Sem isso a fé não se legitima e corre o risco de transformar-se numa ideologia religiosa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Nosso horizonte de compreensão&lt;br /&gt;e fé na Ressurreição&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O homem essencialmente é homo viator; está em busca de si mesmo. Quer realizar-se em todas as suas dimensões. Não só na alma. Mas no homem todo, unidade radical corpo-alma. O pensar utópico é uma das constantes em todas as culturas, desde as mais primitivas, como entre nossos índios Tupiguaranis e Apapocuva-guaranis(90), até nossos dias como num Teilhard de Chardin ou A. HuxIey.(91) O homem quer superar&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;90 Cf. Linding, H., Wanderungen der Tupi-Guarani und Eschatologie der Apapocuva-Guarani, em Mühlmann, W., Chiliasmus und Nativismus. Studien zur Psychologie, Soziologie und historischen Kazuistik der Umaturzbewegungen, Rerlin 2 1964, 19-40.&lt;br /&gt;91 Veja-se o enorme material acumulado nos três tomos de E. Bloch, rinzip Hoffnung, Frankfurt 1959; Eliade, M., Dimensions religieuses du Renouvellement cosmique,) em Eranos Jahrbuch 1959, 241-275; cf. A Utopia em Concilium jan (1969) 130 45.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;56&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;todas as alienações que o afligem como a dor, a frustração, o ódio, o pecado e a morte. Quer plenitude e vida eterna. O princípio-esperança é uma estrutura existencial do ser-homem. «Quem me livrará deste corpo de morte?» (Rom. 7,24). Todos os homens sonham com a situação descrita pelo Apocalipse «onde a morte não existirá mais, nem mais luto, nem prantos, nem fadiga, porque tudo isto já passou» (21,4). O homem de hoje se coloca mais que em outras gerações perguntas radicais acerca de seu futuro. A pergunta que mais lhe interessa não é tanto Quem é o homem? mas Que será do homem? Que futuro lhe está destinado? Nietzsche sonhou com o Super-Homem, com um corpo de César e alma de Cristo(92), um santo de uma espécie nunca dantes existente, capaz de dominar com suma responsabilidade o mundo por ele mesmo criado. A ânsia de realização pessoal e cósmica do homem é sempre frustrada pela morte. Ela é uma barreira para todas as utopias. Que resposta dá o Cristianismo a semelhante questionamento? É aqui que a fé na Ressurreição, como o futuro absoluto do homem, ganha ressonância especial, como a teve outrora, no tempo de Jesus. A teologia judaica pós-exílica elaborou a utopia do Reino de Deus (nos seus vários modelos: político, profético e sacerdotal) como a transformação radical dos fundamentos deste mundo e irrupção do novo céu e da nova terra, uma realidade totalmente reconciliada com Deus e consigo mesma.(93) O tempo de Cristo se caracteriza por essa efervescência e expectativa messiânico-escatológica (cf. Le 3,15). O mundo helênico da mesma forma era pervadido por doutrinas de libertação. A gnose prometia redenção para a existência alienada do&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;92 Aus dem Nachlass der Achtzigerjahre, em F. Nietzsche III. Darmstadt 1960, 422; cf. o histórico da idéia do Super-homem que tem origem cristã; depois foi secularizada por Jean Paul e aplicada a Napoleão em E. Beriz, Der dreifache Aspekt des Ubermenschen, em Eranos Jahrbuch 1959, 109-192. 93 Cf. Schnackenburg, R., Gotteslierrschaft und Reich, Freibury 2 1961 com a enorme bibliografia ai trabalhada esp. 1-48; cf. Brunner, P., Elemente einer dogmatischen Lehre von Gottes Basileia, em Die Zeit Jesu (Fest. para H. Schlier) Freiburg 1970, 228-256.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;57&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;homem perdido no mundo. Coube a Hans Jonas mostrar em suas minuciosas pesquisas o quanto o mundo gnóstico se assemelha por sua temática e preocupações com o moderno existencialismo. (94) Num contexto assim foi anunciada a novidade absoluta do triunfo da vida sobre a morte, e como são verdadeiras aquelas palavras do Cântico dos Cânticos: «Tão forte como a morte é o amor» (8,6). Não só o evangelho da Ressurreição se situa num tal horizonte de compreensão mas principalmente a mensagem toda de Jesus, da qual a Ressurreição constitui o dado central.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2. A Ressurreição de Jesus: uma utopia&lt;br /&gt;humana realizada&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um homem se levanta na Galiléia. Jesus de Nazaré, que mais tarde se revelou como sendo o próprio Deus em condição humana, ergue sua voz e anuncia: «Esgotou-se o prazo. O romper da nova ordem está próximo e esta será trazida por Deus. Revolucionai-vos em vosso modo de pensar e agir. Crede nessa alviçareira notícia» (cf. Mc 1,15; Mt 4,17). Com isso Cristo assume um elemento de utopia presente em todos os homens: a superação deste mundo alienado, levada a efeito por Deus. Reino de Deus, palavra que ocorre 122 vezes nos evangelhos e 90 vezes na boca de Cristo, significa uma revolução total e estrutural dos fundamentos desse mundo, introduzida por Deus. Reino de Deus não significa tanto algo de interior ou espiritual ou mesmo que vem de cima ou que se deva esperar fora deste mundo ou depois da morte. Em seu sentido pleno Reino de Deus é a liqüidação do pecado com todas as suas conseqüências no homem, na sociedade e no cosmos, a transfiguração total deste mundo no sentido de Deus.(95) Os milagres de Jesus,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;94 Jon, H., Gnosis und apatantiker Geist I, II, Goettingen 1934.&lt;br /&gt;95 Cf. Bornkamm, G., Jesus von Nazareth, Stuttgart 1956, 59; Bultmann, R., Theologie des Neuen Teatamentes, Tübingen 5 1965, 3; Decker, J., Das Heil Gottes. Heil-und Sündenbegriffe in den Qumrantexten und im Neuen Testament, Goettingen 1964, 388-390; Boff, L., Jesus Cristo Libertador, Vozes, Petrópolis 2 1972, 62-75.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;58&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;mais que provar sua divindade, visam mostrar o reino presente em nosso meio.(96) Cristo mesmo diz: «Se eu com a mão de Deus expulso demônios, sem dúvida o reino de Deus chegou até vós» (Lc 11,20). É um enfermo curado, então se manifesta aí a presença do reino de Deus (Lc 10,9). Por isso grita ele: «Bemaventurados vós pobres, porque a vós pertence o reino de Deus. Bem-aventurados vós que tendes fome, porque sereis saciados. Bem-aventurados os que agora chorais porque ireis rir» (Lc 6,20-21), Cristo mesmo já é a presença do novo homem na nova ordem. Aos seus olhos doenças são curadas (Mt 8,1617; Mc 6, 56). Aplacam-se tempestades (Mt 8,23-27) e o mar é posto a serviço do homem-rei (Lc 5,4-7), a fome é vencida (Mc 6,30-40), pecados são perdoados (Mc 2,5; Lc 7,48) e existe misericórdia para os lábeis (Jo 8,1-11), mortos ressuscitam e o luto se transfigura em alegria fraterna (Lc 7,11-17; Mc 5,4143).(97) Ao se levantar na Galiléia anunciando a nova do reino, Cristo lê na sinagoga um tópico de Isaías, que diz: «Para evangelizar os pobres, Ele me enviou, a pregar aos cativos a liberdade, aos cegos a recuperação da vista, para pôr em liberdade os oprimidos e para anunciar um ano de graça do Senhor». E comenta Jesus: «Hoje se cumpre essa escritura que acabais de ouvir» (Lc 4,18-19.21). S. João Batista no cárcere, em dúvida se Cristo era o Enviado de Deus para trazer o Reino da total libertação dos homens e de seu mundo, manda seus discípulos a ele para perguntar-lhe: «És tu aquele que há de vir ou devemos esperar por outro?» A resposta não podia ser outra, pois que constitui o conteúdo de sua mensagem: «Cegos vêem, coxos caminham, leprosos são purificados, surdos ouvem, mortos são ressuscitados e a boa noticia da libertação é anunciada aos pobres» (Mt 11,5). Aqui está o sinal da reviravolta total e estrutural. Aquele que conseguir introduzir isso será o libertador&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;96 Cf. Fuller, R. H., Die Wunder Jesu in Exegese und Verkündigung, Düsseldorf 1967, 21; 121 etc.&lt;br /&gt;91 Veja o excelente artigo de Mesters, C., Jesus Cristo Deus conosco, em Grande Sinal 24 (1970) 93-100 esp. 94-96.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;59&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;da humanidade. E Cristo se apresenta como o salvador do mundo. Como transparece, Reino de Deus não pode ser privatizado para uma zona do homem como seja sua alma, os bens espirituais ou a Igreja. Reino de Deus abarca toda a realidade humana e cósmica que deve ser transfigurada e liberta de todo o sinal de alienação. Se o mundo permanecer como está, não pode ser a pátria do Reino de Deus. Deve ser transformado em suas estruturas totais. Daí o Logion do Jesus joaneu: «Meu reino não é deste mundo» (Jo 18,36), isto é, não é das estruturas ambíguas e pecadoras deste mundo, mas de Deus em sentido objetivo de: é Deus que irá intervir e sanar em sua raiz a realidade total, elevando este mundo em novo céu e nova terra. Já Santo Agostinho comentava: Meu reino não é deste mundo mas está neste mundo. Elemento essencial do reino é a aniquilação da morte como o maior inimigo do homem em sua ânsia de realização e vida plena. São João traduz a temática jesuânica de reino dos céus exatamente como vida eterna.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A rejeição, por parte dos judeus, de Jesus e de sua mensagem frustrou a realização cósmica do reino de Deus. Deus, porém, que triunfa na fraqueza e na infidelidade dos homens, realizou o reino de Deus na pessoa de Jesus. Já dizia Orígenes: Cristo é a auto-basiléia tou Theou, isto é, o reino de Deus realizado em sua pessoa. Nele foram vencidos a morte, o ódio e todas as alienações que estigmatizam a existência humana, Nele se revelou o homem novo (homo revelatus), o novo céu e a nova terra. Paulo bem o compreendeu quando feliz exclama: «ó morte, onde está a tua vitória? Onde está o espantalho com que amedrontavas os homens ... A morte foi tragada pela vitória» (cf. lCor 15,55a.b). Cristo ressuscitou, não para a vida biológica que tinha antes, mas para a vida eterna. O Bios está sempre sob o signo da morte, a Zoé (vida eterna) se situa no horizonte do Pneuma de Deus indestrutível e imortal.(98) Ressurreição se de-&lt;br /&gt;98 Cf. Bultmann, R., Theologie des Neuen Testamentes, op. cit., 331.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;60&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;fine então como a escatologização da realidade humana. A introdução do homem como totalidade corpo-alma no reino de Deus. A presença da Zoé eterna dentro do Bios finito e humano. A realização total das potencialidades que Deus colocou dentro da existência humana. Com isso se realizou uma utopia que dilacerava o coração humano. Em Jesus Cristo recebemos a resposta definitiva de Deus: não a morte mas a vida é a última palavra que Ele, Deus, pronunciou sobre o destino humano. Para o cristão não mais uma utopia mas uma topia: a vida eterna possui um lugar dentro de nosso mundo, sagrado para a morte, Jesus Cristo ressuscitado. O nosso futuro está aberto, e o fim da história do pecado-graça tem um fim bom, já garantido e atingido. Com isso entrou para a história da consciência humana aquilo que o mundo antigo todo não conhecia, o sorriso da esperança. O mundo antigo conhece sim as gargalhadas de Pan ou de Dionísio embriagado. Retratou o sorriso triste de quem vive sob a Moira. Mas não conhece o sorriso de quem já venceu a morte e goza das primícias da vida eterna. «Porque Jesus ressuscitou dos mortos como primícias dos que morrem» (lCor 15,20). «Ele é o primogénito entre muitos irmãos» (Rom 8,29). O que é presente atual para ele será para nós futuro próximo. (99)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Ressurreição não é um fato privado da vida de Jesus. É a realização em sua existência da mensagem de global libertação que ele pregou e prometeu. Ele é a nova humanidade, o novo Adão «no qual todos somos vivificados» (lCor 15,22). «O Reino já está presente em mistério aqui na terra. Chegando o Senhor ele se consumará», anuncia-nos o Vaticano II (GS n. 39).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;99 Esse aspecto de futuro foi revelado de modo especial Por Moltmann, J., Theologie der Hoffnung, op. cit., 173-179; 184-204; Kreck, W., Die Zukunft des Gekommenen. Grundprobleme der Eschatologie, München 2 1966, 91ss e 203ss, Boff, L., Jesus Cristo Libertador, op. cit., 283-285&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;61&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3. A novidade do homem novo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A novidade do novo homem, irrompida com o evento-ressurreição, reside, como já acenamos, na plenificação de todos os dinamismos latentes dentro da realidade humana de Jesus. Deus não substitui o velho por um novo, mas faz do velho, novo. Como veremos, no próximo capítulo, a capacidade de abertura, de comunicação e comunhão, próprios do homemcorpo, foram pela ressurreição totalmente realizados.(100) Por isso o Ressuscitado possui uma presença, não mais limitada ao espaço e tempo palestinense, mas se estende à totalidade da realidade. Paulo exprime tal verdade dizendo que o Cristo ressuscitado vive agora na forma de Espírito (cf. 2Cor 3,17; lCor 6,17; 15, 45; Rom 8,9) e seu corpo sárquico (fraco e limitado pelo espaço e pelo tempo) foi transformado em corpo pneumático-espiritual (cf. lCor 15,44).(101) Afirmando que Cristo é Espírito, Paulo não pensa ainda em termos de Terceira Pessoa da Santíssima Trindade mas, dentro da compreensão judaica, quer fazer entender as reais dimensões da realidade da ressurreição: assim como o Espírito enche todas as coisas (SI 139,7; Gên 1,2) da mesma forma, agora, o Ressuscitado. Ele é o Kyrios, o Cristo cósmico (cf. Col 1,15-20; Ef 1,10) e o pleroma (Ef 1,23; Col 2,9), isto é, aquele elemento pelo qual a totalidade do mundo atinge sua plenitude e o termo de sua perfeição. Esse tema foi com inusitada paixão desenvolvido por Teilhard de Chardin, embora estivesse bem presente no pensamento paulino e em suas comunidades. (102) A fé da comunidade primitiva numa «ubiqüidade cósmica» do Ressuscitado foi expressa num ágrafon do evangelho de S. Tomé (grego) : «Diz Jesus: onde dois estive-&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;100 Kässemann, E., na Zeitschrift für Theologie und Kirche apreciando o livro de Bultmann, Theologie des NT, 59 (1962) 282; Grabner-Haider, A., Auferstehungsleiblichkeit, em Stimmen der Zeit 181 (1968) 217-222; Id., Ressurreição e Glorificação, em Concilium Janeiro (1969) 58-72.&lt;br /&gt;101 Herrade Mehl-Koehnlein, L'homme s elon l'apôtre Paul, Neuchatel-Paris 1951, 31-37; Boff, L., Jesus Cristo Libertador, op . cit., 226-230.&lt;br /&gt;102 Cf. Boff, L., O Evangelho do Cristo Cósmico. A realidade de um mito e o mito de uma realidade, Vozes, Petrópolis 1971.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;62&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;rem, não estão sem Deus. Onde alguém está só, eu digo: Eu estou junto dele. Levanta a pedra e tu me encontrarás dentro dela. Racha a lenha e eu estarei lá».(103) A promessa feita pelo Ressuscitado: «Eu estarei convosco todos os dias até a plenitude dos tempos» (Mt 28,20; cf. 18,20; Jo 14,23) aqui recebe uma concretização no meio do mundo secular do trabalho. Esse pode parecer sem sentido, e não raro é perigoso e pesado. Para o fiel ele esconde uma glória misteriosa: coloca em comunhão com o Ressuscitado. Ele está presente por tudo e sempre junto dos seus, pouco importa o que façam. O Ressuscitado, existindo em forma pneumática, está livre das cadeias do espaço e do tempo, é total comunhão e presença primeiro em todo o cosmos, de forma mais intensa na Igreja, que é seu corpo (cf. Col 1,18) ; de maneira mais densa ainda quando a comunidade reza e salmodia em seu nome; de maneira especial nas ações litúrgicas e de modo particularíssimo no sacramento da Santíssima Eucaristia (cf. Sacrosanctum Concilium, n. 7). Com isso viemos a saber que o fim dos caminhos de Deus reside no homem-corpo, totalmente transfigurado e feito total abertura e comunicação.(104)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;4. Conclusão&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Muitos outros aspectos de ordem sistemática deveriam ser aqui abordados, como fizeram Durrwel(105) ou K. Rahner(106) em sucessivos ensaios, como por exemplo o aspecto soteriológico da Ressurreição, já ressaltado nas primeiras fórmulas cristológicas de Ressurreição (lCor 15,3; Rom 4,25; Lc 24,30ss; At 10,43; lCor 15,17), o aspecto futurístico-escatológico, o que-&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;103 Jeremias, J., Uwbekannte Jesusworte, Gütersloh 3 1963, 100-104.&lt;br /&gt;104 Cf. Metz, J. B., Caro cardo salutis. Zum christlichen Verständnis des Leibes, em HochIand 55 (1962) 97-107 esp., 97.&lt;br /&gt;105 Durrwell, F. X., A Ressurreição de Jesus, Herder, S. Paulo 1969, capítulos V-IX.&lt;br /&gt;106 Dogmatische Fragen zur Osterfrömmigkeit, em Schriften zur Theologie, Einsiedeln 51967, 157172; ld., Auferstehung Christi, em LThK I, 1038-1041; ld., Sacramentum Mundi I, 403-405; 420-425. Cf. também von Balthasar, H. U., Mysterium Paschale, em Mysterium Salutis III/2, 133-319.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;63&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;rigmático e o antropológico, cujas linhas mestras delineamos acima, o sacramental e o eclesiológico. Essa múltipla dimensionalidade está presente nos relatos da Ressurreição, que devem ser hermeneuticamente relidos a partir de nossa existência de fé hoje. Em cada aspecto nota-se uma tônica de fundo: a Ressurreição significa a verdade e a realização da pregação de Jesus. Ele veio pregar o Reino de Deus, que, fundamentalmente, se traduz por vida eterna não mais ameaçada pela morte. A Ressurreição veio mostrar que isso não é uma utopia humana mas uma realidade dentro do velho éon. O futuro já está presente como esperança que é um já agora embora não ainda totalmente realizado. Isso funda um modelo novo de vida para o qual as realidades futuras já se configuram no presente, enchem de um dinamismo novo o homem de fé e lhe permitem ousar tudo porque já sabe que o f im está garantido e este será feliz porque se chama Vida Eterna.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vejamos porém como a fé na ressurreição de Cristo se articula com nosso próprio futuro e com a nossa própria ressurreição.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;V- A Nossa Ressurreição na Morte&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A DESPEITO da luz nova trazida pelo clarão do Cristo ressuscitado para o problema da morte humana ela se apresenta como um fenômeno de extrema riqueza antropológica e teológica.(1) Em sua abordagem transparecem com nitidez os reais pressupostos, ainda que inconscientes e até explicitamente negados, implicados em cada modelo de teologia e de antropologia. A compreensão da morte não é sem importância para entender a vida humana, o valor ou o desvalor da situação terrestre, como situar a antropologia teológica em função da pastoral e da catequese sobre o sentido da vida, o destino dos mortos, sobre o significado do juízo, do purgatório, da ressurreição e de nossas orações «pelas santas almas benditas».(2) Esse tema não&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1 Sobre o tema refiro apenas a literatura essencial: Rahner, K., Zur Theologie des Todes, Freiburg I.B. 1958; Boros L., Mysterium mortis. Der Mensch ia der letzten Entscheidung, Olten-Freiburg i.B. 1962; Id., Erlöstes Dasein, Mainz 1966, 89-108; Troisfontaines, R., Je ne meurs pas... Paris 1960; Martelet, R. P., Victoire sur Ia mort, éléments d'anthropologie chrétienne, Paris 1962; Volk, H., Das christliche Verständnis des Todes, Regensburg 1957; Gleason, R. W., The World to come, N. York 1958; Id., Toward a Theology of Death, em: Thougth Fordham Univ. Quart. 32 (1957) 39-68; Lepp, L, La mort et ses Mystères. Paris 1966; Jankélévitch, V., La mort, Paris 1966; Bordoni, M., Dimensioni antropologische della morte, Roma 1969, certamente o livro que melhor informa sobre a atual problemática filosófico-teológica juntamente com o de La Peña, J. R., El hombre y su muerte. Antropologia teológica actual. Ed. Aldecoa, Burgos 1971; Bolado, A., Filosofia y Teologia de Ia muerte, em: Selectiones de Libros 3 (1966) 12ss; A vida depois da morte, documentação em: Concilium 26 (1967) ; José-Maria González-Ruiz, A caminho de uma desmitologização da «alma separada», em: Conciliam, janeiro 1969, 73-85; no mesmo a., 86-99 o estudo de Piet Schoonenberg, Creio na vida eterna; Schillebeeckx, E., Leven ondanks de dood ia heden en toekomst (Vida apesar da morte no presente e no futuro, em: Tijdschrift voor Theologie 10 (1970) 418-452.&lt;br /&gt;2 Cf. Lochet, L., Comme annoncer le mystère de Ia mort aux hommes de notre temps, em: Christus 9 (1962) 183ss; Boros, L., Meditationen über Tod, Gericht, Läuterung, Auferstehung und Himmel, em: Lebendiges Zeugnis, Mainz 1963.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;65&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;se apresenta como um entre tantos da teologia. Nem como um capítulo importante da escatologia. Mas como um nó que enfeixa a problemática geral da antropologia no seu sentido mais vasto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nossas reflexões querem ser de ordem teológico-especulativa e partem do dado fundamental da fé: o homem é destinado à ressurreição para participar, com a totalidade de sua realidade complexa, na vida eterna de Deus. Essa proposição da fé, assim formulada, apresenta-se sem qualquer mediação antropológica prévia. Apesar disso afirmamo-la por causa da ressurreição de Cristo que é o primogênito dentre os mortos e o primeiro entre muitos irmãos. E aqui começa o questionamento: a ressurreição é puro dom gratuito de Deus, como que vindo de fora e surpreendendo nossa própria realidade? Ou ela realiza um estatuto antropológico do homem, gratuitamente criado nele por Deus, de tal forma que a ressurreição vem ao encontro de um profundo anseio do homem, sem cuja realização a vida, vista teologicamente, não atingiria seu sentido pleno para o qual foi criada? Em outras palavras, colocando o problema em termos de morte-imortalidade-ressurreição: a ressurreição pressupõe a imortalidade da alma (ou do homem) ou a imortalidade da alma pressupõe a ressurreição? Ressuscitamos porque somos imortais ou somos imortais porque ressuscitamos?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;I. MORTE E RESSURREIÇÃO E SUA LEITURA&lt;br /&gt;NAS ANTROPOLOGIAS BÍBLICA E GREGA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. A solução conciliadora da teologia católica clássica&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De antemão podemos avançar o seguinte dado que parece inquestionável: Não pertence ao querigma fundamental do Novo Testamento o tema da imortalidade da alma.(3) O Novo Testamento conhece e professa sua&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;3 Cf. Jeremias, J., Ades, em: ThWNT I,146-150; Tremel, Y., L'homme entre Ia mort et Ia résurrection d'après le Nouveau Testament, em: Lumière et Vie 24 (1955) 33-37; Ménoud, P. H., La signification de Ia mort, em: L'homme devant Ia mort, Neuchâtel 1952, 163ss; ld., Le sort des trépassés, Neuchâtel 1966; Grelot, P., La théologie de Ia mort dans I'Écriture Sainte, em : La Vie Spirituelle, Supp. 77 (1966) 143ss; Culmann, O., Immortalité de Fame ou résurrection des morts? em: Des sources de I'Evangile à Ia&lt;br /&gt;formation de la théologie chrétienne, Neuchâtel 1969, 149-171; de Ia Cuesta, I. F., El estado de muerte: inmortalidad o resurrección? em: Liturgia (Burgos) 429-444; Bordoni, M., La morte nella prospettiva biblica, em: Dimensioni antropologische della morte, op. cit., 123-169 com rica bibliografia.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;66&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;fé na ressurreição, dos mortos. A filosofia grega, nomeadamente o platonismo, sob cuja influência esteve a jovem Igreja missionária no mundo helênico, conhece a imortalidade da alma. Mas não conhece nem pode imaginar uma ressurreição. A reflexão na teologia cristã conciliando os aut-aut com um et-et formulou a seguinte proposição: a alma é imortal. Depois da morte do justo, separada do corpo, ela é julgada por Deus e goza de sua presença até o fim do mundo quando será novamente reunida ao corpo agora ressuscitado para com ele gozar eternamente da comunhão com Deus. A doutrina da imortalidade da alma dos gregos foi completada com a outra bíblica da ressurreição dos mortos. Com isso se afirma:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;a) a morte não é total: atinge apenas o corpo do homem;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;b) a ressurreição também não é total: atinge tão somente o corpo;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;c) o homem é fundamentalmente um composto de duas substâncias em si incompletas: corpo e alma. Tomás de Aquino dirá: serão dois princípios que unidos formam o homem uno. A alma é a forma do corpo e mantém uma relação essencial com a matéria. Separada retém da mesma forma essa relação transcendental de tal modo que sempre tende a reunir-se ao corpo. Separada do corpo vive um estado contrário à sua natureza e por isso violento.(4) Essa tendência não fundamenta ainda a ressurreição do corpo, como alguns querem, mas apenas sua revivificação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;4 Cf. Pala, G., La risurrezione dei corpi nella teologia moderna, Roma 1963, 47-66 esp. 56.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;67&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Semelhante combinação efetuada dos padres até os escolásticos abandonou, na verdade, tanto o pensar platônico quanto o bíblico. A filosofia platônica não conhece a valorização do corpo nem aceita que a alma, finalmente livre, possa voltar ao corpo-cárcere (soma-sema em grego: Platão, Górgias 47,493 A). Por outro lado, o semita não conhece uma alma sem corpo, nem possui palavra correspondente para isso. Se ela sobreviver à morte sê-lo-á sempre em forma corporal. Por outro lado Platão concebe a morte como ascensão para a liberdade e total espontaneidade da alma. Para a Bíblia a morte significa uma descensio ad inferos (xeol) onde reina sombra e vida imperfeita.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Essa concepção dualista (mitigada porém em Tomás de Aquino) pervadiu toda a antropologia católica(5) com não poucas conseqüências querigmáticas. A práxis eclesial pregou muito mais a imortalidade da alma que a ressurreição dos mortos. Anunciou com mais freqüência um axioma filosófico que uma verdade revelada, que para a Igreja primitiva era indiscutivelmente o centro de todo o anúncio cristão. Esse platonismo depurado entrou nas formulações dogmáticas como a de Bento XII (Benedictus Deus de 29 de janeiro de 1336) e a bula Apostolici regiminis de 19 de dezembro de 1513 do quinto Concilio do Latrão. Bento XII diz que as almas de todos os santos e de todos os que morreram com o batismo e não têm nada a pagar no purgatório «vão imediatamente após sua morte» para o céu para estar com Cristo e mesmo antes da «reassunção de seus corpos vêem a essência divina, com visão intuitiva, inclusive facial, sem a mediação de qualquer outra criatura» (DS 1000). Leão X no Concílio de Latrão canoniza a doutrina platônica da imortalidade da alma contra Pietro Pomponazzi, neo-aristotélico averroísta, com a seguinte afirmação: «Condenamos e reprovamos todos os&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;5 Cf. o estado da questão da pesquisa histórica e atual em: Francis Fiorenza e J. B. Metz, Der Mensch aIs Einheit von Leib und Seele, em: Mysterium Salutis II, 1967, 584-632, esp. 602ss.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;68&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;que afirmam que a alma intelectiva seja mortal ou a mesma em todos os homens» DS 1440; cf. 2766, 3771). Não é aqui o lugar de fazermos a hermenêutica de tais afirmações, situá-las dentro das coordenadas da opção antropológica grega e ressaltar o fato de que só dentro do sistema podem ser entendidas corretamente e ganham sua validade teológica. Se o Concílio de Latrão se movesse dentro do horizonte da antropologia semita poderia fazer a afirmação que fez? Certamente em vez de falar em imortalidade da alma, canonizaria a imortalidade da pessoa humana total e não de uma parte dela. Essa interpretação parece, segundo as mais recentes pesquisas(6), revestir de fato a intenção conciliar. M. Schmaus, no seu recente manual de dogmática, diz: «Não há nenhuma declaração do Magistério que defina obrigatoriamente a morte como separação do corpo e da alma. As declarações oficiais querem garantir a continuidade da vida do homem para além da morte mas não afirmam expressa e formalmente que esta vida deva ser entendida exclusivamente como imortalidade da alma espiritual. Quando os textos do Magistério (especialmente a declaração de Bento XII: DS 1000) afirmam a imortalidade da alma espiritual utilizam uma formulação emprestada do modelo grego de pensar, através do qual era explicada a sobrevivência do homem para além da morte».(6a) Em todos os casos, nota-se aqui a emergência de duas antropologias diferentes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2. A morte no pensar platônico e no pensar semita&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porque são duas antropologias diferentes, distintas apresentam-se também as concepções da morte. Basta que tracemos um paralelo, já usado outrora pelos filósofos pagãos contra os cristãos, para darmo-nos conta dessa verdade: a morte de Sócrates com a de Cristo.&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;&lt;br /&gt;6 ld, 617: «A imortalidade é atribuída à alma, porque o homem individual em sua concreção histórica é imortal».&lt;br /&gt;6a Schmaus, M., Der Glaube der Kirche II, Munique 1970, 744.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;69&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Platão com maestria inimitável traça no Fédon a figura soberana de Sócrates frente à morte. A morte é «a separação do corpo e da alma». (7) Esta anseia libertar-se do cárcere para estar em si mesma e poder contemplar as idéias eternas. Disso se segue que «o filósofo autêntico é o que se exercita no morrer e para quem nada é menos terrível do que a morte». (8) «Os que filosofam estão em contínua agonia de morrer» (9), «purificando o contacto da alma com o corpo na esperança de que Deus mesmo venha romper as ataduras que os unem». (10) E narra então como Sócrates «tomou o cálice (de sicuta) em seus lábios, e o bebeu com uma tranqüilidade e uma doçura maravilhosas». (11) «Este é o fim de nosso amigo, do homem, podemos dizer o melhor dos homens que tivemos conhecido nesse tempo, o mais sábio, o mais justo de todos os homens».(12)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em contraposição a Sócrates, temos a morte de Jesus.(13) Ele prevê um fim trágico: «sua alma está triste até à morte» (Lc 26,38). Lucas caracteriza ainda mais: «e cheio de angústia orava com mais instância. E seu suor tornou-se como grossas gotas de sangue, que corriam até à terra» (Lc 22,44). Ele estremece, sente-se só e abandonado pelos seus (Mt 26,40): «Pai, se puderes afasta de mim este cálice» (Mc 14,36). A morte é inimiga do homem a quem tudo está submetido. O autor da epístola aos Hebreus, com tons existencialistas, nota que Jesus «elevou orações e súplicas com grande clamor e lágrimas Àquele que o podia salvar da morte» (5,7). À diferença de Sócrates, não morre sereno, mas quase às raias do desespero: «dando um grande grito, expirou» (Mc 15,37). Para o semita a morte não é libertação, «formoso risco» (14), como diz elegantemente Platão, mas a grande potên-&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;7 Cf. Platonis Opera, ediç. de I. Burnet, Oxford 1961, 67 d.&lt;br /&gt;8 Id., 67 e.&lt;br /&gt;9 Id., 64 b.&lt;br /&gt;10 ld., 67 a.&lt;br /&gt;11 Id., 117 e.&lt;br /&gt;12 Id., 118; cf. também de Ia Cuesta, El estado de muerte, op. cit., 431.&lt;br /&gt;13 Cf. com a bibliografia aí citada: Boff, L., O sentido da morte de Cristo, em: Jesus Cristo Libertador, op. cit., 113-133.&lt;br /&gt;14 Fédon, op. cit., 114 d.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;70&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;cia do mal, que entrou por causa do pecado (Rom 5,12), «o último inimigo a ser reduzido ao nada por Deus» (lCor 15,26).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Essa contraposição releva a diferença profunda entre as duas antropologias e correspondentes concepções da morte. Para o grego platônico o homem não morre totalmente, sua alma é imortal. Para o semita o homem todo inteiro morre ou assume uma forma imperfeita de vida no xeol; porém, para a fé neotestarnentária, ele ressuscita todo inteiro. Isso deveremos ver mais minuciosamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3. A experiência da ressurreição de Cristo como novo horizonte para a antropologia&lt;br /&gt;O Novo Testamento jamais prega em seu anúncio central a imortalidade da alma, mas a ressurreição dos mortos como o grande futuro do homem para o após-morte. Essa mensagem não é fruto de uma especulação de ordem antropológica, mas de uma experiência vivida que os levou a exclamar radiantes: «O Senhor ressuscitou verdadeiramente e apareceu a Simão» (Lc 24,34). (15) Esse fato porém trouxe-lhes um enriquecimento antropológico novo: a morte foi vencida e seu poder até agora inquebrantável se revelou ser um espantalho: «ó morte, onde está a tua vitória? A morte foi tragada na vitória» (lCor 15,55). Convém notar muito bem, e nisso nos distanciamos de Willi Marxsen e Heinz Robert SchIette: não foi por causa das categorias antropológicas semitas que os fenômenos das aparições e do sepulcro vazio puderam ser interpretados como ressurreição. A ressurreição foi um impacto que surpreendeu os apóstolos e os dominou. De repente «o que ouvimos, o que com nossos olhos vimos, o que contemplamos e o que nossas mãos palparam tocando», o crucificado, morto e&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;15 Para a problemática atual e a exegese crítica sobre os textos de ressurreição veja o capítulo precedente e todo o número da Revista Concilium 60 (1970).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;71&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;sepultado estava diante deles. Não simplesmente revivificado, como alguém que assumira seu cadáver, mas totalmente transfigurado, glorioso e repleto de Deus. Essa experiência originária, que de início foi interpretada dentro das categorias do pensar apocalíptico como elevação do justo sofredor junto de Deus, foi posteriormente inserida dentro das categorias antropológicas tradicionais do judaísmo.(16) A antropologia semita serviu de material de representação para comunicar aos fiéis a novidade da ressurreição do Senhor. Com isso não se quer dizer que o modelo antropológico semita tenha sido canonizado ou que seja melhor e mais adequado do que qualquer outro antigo ou moderno. Apenas serviu de material representativo com o qual a experiência de ressurreição pôde ser expressa, e assim ter chegado até nós. A novidade antropológica conquistada a partir da ressurreição de Cristo é a seguinte: se Cristo ressuscitou, então nós também haveremos de ressuscitar; Ele é o primeiro e «todos somos vivificados nele» (lCor 15,20.22; Rom 8,29; Col 1,18). Sua ressurreição não emerge como um fato isolado, mas se dimensiona universalmente a toda a humanidade, porque Ele é o novo Adão (Rom 5,14).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;a) Categorias antropológicas semitas e Ressurreição&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como o Novo Testamento concretiza essa novidade? Que categorias antropológicas servem de meio de comunicação? Há unanimidade entre os exegetas em afirmar que a ressurreição foi expressa não nas categorias gregas de corpo e alma mas nas semíticas de carne-corpo-espírito.(17) Precisamos deixar isso bem claro. Porque nem sempre quando um semita usa a&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;16 Elo Cf. Seidensticker, Ph., Die Auferstehung Jesu in der Botschaft der Evangelisten, Stuttgart 1968, 31-58.&lt;br /&gt;17 Cf. Carrez, M., L'hermenéutique paulinienne de Ia résurrection, em: La résurrection du Christ et l'exégèse rnoderne, Paris 1969, 55-74; Grass, H., Ostergeschehen und Osterberichte, Goettingen 1962, 146-173; GrabnerHaider, A., Auferstehungsleiblichkeit, em: Stimmen der Zeit 181 (1968) 217-222.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;72&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;palavra corpo ou espírito deve-se entender a mesma coisa, como corpo e espírito, dentro do modelo grego de antropologia. A mesma palavra corpo para um e para outro significa bem outra realidade. Para nós, ocidentais e herdeiros da cultura grega, impõe-se especial atenção, porque em nosso sistema lingüístico as palavras corpo e espírito possuem um significado bem determinado, diverso daquele dos semitas ou do capítulo 15 da primeira epístola de S. Paulo aos Coríntios. Nesta epístola Paulo coloca-se diretamente a pergunta: «Como ressuscitam os mortos? Com que corpo voltam à vida?» E responde: «ressuscita-se um corpo espiritual» (lCor 15,35.44). Que significa essa expressão? Corpo não exclui o espírito? Para o nosso pensar, e também para o grego, espírito se contrapõe ao corpo, porque corpo é material e espírito é imaterial. Por que Paulo une duas coisas contraditórias? Porque para ele, bem como para todo pensar semita, espírito não se contrapõe a corpo. (18) Como veremos pormenorizadamente logo abaixo corpo significa o homem todo inteiro (interior e exterior: 2Cor 4,16; Rom 7,22; corpo e alma) enquanto é comunhão; corpo é o termo mais próximo ao nosso conceito de personalidade. Nesse sentido o homem não tem corpo mas é corpo. O homem-corpo pode transformar-se em carne pelo pecado. Carne significa a situação humana rebelde contra Deus (Rom 2,28-29). «A carne é fraca» (Mc 14,38), e «suas tendências são a morte» (Rom 8,6) que entrou por causa do pecado (Rom 8, 12). Paulo chega a falar em corpo da carne (Col 2, 11), isto é, a personalidade humana (corpo) organizada contra Deus (carne; cf. ainda corpo de pecado [Rom 6,6], ou carne do pecado [Rom 8,3], ou ainda em corpo de morte [Rom 7,24]; corpo de humilhação e de desonra [Flp 3,21; lCor 15,43]). A carne não pode herdar o reino de Deus (lCor 15,50) enquanto que o corpo é para o Senhor (lCor 6,13). Por isso&lt;br /&gt;18 Sobre essa problemática veja: Gelin, A., L'homme selon Ia Bible, Paris 19 68, 9-16; Kümmel, W. C., Das Bild des Menschen im Neuen Testament. Zurique 1948, 20.40; Herrade Mehl Koehnlein, L'homme selon l'apôtre Paul, Neuchâtel 1951, 31-37.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;73&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Paulo nunca fala em ressurreição da carne, mas do corpo que deve ser mudado (lCor 15,51) e transformado (Rom 6,6; 8;23; Flp 3,21) em corpo espiritual. Espírito, por seu turno, indica o princípio pelo qual o homem se ordena a Deus. Deus mesmo é espírito (ruah), poder e força de vida e de ressurreição: «o espírito é que dá a vida e a carne para nada serve» (Jo 6,63). Espírito se opõe, não ao corpo, mas à carne: «as tendências da carne são a morte, mas as do espírito são vida e paz» (Rom 8,6). Se Paulo diz que o homem pela ressurreição transformou-se em corpo espiritual, isto significa: a personalidade humana, a partir de agora, é totalmente comunhão, abertura, comunicação com Deus, com os outros e com o mundo. O «corpo de carne» sofredor, sujeito às tentações e ao pecado, é totalmente libertado e feito corpo-espiritual. A ressurreição operou esta transformação. Portanto a verdadeira libertação não reside no abandono do corpo, mas na sua assunção e total orientação para Deus, de tal forma que o homem se torne repleto da realidade divina através da ressurreição. Numa palavra: com a expressão corpo espiritual, Paulo quer dizer o seguinte: pela ressurreição o homem todo inteiro foi radicalmente repleto da realidade divina e libertado de suas alienações como fraqueza, dor, impossibilidade de amor e de comunicação, pecado e morte. O homem não abandonou nada de seu estatuto antropológico, apenas foi totalmente libertado e penetrado da realidade divina. Isso se chama ressurreição, que deve ser fundamentalmente distinguida de revivificação. (19) O homem ressuscita não para a vida biológica, mas para a vida eterna, não mais ameaçada pela morte. A ressurreição se define então como a escatologização da realidade humana. A introdução do homem como totalidade corpo-alma no reino de Deus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Essa certeza desdramatiza a morte, pois ela não é a última palavra que Deus pronunciou sobre o destino humano. Aqui encontramos também o ponto de&lt;br /&gt;19 Cf. Hengstenberg, H. - E,, Der Leib und die letzten Dinge, Regensburg 1955, 151ss; 249ss.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;74&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;convergência entre a concepção platônica e cristã de morte: ambos através de caminhos diversos conseguem a mesma serenidade e confiança frente ao mesmo mistério. Sócrates suspira pela morte como condição para a imortalidade da alma. O cristão, a partir de uma ótica diferente, encara com serena alegria a morte, pois desde que Cristo ressuscitou não há mais a segunda morte; a primeira morte se transformou em passagem para a glorificação do Pai (Jo 13,1).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;b) Quando se dará a Ressurreição?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A vida cristã é um estar-com-Cristo, expressão que ocorre 196 vezes no Novo Testamento para exprimir a mais íntima união do fiel com Cristo ressuscitado e pneumático. Isso implica que «aqueles que se revestiram de Cristo são nova criatura» (2Cor 5,17; Gál 3,27). As forças do século futuro já estão agindo dentro do coração do mundo (cf. Hbr 6,5). O batismo, segundo a teologia paulina, nos faz participar da morte e ressurreição de Cristo (Rom 6,1-11; Col 2,12). Mais ainda: Deus não só nos «co-ressuscitou, senão que nos sentou nos céus em Cristo Jesus» (Ef 2,6). Porém essa vida nova com Cristo em Deus permanece escondida e só será visível na parusia (Col 3,1-4), que para Paulo era iminente. No início de sua pregação fala de fato da ressurreição dos mortos em termos de futuro próximo (lTes 4,1517). Ele mesmo espera poder presenciar ao arrebatamento dos vivos nas nuvens, ao encontro do Senhor (v. 17). Depois, devido aos perigos de morte porque passou (lCor 15, 32; 2Cor 1,8-10; 4,712), começa a contar com um possível desenlace. Então coloca-se a questão da existência do homem no intervalo entre a morte e a pa-&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;2. Cf. Deissmann, A., Die neutestainentliche Formel 'in Christo Jesu',Marburg 1892; Dupont, J., Syn Christó, l'union avec le Christ suivant int Paul, Brugges 1952; Hoffmann, P., Die Toten in Christus. Eine religionsgeschichtliche und exegetische Untersuchung zur paulinischen Eschatologie, Muenster 1966, 301-320; Bordoni, M., Dimensioni antropologische della morte, pp. cit., 210-234.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;75&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;rusia. (21) Paulo argumenta da seguinte forma: nossa habitação terrestre é o corpo mortal. Se esta habitação desmoronar (morrer), não nos preocupemos porque temos nos céus uma habitação eterna, isto é, um corpo celeste. Na parusia os mortos que estão no Senhor (cf. Flp 1,23) serão revestidos deste corpo celeste e os que ainda não morreram serão sobrevestidos de tal forma que a nossa mortalidade seja absorvida pela vida (cf. 2Cor 5,1-5). Ele prefere estar entre os vivos e ser sobrevestido a estar entre os mortos já vestidos. Apesar disso «quiséramos exilar-nos do corpo, e tomar morada junto do Senhor» (2Cor 5,8). Como é a vida junto do Senhor, exilado do corpo, não fica muito claro no pensamento de Paulo. Certo é que se apresenta mais desejável que a vida no corpo longe dele (2Cor 5,6-8; Flp 1,23).(23) Paulo parece não ver ele mesmo nitidamente como deva ser a vida dos mortos em relação ao Senhor ressuscitado. Em todos os casos, confessa : «conformemente aguardo e espero, em nada serei confundido; antes, estou inteiramente seguro, como sempre, também agora, de que Cristo será glorificado em meu corpo, ou pela vida ou pela morte. Pois para mim a vida é Cristo, e a morte lucro» (Flp 1,20-22). Ele afirma por um lado que a ressurreição, conforme a doutrina comum dos judeus, se realizará no fim do mundo com a parusia do Senhor, por outro acentua que o essencial já se realizou nessa vida terrestre pela fé, esperança e batismo; este já nos fez morrer, ressuscitar e estar com Cristo nos céus (Rom 6,1-11; Col 2,12; Ef 2,6). Já agora somos possuidores daquele Espírito que ressuscitou a Jesus dos mortos. «Ele dará também a vida aos nossos corpos mortais» (lCor 6,14).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mesma dialética entre o presente e o futuro surge no evangelho de S. João. Por um lado afirma-se&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;21 Benoit, P., Ressurreição no fim dos ou logo , depois da morte? em: Concilium 60 (1970) 1289-1298; Carrez, M., Com que corpo ressuscitarão os mortos? em: Concilium op. cit., 1280-1288.&lt;br /&gt;22 Cf. Feuillet, A., La demeure céleste et la destinem des chrétiens. Exégèse de 2Cor 5,1-10 et contribuition à Fétude des fondements de l'eschatologie pauIinienne, em: RSR 44 (1956) 161-192; 360-402.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;76&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;a ressurreição para o último dia, como os judeus criam (Jo 11,24; 6,39-40.44.54), por outro precisa-se que quem crer em Jesus já possui a vida (5,24; 6, 40.47), passou da morte para a vida e já não morre mais (11,26; 5,24-25). A escatologia já agora emerge como uma realidade presente, porém ainda não perfeita e acabada: «agora nós somos filhos de Deus, embora ainda não se haja manifestado o que havemos de ser. Sabemos que, quando Ele aparecer, seremos semelhantes a Ele, porque o veremos tal qual Ele é» (1Jo 3,2). Como transparece, tanto em Paulo como em João, verifica-se o deslocamento dos acentos, do futuro para o presente, sem contudo absorver totalmente o futuro no presente. A união com o Ressuscitado aqui na terra é tão íntima que significa uma verdadeira libertação da morte. A sobrevivência da alma, tal como a reflexão da teologia posterior tentou eruir destes textos de ressurreição parece não ser afirmada por eles. Falam simplesmente em ressurreição que afeta o homem todo. A ressurreição é obra do Espírito que já agora possuímos. Ele manterá a continuidade entre a vida e a morte: «quer vivamos, quer morramos, somos do Senhor» (Rom 14,8). Benoit (23) aventa a idéia de que a morada celeste que nós já agora possuímos no céu não seja individual. Antes, tratar-se-ia do corpo do Senhor ressuscitado. Na terra já estamos inseridos nesse corpo. A morte nos faria participar mais profundamente lamente desse corpo. A total transfiguração do homem individual, porém, vii-ia no final do mundo juntamente com toda a criação (Rom 8,23).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O conceito de ressurreição, como sublinha fortemente Marcello Bordoni, num brilhante trabalho sobre as dimensões antropológicas da morte, não possui tanto, para o Novo Testamento, um caráter cósmico-apocalíptico de repristinação corpórea do homem, devido a uma exigência antropológica. Antes possui um caráter religioso concernente às relações do homem com&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;23 Benoit, P., Ressurreição no fim dos tempos...? op. cit., 1298&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;77&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deus por Cristo, agora totalmente realizadas como amizade, amor e radical reconciliação. A ressurreição corpórea a se realizar no fim dos tempos seria a plenitude daquilo que na terra já começou e se prolongou para além da morte como um estar-com-Cristo. (24) Contudo, urge observar que lCor 15,35-55 não permite semelhante espiritualização do conceito de ressurreição. Os textos abordam ex professo e data opera o problema da realidade terrestre do homem em relação à ressurreição. A solução que Paulo aí formula, embora ele mesmo quiçá não tenha visto todas suas conseqüências se articula na seguinte proposição: «é preciso que este corpo corruptível (a pessoa) se revista de incorrupção, e que este ser mortal (pessoa) se revista de imortalidade» (lCor 15,53). Assim a ressurreição é apresentada como a transfiguração total do homem, de situação terrestre em situação celeste. Deus não substitui o velho pelo novo. Mas faz do velho novo. A ressurreição criou um horizonte antropológico novo para o cristão: não se fala jamais em imortalidade da alma, mas em ressurreição na forma de estar-com-Cristo. Porque estamos em Cristo, já agora a morte é uma das formas de estarmos com Ele (2Cor 5,8; Flp 1,23) ; é uma passagem (Jo 5,24) semelhante à morte de Cristo, passagem deste mundo para o Pai (Jo 13,1) como glorificação (Jo 17,1-2), concernindo o homem todo e não parte dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;24 Le dimensioni antropologische della morte, op. cit., 233-234.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8234801168287087039-3508887050596522881?l=despejadodogeocities.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://despejadodogeocities.blogspot.com/feeds/3508887050596522881/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://despejadodogeocities.blogspot.com/2009/12/ressurreicao-de-cristo-nossa_08.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8234801168287087039/posts/default/3508887050596522881'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8234801168287087039/posts/default/3508887050596522881'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://despejadodogeocities.blogspot.com/2009/12/ressurreicao-de-cristo-nossa_08.html' title='A Ressurreição de Cristo A Nossa Ressurreição na Morte (parte II)'/><author><name>Taborita</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09448797140788846841</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='23' src='http://2.bp.blogspot.com/-8olRm7HDoq4/TiY26TcYT5I/AAAAAAAAArE/Gq-YHIfZizE/s220/cats.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8234801168287087039.post-5081865047297379990</id><published>2009-12-08T19:45:00.000-08:00</published><updated>2009-12-08T20:28:07.441-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Leonardo Boff A Ressurreição de Cristo'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='A Nossa Ressurreição na Morte'/><title type='text'>A Ressurreição de Cristo, A Nossa Ressurreição na Morte (parte III)</title><content type='html'>&lt;span style="font-style:italic;"&gt;por Leonardo Boff&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Ressurreição de Cristo&lt;br /&gt;A Nossa Ressurreição na Morte&lt;br /&gt;(parte III)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;II. RELEITURA DA RESSURREIÇÃO DENTRO&lt;br /&gt;DA ANTROPOLOGIA DE HOJE&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A fé na ressurreição de Cristo e sua relevância para nós foi pelo Novo Testamento expressa com as possibilidades que a antropologia semita oferecia. Devemos reconhecer com J. Ratzinger que esta mediação se apresenta extremamente arrojada e generosa (25), traduzindo de forma muito adequada a experiência que&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;24 Le dimensioni antropologische della morte, op. cit., 233-234.&lt;br /&gt;25 Ratzinger, J., Einführung in das Christentum. Munique 1969, 297.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;78&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;os Apóstolos tiveram de Jesus como ressuscitado. Como vamos nós, que não somos mais semitas, nem em antropologia nos filiamos às coordenadas de interpretação deles, expressar essa mesma convicção? A ressurreição é para nós certeza alegre e esperança alviçareira a abrir-nos um futuro desanuviado e absoluto porque cremos: o futuro de Cristo é o futuro da humanidade. Ao vivermos nossa fé na ressurreição de Cristo e dos demais homens, que instrumentos antropológicos utilizamos para a nossa própria compreensão e para fazer-nos entender por aqueles que nos pedem as razões de nossa esperança (lPdr 3,15) ? Há algum entrosamento entre ressurreição e a antropologia, como hoje a concebemos?(26) Paulo encontrou na expressão acima analisada corpo espiritual, típica de seu horizonte de compreensão antropológica, semelhante inserção. Nós hoje aonde nos situaremos?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Observação metodológica: a tipicidade do pensar teológico&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antes de abordarmos essa questão, impõe-se uma reflexão sobre a metodologia teológica. Teologia é uma reflexão crítica, sobre a experiência cristã de Deus, do homem e do mundo. Portanto, teologia é retrabalhar questionando e refletindo a fé cristã. O positivismo dogmático, que se preocupa simplesmente em re-&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;26 A literatura antropológica moderna é multidão. Referiremos aqui obras que já fazem trabalho sistemático, lato é, intetizam as grandes linhas da reflexão. Para o nosso problema alio significativas: Hengstenberg, H.-E., Der Lei und die letzten Dinge, Regensburg 1955; WenzI, A., Unsterblichkeit ihre metaphysische und anthropologischc Bedeutung, Berna 1951; van Peursen, C. A., Leib, Seele, Geist, Gerd Mohn 1959; Vários, Geist und Leib in der menschlichen Existenz. Freiburg-Munique 1961, trabalhos e discussões entre cientistas e teólogos; 14itiimgruber, K., Atom und Seele. Ein Beitrag zur Erörterung des Leib-Secle-Problems, Freiburg 1958; Gödan, II., Die Unzuständlichkeit der Seele. Stuttgart 1961; L'âme et le corps. Recherches et Debats 35, Paria 1961; Maler, W., Das Problem der Leiblichkeit bei Jean-Paul Sartre und Maurice Merlau-Ponty, Tübingen 1964; Metz, J. B J. , Caro cardo salutis. Zum christlichen Verständnis des Leibes, em: Hochland 55 (1962) 97.107; Mouroux, J.. Sens chrétien de l'homme, Paris 1945; Vários, A redescoberta do homem. Do mito à antropologia crítica, Petrópolis 1970; Harada, H., Fenomenologia do corpo. Situação como existência corporal, em: Vozes 65 (1971) 21-28; Boff, L., Teologia do corpo. o homem-corpo é imortal, em: Vozes 65 (1971) 61-68.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;79&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;construir e sistematizar as declarações oficiais do passado e também do presente com os conceitos nelas implicados e o biblicismo que procede com o mesmo método sem o cuidado de repensar seus dados frente à e dentro da experiência da fé como é sentida hoje constituem os dois grandes perigos da teologia.(27) O perigo não é menor àquele tipo de teologia que, sem ficar ela mesma como teologia, no diálogo com outras ciências humanas, perde sua identidade e se torna serva de outras ciências. Desta forma a teologia não repensa mais sua própria experiência, mas a de outro horizonte e assim se perde como teologia ou se afirma como ideologia. Com propriedade, ponderava Heidegger: «Somente tempos que não mais crêem na verdadeira grandeza da missão da teologia chegam a ter a perversa idéia de que se possa ganhar e até substituir a teologia através de uma pretensa renovação dela com o auxílio da filosofia (nós diríamos das ciências humanas) e assim articulá-la ao gosto das necessidades do tempo». (28) Hoje o dialogante principal da teologia não é mais a filosofia no sentido clássico, mas as ciências humanas. E como estas conheceram nos últimos anos um vertiginoso progresso, o perigo para a teologia de perder sua identidade se torna proporcionalmente maior. A interdisciplinaridade na abordagem dos problemas também teológicos não significa nem exige a perda da identidade de cada ciência. O teólogo verá com olhos de teólogo e a partir da experiência da fé a relevância teológica dos dados sociológicos, antropológicos, psicológicos, etc. Ele não será (não exclui que também o seja) um antropólogo, mas lerá com seus olhos de teólogo a contribuição que a antropologia traz na decifração do mistério humano, donde partem e para onde devem convergir todas as ciências, se não quiserem transformar-se em ideologias. Para o nosso tema isso significa: como a luz da fé na ressurreição e o horizonte antropológico&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;27 Cf. Rahner, K., Philosophie und Philosophieren in der Theologie, em Schriften zur Theologie VIII,&lt;br /&gt;EinsiedeIn 1967, 66-87, esp. 69.&lt;br /&gt;28 Einführung in die Metaphysik, Tübingen 1953, 6.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;80&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;novo, aberto por essa experiência, podem iluminar os dados antropológicos conhecidos e recebidos de outras ciências? De que forma a ressurreição se articula com o princípio-esperança experimentado no homem? Pode a antropologia ver na ressurreição uma relevância para si mesma, no sentido de que a fé articula e explicita aquilo que implícita e latentemente está implicado e já visualizado atematicamente na própria antropologia? Uma teologia que reflete seus próprios conteúdos (e se dá conta em que horizonte hermenêutico são projetados) e a partir daí procura situar-se frente à vasta experiência humana, hoje em dia analisada por tantas ciências, não pode eximir-se de responder ou de preocupar-se com semelhante questionamento. Trata-se de reler a fé na ressurreição dentro de uma outra experiência do mundo e do homem que o teólogo, filho de seu tempo, também faz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2. A personalidade como unidade de dimensões plurais&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A descoberta marcante que causou a grande virada antropológica do pensar moderno se verificou com a tematização e a reflexão sistemática sobre a subjetividade humana. O homem se entende por excelência como personalidade. Ele não é um ser entre outros seres no mundo. Ele é o único que na ordem do mundo existe. Os objetos não existem embora sejam. Existência quer dizer a capacidade que o ser tem de sair de si e regressar para si (reflexão) e de objetivar e distanciar-se do mundo. Mais: o homem não se define tanto por aquilo que recebeu, mas por aquilo que se tornou e de forma responsável quis. Daí que personalidade não é sinônimo pura e simplesmente de pessoa, que é o ontologicamente dado e recebido. Mas é formalmente o exercício livre do ser-pessoa.(29) Personalização é um processo que se efetua na história sob a base dos dados da pessoa e da natureza: o&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;29 Cf. para uma orientação Libânio, J. B., Modernos conceitos de pessoa e Personalidade de Jesus, em: REB 31 (1971) 47-64; Boff, L., O destino do Homem e do Mundo, CRB, Rio de Janeiro 1972, 43-47.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;81&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;existir-no-mundo, em-comunhão-com-outros, com a carga hereditária, cultural e psicológica que herdou e independe dele, etc.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Geneticamente o homem procede da evolução animal, mas deixou atrás de si o animal e o ambiente circunstante típico do animal. Está em busca de seu lugar na natureza e ainda não o encontrou. Resume em si todas as camadas do ser e por ele passa o eixo da evolução ascendente. Mas possui um princípio ou dimensão que continuamente contesta o Bios. (30) Como espírito não está amarrado aos condicionamentos biológicos, mas liberta-se pela liberdade e espontaneidade e quando impossibilitado sublima-os. É um ser-carência: não possui, biologicamente, nenhum órgão especializado. Contudo faz desta desvantagem biológica sua arma principal: cria instrumentos para modificar o mundo circunstante e assim elabora culturas e o mundo de segunda mão. (31) Carrega em si um mundo inconsciente pessoal e coletivo, onde se acumulam todas as experiências bem sucedidas e frustradas da raça e do processo evolutivo anterior. Leva dentro de si também as experiências que fez no encontro com o Numinoso e o Divino, aquele mistério tremendum et fascinosum experimentado com a fascinação do fenômeno Deus. (32) Sua vida consciente revela no compreender, no querer, no sentir e na experiência fundamental do amor e da esperança uma transcendência a todos os atos concretos, experiência essa que se verifica em cada ato. Seu horizonte natural é o&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;30 Cf. Scheler, M., Die StelIung des Menscheti im Kosmos, Berna 6 1862, 36ss.&lt;br /&gt;31 Essa perspectiva foi desenvolvida por toda urna corrente de antropologia especialmente por Gehlen, A., Der Mensch. Seine Natur und seine StelIung in der Welt, Frankfurt-Bonn 81966; Id., Anthropologische Forschung, Hamburg 1961; Portmann, A., Zoologie und das neue Bild des Menschen, Hamburg 1956; Buytendijk, F. J. J., Mensch und Tier, Hamburg 1958; Plessner, H., Die Stufen des Organischen und der Mensch, 1928. Veja também a elaboração teológica de W. Pannenberg, que sem abandonar o horizonte próprio da teologia e sem fazê-la serva de outras ciências conseguiu um aprofundamento antropológico-teológico digno de nota: Was ist der Mensch? Die Anthropologie der Gegenwart ira Lichte der Theologie, Göttingen 1968, esp. 5-13; de forma semelhante para a filosofia, sem tornáIa com isso urna sucursal de outras ciências humanas; Rothacker, E., Philosophische Anthropologie, Bonn 1966; Rombach H., Die Frage nach dem Menschen. Aufriss einer philosophischen Anthropologie, Freiburg 1966, de Ia Pefia, J. R., El hombre y su muerte, op. cit. (nota 1) 69-116.&lt;br /&gt;31 Cf. Strauss, C. - L., La pensée sauvage, Paris 1962; Neumann, E., Ursprungsgeschichte des Buwusstseins, Munique 1964.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;82&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ser total e o correspondente à sua radical abertura não é o mundo mas Deus. (33) Historicamente através do mito, do logos e do saber científico mostrou a capacidade de sempre elaborar novas sínteses, conservando a mesma identidade humana.(34) Sociologicamente é um ser criador de culturas e sistemas de convivência. Mas não se identifica jamais com eles totalmente nem se esgota em semelhantes concretizações. Há nele uma possibilidade permanente de dinamismo contestatório do realizado e alcançado em vista de um futuro melhor. (35)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em tudo o homem revela um caráter excêntrico e assintótico. É contudo na reIação com o mistério absoluto que descobre seu próprio mistério e as verdadeiras dimensões de sua dignidade. Deus se insere não como um alheio dentro do sua experiência. Mas é sua máxima profundidade. Todas as ciências verificam o fenômeno: o homem é um ser aberto à totalidade da realidade. Ele é abertura. Para quem e para que está aberto? Para o mundo? Mas ele se mostra maior que o mundo; modifica-o constantemente em paisagem humana e fraterna; ele não é a resposta adequada ao seu perguntar. Para a cultura? Mas ele cria sempre novas e as utopias constituem o fermento permanente da contestação criadora. A abertura do homem se orienta para um vis-à-vis, para uma meta que lhe seja correspondente. A linguagem cunhou a palavra Deus para significar a meta total e absoluta da busca insaciável do homem. Deus, nesse sentido, possui um significado antropológico imponderável. (36)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;33 É a antropologia de Rahner e de seus discípulos elaborada sob a inspiração do método transcendental: Hörer des Wortes, München 1963; Metz, J. B., Christliche Anthropozentrik, München 1962; na filosofia italiana característico dessa orientação é M. F. Sciacca, Acta et Être, Aubier 1958; ld., L'uomo questo squilibrato. Bocca, Roma 1956; uma tentativa de sistematização do pensamento antropológico de Sciacca veja: Boff, L., A filosofia da integralidade de M. F. Sciacca, em: Vozes 1964 em quatro artigos sucessivos.&lt;br /&gt;34 Cf. Jaspers, K., Psychologie der Weltanschauungen. Hermeneutik des Daseins ira Sinne einer existentiellen Anthropologie, 1919; Id., Vom Ursprung und Ziel der Geschichte, Hamburg 1955, 14ss.&lt;br /&gt;35 Behrendt, R. F., Der Mensch im Licht der Soziologie, Berlin 1962; Bloch, E., Prinzip Hoffnung, 2 vol., Frankfurt 1959.&lt;br /&gt;36 Cf. Pannenberg, W., Was ist der Mensch? em: Disputation zwischen Christen und Marxisten, München 1966, 179-194, esp. 182ss; Id., Die Frage nacht Gott, em: Grundfragen systematischer Theologie, Goettingen 1967, 361-386.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;83&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estar aberto para o mundo significa portanto estar aberto para Deus. A situação assintótica e excêntrica do homem como um-ser-a-caminho-de-Deus é decifrada, pelas religiões, como um-ser-que-procede-de-Deus e por isso dentro da história um homo viator em busca do Absoluto, porque vem dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Formalizando o que acabamos de expor, podemos dizer: o homem é um ser em tensão constante entre uma abertura realizada e uma abertura absoluta. Ele está dimensionalizado para a totalidade e contudo sempre preso nas estreitezas da situação concreta. O homem se experimenta feito e simultaneamente sempre ainda por fazer; ele é finito e infinito. Essa experiência profunda foi expressa pela filosofia platônica por corpo e alma. Corpo é o homem feito e dado; alma é seu princípio dinâmico com um tropismo insaciável para o infinito. A tragicidade desta concepção consistiu na entificação e objetivação de corpo e alma como duas coisas no homem. A experiência porém nos convence que o homem é a unidade de todas as suas dimensões: é o mesmo homem que guarda a sua identidade e unidade de eu em cada uma das dimensões referidas acima. Podemos reter a terminologia corpo-alma, porque entrou para nossa linguagem e para o inconsciente de toda nossa cultura. Contudo, urge perguntar: o que está atrás dessa expressão?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3. O homem unidade corpo-alma&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Atrás da expressão corpo e alma está a experiência radical da unidade fundamental do homem. Isso porém não quer criar uma identificação pura e simples das várias dimensões humanas. Mas afirma-se que, por exemplo, o corpo não é um objeto ou algo no homem. É o homem todo inteiro, porque a corporalidade faz parte da própria subjetividade humana: «na realidade eu jamais encontro em mim um espírito puro e concreto. Mas sempre, em todo o lugar e em cada momento um espírito encarnado... Pertence à&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;84&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;essência do espírito humano como espírito sua corporalidade e com isso sua relação para com o mundo».(37) O estar-no-mundo do homem não é um acidente, mas exprime sua realidade essencial. Daí que podemos dizer com Gabriel Marcel: corpo e alma não exprimem o que o homem tem mas aquilo que ele é.(38) Em sua totalidade o homem é corporal. Em sua totalidade é também espiritual. Os mais sublimes atos espirituais e místicos vêm por isso marcados pela corporalidade. Da mesma forma as mais primitivas ações corporais são penetradas pelo espírito. Porque no homem só existem um espírito corporalizado e um corpo espiritualizado, podemos dizer com razão: quanto mais o espírito é espírito mais se manifesta e penetra a matéria. Quanto mais o corpo é corpo tanto mais se exprime espiritualmente. A unidade corpo-alma no homem é uma das evidências de todas as ciências antropológicas hoje, até da biologia(39), mas especialmente da psicologia das profundezas. Quando o homem diz eu, exprime a unidade total de sua realidade corpo-alma e de todas as dimensões de sua existência. Corpo e alma não são portanto duas coisas no homem, mas, como a tradição tomista o viu com muita nitidez, dois princípios, apenas metafisicamente separáveis e distinguíveis do único ser humano. Alma é a subjetividade do ser humano concreto, o que inclui também a dimensão corpo. Corpo é o próprio espírito se realizando dentro da matéria. Não é apenas um instrumento do espírito. É o espírito mesmo em sua excarnação e expressão no espaço e no tempo materiais. Nesse sentido podemos dizer que a alma é visível. Quando olhamos um rosto humano, não vemos apenas olhos, boca, nariz e o jogo dos músculos. Surpreendemos simultaneamente traços finos ou rudes, brutalidade ou humor, felicidade ou angústia, sabedoria ou estulticie, resignação ou confiança. O que se&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;37 Rahner, K., num simpósio sobre Geist und Leib in der menschlichen Eristenz da Görres-&lt;br /&gt;Gesellschaft, Freiburg, München 1961, 196-198.&lt;br /&gt;38 Marcel, G., Étre et Avoir, Paris 1935, 225; Id., Le mystère de l'être, Paris 1951, 91-118.&lt;br /&gt;39 Cf. Portmann, A., Biologie und Geist, Freiburg 1963, 112-113.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;85&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;vê, pois, não é pura e simplesmente corpo, mas corpo vivificado e penetrado pela alma. Espírito humano é sempre espírito encarnado; não se esconde por detrás do corpo: no gesto, no olhar, numa palavra e mesmo no silêncio pode estar toda a profundidade e o mistério da alma. Com isso, repetimos, não se afirma um nivelamento das plúrimas dimensões da realidade humana, mas sua unidade plural que não significa uniformidade nem unicidade. Essas dimensões do homem se estendem não só às relações com sua própria subjetividade ou às relações eu-tu; elas envolvem o mundo e as coisas (40), de sorte que só na totalidade dos relacionamentos o homem experimenta sua verdadeira espiritualidade e corporalidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;4. Aproximação bíblica: o homem, unidade&lt;br /&gt;de situações existenciais&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Embora não se devam passar por alto as diferenças de concepções antropológicas de nosso tempo com as da Bíblia, podemos contudo notar, em sua intuição fundamental, notável semelhança e parentesco. Nossa visão antropológica, parece-nos, está mais próxima à da Bíblia que a da tradição grega, da qual a teologia ocidental se fez herdeira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Bíblia vê o homem numa grande unidade.(41) Ele é todo inteiro em cada uma de suas concretizações fundamentais. As Escrituras não possuem um termo para alma sem corpo, nem para corpo sem alma. Cada conceito que elas se fazem do homem compreende o homem todo inteiro. Existem as seguintes situações existenciais que são de modo particular refletidas no Antigo e Novo Testamento:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;40 Este aspecto foi especialmente analisado por Merleau-Ponty, M., Phénoménologie de Ia perception, Paris 1945, 293ss; cf. Sartre, J. P., L'être et le néant, Paris 1943, 418-427; 365-427; van Peursen, C. A., Leib, Seele, Geist op. cit., 127-147.&lt;br /&gt;41 Cf. a principal literatura recente sobre o tema: Dussel, E. D., El humanismo semita, B Aires 1969; Gelin, A., L'homme selon Ia Bible, Paris 1968; Pidoux, G., L'homme dans l'Ancien Testament, Neuchâtel-Paris 1953; Dubarle, A. A., La conception de l'homme dans VAT, em: Sacra Pagina I. Paris 1959, 522-536; Kürnmel, W., Das Bild des Menschen im AT. Zurique 1948.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;86&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;a) O homem-carne (em hebraico basar, em grego sarx): é o homem em sua existência terrestre empírica, gerada em contacto com duas carnes que se fazem uma (Gên 2,24). Homem-carne é o homem biológico dos órgãos e dos sentidos que está em contacto com a terra. É um ser-carência, sujeito aos sofrimentos e à morte, às tentações e ao pecado (cf. Rom 7). Fala-se em homem-carne quando o homem quiser se realizar só nessa dimensão terrestre, sem sair de si para os outros e para o Grande Outro. É o homem fechado sobre si mesmo em seu orgulho e autocontemplação. Uma existência carnal é para a Bíblia uma existência inautêntica. «Tudo isso é carne» (cf. Gál 5,18-21; lCor 1,26; 2Cor 10,5; Rom 8,6ss; 10,3).(42)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;b) O homem-corpo (em hebraico basar, em grego soma): designa o homem todo inteiro enquanto é pessoa-em-comunhão-com-outros (cf. Rom 12,1; lCor 7,4; 9,27; 13,1; Flp 1,20). Em muitas passagens «corpo» pode ser traduzido simplesmente por «eu» (p. ex. a fórmula de consagração na missa: «Isto é o meu corpo (eu) que será entregue por vós»: lCor 13,3; 9,27; Flp 1,30; Rom 12,1). Pertence à pessoa o ser para outra pessoa; por isso homem-corpo designa o homem em seu relacionamento social e político. Porque significa a pessoa humana em sua totalidade não se pode pensar em sobrevivência do homem sem incluir o corpo. Não há igualmente ressurreição sem corpo. (43)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;c) O homem alma (em hebraico nefesh, em grego psiqué): aqui não se pensa em alma enquanto se distingue do corpo. Mas no homem todo inteiro como ser vivente. Alma para a Escritura é sinônimo de vida. Por isso o texto de Mc 8,36 deve ser entendido&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;42 Cf. Carne no ThWNT VII, Stuttgart 1964, 98-151 (E. Schwelzer-R. Meyer) ; Scharbert, J., Fleisch, Geist und Seele im Pentateuch, Stuttgart 1966; Pidoux, G., L'homme, op. cit., 9-23; Dussel, E. D., El humanismo semita, op. cit., 28-30.&lt;br /&gt;43 Cf. Robinson, J. A. T., The body. London 1965; Gelin, A., L'homme selon Ia Bible, op. cit., 9-16.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;87&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;assim: «Que aproveita ao homem ganhar o mundo se vier a perder sua vida (alma) ? Pois que dará o homem em troca de sua vida (alma) ?» O homem não tem vida. É vida. Por isso após a diluição da vida (alma) biológica, permanece ainda o homem-vida, embora sob outra forma. Homem-alma pode significar ainda a pessoa em sua vida consciente como eu. Por isso pode substituir o pronome pessoal (Gên 2,7; 12,5; 46,22; Êx 13,8-9). Daí que homem-alma e homem-corpo são equivalentes. Corpo e alma não se opõem mas exprimem o homem inteiro.(44)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;d) O homem-espírito (em hebraico ruah, em grego pneuma): designa o homem-corpo-alma enquanto sua existência se abre para Deus, para valores absolutos e se entende a partir deles. Como espírito o homem extrapola os limites de sua existência como carne-corpo-alma para se comunicar com a esfera divina. Por isso é um sinal da transcendência e da destinação divina do homem. Para o Novo Testamento viver no espírito é viver uma existência humana nova no horizonte das possibilidades reveladas pela Ressurreição de Jesus, o Senhor. Pela Ressurreição o Senhor é o Espírito (2Cor 3,17; cf. At 2,32s), isto é, Jesus Ressuscitado vive uma existência humana (por isso também corporal) totalmente determinada e repleta de Deus e em total comunhão com a realidade. Daí que Paulo chama o ressuscitado de homem-corpo espiritual (lCor 15,44). Pela Ressurreição o homem-carne (indigente e inautêntico) é transfigurado em homem-corpo espiritual. Por ela o homem-corpo é totalmente atualizado em suas possibilidades de comunicação não só para com os outros mas com toda a realidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;44 Cf. Lys, D., Nèphès. Histoire de l'âme dava Ia Révélation d'Israel ou sein des Religions procheorientales, Paris 1959; Schmid, J., Der Begriff Seele im NT, em: Einsicht und Glaube (publ. por J. Ratzinger e H. Fries) Friburgo 1962, 112-131; cf. também Kümmel, W., Das Bild des Menschen im NT, op. cit., 11-12.&lt;br /&gt;45 Cf. Bieder, W., Pneuma, em: ThWNT VI (1959) 357-373, esp. 357-360; Mehl-Koehnlein, H., L'homme selon l'apôtre Paul, Neuchâtel-Paris 1951, 31-38; Grabner-Haider, A., AuferstehungsIeiblichkeit, em: Stimmen der Zeit 181 (1968) 217-222, esp. 221.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;88&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;e) Conclusão: O homem, pois, na antropologia biblica forma uma unidade: todo ele inteiro é carne, corpo, alma e espírito. Pode viver duas opções fundamentais: como homem-carne e como homem-espírito. Como homem-carne contenta-se consigo mesmo e fecha-se em seu próprio horizonte. Como homem-espírito abre-se para Deus, de quem recebe a existência e a imortalidade. Ele é desafiado a viver uma destas possibilidades existenciais. O Antigo Testamento é a história do ir-e-vir do homem oscilando entre uma e outra opção. Só aquele que sair de si como Abraão que abandona tudo, como Moisés que com seu povo deixa as panelas do Egito e se abrir para o desconhecido de uma aventura, encontra a terra prometida. «Se o grão de trigo não cai na terra ficará só; mas, se morrer, dará muito fruto» (Jo 12,24). «Quem quiser salvar sua vida perdê-la-á; e quem perder sua vida por mim achá-la-á» (Mt 16,25). Por aqui se vê que para a Bíblia tudo no homem é de alguma forma corporal. Pertence ao ser-hornem a corporalidade. Pode significar fraqueza mas também transcendência; pode designar fechamento sobre si mesma (carne), mas também abertura e comunhão (corpo) e radical referência para com Deus (espírito). O corporal é um sacramento do encontro com Deus. Em Jesus Cristo se mostrou que o corpo constitui o fim dos caminhos de Deus e do homem. (46) Em Cristo «habita a plenitude da divindade em forma corporal» (Col 2,9).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;5. A consciência histórica da Igreja:&lt;br /&gt;o homem é uma unidade imortal&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Essa concepção unitária existencial do homem foi interpretada pelo Cristianismo encarnado dentro da cultura e língua gregas, de diversas formas. (47) A primeira delas foi pela fórmula natureza-graça. Natureza é&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;46 Cf. Metz, J.-B., Caro cardo salutis, op. cit., 7.&lt;br /&gt;47 Cf. um excelente histórico em: Mysterium Salutis II, op. cit., 602-614.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;89&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;o homem como criação, diverso de Deus, em suas potencialidades e com sua sede de infinito. Graça é a situação do homem inteiro inserido no amor de Deus e polarizado na resposta que encontra na comunhão com Deus, em total liberdade e gratuidade. A graça pressupõe a natureza, não no sentido de ser um andar sobreposto ao outro mas de exprimir a mesma realidade a partir de uma ótica diferente: a natureza exprime o homem inteiro enquanto se distingue de Deus e está frente a frente a Ele ou até separado dele por uma segunda natureza (como dizia Pascal) rebelde que ele foi criando ao longo de sua própria história cultural. Graça significa essa mesma natureza histórica, redimida de sua situação encurvada e rebelde, penetrada pelo amor de Deus, não mais num frente a frente com Deus mas num diálogo de amor gratuito, de mútua interpenetração divinizante, de sorte que podemos dizer: a divinização do homem humaniza a Deus e a humanização de Deus diviniza o homem. Essas duas situações existenciais -- natureza-graça -- da mesma e única realidade humana corresponderiam ao que hebraicamente a Bíblia diria do homem como carne e como espírito. Nunca existiu uma natureza humana histórica sem a ordenação à graça. Não existe graça senão graça de uma natureza. O homem concreto constitui essa unidade natureza-graça. Por outra fórmula exprimiu a consciência do Cristianismo histórico, a unidade existencial do homem retratada na Bíblia: corpo-alma. A tradição agostiniana, assumindo as categorias de pensar da filosofia órfica, pitagórico-platônica, interpretou o homem constituído de duas realidades diferentes, corpo e alma. O homem tem um corpo mortal e uma alma imortal, como que castigada a viver no corpo. Santo Tomás de Aquino, assumindo e transformando as categorias da filosofia aristotélica (matéria e forma), formula uma concepção que afirma a radical unidade plural do homem, em consonância com o modelo bíblico. O homem não é constituído pela adição de duas essências díspares&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;90&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;corpo-alma. O homem é totalmente corpo e totalmente alma. Corpo e alma ou espírito e matéria não são dois elementos no homem, mas dois princípios que constituem o homem inteiro. O corpo é a realidade do espírito presente e se exprimindo.(48) O espírito é subjetividade do corpo dando-se conta de si mesmo. O magistério da Igreja defendeu sempre a unidade essencial e a totalidade do homem. No Concilio de Vienne (1313) utilizando conceitos tomistas estabeleceu-se que a alma racional é a forma do corpo. Com isso se queria dizer que o espírito da matéria emerge na forma de corpo e que o corpo é a realização e expressão do espírito.(49) No quinto Concílio do Latrão (1513) contra o filósofo neoaristotélico Pomponazzi (1464-1525) que afirmava ser o espírito não algo de pessoal mas de universal, em comum, reafirmou-se que o espírito é a forma singular e individual de cada corpo, fundando uma unidade pessoal. A essa alma que pertence ao corpo o Concílio atribui o caráter de imortalidade. Como J. B. Metz comenta: «A imortalidade é atribuída à alma, porque o homem índividual em sua concreção histórica é imortal».(50) A morte biológica não pode portanto significar a diluição total da realidade humana. Já o Novo Testamento entende a morte como uma outra foirma de estar-com-Cristo (Flp 1,23).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;6. O homem-corpo, nó de relações&lt;br /&gt;com todo o universo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Concebido sempre como corpo vivo e por isso como momento essencial da alma, o homem-corpo apresenta-se como um centro ou nó de relações que de círcu-&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;41 Cf. Rahner, K., Der Leib als Symbol de.q Menschen, em: Schriften zur Theologie IV, EinsiedeIn 1967, 304-311 aqui 305.&lt;br /&gt;49 Cf. Lang, A., Der Bedeutungswandel der Begriffe «fides» und «haeresis» und die dogmatische Wertung der Konzilsentscheidungen von Vienne und Trient (Festgabe f. F. Seppelt) Munique 1953, 133-146; Fiorenza, P. FMetz, J-B., Der Mensch aIs Einheit, op. cit., 616-617.&lt;br /&gt;50 Metz, J. B., Der Mensch, aIs Einheit. op. cit., 617. Cf. em: Geist und Leib, in der menschlichen Existenz (CoIeção Ciência e Teologia, 4) Friburgo 1961, 196-198.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;91&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;lo em círculo abarca todo o universo. (51) Esse centro é personalizado, isto é, com característicos físico-psíquicos irrepetíveis e próprios a cada subjetividade. Embora particularizado pessoalmente pode universalizar-se: os sentidos, os meios de comunicação permitem-lhe estabelecer uma comunhão com todas as coisas: «o nosso corpo se estende até às estrelas». (52) A personalidade (não a pessoa) é criada na história pessoal e se desenvolve nessa comunhão com os outros homens, com o mundo hominizado e com todo o universo. É o campo onde exerce sua liberdade e vai moldando sua história pessoal responsável. Em sua situação terrestre o homem-corpo-nó-de-relações está sujeito às coordenadas do espaço e do tempo. Essas coordenadas possibilitam a comunicação e a comunhão; mas também a limitam: o espaço e o tempo nos separam e a presença é sucessiva e não simultânea a todas as coisas. Os símbolos e códigos de comunicação ao mesmo tempo que comunicam impedem a comunicação porque apresentam-se inevitavelmente ambíguos. Não obstante essa indigência, a personalidade é essencialmente comunhão para fora e o simples fato de o homem ser corpo vivo o coloca necessariamente numa situação de abertura, contacto e relação com o mundo circunstante humano e cósmico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;7. A morte como evento biológico e como evento pessoal&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À luz desta concepção unitária do homem corpo-alma, que significa a morte? A definição clássica da morte como separação da alma do corpo caracteriza-se por uma grave indigência antropológica, porque apresenta a morte como algo que afeta somente a «corporalidade&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;51 Esse terna é central no pensamento de A. de Saint Exupéry: veja por exemplo, em: Citadelle, Oeuvres, Gallimard 1959, 958-962 et passim.&lt;br /&gt;52 Cf. Pousset, E., La résurrection, em: NRTh 91 (1969) 1031, mas também 1031-33.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;92&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;humana», deixando a «alma» totalmente intacta. (53) Essa descrição considera a morte como um fato biológico: quando as energias biológicas do homem atingirem o ponto zero, então entra a morte. Ademais essa concepção sugere que a morte é algo que sobrevém extrinsecamente à vida: ambas, morte e vida, se opõem; não existe entre eIas nenhuma interiorização recíproca. Por isso que, na definição clássica, morte é um evento que acontece no fim da vida biológica somente. Contudo, na visão antropológica acima exposta, a morte surge como um evento não tanto biológico mas como um fenômeno especificamente humano. A morte atinge a totalidade do homem e não seu corpo somente. Se o corpo é atingido e ele faz parte essencial e constitutiva da alma, então também a alma é envolvida no círculo da morte. Ademais a morte humana não é algo que entra como um ladrão no fim da vida: ela está presente na vida do homem, em cada momento e sempre a partir do instante em que o homem emergiu no mundo.(54) As forças vão se desgastando e o homem vai morrendo em prestações até acabar de morrer. A vida humana é essencialmente mortal, ou como dizia Santo Agostinho: no homem há uma morte vital.(55) A morte não existe. O que existe é o homem moribundo, como um-ser-para-a-morte. Ela não vem de fora, mas cresce e se madura dentro da vida do homem mortal. Desta forma a experiência da vida coincide com a experiência da morte. Preparar-se para a morte significa preparar-se para uma vida verdadeiramente autêntica e plena. Daí que a escatologia não é isolada da vida e projetada para um futuro distante. Mas é um evento de cada instante da vida mortal: a morte acontece continuamente e cada instante pode ser o último.&lt;br /&gt;53 Veja asd críticas articuladas por K. Rahner, Sentido teológico de ta muerte, Barcelon 1965, 15-35; Boros, L., Mysterium mortis, op. cit., 83-90; Troisfontaines, R., Je ne meurs pas, op. cit., 71-96.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;54 Conhecida é a frase de Heidegger: «Quando o homem começa a viver já é suficientemente velho para morrer»: Sein und Zeit, Tübingen 1953, 329.&lt;br /&gt;55 Confessiones 1,6: «dicam mortalem vitam an morten vitalem nescio».&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;93&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;8. A morte como cisão&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O último instante da morte vital ou da vida mortal tem o caráter de uma cisão, não do corpo e da alma (porque estes não são duas coisas que podem ser separadas, mas apenas dois princípios metafísicos), mas entre um tipo de corporalidade limitado, biológico, restrito a um pedaço do mundo, isto é, ao «corpo» e outro tipo de corporalidade e relação com a matéria ilimitado, aberto e pan-cósmico. Com a morte o homem-alma não perde sua corporalidade, porque esta lhe é essencial, mas adquire outro tipo de corporalidade mais aperfeiçoado e universal. O homem-corpo como nó de relações para com a totalidade do universo pode agora, finalmente, pela primeira vez na morte, realizar a totalidade que já na situação terrestre podia vislumbrar e sentir parcialmente. O homem-alma na morte é introduzido na unidade radical do mundo; não deixa a matéria, nem pode deixá-la. porque o espírito humano se relaciona essencialmente com ela. Antes pelo contrário penetra-a muito mais profundamente numa relação cósmica total, desce ao coração da terra (cf. Mt 12,40). A morte é semelhante ao nascimento. Ao nascer a criança abandona a matriz nutritora que aos poucos se foi tornando sufocante. Passa pela crise mais penosa de sua vida fetal, ao termo da qual irrompe para um mundo novo e numa nova relação com ele: é empurrada de todos os lados, apertada, quase sufocada e ejetada para fora, sem saber que após essa passagem a espera o ar livre, o espaço, a luz e o amor.(56) Ao morrer, o homem atravessa semelhante crise biológica como ao nascer: enfraquece-se, vai perdendo o ar, agoniza e é como que arrancado do corpo. Não experimenta ainda o que vai irromper em horizontes mais vastos que o fazem comungar de forma essencial, profunda e perfeita com a totalidade deste mundo. (57) A placenta do recém-nas-&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;56 Cf. Troisfontaine, R., Je ne meurs pas, op. cit., 109.&lt;br /&gt;57 Boros, L., Mysterium mortis, op. cit., 88; Id., ErIöstes Desein, op. cit., 92-93.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;94&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;cido na morte não é mais constituída pelos estreitos limites do homem-corpo, mas pela globalidade do universo total. A cisão assume ainda um outro aspecto: marca o termo da vida terrestre do homem, não apenas no seu sentido cronológico, mas principalmente humano. A morte estabelece um termo ao processo de personalização dentro das coordenadas deste mundo biológico e espácio-temporal. A teologia dirá: o último instante de vida e a morte instauram o fim do status vitae peregrinantis e o encontro pessoal com Deus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se a morte significa um aperfeiçoamento do homem por causa de sua relação mais íntima com o universo, então ela possibilita também a plenitude do conhecer, do sentir, do amar, enfim, da consciência. Como M. Blondel bem o viu, nossa vontade em seu dinamismo interior não se esgota e satisfaz plenamente em nenhum ato concreto: ela não quer só isto e aquilo (volonté voulue) mas a totalidade (volonté voulante).(58) A morte significa o nascimento do verdadeiro e pleno querer. O homem conquista enfim sua liberdade, desinibida dos condicionamentos exteriores, da própria carga arquetípica inconsciente, do superego social, das próprias neuroses ou mecanismos coatores. A personalidade, com aquilo que ela em sua história terrestre construiu, pode exercer sua liberdade no vastíssimo campo operacional do universo. Joseph Maréchal e Henri Bergson(59) relevaram a mesma estrutura do querer também no conhecer, sentir e recordar. Reina um dinamismo insaciável no homem que o leva a jamais esgotar sua capacidade de conhecer, sentir e recordar. Nenhum ato concreto apresenta-se adequado ao impulso interior. A morte abre a possibilidade para a total reflexão e a imersão no infinito horizonte do ser. A sensibilidade humana, em vida terrestre limitada pela seleção natural dos obje-&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;59 Blondel, M., Exigences philosophiques du christianisme, Paris 1950; Boros, L., Mysterium mortis, op. cit., 37-42.&lt;br /&gt;60 Maréchal, J., Le point de départ de Ia métaphysique, Louvain-Paris 1922/26 esp. Cahicr V; Bergson, H., La perception du changement, Paris 1959, 1365-1392 reelaborado em Boros, op. cit., 43-52.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;95&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;tos sensíveis, liberta-se enfim destas peias e pode desabrochar numa capacidade inimaginável de percepções. A morte é o momento da intuição profunda do cerne do universo e da total presença no mundo e na vida. Gabriel Marcel(60) chamou a atenção para o dinamismo imanente do amor humano. Ele define-se como doação e entrega, de tal sorte que no amor só se possui o que se dá. Na condição terrestre o amor jamais pode ser total doação, devido à autoconservação congênita do ser viajor. Morte implica total entrega de nosso modo terrestre de existência. Esse fato possibilita à personalidade entregar-se totalmente na mais pura liberdade. Na morte o homem entra na radical comunhão com toda a realidade da matéria. Os filósofos E. Bloch e G. Mareel(61) tematizaram principalmente a dimensão esperança no homem, que não deve ser confundida com a virtude; é um verdadeiro, princípio no homem que dá conta do extraordinário dinamismo de sua ação histórica, de sua capacidade utópica e de sua orientação para o futuro. Não o que é emerge como verdadeiro, mas aquilo que virá. O homem jamais é uma síntese completa; seu futuro que vive como dimensão não pode ser manipulado e totalmente revertido num ato concreto. E contudo pertence à própria essência humana. A morte criaria a possibilidade para o ser e o será se tornarem um é pleno: um futuro realizado. A morte como cisão se revela especialmente no momento em que a curva da vida biológica se cruza com a curva da vida pessoal. A primeira curva é constituída pelo homem exterior, que nasce, cresce, amadurece, envelhece e biologicamente vai morrendo em cada momento até acabar de morrer. A outra curva é vivida pelo homem interior: à medida que vai envelhecendo biologicamente, cresce nele um núcleo interior e pessoal, a personalidade.&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;&lt;br /&gt;60 Marcel, G., Présence et immortalité, Paris 1959; Troisfontaines, R., De l'existence à l'etre. La philosophie de G. Mareei (vol. III), Paris 1953.&lt;br /&gt;61 Elaborado principalmente por E. Bloch, Prinzip Hoffnung, 2 vol. Frankfurt 1959; Moltmann, J., Theologie der Hoffnung, München 1966; Alves, A. R., A Theology of Human Hope, Washington 1969. Orientador é também o volume coletivo Diskussion über die Theologie der Hoffnung, München 1967.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;96&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A doença, as frustrações e as outras energias do homem exterior podem até servir de trampolim para um maior crescimento e amadurecimento da personalidade. Inversamente da curva biológica que vai decrescendo, a curva da personalidade vai crescendo e se abrindo cada vez mais para a liberdade, o amor e a integração até acabar de nascer. A morte entra quando ambas as curvas se cruzam e cortam. O pleno desenvolvimento do homem interior (personalidade) exige até a morte do homem exterior (vida biológica) para que possa se desenvolver adiante. É por isso que a morte para os santos e os homens de grande individualização da personalidade é vista como irmã, como a passagem necessária para um outro nível de vida pessoal e livre em maior plenitude. Como os cristãos antigos a morte surge então como o vere dies natalis: como o verdadeiro nascimento onde o homem realiza plenamente seu ser autêntico para sempre. No decurso da vida, os atos de nossa liberdade pessoal possuem um caráter preparatório e nos educam para a verdadeira liberdade. «Morrendo, -- dizia Franklin -- acabamos de nascer».(02)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;9. A morte como de-cisão&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se o momento da morte constitui por excelência o instante no qual o homem chega a uma inteira maturação espiritual e a inteligência, a vontade, o sentir e a liberdade podem ser exercidos sem qualquer empecilho e em conformidade com seu dinamismo nativo, então deu-se, pela primeira vez, a possibilidade de uma decisão totalmente livre que exprima a totalidade do homem frente a Deus, a Cristo, aos outros homens e ao universo. O momento da morte rompe com todos os determinismos; o verdadeiro ser do homem escolhe as relações com a totalidade que o constituirão como personalidade aberta para todos os seres. Imerso no espaço e tempo terrestre o homem era&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;&lt;br /&gt;62 Troisfontaines, R., Je ne meurs pas, op. cit., 118-119.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;97&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;incapaz de exprimir-se totalmente num ato definitivo. Todas as suas decisões eram verdadeiras, mas precárias e mutáveis.(63) Devido à sua ambigüidade constitucional, nenhuma delas podia surgir com caráter definitivo que implicasse por si só céu ou inferno. Na morte (nem antes nem depois), isto é, no momento da passagem do homem terrestre para o homem pancósmico, livre de todos os condicionamentos exteriores, na posse plena de si como história pessoal e com todas as suas capacidades e relações, dá-se uma decisão radical que implica no eterno destino do homem. Nesse momento de total consciência e lucidez o homem conhece o que significa Deus, Cristo e sua autocomunicação, qual é a destinação do homem, suas relações de abertura para com a totalidade dos seres. Agora, então, em conformidade com sua personalidade que ele se criou ao longo da vida, totalizando todas as decisões tomadas, pode decidir-se para a abertura total que implica salvação ou para um fechamento sobre si mesmo que exclui comunhão com Deus, Cristo e a totalidade da criação. Morte significa um penetrar no coração da matéria e da unidade do cosmos. Aqui se realiza um encontro pessoal com Deus e com o Cristo ressuscitado que tudo enche com sua presença, o Cristo cósmico. Agora, numa chance otimal, pode o homem decidir-se igualmente numa forma otimal, totalmente livre de coações exteriores e definitiva. Nesse encontro com Deus e com a totalidade acontece o juizo e também o purgatório como processo de purificação radical.(64) Diante de Deus e de Cristo, o homem descobre sua ambigüidade, passa por uma crise derradeira, cujo desfecho é um ato ou de total entrega e amor ou de fechamento e opção para uma história sem outros e sem ninguém. Essa de-&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;63 Cf. Bordoni M , L'ipotesi dell'ultima decisione, em: Le dimensioni antropologische della *morte, op. cit., 85-122. Num outro ensaio, em breve, queremos retornar a esse tema, também no meti aspecto histórico e de sua segurança pastoral. Aqui restringir-nos-emos à intuição central; as obra de Boros e de Troisfontaines popularizaram a idéia, inclusive sua espiritualidade.&lt;br /&gt;64 Cf. Boros, L., Mysterium um mortis, op. cit., 138-150; Id., Erlöstes Dasein, op. cit., 97-100; Boff L., Purgatório: processo de pleno amadurecimento, em Vozes maio 1972, 67-70.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;98&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;cisão produz uma cisão definitiva entre o tempo e a eternidade e o homem passa da vida terrestre para a vida em comunhão íntima e facial de Deus ou de total frustração de sua personalidade, chamada também de inferno.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;10- A morte como fenômeno natural&lt;br /&gt;e como conseqüência do pecado&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As reflexões feitas até aqui evidenciaram que a morte pertence ao próprio conceito de vida terrestre. Esta é sempre vida mortal ou morte vital. Muito antes que tivesse emergido, na evolução, o homem mortal, já mirravam as plantas e morriam os animais. Esta constatação tem sua importância porque a Bíblia e a teologia apresentam a morte como conseqüência do pecado do homem. Paulo o diz claramente: «Através, do pecado a morte invadiu o mundo» (Rom. 5,12; cf. Gên, 3). O segundo Concílio de Orange (529) bem como o Concílio de Trento (1546) o relevam com igual clareza: a morte é o preço do pecado (DS 372 e 1511). Como se há de entender isso? Parece que a sentença bíblica e conciliar se opõe ao que temos exposto até o momento. Uma reflexão mais atenta ao sentido desta afirmação nos fará compreender a validade das duas posições, uma que afirma a morte como fenômeno natural e outra que sustenta a morte como conseqüência do pecado. A teologia clássica, à deriva de Santo Agostinho, sempre ensinou que a morte é um fenômeno natural enquanto a vida biológica vai se desgastando até o homem terminar seus dias. Não podemos dizer: o homem não pode morrer (non posse mori). Constitucionalmente ele é um ser mortal. Contudo, em virtude de sua orientação originária para Deus e na sua situação matinal, o homem primitivo (Adão) estava destinado à imortalidade. Ele podia não morrer (posse non mori). «Quando, a fé nos ensina isso», como muito bem diz Karl Rahner&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;99&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;no seu célebre ensaio sobre o Sentido teológico da morte, «não nos diz que o homem paradisíaco, pelo fato de não haver pecado, teria prolongado indefinidamente a vida terrena. Podemos dizer, sem qualquer reparo, que é evidente que o homem teria terminado sua vida temporal. Teria certamente permanecido em sua forma corporal, porém sua vida teria chegado a um ponto de consumação e plena madureza a partir de dentro... Adão teria tido uma certa morte» (38- 39.48). Isso quer dizer: haveria uma cisão entre a vida terrestre e a vida celeste, entre o tempo e a eternidade. Haveria uma passagem. Haveria, então, morte, no sentido explicado acima. Mas essa morte estaria integrada na vida. Devido à harmonia total do homem, ela não seria sentida como perda, nem vivida como um assalto nem sofrida como um despojamento. Seria passagem natural, como natural é a passagem da criança do seio materno para o mundo, da meninice para a idade adulta. Alcançada a madureza interior e esgotadas as possibilidades para o homem corpo-espírito no mundo terrestre, a morte o introduziria para o mundo celeste. Adão morreria como o Pequeno Príncipe de Antoine de Saint-Exupéry: sem dor, sem angústia e sem solidão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Contudo, devido ao pecado original que afeta todos os homens e também devido ao pecado pessoal, a morte perdeu sua harmonia com a vida. É sentida como um elemento alienador e roubador da existência. É medo, angústia e solidão. A morte concreta e histórica, assim como é vivida (viver a morte e morrer a vida são sinônimos) resulta do pecado. Por um lado, como termo da vida é natural. Por outro, no modo alienador como é sofrida, é desnatural e dramática.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A morte implica uma derradeira solidão. Por isso o homem a teme e foge dela, como foge do vácuo. Ela simboliza e sela nossa situação de pecado que é solidão do homem que rompeu a comunhão com Deus e com os outros. Cristo assumiu esta última solidão hu-&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;100&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;mana. A fé nos diz que ele desceu aos infernos, i. é, ultrapassou os umbrais do radical vazio existencial, para que nenhum mortal pudesse, de ora em diante, sentir-se só.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O homem pode integrar a morte na vida. Abraçá-la como total despojamento e derradeiro ato de amor como entrega confiante. O santo e o místico, como a história nos mostra, podem de tal modo integrar paradisiacamente a morte no contexto da vida, que não vêem mais nela a ladra traiçoeira da vida, mas a irmã que nos liberta e nos introduz na casa da Vida e do Amor. Então o homem é livre e libertado como um S. Francisco. A morte não lhe fará nenhum mal porque é passagem para uma vida mais plena.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;III. A RESSURREIÇÃO DO HOMEM NA MORTE&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até aqui não inserimos ainda em nossas reflexões o pensamento da ressurreição, que para a fé cristã não é revivificação de um cadáver, mas a total realização das capacidades do homem-corpo-alma, a superação de todas as alienações que estigmatizam a existência desde o sofrimento, a morte e também o pecado e, por fim, a plena glorificação como divinização do homem pela realidade divina. A ressurreição é a realização da utopia do reino de Deus para a situação humana. Daí que para o cristianismo não há mais lugar para uma utopia, mas somente para uma topia: já agora, pelo menos em Jesus Cristo, a utopia de um mundo de total plenitude divino-humano encontrou um topos (lugar).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Como se articula a antropologia&lt;br /&gt;com a Ressurreição?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como se articula e relaciona nossa fé na ressurreição com o esboço antropológico acima exposto? Há elementos intrínsecos na antropologia que se ordenam&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;101&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;a uma possível ressurreição? Parece-nos que podemos afirmar positivamente as duas perguntas e fazê-las proposições: a ressurreição vem responder a um anseio profundo e ontológico do homem por um lado, e por outro, a antropologia revela uma estrutura tal que pode articular-se dentro da fé na ressurreição. Ressaltamos acima o caráter excêntrico da existência humana, seu ser e contínuo poder-ser, o fato de um princípio-esperança no homem, causador do pensar utópico e contestatório dentro da história. O homem não é só um ser, mas principalmente um poder-ser. Existe no homem-ser um homem latente que quer se revelar em sua plenitude total: o homo revelatus. Os cristãos vimos em Jesus o homo revelatus para quem o futuro todo se transformou em presente e se realizou nele a escatologia. Ele é o novo Adão e a nova humanidade. A ressurreição é a resposta ao princípio-esperança do homem. Ela realiza a utopia de total realização do homem da qual sonhava o Apocalipse «onde a morte não existirá mais, nem haverá mais luto, nem pranto, nem fadiga, porque tudo isto já passou», porque todos serão povo de Deus e Deus mesmo estará com eles (21,4). Por outro lado a interpretação da morte, que a antropologia moderna elaborou, se coordena bem com o conceito cristão de ressurreição. A morte significa a plenificação da personalidade do homem e de suas capacidades estendidas à dimensão, do cosmos total. O homem-corpo , como um nó de relações com todo o universo, pode agora realizar-se perfeitamente como comunhão. Ora, pela ressurreição o homem-corpo atinge sua última realidade, porque vem glorificado por Deus. Na ordem concreta não existe destino natural do homem que não seja simultaneamente seu destino sobrenatural. Se a morte é o momento de total redimensionalização das possibilidades contidas dentro da existência humana, então está implicada com isso também sua realização na ordem sobrenatural. Tal fato nos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;102&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;sugere dizer: a ressurreição acontece já na morte.(63) Como a morte significa o fim do mundo para a pessoa, nada repugna que também se realiza aí a ressurreição do homem. Depois da morte o homem entra num modo de ser que abole as coordenadas do tempo e passa para a atmosfera de Deus, que é a eternidade. Já a partir deste ponto de vista se pode dizer que não é compreensível afirmar qualquer tipo de «espera» de uma suposta ressurreição no final dos tempos. Esse final dos tempos cronológico não existe na eternidade. Por isso a «espera» pela ressurreição final é uma representação mental inadequada ao modo de existir da eternidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pela ressurreição o homem-nó-de-relações-com-o-universo é desdobrado totalmente e transfigurado à semelhança de Cristo e como ele possui uma ubiqüidade cósmica. Tudo aquilo que alimentou e tentou desenvolver ao longo de sua existência ganha agora sua melhor florescência. Sua capacidade de comunhão e abertura encontra sua perfeita adequação. Contudo há também uma ressurreição para a morte (segunda), a do homem que se negou à comunicação com os outros e com Deus, ao que se enrolou sobre si mesmo a ponto de constituir seu mundozinho fechado. Sua ressurreição é para a absoluta frustração. Nele se desdobram definitivamente as tendências de negação que nutriu e deixou campear em sua existência. Pela ressurreição o homem se abre ou se fecha radicalmente para aquilo que em vida se abriu ou fechou. Por isso a ressurreição não pode ser definida como algo de meramente mecânico ou automático: ela inclui um aspecto decisional e implica as duas possíveis opções dentro do campo da liberdade humana.&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;&lt;br /&gt;65 Teólogos que se situam positivamente frente a semelhante questão: Troisfontaines, R., op. cit., 248; Boros, op. cit., 205-207; Id., Wann geschieht die Auferstehung? em: Aus der Hoffnung leben, Olten, Freiburg 1968, 31-38; Rahner, K., Zum Sinn des neuen Dogmas (Assunção de Maria) em: Schweitzer Rundschau 50 (1951) 590; Betz. 0.. Die Eschatologie in der Glaubensunterweisung, Würzburg 1965, 96-101; 108; A fé para adultos. O Novo Catecismo, S. Paulo 543-545; veja porém as modificações da comissão cardinalícia, Suplemento, S. Paulo 1970, 74-76; Schoonenberg, P., Creio na vida eterna, em: Concilium, jan. 1969, 86--99; Benoit, P., op. cit., em: Concilium, 60 (1970) 1289-1298 e outros; veja-se especialmente de Ia Peña El hombre y su muerte, op. cit., 379-385.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;103&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2. A ressurreição da identidade corporal&lt;br /&gt;e não material do homem&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pela ressurreição tudo no homem é transfigurado ou frustrado, o corpo e a alma. Convém observar: corpo não é sinônimo de cadáver que fica neste mundo após a morte e que se decompõe. Corpo não é um agregado acidental ao homem-alma mas «uma dimensão indiscernível de mim mesmo», o modo concreto como o espírito se encarna na matéria, acede ao mundo e se auto-realiza. O espírito percebe-se encarnado. Percebe-se contudo não totalmente identificado com a matéria porque pode relacionar-se para além do corpo e com a totalidade dos corpos, nem totalmente distinto dela porque é sempre espírito encarnado. A personalidade é essencialmente também material. Por isso a personalidade que ao longo da existência vai se formando dentro do mundo no contexto de suas múltiplas relações vai também criando sua expressão material. O corpo de ressurreição possuirá a mesma identidade pessoal e não material com aquele que éramos na existência espácio-temporal. Não podemos confundir identidade corporal com identidade material (da matéria do corpo). A biologia nos ensina que a matéria do corpo se transmuda de sete em sete anos. E entretanto temos a mesma identidade corporal. Agora como adultos somos diferentes, materialmente, do que quando éramos crianças. E apesar disso somos o mesmo homem corporal. Pela ressurreição seremos muito mais diversos ainda e não obstante idênticos pessoalmente a ponto de podermos dizer: eu sou eu espírito-corpo. O que ressuscita é nosso eu pessoal, aquilo que criamos em interioridade dentro da vida terrestre, eu esse que sempre inclui também relação para com o mundo e por isso corpo. Diríamos mais: na ressurreição cada qual ganhará o corpo que merece, que corresponde ao seu eu e que o exprime total e adequadamente. Na terra, nosso estar-no-mundo nem sempre é bem&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;104&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;expresso pelo corpo. Ele pode expressar deficientemente nossa interioridade e constituir um empecilho à sua realização na matéria. Ele vem marcado até as suas últimas fibras pela história do pecado e por isso pode materialmente desaparecer e voltar ao pó. Agora pela ressurreição o homem é desobstaculizado e irrompe (se for para a vida eterna) a perfeita e cabal adequação espírito-corpo-mundo, sem as limitações espácio-temporais e as alienações da história do pecado. Cada qual a seu modo se exprimirá na totalidade da matéria e do mundo porque o homem assumiu uma relacionalidade pan-cósmica. O homem, nó de relações de toda ordem, vem transfigurado e totalmente realizado por Deus e em Deus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nessa linha de reflexão podemos dizer: a Assunção de Maria, antes de ser algo de exclusivo dela, é um exemplo daquilo que acontece com todos os que já estão com o Senhor (cf. 2Cor 5,610). A Constituição Apostólica Munificentissimus Deus, de 1950, exprime a esperança de «que a fé na Assunção corporal de Maria ao céu possa tornar mais forte e mais ativa a fé na nossa própria ressurreição». (66) Embora o documento não tenha a intenção de colocar Maria assunta como exemplar de nossa própria ressurreição na morte, «podemos achar nessa verdade talvez um convite a tentarmos elaborar o sentido da escatologia em geral a partir da verdade concreta e definida da Assunção,». (67) A Constituição Lumen Gentium, propõe de fato «a Mãe de Deus, já glorificada no céu em corpo e alma, como imagem e primícia da Igreja, que há de atingir a sua perfeição no mundo futuro» (n. 68). Comentando a relação entre Maria e a Igreja, opina um teólogo: «Maria não é a personificação dum estado futuro da Igreja gloriosa, mas sim a expressão pessoal do estado presente da Igreja celestial... Maria elevada ao céu exemplifica a vida redimida nos moldes em que ela é já participada pelos santos na glória. Nós que estamos ainda 'prisioneiros do corpo', vemos já à nossa frente o que será a vida&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;105&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;nova. Este estado final foi atingido em Cristo não só Por Maria, mas também por aqueles que estão já com o Senhor». (68) Maria não é, pois, uma exceção, mas um exemplar. No entretanto aqui conviria repetirmos a reflexão que fizemos acima quando nos referíamos à diferença entre o corpo glorificado do Senhor e o nosso. O mesmo valeria para o corpo transfigurado da Virgem. Seu corpo, à diferença do nosso, não vinha marcado pela história do pecado. Como Imaculada, seu corpo era o sacramento de Deus e da interioridade graciosa de seu espírito. Ele foi o receptáculo da encarnação do Verbo. Embora vivesse no velho mundo, era presença do novo céu e da nova terra. Por isso, parece-nos, por esses motivos teológicos, podermos afirmar que o corpo carnal da Virgem foi transfigurado e não teria passado pelas vicissitudes do cadáver humano que carrega em si a história do pecado pessoal e do mundo e por isso volta ao pó da terra. Nela como em Cristo apareceu o homo matinalis, para quem a morte era passagem transfiguradora para o definitivo e o divinamente realizador. À diferença da declaração dogmática da Imaculada Conceição, a Constituição Apostólica Munificentissimus Deus em nenhum lugar afirma a exclusividade da assunção de Maria. Isso nos permite ver esse dogma com uma brecha de penetração para estendermos a mesma graça aos que morrem no Senhor. E realmente, M. Schmaus, teólogo dos mais eclesiais e moderados, diz em seu recente manual de dogmática A fé da Igreja: «Não há nenhuma verdade da revelação que se oponha à tese de que o homem, logo na morte, ganhe uma nova existência corporal enquanto seu corpo terrestre é levado à sepultura, cremado ou entregue à decomposição. Semelhante transformação imediata não pode ser provada com absoluta certeza. Mas existem argumentos que tornam essa tese provável». (69) (NE)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;69 AAS 42 (1950) 770.&lt;br /&gt;67 Flanagan, D., Escatologia e Assunção, em: Concilium, jan. 1969, 125. Também Schmaus, M., Der Glaube der Kirche, 11, 745.&lt;br /&gt;68 Id., 127-129; Cf. Betz, O., Die Eschatologie in der Glaubenswnterweigung, op. cit., 96-101.&lt;br /&gt;69 Schmaus, M., Der Glaube der Kirche, vol. II, Munique 1970, 744.&lt;br /&gt;(NE) O conteúdo de todo esse grande parágrafo que aborda a figura de Maria, e nessa altura do livro, distôa estranhamente do restante dessa obra de Boff. Alguma exigencia de editores (da edição impresa) ou autoridades eclesiásticas às quais Boff está subordinado? Só o autor pode responder.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;106&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esses argumentos foram aduzidos acima. Fundam uma real probabilidade que é muito mais que uma mera possibilidade. É essa probabilidade fundamentada por argumentos da antropologia e da Escritura que amparam a utilização pastoral de semelhante tese, que para muitos cristãos é motivo de alegria serena, de libertação e de renovado engajamento pela causa cristã entre os homens. O mesmo Schmaus argumentava: «Se respondermos que a ressurreição só acontece no fim dos tempos, então essa verdade de fé se torna cada vez mais vazia e perde sempre mais sua força vital. Se devemos esperar milhões ou bilhões de anos, então essa fé vai se diluindo cada vez mais no horizonte da consciência humana. Ninguém pode se representar conscientemente tal espaço imenso de tempo».(70)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3. O homem ressuscita também na consumação do mundo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Contudo, essa ressurreição na morte não é totalmente plena: só o homem no seu núcleo pessoal participa da glorificação. O homem, porém, possui uma ligação essencial com o cosmos. Este, na morte do homem, não foi ainda totalmente transfigurado. Só podemos falar em radical ressurreição quando sua pátria, o cosmos, também for transformada. Por isso, apesar do caráter de plenitude pessoal que a ressurreição na morte possa assumir e apesar da transformação do nó-de-relações-com-o-universo ter de alguma forma atingido também o próprio cosmos, podemos falar ainda em ressurreição na consumação do mundo. Só então Deus e Cristo serão tudo em todas as coisas (Col 3,11; lCor 15,28), de modo especial no homem essencialmente relacionado com o universo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;70 Id., 743.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;107&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;VI- Conclusão&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PAULO chamava o homem ressuscitado de corpo-espiritual. Com isso entendia o homem todo inteiro alma-corpo, mas totalmente realizado e repleto de Deus. Como chamaríamos nós ao homem ressuscitado? Utilizando-nos de uma categoria da antropologia baseada no princípio-esperança, talvez pudéssemos dizer: homo revelatus. Com a ressurreição se revelou realizado o verdadeiro homem que estava crescendo dentro da situação terrestre, aquele que Deus realmente quis quando o colocou dentro do processo evolutivo. O homem verdadeiro, em sua radical potência, é só o homem escatológico. Pela ressurreição o poder-ser do homem-ser se realizou exaustivamente; ele saiu totalmente de sua latência; nele, pois, se revelou o desígnio de Deus sobre a natureza humana, de fazê-Ia participar de sua divindade com toda a realidade dela, corpo-espírito-aberta-para-a-total idade. O homo revelatus participa da ubiqüidade cósmica de Deus e de Cristo; possui uma presença total: nasce assim o homo cosmicus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora, na presente condição espácio-temporal, existe o homo revelatus em sua latência: está ainda preso às categorias deste mundo e vive na condição de simul iustus et peccator. A morte liberta-o e lhe possibilita uma penetração mais profunda no coração do cosmos. Pela ressurreição na morte ele participa do&lt;br /&gt;108&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cristo ressuscitado e cósmico. Na consumação do mundo-universo, ele mesmo se potencializará ainda mais porque o cosmos lhe pertence essencialmente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No termo da vida terrestre, o homem deixa atrás de si um cadáver. É como um casulo que possibilitou o emergir radiante da crisálida e da borboleta, agora não mais presa pelos estanques limites do casulo, mas aberta ao horizonte vasto de toda a realidade. À pergunta fundamental de toda a antropologia -- que será do homem? que podemos esperar? -- a fé responde jubilosa: vida eterna do homem-corpo-espírito em comunhão íntima com Deus, com os outros e com todo o cosmos. «Passa certamente a figura deste mundo deformada pelo pecado», nos adverte o Vaticano II, «mas aprendemos que Deus prepara morada nova e nova terra. Nela habita a justiça e sua felicidade irá satisfazer e superar todos os desejos da paz que sobem nos corações dos homens. Então, vencida a morte, os filhos de Deus ressuscitarão em Cristo... e toda aquela criação que Deus fez para o homem será libertada da servidão da vaidade... O Reino já está presente em mistério aqui na terra. Chegando o Senhor, ele se consumará» (GS, n. 39/318.320).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como soam consoladoras as palavras do prefácio na missa dos mortos (I) que resumem toda a teologia exposta neste estudo: «Em Cristo brilhou para nós a esperança da feliz ressurreição. E aos que a certeza da morte entristece, a promessa da imortalidade consola. Ó Pai, para os que crêem em vós, a vida não é tirada, mas transformada, e desfeito o nosso corpo mortal, nos é dado, nos céus, um corpo imperecível».&lt;br /&gt;109&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SUMÁRIO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;I. EM BUSCA DO HOMEM NOVO 9&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. O homem novo no pensamento selvagem 9&lt;br /&gt;2. O homem novo no pensamento científico 12&lt;br /&gt;3. O homem novo na experiência cristã 15&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;II. A EMERGÊNCIA DO HOMEM NOVO, JESUS RESSUSCITADO, NO CRIVO DA TEOLOGIA CRÍTICA 19&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;I. INTERPRETAÇÕES DA FÉ NA RESSURREIÇÃO, NA TEOLOGIA PROTESTANTE 21&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. R. Bultmann: A Ressurreição não é um fato histórico mas expressão do significado da cruz 21&lt;br /&gt;2. W. Marxsen: A Ressurreição não é um fato histórico mas uma interpretação das aparições condicionada pelo horizonte apocalíptico 24&lt;br /&gt;3. W. Pannenberg: A Ressurreição é realmente uma interpretação das aparições, porém insubstituível, atingindo o fato histórico 28&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;II. INTERPRETAÇÕES DA FÉ NA RESSURREIÇÃO, NA TEOLOGIA CATÓLICA 31&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Tendência tradicional: A Ressurreição é indiferenciadamente uni fato histórico 32&lt;br /&gt;2. Tendência da exegese moderna positiva: A Ressurreição é um fato de fé da Igreja Primitiva 33&lt;br /&gt;3. Tendência da exegese hermenêutica: A Ressurreição é indiretamente um fato histórico anunciado dentro das categorias da época 34&lt;br /&gt;4. H. R. Schlette: A Ressurreição é uma interpretação retroativa sobre a vida de Jesus 38&lt;br /&gt;III. CONCLUSÃO 39&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;III. O CAMINHO DA EXEGESE CRÍTICA SOBRE OS TEXTOS DA RESSURREIÇÃO 41&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Como era a pregação primitiva sobre a Ressurreição? 41&lt;br /&gt;2. Donde veio a convicção das Apóstolos na Ressurreição de Jesus? 45&lt;br /&gt;a) 0 sepulcro vazio não deu origem à fé na Ressurreição 46&lt;br /&gt;b) As aparições de Cristo, origem da fé na Ressurreição 49&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3. Tentativa de reconstrução dos acontecimentos pascais 53&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;IV. REFLEXÕES DE ORDEM SISTEMÁTICA: O EMERGIR DO NOVO ADÃO 56&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Nosso horizonte de compreensão e fé na Ressurreição 56&lt;br /&gt;2. A Ressurreição de Jesus: uma utopia humana realizada 58&lt;br /&gt;3. A novidade do homem novo 62&lt;br /&gt;4. Conclusão 63&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;V. A NOSSA RESSURREIÇÃO NA MORTE 65&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;I. MORTE E RESSURREIÇÃO, E SUA LEITURA NAS ANTROPOLOGIAS BÍBLICA E GREGA 66&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. A solução conciliadora da teologia católica clássica 66&lt;br /&gt;2. A morte no pensar platônico e no pensar semita 69&lt;br /&gt;3. A experiência da Ressurreição de Cristo como novo horizonte para a antropologia 71&lt;br /&gt;a) Categorias antropológicas semitas e Ressurreição 72&lt;br /&gt;b) Quando se dará a Ressurreição? 75&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;II. RELEITURA DA RESSURREIÇÃO DENTRO DA ANTROPOLOGIA&lt;br /&gt;DE HOJE 78&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Observação metodológica: a tipicidade do pensar teológico 79&lt;br /&gt;2. A personalidade como unidade de dimensões plurais 81&lt;br /&gt;3. O homem, unidade corpo-alma 84&lt;br /&gt;4. Aproximação bíblica: o homem, unidade de situações existenciais 86&lt;br /&gt;5. A consciência histórica da Igreja: o homem é uma unidade imortal 89&lt;br /&gt;6. 0 homem-corpo, nó de relações com todo o universo 91&lt;br /&gt;7. A morte como evento biológico e como evento pessoal 92&lt;br /&gt;8. A morte como cisão 94&lt;br /&gt;9. A morte como de-cisão 97&lt;br /&gt;10. A morte coMo fenômeno natural e como conseqüência do pecado 99&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;III. A RESSURREIÇÃO DO HOMEM NA MORTE 101&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Como se articula a antropologia com a Ressurreição? 101&lt;br /&gt;2. Ressurreição da identidade corporal e não material do homem 104&lt;br /&gt;3. 0 homem ressuscita também na consumação do mundo 107&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;VI. CONCLUSÃO 108&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fim do Livro de Leonardo Boff: A Ressurreição de Cristo, A Nossa Ressurreição na Morte&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8234801168287087039-5081865047297379990?l=despejadodogeocities.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://despejadodogeocities.blogspot.com/feeds/5081865047297379990/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://despejadodogeocities.blogspot.com/2009/12/ressurreicao-de-cristo-nossa.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8234801168287087039/posts/default/5081865047297379990'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8234801168287087039/posts/default/5081865047297379990'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://despejadodogeocities.blogspot.com/2009/12/ressurreicao-de-cristo-nossa.html' title='A Ressurreição de Cristo, A Nossa Ressurreição na Morte (parte III)'/><author><name>Taborita</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09448797140788846841</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='23' src='http://2.bp.blogspot.com/-8olRm7HDoq4/TiY26TcYT5I/AAAAAAAAArE/Gq-YHIfZizE/s220/cats.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8234801168287087039.post-8215523551864342734</id><published>2009-12-08T18:48:00.000-08:00</published><updated>2009-12-08T19:37:22.034-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Willian Barclay &quot;Quem é Jesus?&quot;'/><title type='text'>Quem é Jesus?</title><content type='html'>&lt;span style="font-style:italic;"&gt;&lt;br /&gt;    por Willian Barclay&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em uma das mais famosas passagens do Novo Testamento, Jesus perguntou aos seus discípulos: «Quem dizem os homens que sou eu?» Depois que eles responderam o que os outros diziam, ele desafiou-os com a questão: «Mas vós, quem dizeis que eu sou?» (Marcos 8:27-29; Mateus 16:14-15; Lucas 9:18-20). Assim como os discípulos, também estamos, a um só tempo, perguntando e tentando responder: «Quem é Jesus?»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Novo Testamento, nunca responde esta questão. Nele, há uma grande profusão de títulos para Jesus -- Filho de Deus, Filho do Homem, Salvador, Senhor e muitos outros -- mas em nenhum momento é encontrada uma tentativa de definir, claramente, quem é Jesus. No Século XX nós temos uma verdadeira obsessão por definições e há ocasiões em que essa mania nos leva a tentar definição até do indefinível. A razão pela qual o Novo Testamento jamais define Jesus, é que seus autores não estão escrevendo teologia: eles estão transmitindo experiências. Entretanto, em pleno Século XX, já é tempo de orientarmos as nossas mentes no sentido de realizarmos tal tarefa. Mas antes de nos dedicarmos à meta principal, seria bom ocupar nossa atenção com alguns aspectos acessórios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Primeiro, consideremos o impacto de toda a doutrina da Trindade. Quando pensamos no assunto, é necessário repetir o que acabamos de dizer: que os escritores do Novo Testamento não tiveram qualquer pretensão de escrever teologia, mas tão somente de transmitir experiência. A doutrina da Trindade não é alguma coisa que pode ser colocada em uma biblioteca e depois esquecida; é a descrição da experiência humana no que se refere a Deus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nós costumamos falar de três pessoas na trindade, embora esse modo de nos expressarmos possa ser inadequado e levar a confusões. Uma pessoa, para nós, é um indivíduo; persona - em Latim significa «máscara». No teatro latino havia um número reduzido de atores que encarnavam diferentes papéis. Cada um deles se caracterizava por um tipo de máscara, que permitia à platéia saber que personagem estava representando. Assim, era fácil reconhecer, pela máscara, o herói, o vilão ou a heroína. Se dizemos que Deus é três pessoas na Trindade, também podemos dizer que a doutrina da Trindade mostra a ação de Deus em três funções -- três personagens de seu ser. Em outras palavras, Deus segundo três papéis, em três formas de atuar no grande drama cósmico. Deus, o Pai, é Deus o autor e criador do mundo, Deus em criação. Deus, o Filho, é Deus o Salvador e redentor do homem. Deus em redenção. Deus o Espírito Santo é Deus falando e guiando o homem, Deus em revelação voltada para a mente e o coração do homem. Jesus se ajusta dentro desse esquema, no Divino Drama.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O segundo ponto que precisamos notar é que, nos Evangelhos, há algo que se poderia chamar de uma crescente reverência para com Jesus. Quanto mais dístante, cronologicamente, dos dias de Jesus, mais reverentes os Evangelhos se tornam, em seu tratamento para com Ele. No episódio ocorrido em Cesaréia de Filipe, vemos como Jesus explicou aos discípulos, que precisava ir a Jerusalém e ali morrer. A narrativa bíblica nos mostra um Pedro revoltado contra tal idéia, agarrando Jesus pelos ombros e pretendendo impedí-lo de fazer tal coisa (Marcos 8:32). Uma pessoa não pode agarrar Deus pelos ombros; se alguém pôde agarrar Jesus pelos ombros é porque estava tentando impedí-lo de fazer coisas que nós fazemos. Seria impossível imaginar alguém agarrando pelos ombros o Jesus retratado no Evangelho Segundo João.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isto é muito bem caracterizado na forma pela qual os Evangelhos falam da linhagem de Jesus, aprofundando-se no tempo. Em Marcos, Jesus chega à cena completamente maduro. Nada, praticamente, nos é dado a conhecer sobre ele, até que se submete ao batismo, por João. Em Mateus, a narrativa se ocupa não somente do nascimento de Jesus, mas também de sua ascendência, até Davi e Abraão. Em Lucas, também, encontramos o nascimento e a linhagem de Jesus. Esta, entretanto, traçada até Adão. Em João, não é descrito o nascimento de Jesus, mas sua vida é comentada desde o princípio dos tempos, na eternidade. Obviamente, à proporção que o tempo foi passando, Jesus tornou-se cada vez menos e menos humano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isto significa que, com referência a Jesus, corremos perigo de perder de vista a sua condição de ser humano. O Novo Testamento não apresenta qualquer dificuldade em falar do crescimento de Jesus. «E Jesus crescia em sabedoria, em estatura e em graça diante de Deus e dos homens» (Lucas 2:5). Não há qualquer constrangimento nos comentários sobre o crescimento e a aprendizagem de Jesus ou mesmo sobre seu gradual aperfeiçoamento. No Sermão de Pedro, o primeiro sermão da Igreja Cristã, Jesus é descrito como «um homem aprovado por Deus diante de vós» (Atos 2:22).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais tarde, nas Epístolas Pastorais, Jesus acaba por ser chamado o «único mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo, homem» (I Timóteo 2:5). Em outras palavras, o Novo Testamento nunca procura esvaziar, em Jesus, sua condição humana. Contudo, com o passar do tempo, isto vai acontecendo, mais e mais. Por exemplo, quando a primeira carta de João foi escrita, ele pôde dizer que é uma heresia não confessar que Jesus veio em carne (I João 4:1-4) e no tempo quando a heresia Gnóstica estava começando a florescer, eram muito freqüentes as afirmações como a de que ele não deixava pegadas no chão por onde pisava, que seus olhos nunca piscavam na forma pela qual as pessoas normalmente piscam, que, quando alguém se encostava contra ele, não havia matéria na qual se encostar e mais, que Jesus nunca teria sido visto comendo. É muito mais fácil perder de vista a condição humana de Jesus, do que perder a consciência de sua divindade -- mas o Novo Testamento, ele próprio, nunca se esquece de que Jesus era um homem entre homens.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando examinamos o Novo Testamento em sua maneira de encarar Jesus através de todas as diferenças e divergências, três coisas são sempre ditas a seu respeito : Jesus foi, Jesus é, Jesus será. Vamos nos deter, por alguns instantes, nestas três expressões.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Primeiro que tudo, Jesus foi. Houve um tempo quando os mais radicais dos teólogos mantinham a afirmação de que nunca houve um Jesus histórico e de que o Jesus de que se falava não passava de um mito. É impossível conservar-se alguém adepto desse ponto de vista, uma vez que há muito boas evidências extraídas de antigos escritores, atestatórios da existência de Jesus. Citemos a maior dessas evidências. Trata-se da narrativa de Josephus, ao escrever Antigüidade Judaica, por volta do ano 95 A.D. Tratava-se de um profundo conhecedor da cultura e história dos Judeus e, portanto, um grande homem em seu campo. Em sua Antigüidade, Josephus escreveu:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;    &lt;span style="font-style:italic;"&gt;«Por esta mesma época viveu Jesus, um sábio homem, se é que se poderia chamá-lo de homem. Porque ele foi alguém que realizou feitos muito surpreendentes e era um mestre dos que aceitavam a sua verdade alegremente. Atraiu muitos judeus e muitos gregos. Era o Messias. Quando Pilatos, depois de ouvir as acusações a Jesus, partidas de alguns dos mais poderosos homens da época, condenou-o à morte na cruz, aqueles que se encontravam entre os seus primeiros seguidores, não desistiram de sua afeição por ele. No terceiro dia, depois de sua morte, ele apareceu aos seus discípulos restaurado à vida, porque os profetas de Deus tinham, profetizado estas e muitas outras maravilhas a respeito dele. A comunidade dos Cristãos, assim chamada em sua homenagem, até os dias de hoje ainda não desapareceu».(1)&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com exceção das palavras em itálico, Não há qualquer razão para duvidar que Josephus tenha realmente escrito isto. Ele próprio não chamava Jesus de Messias ou expressava sua crença pessoal na ressurreição. Em um volume posterior da mesma obra (20.9.1) há outra referência a Jesus. Josephus descreve Tiago como «irmão de Jesus, chamado o Messias»(2). Não há qualquer razão para duvidar que Josephus tenha escrito isto também. Assim, podemos afirmar que lá pelo ano 95 A.D. havia excelente evidência para a existência de Jesus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Josephus era, é claro, um judeu. Mas há evidências equivalentes, encontradas em escritores romanos. Em primeiro lugar, existe a evidência dos Anais de Tácitus, escritos entre os anos 115 e 117 A.D. Ele descreve o grande incêndio de Roma, ocorrido no ano 64 A.D. O autor conta como o povo estava perfeitamente certo de que Nero, ele próprio, fora o responsável pelo incêndio, na intenção de poder vir a promover a reconstrução da cidade. Desesperado por encontrar alguém sobre cujos ombros transferir a culpa pela catástrofe, tentou imputá-la aos cristãos. Tácitus escreve:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;«Conseqüentemente, para se livrar da culpa, Nero transfere e inflinge as mais terríveis torturas a uma classe odiada por suas ações tidas como detestáveis, chamada de Cristãos, pela população. Cristo, em quem o nome teve origem, sofreu a punição extrema durante o reinado de Tibério, das mãos de um de seus procuradores -- Pôncio Pilatos -- e a mais detestável superstição, reprimida a princípio, novamente rompeu, não somente na Judéia, a primeira fonte do mal, mas mesmo em Roma.»(3)&lt;/span&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aí está, portanto, um historiador romano testemunhando sobre a existência de Jesus. Uma outra fonte romana é encontrada nas Cartas de Plínio, governador de Bitínia, durante o reino de Trajano, por volta do ano 110 A.D. Plínio era amigo muito pessoal de Trajano e nunca hesitava em consultá-lo diretamente sobre todos os seus problemas. Essa correspondência tão interessante ainda existe. Em uma dessas cartas ele consulta Trajano sobre as dificuldades que vinha encontrando, com os cristãos. Deveria ele executá-los, ou não? Deveria ser aceita a palavra de informantes ou era necessário que as evidências fossem de primeira mão? Plínio era um homem honesto e um bom caráter. Na correspondência, ele conta quais as informações que havia obtido, a respeito dos cristãos:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;    &lt;span style="font-style:italic;"&gt;«Eles têm cultivado o hábito de se reunirem em certos dias fixos, antes do amanhecer, quando cantam versos alternados de hinos a Cristo e a Deus, unindo-se uns aos outros em votos de não cometerem qualquer ato de maldade, jamais praticando a fraude, roubo ou adultério, nem faltando à palavra empenhada ou negando a confiança que tenha merecido, depois do que é seu costume separarem, voltando a se reunirem para a partilha do alimento, mas de natureza comum e de qualidade inocente». (4)&lt;/span&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aqui, mais uma vez, de fontes romanas, nós temos uma testemunha não preconceituosa a respeito da história de Jesus. Seja advinda de origens judaicas, ou de historiadores romanos, a existência histórica de Jesus não deixa margem à menor dúvida. Jesus foi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em segundo lugar, Jesus é. O acontecimento básico para a cristandade é que Jesus se levantou da morte. Tem sido dito que, nos Atos dos Apóstolos, a ressurreição é a estrela no firmamento da Igreja Primitiva. Ninguém jamais pregou um sermão registrado em Atos sem concluir por referir-se à ressurreição de Cristo -- Jesus não é o personagem morto de um livro, mas uma presença viva, que pode ser encontrada e experimentada. Tem sido dito que «nenhum apóstolo jamais se relembrou de Jesus». Jesus não é uma memória; é uma presença. John Drinkwater escreveu em seu poema:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;br /&gt;   &lt;span style="font-style:italic;"&gt; Shakespeare é poeira e não voltará&lt;br /&gt;    a fazer perguntas, de sua tumba em Avan,&lt;br /&gt;    Sócrates e Shelley guardam&lt;br /&gt;    seus sonos ático e italiano ...&lt;br /&gt;    Eles não vêem. Mas, ó cristãos, que&lt;br /&gt;    se atropelam em Holborn e na Quinta Avenida,&lt;br /&gt;    podem vocês, a despeito da morte, não encontrar&lt;br /&gt;    um viajante de Nazaré? (5)&lt;/span&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje, o cristão não ouve ou enxerga uma espécie visão de Jesus; ao contrário, em qualquer crise ou decisão que tenha que tomar, o seguidor de Cristo tem sempre a consciência de não estar enfrentando a vida sozinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A suprema, prova da ressurreição, é a existência da Igreja Cristã. Ao final da vida de Jesus, todos os discípulos abandonaram-no e fugiram. A idéia que nos foi legada retrata um grupo de homens apavorados, tremendo de terror, atrás de portas trancadas a chave. Sete semanas depois, aqueles mesmos homens são mostrados como, havendo adquirido tal coragem, que eram vistos enfrentando as autoridades judaicas, nas piores situações. Todo efeito deve ter uma causa. Alguma coisa deve ter transformado os covardes em heróis -- e essa alguma coisa foi a convicção daqueles homens de que, de alguma forma, aquele Jesus a quem eles amaram estava ainda entre eles.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma coisa ainda tem que ser dita, sobre a ressurreição. O mais notável em torno desse acontecimento é o fato, muito significativo, de não haver Jesus aparecido, a não ser para aqueles que o amaram. Se fosse escrita uma novela sobre a morte e a ressurreição de Jesus, a coisa mais natural seria colocá-lo em confronto com Pilatos, Ananias e o resto deles, dizendo: «estou de volta. O que vocês vão fazer agora?» Mas não foi o que ele fez. Ele voltou para Maria Madalena, afogada em lágrimas de amor sentido; ele voltou para os dois da estrada de Emaús, que estavam falando de suas esperanças, que haviam morrido; ele voltou para Pedro, um homem tomado de vergonha e amor. Se se pode colocar as coisas desta maneira, há um elemento subjetivo na ressurreição. Jesus está vivo mas aparece somente para aqueles que o amam. Se não temos uma experiência de sua presença, pode muito bem ser porque não temos experiência do seu amor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(1) Josephus, Antiguidade dos Judeus, 18.3.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(2) Ibid. 20.9.1.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(3) Tacitus, Os Anais, 15.44.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(4) Plínio (o Moço), Cartas ao Imperador Trajano, ano 96&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(5) John Drinkwater, «To and For About the City», Obras Primas em Versos Religiosos, editor James Dalton Morrison (New York: Harper and Brothers, 1984, pág. 260.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8234801168287087039-8215523551864342734?l=despejadodogeocities.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://despejadodogeocities.blogspot.com/feeds/8215523551864342734/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://despejadodogeocities.blogspot.com/2009/12/quem-e-jesus.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8234801168287087039/posts/default/8215523551864342734'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8234801168287087039/posts/default/8215523551864342734'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://despejadodogeocities.blogspot.com/2009/12/quem-e-jesus.html' title='Quem é Jesus?'/><author><name>Taborita</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09448797140788846841</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='23' src='http://2.bp.blogspot.com/-8olRm7HDoq4/TiY26TcYT5I/AAAAAAAAArE/Gq-YHIfZizE/s220/cats.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8234801168287087039.post-3837140526580743968</id><published>2009-12-07T13:13:00.000-08:00</published><updated>2009-12-07T18:26:07.671-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='São Paulo Evangelho Jesus  Dr Chase'/><title type='text'>São Paulo e o Evangelho de Jesus. (Um Estudo da Base da Ética Cristã)</title><content type='html'>&lt;span style="font-style:italic;"&gt;Por Charles E. Raven &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Título orginal em inglês:&lt;br /&gt;St Paul and the Gospel of Jesus&lt;br /&gt;A Study of the Basis of Christian Ethics)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://4.bp.blogspot.com/_Q5iuhqW_xs4/Sx1xGb1br_I/AAAAAAAAAYo/aviLFB1jzBw/s1600-h/dedicatoria.gif"&gt;&lt;img style="float:right; margin:0 0 10px 10px;cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 65px;" src="http://4.bp.blogspot.com/_Q5iuhqW_xs4/Sx1xGb1br_I/AAAAAAAAAYo/aviLFB1jzBw/s400/dedicatoria.gif" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5412606682534227954" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;palavras escritas pelo Dr F. H. Chase, Bispo de Ely, na Bíblia que me deu de presente em minha Ordenação para o Sacerdócio, em sua Cateadral em 18 de dezembro de 1910&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Neste livro o Dr Raven responde duas perguntas cruciais. Qual a mensagem de Jesus em sua essência permanente? Esta mensagem foi corrompida por Paulo - ou (como Dr Raven acredita) foi conduzida por Paulo que pela sua própria experiência deu uma nova e magnífica amplitude às implicações revolucionárias de Jesus para a vida do mundo, implicações novamente urgentes pela crise espiritual da humanidade no século XX? Este livro resume toda a vida e pensamento de um dos melhores autores e pregadores da Inglaterra moderna. Dr Raven foi Regius Professor de Divindade, em Cambridge, de 1932 a 1950, e serviu como vice-chanceler da Universidade. Ele também foi capelão da Coroa desde 1919, e membro da Academia britânica. Especializando nas relações entre ciência e religião, ele nunca teve medo de desafiar a ortodoxia convencional. Neste livro ele é peculiarmente corajoso em resgatar as origens do modo cristão de vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Versão eletrônica e tradução: Railton de Sousa Guedes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ÍNDICE&lt;br /&gt;Prefácio à Edição Brasileira&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Prefácio&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Introdução&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;I - A Crise na Teologia e na Ética 13&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Ética de Jesus&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;II - O Caminho da Vida Abundante 21&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;III - O Caminho da Vida Perdida e Recuperada 35&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Desenvolvimento da Ética em Paulo &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;IV - O Primeiro Impacto de Jesus 49&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;V - A Descoberta em Corinto 71&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;VI - O Tratado de Roma 83&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;VII - A Expansão do Pensamento de Paulo 99&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;VIII - A Plenitude de Cristo 115&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;IX - Paulo na Igreja Primitiva 137&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Epílogo &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;X - A Vinda da Maioridade 145&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abaixo CAPA da edição inglesa original&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://4.bp.blogspot.com/_Q5iuhqW_xs4/Sx1yCuLKe6I/AAAAAAAAAYw/Ur0D2UP06w0/s1600-h/paulo.jpg"&gt;&lt;img style="float:right; margin:0 0 10px 10px;cursor:pointer; cursor:hand;width: 327px; height: 400px;" src="http://4.bp.blogspot.com/_Q5iuhqW_xs4/Sx1yCuLKe6I/AAAAAAAAAYw/Ur0D2UP06w0/s400/paulo.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5412607718249364386" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A ilustração mostra Paulo convertendo Romanos - painel de bronze na porta principal da Basílica de São Paulo, Roma, reproduzida com permissão dos Padres Beneditinos do Monastério de São Paulo, Roma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PREFÁCIO À EDIÇÃO ELETRÔNICA BRASILEIRA(1)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi em meados da década de 70 quando eu ainda morava em uma república de estudantes no bairro da Liberdade, que meu querido vizinho, pai, irmão, conselheiro e grande amigo Christopher Parker do Salvation Army me presenteou um exemplar de ST Paul and The Gospel of Jesus, livro que desde então guardo comigo com muito carinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Resolvi iniciar esta tradução para o português por dois principais motivos: Primeiro por este livro ser, a meu ver, um dos melhores e mais corajosos estudos acerca da base da ética cristã. Segundo por poder vir a ser uma preciosa ferramenta ao atual movimento internacional que dá seus primeiros passos em direção ao retorno àquele modo cristão de vida, inaugurado, ensinado e vivido pessoalmente por Jesus e pelos primeiros Apóstolos, e que, salvo raríssimas excessões, durou até o século III AD, quando a Igreja lenta, gradual e desgraçadamente iniciou o abandono de sua principal prática, o ágape, e de sua principal base, o primeiro amor, a pedra de esquina, o Espírito deixado pelo seu fundador, cedendo à sedução de três velhas, ardilosas e perigosas instituições do judaísmo, muitas vezes hostilizadas pelos profetas e definitivamente abolidas pelo próprio Jesus Cristo: a sinagoga (templos ou edifícios de igrejas), o rabinato (clero) e o que mantém a ambos, o dízimo. (1)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesta empreitada procurei estar atento a que o processo de transposição das palavras e frases do inglês para o português não afetasse seriamente o pensamento do Dr. Raven. E nesse mesmo espírito e sempre visando uma melhor compreensão dos leitores, não exitei parafrasear, a começar pelo próprio título. Quanto às passagens bíblicas, na maioria das vezes adotei a Bíblia Viva. De qualquer forma, aqueles que quizerem beber direto da fonte poderão consultar a versão eletrônica em inglês, também gratuitamente disponível na rede.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;São Miguel Paulista, 5 de junho de 2003,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Railton Sousa Guedes&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(1) Nesse sentido, há sinceros, embora tímidos, esforços sendo implementados em algumas igrejas tradicionais, como podemos ver aqui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PREFÁCIO (2)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este livro é o resultado de um processo por muito tempo bem familiar ao seu autor. Em vários momentos aborda grandes temas incluindo registros de muitos séculos e envolvendo uma extensa gama de assuntos. A partir de uma grande quantidade de material elaborei um esboço focalizando aquilo que achei mais interessante. No verão de 1959, minhas dissertações sobre ética cristã na Universidade St Augustine, Canterbury, resultaram em um ensaio geral sobre os problemas éticos que a Igreja enfrenta em nossos dias. As conferências foram provocantes e agitadas. Onde demonstrei que nosso real problema não está nas controvérsias em torno de grandes assuntos raciais, sociais e sexuais, mas na incorporação do núcleo da fé, aquela comunidade santificada na qual não há judeu nem grego, escravo nem livre, macho nem fêmea; estamos confusos e desencaminhados, e isto porque pensamos e agimos em termos de dogmas e instituições, tradições e práticas que são irrelevantes para nossa situação e muito freqüentemente obstrutivas para nossas intenções. Vivemos na era nuclear mas com os mesmos velhos sistemas econômicos, políticos e religiosos que Jesus rejeitou desde o começo de seu ministério.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim, em vez de lidar com assuntos contemporâneos, preferi, como sempre, me debruçar nos Evangelhos e em Paulo. Este pequeno livro é, portanto, resultado não apenas de recentes estudos mas também de um velho trabalho iniciado desde o verão de 1907 - aquelas longas horas, semanas, domingos, com Headlam, estudando a Carta aos Romanos! - renovado pelas conferencias sobre os Evangelhos Sinópticos em 1910 e continuado a cada momento crítico de minha vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;9&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando apresentei este livro para publicação inseri notas explicativas dos motivos pelos quais rejeito as tradicionais doutrinas do Segundo Advento, a teoria luterana do Estado, a interpretação Calvinista de predestinação, o ataque barthiniano à teologia natural, a recente negação de todo o progresso neste mundo, e a onda de anti-racionalismo. Tristemente, contra minha vontade, constatei que homens e estudiosos incapazes de compreender o completo significado da ciência moderna estão também impossibilitados de perceber que os conceitos tradicionais da natureza e da criação, do homem e seus afazeres, da liberdade e da autoridade, do passado e do futuro, do espaço e do tempo, tem que ser completamente abandonados; muitos dos aparatos doutrinários e institucionais herdados por nossa religião são incompatíveis com a revolução necessária. Quão superficiais se apresentam esses dualismos tão familiares como matéria e espírito, corpo e alma, indivíduo e comunidade, ruim e bom, maldito e santo. Estou convicto de que experiências subjacentes e passadas interpretadas à luz de nossas tradições são vitais e autênticas. Elas merecem ser tratadas por cada um de nós, cientistas e cristãos, como dados para avaliação da realidade - como dados de importância indispensável. Agora, explicar, sem ser cansativo ou descortês, a necessidade da adoção de uma nova cosmologia àquele que acha impossível abandonar o conjunto de conceitos e teorias estruturadas no modo de pensar pre-darwiniano ou mesmo pre-copérnico, principalmente quando tais pensamentos são honestamente abalizados por uma vasta gama de teólogos e mestres durante toda a vida, isto realmente está além de minhas forças. Àqueles que perguntam por que aceito em grande medida a sucessão histórica do Evangelho de Marcos, a autenticidade das narrativas de Atos, a precisão de Gálatas, ou a deterioração dos padrões apostólicos na tradição católica, eu recomendo meus livros anteriores que abordam estes assuntos, especialmente Jesus and the Gospel of Love e The Gospel and the Church. As referencias à presente crise podem também ser encontradas em Science, Medicine&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;10&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;and Morals, ou nas minhas conferências de Gifford, Experience and Interpretation.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiz citações bíblicas em várias traduções, às vezes de minha própria autoria; eventualmente não hesitei em parafrasear.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;C. E. R. - Cambridge - agosto de 1960&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;===&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;II - A Ética de Jesus&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O CAMINHO DA VIDA ABUNDANTE&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Responder a questão 'Qual é a ética cristã para a era nuclear?' é principalmente retornar ao Cristo dos Evangelhos e a Paulo. Este é o caso especialmente quando, como no momento, obviamente aceitamos como se fossem cristãos, padrões éticos nos quais se reivindica o emprego de bombas de hidrogênio. Para mim pelo menos nem o Cristo dos Credos e nem mesmo o Cristo dos Sacramentos podem ser tomados como critério - pela óbvia óbvia razão de que o ethos do Novo Testamento, ou seja, a qualidade de vida e o amor por ele revelado, a beleza e a sabedoria de seu modo de vida, não pode nem de longe ser comparado com formalismos e controvérsias dos teólogos nem com o fingimento e o emocionalismo dos clérigos. Tanto a doutrina como a liturgia têm um plano e talvez uma contribuição essencial para fazer religião. Mas uma vez divorciadas do amor de Deus revelado na Bíblia eles ficam legalistas e institucionais, um intelectualismo dogmático ou um cerimonialismo mítico; como insistia aquele genial padre-cientista Teilhard de Chardin, 'se o amor de Deus fosse extinto de dentro das almas dos crentes, o enorme edifício de ritos, hierarquia e doutrinas que compõem a Igreja voltaria imediatamente ao pó de onde saiu'. (1) Assim, ficamos com o Cristo dos Evangelhos, com Marcos e com as fontes primitivas usadas pelo primeiro e terceiro evangelistas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(1) The Phenomenon of Man, p. 296.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;21&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A peculiaridade deste ponto de partida é a mesma história de qualquer outro fundador de religião que primeiramente cuida das relações pessoais, uma situação concreta que afeta particularmente as pessoas; os procedimentos de Jesus para com estas pessoas, todo tipo de pessoas, seu impacto sobre elas, suas mútuas reações. A despeito do que a Igreja parece freqüentemente dizer, Jesus não é revelado a nós como um divino intruso, apesar das adoráveis histórias sobre anjos e magia sua preocupação ao longo do seu ministério situa-se em coisas comuns e pessoas comuns. Enquanto nos preocupamos com o milagre do seu nascimento e com toda a imagem do Natal, tais coisas para seus contemporâneos, discípulos e principalmente para os primitivos evangelistas este presságio de glória era desconhecido, tanto que para Marcos a única menção de sua mãe e família foi quando eles vieram colocá-lo sob controle pois pensavam que estava louco. (1)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por conseguinte nós esquecemos dos longos anos na bancada de carpinteiro em Nazaré onde ele morou entre simples aldeões em um lugar de nenhuma grande reputação e na qualidade de filho de José. Para nós é certamente notável o simples fato de desde seu primeiro aparecimento público ser reconhecido pelos homens como dotado de uma rara autoridade e originalidade, crescera na vida pacata da aldeia e no meio de um povo que até mesmo quando ele era famoso pensava nele apenas como sendo um deles. Mesmo se alguns de nós nestes dias urbanizados descobrissemos uma comunidade assim, como desejamos, poderia ser encontrada apenas em alguma aldeia remota longe de todos nossos meios de transporte e amenidades, contudo, constatar que o maior universalista do mundo, o mestre que abriu um modo completamente novo de religião para o homem e fundou um completamente novo tipo de companheirismo humano, gastou a maior parte de sua vida precisamente num ambiente assim, parece um milagre realmente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(1) Cf. Marcos 3.21 e 31-5, e em sua visita a Nazaré (6.1-5).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;22&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ali ele encontra tudo o que raramente é descoberto por profetas e santos de outras religiões, que uma verdadeira consciência de Deus não é necessariamente adquirida do templo ou do palácio, do deserto ou da cidade. Jesus estava contente em viver em uma aldeia, trabalhando como artesão e ajudando seus pais em casa. Diferentemente da grande maioria dos religiosos ele não tinha quase nada que dizer sobre aquilo que normalmente é considerado sobrenatural, como diabos e anjos, céu e inferno, e toda aquela imagem cósmica de Dante e Milton, do Dia da Ira e da Visão Beata. Seu ensino se baseia em flores, pássaros e brincadeiras de crianças, em homens que semeiam campos e mulheres que assam pão: neles e em suas ações diárias ele descobre Deus como nosso Pai. A tais pessoas ele proclama as boas notícias e a presença viva de Deus, presença manifesta pela sua própria liberdade e poder, pela purificação e cura, pelo diálogo e ensino, e pela escolha e unidade da comunidade de seus discípulos. Ele não age como os outros mestres, ensinando sobre teologia, ética, oração ou ritual; na realidade ele choca seus contemporâneos por seu desapego aos festivais e cerimoniais, às tradições e deveres religiosos; títulos e vestuários, ritos e convenções são para ele mero fingimento. Não importa o que você come ou com quem você se encontra; a corrupção não vem de fora mas de dentro; a vida deveria ser simples e espontânea, não arruinada por regras mas sensível e sincera; a virtude deveria ser acelerada pela bem-aventurança; se Deus vier primeiro, então todos nossos problemas se resolvem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A reação que provocava em seus vizinhos era tão imediata quanto suas palavras. A partir de seu batismo ele manifesta o brilho de sua mensagem: 'Agora é o tempo; o Reino de Deus está aqui; mude sua perspectiva e acredite nas boas notícias' (Marcos 1. 15). Assim ele declarou o céu aberto e a deidade encarnada. Superou o velho conceito 'Deus é nosso Rei' (1 Sam. 12.12). Afirmou a direção e a presença de&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;23&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deus; e chamou o povo de Deus para dar boas-vindas a essa proclamação. É desnecessário argumentar, como foi tão repetidamente dito, que significando preciso este Reino teve naquele momento para Jesus ou para seus ouvintes. Todo seu ministério subseqüente pode ser considerado uma exposição e ilustração disto, como realmente ele próprio concebeu em sua tentação. Isso implica a transcendencia, a primazia de Deus e a universalidade do seu reino, a imanência de sua presença na comunidade humana e a presença da comunidade humana em sua pessoa. Mas, como veremos, Paulo precisou fazer uso de toda sua perspicácia para evitar possíveis erros de interpretação desta frase e descobrir o significado que o próprio Cristo deu a ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a persuação de mensagem era imediata. Marcos descreve os murmúrios que ocorreram em torno da sinagoga em seu primeiro Sabbath em Capernaum. 'O que é isto! Uma nova lição; ele fala com autoridade; domina nossas paixões ruins e dá um jeito nelas.' Convicção, autoridade, o coração puro, a integridade, dê o nome que quiser a estas coisas, podemos todos reconhece-las e, se tivermos sorte, vez por outra rapidamente perceberemos isso nos homens e mulheres para os quais Deus é uma realidade. Isso talvez se assemelhe àquela qualidade de perfeição alcançada que certos eventos, beleza natural, arte, poesia, música, abnegação, podem representar e até mesmo proporcionar; coisa que com nossa consciência crescente poderia se tornar (aparentemente impossível) fato corriqueiro. Apenas Jesus teve esta qualidade. Nele os homens viram seus sonhos se tornar realidade. Nele os homens podiam depositar confiança. Para ele poderiam fazer aquele total comprometimento de que apenas a fé pode salvar. Conseqüentemente com respeito ao Homem de Nazaré, ou o Filho de homem como costumava chamar a si mesmo, lentamente e a despeito das profundas e mais obstinadas tradições que carregavam, não puderam encontrar nele nenhum sinal categórico de divindade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas ele podia curar. Chegaram carregando um menino paralítico numa esteira, fizeram um buraco no teto e o desceram até onde Jesus estava (Marcos 2.3-12). 'Menino, Deus não é o que ensinaram a você,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;24&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;alguém que te castiga pelo seus pecados ou pelos pecados de seus pais. Você não é desamparado nem maldito mas perdoado e amado'. A obsessão foi removida. 'Levante-se e ande' foi obedecido. Assim, em outro registro anterior (Lucas 7.22-23; e Mateus 11.4-6), ele responde as dúvidas de João Batista apelando para um teste que ele mesmo prescreveu, o teste dos frutos. 'Homens cegos recuperam a visão, homens coxos caminham, homens leprosos são tornados limpos e os surdos ouvem; homens mortos são resgatados para a vida; os pobres recebem boas notícias'. Podemos dar a esse discurso um significado físico ou mais amplo: de qualquer forma é verdadeiro. Ele contagiou os homens com saúde e plenitude de vida. A condição dessa cura em seu aspecto humano é claramente revelada na cena representativa e crítica no momento decisivo do ministério depois da transfiguração (Marcos 9.14-29) quando o pai do menino epiléptico declara a Jesus: 'Se você puder fazer alguma coisa, tenha piedade de nós e nos ajude'. Ao que Jesus respondeu: 'Você pergunta se eu posso? Todas as coisas podem ser feitas por aquele que tem fé!'. E o pai clamou e disse: 'Eu tenho fé: ajude minha falta de fé'. Daquele tempo para cá há evidência abundante para provar que, onde a confiança que não dá espaço para qualquer sombra de dúvida, não há nenhum limite para a possibilidade dos resultados; e até mesmo pessoas bem simples tem festejado as ocasiões em que são libertas com momentos de intensa e desinibida alegria. Estamos começando a descobrir algo sobre o caráter e os efeitos de tais curas. Parece ter pouco ou nada a ver com o medo da doença ou da morte, ou mesmo com o volume de orações concentradas no paciente. Como toda efetiva intercessão, é uma questão de percepção da presença de Deus e de completa dedicação a ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É perfeitamente plausível a primazia desta ênfase em Deus. Jesus insistiu muitas vezes neste ponto, tanto que adotou esse tema quando usou a parábola pela primeira vez em seus ensinamentos. O uso que ele fazia de tais histórias parece ter começado com vívidas comparações como aquelas duas onde ilustra a novidade absoluta,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;25&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;a expressão exterior e o espírito interior do seu modo novo de vida, as chamadas 'parábolas' do remendo do tecido novo na roupa velha e da colocação do vinho novo no oldre velho. Mas quando escolheu os Apóstolos e começou a se dedicar e a treina-los na avaliação do 'mistério' do Reino de Deus (Marcos 4.11), ele desenvolveu um tipo mais elaborado de simbolismo. As três primeiras dessas parábolas formam uma série de lições que ilustram a natureza do mundo de Deus, a sua e a nossa situação nesse mundo. As duas primeiras envolvem o uso das duas mais famosas imagens da presença de Deus no homem - a semente de vida, e a centelha de luz. Na parábola do Semeador Jesus descreve sua missão, a mensagem que se dissemina pela Palavra, e como sofre vários desastres, os ataques de destruidores, a pobreza da terra, a competição de outras influências; e como, no entanto, algumas crescem e se multiplicam. Então em contrapartida a qualquer sugestão de que nós - os recepientes - temos, nesse contexto, pouca responsabilidade, ele traz à luz que cada homem precisa preparar-se e alardear [a Boa Nova] caso queira ver seu trabalho executado: o homem é responsável pelo seu cuidado e pelo seu uso. A estes acrescenta uma das mais curtas e mais falseadas de todas as parábolas. Que chamamos de 'crescimento secreto da Semente' como se ela fosse uma precursora da semente de mostarda e da levedura; ou então semelhante à parábola do trigo e das taras dando a elas uma referência escatologica à última colheita. Na realidade tais parábolas não tem nada a ver com segredos ou julgamentos. Sua mensagem complementa as anteriores, um golpe com o poder total, um aspecto que a Igreja tem quase que universalmente negligenciado. Jesus mostra a imagem do semeador que saiu a semear. O homem semeia e as sementes brotam por si mesmas; ele dorme e desperta; e a planta continua crescendo durante todo o tempo. O homem não provoca e nem mesmo entende seu crescimento. É a terra que por sua própria natureza produz o fruto; que estabelece o crescimento em todas suas fases,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;26&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;folhas e espigas, grãos nas espigas, e depois vem a colheita. Nenhuma parábola descreve a função e o valor do mundo mais explicitamente do que o desenvolvimento da vida. Nós, a semente, podemos confiar na fertilidade do mundo de Deus: essa é uma clara lição que contraria aquele pessimismo obsecado que considera a terra totalmente corrupta, e a natureza como não tendo nada em comum com graça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este provavelmente é o ponto em que o contraste entre a moral de Jesus e as nossas modernas versões é mais manifesto. Certamente enquanto os noivos estavam com seus amigos, estes se alegravam (Marcos 2.19). A alegria significava para eles, como para Paulo, uma virtude cristã primária. A terra ficava radiante com a presença de Deus, e sob sua luz a comunidade dos discípulos poderia percorrer as estradas, poderia compartilhar a vida na terra, e poderia esperar o futuro com confiança. Era esta a alegria, o sentido de estar dentro da vida de Deus, esta fonte de felicidade interior e fortaleza exterior que desiludiu e abalou o mundo de Roma, para sua surpresa e eventual aceitação. Aqui seguramente está a luz que ilumina todo homem e é sua vida. Jesus veio por conta própria; e no princípio foi reconhecido por eles.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mesmo durante o período relativamente tranquilo de seu ministério ele nunca buscou a via ascética nem abordou qualquer situação pela alternativa política do 'temos que lutar ou fugir'. Pelo contrário, ele falou livre e destemidamente como homem entre homens, não hesitando em advertí-los da gravidade dos seus erros ('se um homem abomina o espírito de santidade, ele está nas garras de um pecado eterno', Marcos 3.29,30) nem vacilando em suas recomendações para que por causa do amor quebrassem o código tradicional ('o Sabbath foi feito para homem não o homem para o Sabbath', Marcos 2.27). Ele se move continuamente no mesmo plano, tanto lidando com pessoas individualmente em seus pontos de vista particulares, como em reuniões casuais com coletores de impostos como Levi e seus amigos; (Marcos 2.15-17) com estrangeiros como o centurião 'um homem&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;27&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;sob disciplina' (Mateus. 8.5-13; Lucas 7.2-10); com a mulher sirofenícia (Marcos 7.25-30) ou em um teste cuidadosamente preparado como o do homem com um braço mirrado no Sabbath na sinagoga (Marcos 3.1-6). Até mesmo quando começam a suspeitar dele, as autoridades, a polícia de Herodes ou os rabinos que tinham descido especialmente de Jerusalém, ele não revela nenhum sinal de ansiedade ou acomodação; e embora as dificuldades obviamente apareçam e o futuro se torne ameaçador, ele segue seu caminho, sem medir dificuldades ou recusar enfrentá-las. Ele aceita o pedido de Gergesenes depois da cura do endemoniado. Ele aprecia, seguramente com um sorriso, os comentários dos conterraneos aldeões de Nazaré. Ele envia os apóstolos como seus missionários, e os recebe, provavelmente nesta ocasião,(1) com tal êxtase e gratidão que vividamente evoca o tipo de expressão que encontramos no Quarto Evangelho ('Todas as coisas foram dadas a mim por meu Pai, e ninguém conhece o Filho exceto o Pai, nem ninguém conhece o Pai exceto o Filho e aquele para quem o Filho deseja revelar', Mateus 11.27; Lucas 10.22) Ele celebra o que parece ter sido uma simbólica senão eucarística refeição com seus discípulos e cinco mil seguidores. É neste momento, de acordo com João, que algumas pessoas, presumivelmente zelotes nacionalistas, pretenderam seqüestra-lo e proclama-lo Rei (João 6.15). Ele se retirou deliberadamente. Certamente em momento algum ele teve qualquer intenção de estabelecer uma hegemonia econômica, política ou religiosa. Nesse sentido seu Reino não era 'deste mundo'.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dessa forma, a segunda fase de seu ministerio foi largamente devotada em limpar a visão de seus seguidores de idéias egoístas de poder e prestígio com as quais quase sempre associavam seu messianismo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(1) possivelmente, a missão dos setenta é um desdobramento disto. Cf. Lucas 10.1-11 e Marcos 6.7-13.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;28&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele realmente era o Messias, representando os homens diante de Deus e Deus diante dos homens, conforme afirmado claramente por Pedro em Caesarea Philippi, e confirmado por ele e pelos filhos de Zebedeu, alguns dias depois pela visão do Cristo transfigurado. Mas a única resposta àquela confissão foi o ordenamento do silêncio e a advertencia de que sofrimento, rejeição, morte e ressurreição o esperavam. Qualquer outra expectativa seria satânica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhando para além da crise, e preparando seus discípulos para o que viria, ele age esperançoso e plenamente confiante de que Deus, cujas boas notícias apresenta ao seu povo em Jerusalém, não lhe deixará. Além de sua convicção de ressurreição, qualquer que fosse o preciso significado que dedicava a ela, havia a certeza que o Reino estava próximo, e que sua jornada estava diretamente conectada com ele. Se naquela geração, adúltera e pecadora, os homens o reconheceram, eles também o reconheceriram ao entrar na glória do seu Pai com os santos anjos (Marcos 8.31-38); e ele acrescentou: 'Verdadeiramente eu digo a vocês que alguns dos que aqui estão não provarão morte até que vejam o Reino de Deus vir com poder' (Marcos 9.1). A importância destas palavras, intensamente enfatizadas entre nós pelo Dr. Albert Schweitzer em seu grande livro (1) foi tão óbvia e exerceu tão grande papel em parte do pensamento e da ética cristã que iremos considera-las aqui brevemente; voltaremos mais completamente a esse tema mais adiante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Imediatamente surge diante de nós a questão do uso e do preciso significado de tal linguagem apocalíptica nos lábios de Jesus, e em termos gerais do lugar da Escatologia, e do que significa no pensamento e na vida cristã a doutrina do fim do mundo e de&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(1) Von Reimarus zu Wrede, traduzido com o título "A Questão do Jesus Histórico".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;29&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;nosso destino. Essa questão surge com frequencia tanto na forma de citações como de discurso, usualmente e corretamente considerado pelos estudiosos como um documento especial e interpolado, em Marcos 13. A Escatologia será considerada quando lidarmos com a interpretação de Jesus no ensino de São Paulo; para os Evangelhos, aparte algumas passagens em Mateus, não exerce um papel relevante em sua forma crua e literal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do ponto de vista dos estudos éticos este é o principal problema. Se considerarmos literalmente tais declarações apocalípicas, concordaremos que Jesus não apenas acreditava no rápido cumprimento das boas novas mas que elas seriam consumadas pela sua própria descida física do céu em triunfo, pela subversão imediata das condições presentes e pelo seu reinado universalmente reconhecido, e que esta completa intervenção sobrenatural aconteceria dentro da geração que presenciara sua morte, e deduziremos que seu ensino moral era apenas uma ética interina, restrita ao intervalo de alguns anos, mas irrelevante e imprópria a qualquer observância permanente ou a longo prazo. Daí poder-se-ia argumentar que suas palavras sobre matrimônio, auto-controle, jejum e a real vida 'no Reino' dizia respeito apenas a uma emergência temporária e curta, não podendo ser consideradas depois que tais espectativas fossem abandonadas. Jesus neste contexto compartilhou de uma ilusão comum dos seus próprios contemporâneos de que o fim, significando o desfecho catastrófico desta vida de luta, de pecado e sofrimento, era iminente e que esperar por ele era uma necessidade primária do crente. A prevalência de tais idéias neste vigésimo século é uma advertencia para que não as ignoremos como incompatíveis com a íntegra qualidade e método do próprio Jesus e com sua revelação da natureza de Deus, do mundo e do homem. Nós não temos que olhar para estas declarações de nosso moderno ponto de vista mas do que elas significaram no primeiro século.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De nossa parte, por herdança do mundo greco-romano,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;30&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;nosso idioma e literatura, usamos metáforas graficamente. Podemos visualizar um anjo alado; os escultores e pintores fazem isto, até mesmo um centauro é plausível para nós. Mas não conseguimos descrever uma besta cheia de olhos, e muito menos um homem de cuja boca saem duas espadas afiadas. Não é comum usarmos cataclismos celestiais e nem mesmo cataclismos terrestres para descrever nossas experiencias - entretanto há épocas, como a de agosto de 1914, quando até mesmo os jornalistas mais insensíveis acharam estas as únicas maneiras adequadas para expressar a intensidade dos eventos. Mas para os judeus, não acostumados a imagens gráficas, a reprodução visual era menos necessária, e para os tremendos acontecimentos da vida religiosa e emocional a transformação do sol em escuridão e da lua em sangue, o mover montanhas e a convulsão da terra eram imagens familiares. Moisés, os profetas e os salmistas usaram tal linguagem durante séculos; e a crise das guerras macabeias a tornaram universal, implantando até mesmo sistemas secretos nestas imagens para revelar conhecimentos ocultos. Quão precisamente a linguagem de Daniel ou o número da besta esconde seus segredos ao leitor ordinário pode ser discutível, mas que para ele e para todo o mundo judeu tal apocalípticismo era principalmente simbólico é algo certo. A interpretação literal contribuia, e ainda contribui, não apenas para traduzir poesia em prosa mas para ocultar sua extensão e significado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Além disso não podemos nos esquecer dos efeitos que nossa convicção na ordem de natureza, na imensidão do tempo geológico, no sistema solar e no universo, provoca em nós mesmos. No primeiro século a terra era central e, consequentemente, pequena; Deus em toda sua majestade era uma figura familiar, quase doméstica; e não havia nenhuma linha para separar o que normalmente podia ou não ocorrer. Tal linha faz parte de nossos hábitos cotidianos de pensamento; e para nós é difícil deixar de separar os milagres da natureza das obras de cura. Nossa perspectiva do exequível e do inexequível rejeita inteiramente a idéia das in-&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;31&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;trusões sobrenaturais. Se para os discípulos essa idéia era facilmente absorvida e intensamente inspiradora, para nós se torna um campo de recusa e de depressão. Eles pressentiam a eminencia não do fim de suas próprias vidas, mas do fim mundo, do fim do universo como eles o concebiam, algo que poderia chegar a qualquer momento, como um ladrão durante a noite. Não podemos imaginar uma catástrofe universal nem sequer em termos de bombas de cobalto, nem mesmo de qualquer intervenção externa e dramática. Um Deus que se comporta de tal modo insinua a cosmogonia e a teologia do Paraíso Perdido. Seria um Deus que abandona seus filhos e sua mútua relação com eles, um Deus que após experimentar o modo de amor e da Cruz readquire seu caráter de Deus das Batalhas e de Juiz em seu trono, um Deus cujo Cristo não revela o aspecto vital de sua natureza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Concluímos que tais linguagens e idéias apocalípticas são maravilhosamente apropriadas se simbolicamente interpretadas como pano de fundo das boas novas em Jesus. Se assumirmos seu significado literal estaremos não apenas contradizendo a revelação cristã mas também o uso dessa linguagem pelo judaísmo no primeiro século. Para o Jesus apocalíptico não era uma linguagem de terror mas de esperança, uma proclamação não de eventos físicos futuros mas da suficiência permanente e do triunfo de Deus. Ele enfrenta a crise com confiança; seu modo continua. Aceitando-as devemos ter o cuidado para não se comportar como se interpretações simbólicas envolvessem qualquer negação da extensão, da velocidade ou da subitaneidade dos acontecimentos por elas simbolizada. Perceberemos quão sujeitos estamos a tais acontecimentos quando transmudarmos a catástrofe física para o nível espiritual. Relegá-la a um futuro remoto ou mesmo considera-la restrita a um mundo inacessível é seguramente um erro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A rápida influencia do ministério público de Jesus pela proclamação, pela cura, e mais particularmente, pela seleção e comissionamento dos doze, e pela experiência do serviço comunitário(1) que compartilhara com&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;32&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;eles, já descortinara, como um microcosmo, a presente conquista e o cumprimento futuro da vida terrena no Reino.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(1) esse ponto é admiravelmente abordado por T. R. Morton, em seu recente livro, The Twelve Together.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;33&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;===&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;III - A VIDA PERDIDA E RECUPERADA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim começou a segunda fase do ministério e dos ensinamentos de Jesus. O primeiro plano, como o registro sinótico mostra, é resumido meritoriamente na primeira expressão vocal joanina sobre a vida: 'eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância' (João 10.10). É uma declaração que resume o propósito de todo processo criativo e evolutivo e isso seguramente deveria ser a meta de todo o esforço humano. Depois surge uma nova mensagem, a chave de tudo aquilo que viria a seguir. Após a confissão de Pedro, Jesus reúne seus discípulos e declara publicamente: 'se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome sua cruz e siga. Pois quem quiser salvar sua vida, a perderá, e quem perder sua vida por causa das boas novas a salvará' (Marcos 8.34-35). Essa declaração, mais frequentemente citada do que qualquer outra, reproduz a segunda expressão sobre a vida em João. 'O homem que ama sua vida perde-la-a, e o homem que odeia sua vida como é neste mundo, guardá-la-a para a vida eterna' (João 12.25).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi com esse desvencilhamento do ego que teve início a viagem do norte em direção a Jerusalém. Jesus viu claramente aquele momento como um clímax. O grupo que reunira para o ministério público estava agora sendo treinado para experimentar a vida 'no Reino', e reconhecer sua realidade e caráter. A mensagem fora levada tanto pelas viagens do Mestre como na missão dos seus apóstolos, iniciando entre os companheiros de Israel, enquanto 'ovelha perdida' do rebanho, estendendo-se ao centurião que possivelmente era um prosélito, e posteriormente à mulher sirofenícia. Os discípulos, treinados por símbolos e parábolas, verificavam que a pessoa de Jesus era para&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;35&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;eles e para todo o gênero humano a perfeita 'imagem' do invisível, o Homem esperado que viria do céu, o Ungido de Deus. Chegara o momento de apresentar as boas novas ao povo de Deus em sua cidade de Jerusalém. Jesus subiu para lá na Páscoa; 'ele ia adiante deles e eles estavam pasmos, maravilhados, eles o seguiam atemorizados'(Marcos 10.32). Tratava-se de uma nova situação, de uma nova tarefa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em sua secreta viagem a Cafarnaum pela Galiléia, em pleno ministério, ele levantou o tema da hierarquia. 'O que vocês discutiam pelo caminho?' (Marcos 9.33-37). Mas eles se calaram porque pelo caminho tinham discutido entre si sobre qual deles era o maior. Assim ele lhes aplicou diretamente uma lição, 'o primeiro será o último e o servo de vocês todos', e demonstrou a vida familiar do Reino tomando uma criança nos braços e reivindicando que Deus, ele e a criança são um. E quando o João protestou que um homem que não pertencia à comunidade estava usando o nome de Jesus para exorcismo, ele lhe disse para que não interferisse; 'quem não está contra nós está do nosso lado' (Marcos 9.40-50). Assim ele os adverte contra a xenofobia que é uma máscara de orgulho e imputa inimizade ao outro para afiançar nossa própria separação dele. A generosidade aos outros sempre é recompensadora; colocar obstáculos no caminho dos outros sempre é danoso para nós mesmos. Devemos ser rápidos para descobrir o que é que nos atrapalha, pode muito bem ser nossa própria mão, pé ou olho; se quisermos crescer em plenitude de vida, a fonte do dano deve ser abandonada; deve ser purificada como que através do fogo. Temos o sal purificador da vida dentro de nós; preservemo-lo, e vivamos em paz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma das principais preocupações de Jesus foi revelar Deus e nutrir a sensibilidade dos homens para com ele e dos homens entre si. Agora que começaram a viver, eles precisam de uma ajuda mais concreta. Eles têm que aprender como a nova relação pode ser expressa em casos concretos e quando&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;36&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;enfrentam assuntos especiais. Devem ser examinados os velhos hábitos, questões governamentais e costumes: eles podem ser guias bem cegos ou até mesmo enganosos para o modo novo de vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até este momento Jesus estava tão completamente preocupado com as pessoas que sua condição, ocupação, raça e sexo aparentemente pouco importava. Ele fora amigável com publicanos e pecadores, com um centurião e com um dirigente da sinagoga. Embora falasse com dureza aos escribas e fariseus, vítimas de orgulho, gente falsa, isto aparentemente não afetou suas relações pessoais com eles. Na realidade ele tinha prestado ou parecia prestar pouca atenção aos problemas da vida, às questões sociais e econômicas, civís e políticas, sexuais ou domésticas. Todavia tais perguntas são dirigidas a ele, o que ele tem a dizer?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando uma caravana aparentemente vinda da Galiléia, do lado oriental da Jordânia cruzou o rio e passou para o territorio sob a jurisdição de Herodes no domínio romano da Judéia, os fariseus o confrontaram com a questão do divórcio trazida à tona pela conduta de Herodes.(1) Tal divórcio era legal? Era naquele tempo, uma questão controversa como em nossos dias? Moisés falara sobre esse tema - mas o Torah manteve tais idéias? Com que significado? A resposta de Jesus é informada diferentemente em outra narrativa, desviada de sua forma primitiva. Jesus não tem nada a dizer sobre ritos de casamento e costumes ou consequentes restrições e regulamentos: todas estas coisas são o resultado da natureza torta do homem e de seus afetos truncados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele reporta o fato básico, a dualidade e a congruidade dos sexos. Homem e mulher 'se pertencem mutuamente'; monogamia é a cuminação natural dessa interdependência; eles são 'uma só carne' e o ato que consuma tal união é final.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(1) Marcos 10.1-12. A versão expandida em Mateus 19.1-10 é mais legalista, aparentemente sanciona o divórcio para relacionamentos extra-matrimoniais, é mais ascética, porque Jesus reconhece que nem todos podem acatar sua palavra, e fala de pessoas que se tornam eunucos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;37&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deus os uniu pelo ato da criação; ou seja, torna-se adultério se a união uma vez consumada é quebrada. Jesus, aqui pelo menos, não trata de opções alternativas, como paixões promíscuas, casuais, variáveis e relacionamentos sexuais, mas com o simples fato físico e espiritual que o criativo ato de procriação significa, algo santo, completamente independente de autorizações legais ou eclesiásticas. Quando defendemos votos de matrimônio e bênçãos da Igreja aparentemente assumimos que a pureza da perspectiva, da experiência e até mesmo da autenticidade do amor são coisas relativamente sem importância - e que a união pessoal só é validada pelo penhor legal. Voltaremos depois a este assunto: por enquanto ficamos com o que Jesus disse. O que é certamente importante, mesmo se também concordarmos que o padrão dele é inacessível.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então seguiu-se o segundo incidente, sobre crianças e a tentativa dos discípulos em mante-las distante. 'A menos que você dê boas-vindas ao Reino como uma criança, você não entra nele'. Uma declaração que não tem nenhuma relação com batismo infantil: não é a idade nem, pelo menos eu acho, a inocência do concorrente que importa, mas a espontaneidade, a criatividade e a simplicidade com que você entra nele. Não há nenhum espaço no primeiro momento da experiência com Deus para cálculos ou argumentos. A paz e a presença de Deus estão, como disse Paulo, além de todo argumento ou compreensão lógica: aceitar isto deveria ser um ato de todo o ser. E, como os próximos incidentes irão revelar, tais coisas calam mais fundo do que obedecer regulamentos. O jovem que perguntou 'bom mestre, o que é que devo fazer para viver eternamente?' não apenas mereceu a repreensão 'apenas Deus é bom; toda a bondade é dele' - como também, incidentemente, não significou de forma alguma um repúdio à própria bondade ou divindade de Jesus; provavelmente totalmente o contrário. Ele também foi advertido de que a vida envolve uma singeleza de objetivos e uma plenitude de dedicação que aquele jovem, por causa da riqueza que possuia, ainda não atingira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;38&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de suas advertências sobre riquezas e seu efeito corruptor, Pedro enfatizou que os discípulos tinham entregue tudo que possuiam. Jesus assegurou a ele que tal sacrifício teria sua própria recompensa mesmo sem abrogar o princípio primeiro-último. A seguir ele é confrontado com a grande ilustração do gosto pelo prestígio externado pela mãe de Tiago e João, seus seguidores mais íntimos. Seguramente seriam candidatos a estarem próximos a ele no Reino. Mas tal reivindicação não poderia ser concedida; não pode haver nenhuma barganha para qualquer privilégio, nem talvez para a fuga, no reino do amor de Deus; sua família não tem nenhuma criança predileta. Quando os outros discípulos, não sem razão, expressaram seu aborrecimento a esta tendencia ao nepotismo, Jesus disse a todos eles que a nova comunidade não tinha nada em comum com dinastias e hierarquias do mundo das nações; a grandeza é colocada em termos de ministério onde a prioridade é dada ao escravo. Realmente o Filho do Homem veio 'não para ser servido mas para servir e dar a sua vida em resgate de muitos' (Marcos 10.45). E assim foi, na estrada de Jericó, em Jerusalém e em sua Paixão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;São notáveis as mudanças de caráter na fase final do ministério de Jesus. Ele não apenas se torna mais explícito em sua apresentação da vida em Deus como também se torna mais claramente focado na pessoa de Jesus. Seu clamor à submissão, sua posição como Messias, sua relação especial com Deus - agora todas estas coisas se tornam manifestas. Os homens vinham ve-lo nesta relação; e perceberam não apenas um novo conceito da natureza de Deus como nosso Pai, mas também um novo símbolo, o perfeito Filho do homem, como forma de união com o divino. Nele, a adoração poderia ser transportada em amor: amor encarnado, o que significou para seus discípulos a única imagem adequada de Deus, uma vez que era apresentada em termos de nosso elemento mais elevado. O antropomorfismo sob tal perspectiva não poderia ser encarado como um rebaixamento da Deidade mas para nós, os homens, como sua única expressão apropriada. Vida eterna, vida em termos da terceira definição joanina,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;39&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;'o conhecimento do único Deus verdadeiro, e de Jesus Cristo, a quem ele enviou' (João 17.3).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim, quando atravessava Jericó, ele é saudado pelo cego Bartimeu: 'Jesus, filho de Davi', conforme descrito em Marcos (10.47-49). O mesmo ocorre quando, montado em um jumento, entra em Jerusalém, tanto os que iam à frente como os que seguiam atrás clamavam: 'Viva o Rei!', 'Bendito seja aquele que vem em nome do Senhor!'... 'Bendito seja o reino de nosso pai Davi!'. No dia seguinte, agindo em nome de Deus, ele esvaziou o mercado do Templo, expulsando os cambistas e os vendedores; as autoridades não ousaram interferir; pois as pessoas estavam atentas ao seu ensino. Foi no dia seguinte, quanto questionaram sua autoridade arrazoando que tanto ele como João Batista apenas expressavam um clamor humano, que ele revelou o grande desafio para o qual fora chamado. Ele o fez através de uma parábola, método bem familiar aos profetas e salmistas, e contou como Deus tinha disposto, plantado e equipado seu vinhedo na casa de Israel, arrendando-o e posteriormente enviando pessoas para que recolhessem sua quota parte. Enviou seus mensageiros um a um, sucessivamente, e cada um deles foi maltratado, agredido, ferido ou morto. Até que por fim, enviou seu próprio filho amado, pensando: 'eles irão respeitar meu filho'. E eles disseram: 'Ele vai ser o dono da propriedade quando o pai morrer. Vamos matá-lo, e então a propriedade será nossa'. Assim foi que eles o agarraram, mataram e jogaram o corpo fora da vinha. Que acham vocês que o dono fará quando souber o que aconteceu? Virá, matará todos eles, e dará a vinha a outros. Os líderes judaicos queriam prender Jesus naquele mesmo momento, por ele usar esta ilustração, pois sabiam que os lavradores maus da sua história eram eles. Porém tinham medo do povo; então desistiram da idéia e foram embora (Marcos 12.1-12).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo que eles poderiam fazer era tentar desacreditá-lo. Procuraram confundi-lo com questões referentes ao pagamento de impostos - com o intuito de incriminá-lo pela sua resposta - e com questões sobre ressurreição e relações subseqüentes. Um inquiridor sincero perguntou-lhe sobre a importancia comparativa dos vários mandamentos da&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;40&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;lei. Ele respondeu, como sempre, sem hesitação ou evasão, e então repetiu de uma forma bem simples o desafio de sua parábola: 'O próprio Davi chama-lhe Senhor. Como, pois, pode ser seu filho?'. (Marcos 12.35-37). A declaração em Mateus (22.41-45) traz uma forma mais direta ainda: 'O que acha você do Cristo? De quem ele é filho?'. O dia termina com uma advertência contra o exibicionismo dos religiosos e um elogio à generosidade dos pobres. A hierarquia dos saduceus, nula em apoio popular, revela-se comprometida com o regime romano, contrapõe suas doutrinas às boas novas,(1) e planeja juntamente com os rabinos uma forma de prendê-lo e matá-lo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele não tinha nenhuma dúvida a respeito disso, e apenas esperava o desenrolar dos acontecimentos. Parecia claro que o desfecho dramático não poderia ser contido nem pela luta nem pela força; há muito tempo ele tinha previsto o perigo. Mas como sempre, ele aceitou o que haveria de vir. Os dois dias seguintes são marcados pelas histórias de duas ceias: uma em Betânia na casa de Simão, o leproso, com o belo incidente da mulher com seu frasco de perfume, 'um unguento preparado para seu enterro'; e a outra no andar superior, talvez na casa da mãe de Marcos em Jerusalém onde o pão e o vinho do novo pacto são santificados e compartilhados. Depois veio o Getsêmani.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eis que a crise chega - a crise que Jesus previra e se preparava para enfrentar juntamente com seus discípulos - a crise que defronta cada homem quando a vida com Deus no mundo revela sua impossibilidade. O registro que temos, brevemente traçado em Marcos, esboça uma vida com Deus no Reino, uma vida&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(1) ambos comprovados por sua resposta (Marcos 12.18-27) e pela ressurreição de Lázaro (João 11.45-53).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;41&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;consistente na multiplicidade de suas relações, e abundante em todas as ocasiões em que foi testada. Tanto em sua plenitude como em sua dedicação ela se revela completa, o caminho por onde o homem deve andar. Ele soluciona os problemas e revela a universalidade e a praticabilidade do viver em Deus; tornando convictos os que por ele andam e o soldaram em uma comunidade. Não se tratava da criação de uma redoma utópica de sol e felicidade - mas de uma situação onde a luz do amor e da alegria eram ricamente experimentadas. Um caminho que seria trilhado no mundo tal qual o conhecemos, um mundo de homens e mulheres egoístas, todos eles imperfeitos e alguns deles maldosos. Por enquanto esse ambiente, onde bons e ruins viveriam juntos como trigo e palha, seria um possível ambiente para o Reino. As sementes seriam lançadas com algumas delas arraigando, crescendo e frutificando. Mas chegara o tempo em que o Caminho parecia finalmente bloqueado, o tempo em que cada um de nós se depara com o fato concreto da morte que de forma inescapável nos confronta, quando somos compelidos a perceber que o espaço onde nos fixamos está cessando para nós, e que todas nossas ligações, nossas relações terrestres pelas quais Deus revelou-se, chega a um fim. Jesus e os homens e mulheres ao seu redor serão separados; já não mais poderão ser expressas as esperanças e tarefas particulares que uniram cada um deles em seu convívio familiar; chegou a hora da partida - ele tem que ir e eles ficarão. Mesmo que esteja seguro de que pelo menos com alguns deles um afeto imortal foi estabelecido, como essas coisas podem ser mantidas quando toda sua expressão terrestre desaparece?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em todo caso para os discípulos - e realmente para muitos outros, inclusive Saulo de Tarso - o evento que viria em seguida seria catastrófico. Era o fim do seu mundo, o momento da proclamação da sentença sobre os tradicionais sistemas de moralidade legalizada, de servidão e de individualismo, de todas as formas de associação humana não baseadas em relações pessoais e mútua&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;42&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;solidariedade. Jesus viera em carne e osso, exatamente como predito pelos profetas. Nele Deus 'visitou seu povo'. A esperança aguardada por Israel e por todas as nações se cumprira. E o resultado foi o Calvário. Os melhores representantes de seus contemporâneos, as duas mais respeitadas instituições, o Sinédrio do povo de Deus estabelecido no sacerdócio e no rabinato, e a justiça imperial de Roma estabelecida na pessoa de seu procurador, ambos combinaram crucificar o Cristo. Julgado pelos seus próprios padrões, ele não passava de mais um revolucionário iludido enganando seus seguidores e que poderia envolver a terra santa em matança e destruição. Bastaria matá-lo e deixar o tempo passar. Mas, para os discípulos que o conheceram, que o viram e que acreditaram nele, aquela atitude significava simplesmente a traição e a ruína de Israel, o fim daquele mundo, o nascimento de um modo novo de vida, um novo amor os uniria, uma nova comunidade os integraria, uma nova e completa perspectiva e conhecimento os inspiraria. Da mesma forma que receberam a Páscoa como garantia de sua presença viva, e sua Ascensão como conhecimento de sua condição divina, da mesma forma eles encontraram no Pentecostes a vida eterna que lhes foi dada na vida abundante de seu ministério, e a vida pela morte do ego em sua crucificação. Para eles, como para o mundo, tratava-se de uma nova civilização; a velha tinha morrido. Esse foi o significado do Gethsemane.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez, muito freqüentemente nossa interpretação da sua Paixão seja colocada em termos do seu sofrimento, da sua completa tortura e do desgosto que envolveu aquela contínua agonia. Seguramente o sofrimento advindo de sua escolha e submissão esteve intimamente ligado aos seus discípulos, o choque de sua prisão, a vergonha de sua traição, a decepção dos seus sonhos, a perda do seu amor, o fim do seu contato, o triunfo dos seus inimigos, o fracasso de sua missão - a agonia, inconsolada pela sua presença ou por sua fé em Deus, tudo isso teve um gosto amargo tanto para ele como para seus discípulos, o Gethsemane é a evidência disto; e quando o último&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;43&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;conflito de lealdades se resolveu, 'eu quero a sua vontade e não a minha',(1) este foi o veredito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No que diz respeito a detalhes como o julgamento, os dados relativos à Páscoa, a sequencia, a legalidade, a amplitude dos poderes constitucionais do Sinédrio sob o governo romano, o interlúdio com Herodes, o caráter e os motivos de Pilatos, todas estas coisas não tem nenhum interesse especial nesse momento. De qualquer forma, na medida em que Jesus resolve enfrentar a situação mesmo sem ter nenhuma condição de desafiar a autoridade do estado, os modernos problemas altamente complexos da relação entre a cristandade e os chamados governos seculares cristãos não vem à tona. Quanto à fascinante e importante questão envolvendo a atitude dos fariseus e de outros judeus que tinham um especial interesse em atacar Jesus, discutiremos mais adiante. Por enquanto basta notar que as autoridades não conseguiram encontrar bases secundárias para condená-lo, tendo que deter-se na questão básica. 'Você é o Messias, Filho de Deus?'. Em resposta Jesus afirmou não só sua condição de Messias como também a explicou citando Daniel (7.13) no advento do Filho do Homem. Acabaram condenando-o naquela mesma noite com base nessa acusação na sessão oficial do Sinédrio, a formulação básica de sua missão, em seguida o enviaram ao Procurador - a acusação foi modificada pelo tribunal romano pela reivindicação de reazela, portanto, traição contra o Imperador. O escárnio dos soldados e a inscrição na cruz confirma esse veredito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A crucificação, morte considerada pelos judeus como especialmente amaldiçoada, era a penalidade aplicada nestes casos. Foi na própria cruz, como os registros e a experiência madura da cristandade concordam afirmar, que a boa notícia alcançou seu pleno significado: o 'mistério', o&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(1) Marcos 14.36. Acho que essas palavras foram preservadas para nós pelo rapaz que vestia o 'pano de linho' (Marcos 14.51-52). Ele bem pode ter sido o evangelista que celebrou a Última Ceia na casa de sua mãe: cf. Atos 12.12.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;44&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;segredo do paradoxo de vida com Deus no mundo, é revelado. Até aqui vimos isto em termos da relação entre Jesus com seu ambiente. Ele, diferentemente de todos os filhos dos homens, viveu eternamente, ou seja, em uma união irrompível com o divino, do Filho com o Pai. Ele também viveu neste mundo, tanto no tempo como no espaço, de individualidades multiformes. Viveu como um homem entre homens, e mostrou como unidades diversas poderiam ser erguidas acima da contraditória normalidade entre o egoísmo e o altruísmo das suas próprias naturezas. Eis aqui a mutualidade, a vida reconciliada, o Caminho da nova e suprema felicidade propiciada pela aceitação de Jesus na qualidade do próprio Deus. Trata-se de amor - mas amor que supera nossas limitações de exploração e de sentimentalismo, amor que nem domina nem idealiza, amor completamente livre do sadismo e do masoquismo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em nós, e em Jesus, há lugar tanto para a auto-realização como para a auto-rendição: motivos completamente egoísticos e altruísticos não devem ser materializados pela supressão de um ou de outro mas pela integração entre ambos. Unidade e diversidade, o velho problema da unidade e da pluralidade que era o assunto básico da filosofia grega, deve ser solucionado. A história da evolução, do átomo para a molécula, da molécula para a célula, do unicelular para o multicelular, provê séries de exemplos do mesmo processo, pelo menos no nível humano, conforme sugerido por Thelhard de Chardin naquilo que chama de 'hominização', uma realização semelhante é atingível.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aqui, a grande frase registrada por Marcos, o grito de desamparo 'Meu Deus, meu Deus, por que me abandonou?', nos revela o momento em que a tensão é quebrada. A expressão da mais completa solidão, a rendição da última garantia da presença divina; e assim o meio para o endosso do triunfo final. Aqui cumpre-se o paradoxo de vida perdida e recuperada, da declaração de Jesus freqüentemente repetida nos registros de sua vida. A morte é, ou parece ser, o isolamento absoluto do ego, e portanto, 'o portão&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;45&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;da vida', a liberação de uma relação de amor onde egoísmo e altruísmo são uma e a mesma coisa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Essa mesma frase é uma clara referência ao poema profético do Salmo 22 onde um coração quebrantado aparentemente derrotado é envolvido pelo esplendor e plenitude da vida eterna. Na tradicional sucessão das Sete Palavras da Cruz, organizadas nos Evangelhos como um padrão perfeito, seu conjunto é visto como a dramática apresentação e expressão do amor personificado no crucificado. Aqui está o amor que perdoa, que suporta, que une; que dá tudo e que dando recebe; que atrai, tem sucesso, e se consuma. É a crise dramática e o resumo do ministério de Jesus, de uma vida que seus inimigos julgavam ter chegado ao fim com a Cruz mas onde de fato a Cruz foi o ponto central. A vida encontrou sua plenitude no Pentecostes, a plenitude que ainda opera externamente na comunidade santificada, seu Corpo ressurreto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Embora nem o Evangelho de Marcos nem a fonte comum a Mateus e Lucas dêem detalhes das aparições, nada é mais certo de que logo após o enterro seus discípulos não tinham nenhuma dúvida de que Jesus estava vivo e com eles. Em uma época quando não havia nenhum idioma que pudesse distinguir experiências físicas de psíquicas, e em um assunto sem precedente é difícil determinarmos os eventos precisos que estabeleceram tal convicção. Mas esses eventos mudaram inteiramente a perspectiva e o caráter daquelas pessoas, e repetido com um forte grau de semelhança ao longo da história na experiência de São Paulo a caminho de Damasco. Não estamos aqui interessados em descrever detalhadamente tais eventos, e muito menos a ocasião que denominamos de Ascensão quando aparentemente foi manifesto o estado divino de Jesus. Basta-nos a narrativa de João das três ocasiões que tipificaram tais eventos, a suficiência de Jesus em conhecer a solidão de&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;46&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;um coração quebrantado, a confusão da derrota, e as dúvidas dos cépticos (João 20.11-29).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que é mais imediatamente relevante é a manifestação no Pentecostes de um novo tipo de comunidade humana, um companheirismo do qual se dizia ser 'um só na mente e no coração' (Atos 4.32) e por São Paulo que eles eram 'o corpo único de Cristo e cada um de seus membros' (1 Cor. 12.27). Neste corpo homens e mulheres, compartilhando da mesma lealdade, dedicados ao serviço comum, e unidos pelo amor mútuo, alcançaram uma solidariedade orgânica que os habilitava individual e coletivamente na expressão da plenitude do modo de Cristo - ou, melhor, em provê-lo de um instrumento pelo qual sua vontade poderia se cumprir. Símbolo e instrumento assim criados realmente eram o produto final de seu ministério.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este realmente foi, desde o princípio, seu claro objetivo. Mesmo que toda a fonte e a história do Evangelho comum tanto a Mateus como a Lucas e conhecida pelos estudiosos como Q, possa conter pequenas dúvidas compartilhadas por Marcos (de onde alguns trechos foram compilados) que ostenta o status dos registros seguramente mais autênticos que possuímos. Nada é mais esclarecedor do que a história da Tentação. É fácil de considerar os três testes como os que o afetaram mais intensamente. Ele usará sua vocação para atingir conforto e segurança, poder e controle, ou maravilha e adoração? Sua obra está principalmente dentro do campo econômico, político ou religioso? Mas para alguém que enfrentou o chamado e a missão de seu batismo, e o comprometimento não funcionar para si mas para Deus e para o seu próximo, seguramente há uma questão maior e mais evidente. Havia três métodos principais pelos quais uma comunidade poderia ser construída, três tipos de instituições apropriadas ao avanço humano. Panem et circenses, pão e circo, segurança e bem-estar social - no que diz respeito a uma aldeia sob o jugo estrangeiro a primeira tarefa seria elevar o&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;47&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;padrão de vida. Todo o Império estava familiarizado com sociedades amigáveis, guildas muradas e clubes de elite: apenas um século depois os magistrados amigavelmente se dispuseram autorizar a Igreja sob esta categoria. Mas 'o pão não saciará a alma dos homens': um ideal econômico nunca é completamente satisfeito. Tu regere imperio populos,(1) significava legiões marchando e estabelecendo um império que deveria dominar e unificar os povos. Tal método era totalmente familiar: tinha sido opressivamente usado mas para a paz romana. Não poderia o Filho de Davi preencher as expectativas populares, expelindo seus senhores pagãos, e estabelecendo, mediante uma certa dose de força, sua própria supremacia? 'Adore somente ao Senhor Deus: Obedeça somente a ele' - nenhuma revolução política atingiria a vontade e o jeito de Deus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;'O Messias descerá de céu nos Tribunais do Templo', assim eles tinham predito, e assim tinha sido prometido. 'Deus enviará seus anjos para impedirem que se machuque'... 'eles impedirão você de despedaçar-se mas pedras lá embaixo'. Seguramente era necessário confiar em Deus, para o cumprimento de sua palavra, para vindicar sua missão. 'Dê-nos um sinal' foi a constante petição dos seus ouvintes. Ao provocar o temor e a adoração do seu povo, exibindo-lhes recursos sobrenaturais - Israel responderia a tal convocação e Deus cumpriria sua palavras e responderia às espectativas do povo. 'Não se deve impor ao Senhor Deus uma prova absurda!'&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim foram rejeitados os três tipos de instituição e os três conceitos de Deus como Provedor Universal, como Rei de Reis, e Provedor de Milagres, todos eles foram rejeitados como inadequados e falsos. O que permaneceu? O modo paternal e familiar, o conceito do amor criativo e que a todos abarca, a oração do 'Pai Nosso' e a comunidade santificada de seus filhos. Assim foi fixado o curso em direção ao Calvário e ao Pentecostes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(1) 'para ter domínio sobre os povos' (Virgilio). &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;===&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;IV - O Desenvolvimento da Ética em Paulo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O PRIMEIRO IMPACTO DE JESUS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;NO que diz respeito a ética cristã, especialmente em sua forma moderna e nos círculos protestantes, é ao ensino de São Paulo para onde mais particularmente as atenções são dirigidas. Em termos gerais, Lutero, Calvino, e em menor grau os demais Reformadores, não apenas consideraram o Apóstolo dos Gentios o protagonista na luta contra o legalismo e o tradicionalismo mas também como o fundador de uma elaborada e sistematizada teologia que poderia ser aplicada prontamente às condições dos seus conflitos com o Catolicismo medieval. Ele lhes abasteceu tanto de exemplos de crítica destrutiva como de novas posições pelas quais o que eles rejeitavam pudesse ser substituído. Tal atitude foi basicamente válida. Jesus tinha proclamado e iniciado o que era claramente um novo modo de vida, realmente arraigado no Velho Testamento mas emergindo fora dele, inevitavelmente pela atitude de seus representantes que se desviaram do espírito de seus ensinamentos. São Paulo, uma vez convencido da verdade e do poder das boas notícias, dedicou toda sua vida expressando seu significado em termos de uma abundante exposição doutrinária apropriada tanto à teologia quanto à ética. Entretanto, a dificuldade era, e ainda é, que lidando com cartas escritas em épocas diferentes e em situações concretas e por um homem de mente singularmente alerta e em rápido desenvolvimento, os intérpretes de Paulo assumiram todo o seu trabalho como semelhante, consistente e sistemático e se esforçaram para amalgamar todo elemento de qualquer uma de suas partes em um único e rígido vigamento. Fazendo assim eles firmaram-se muito freqüentemente em frases às quais imputaram completos, grosseiros e muitas vezes&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;49&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;evidentes erros de interpretação; não deram qualquer atenção às mudanças de opinião mesmo quando elas eram precisamente determinadas e facilmente delineadas; além disso dificilmente reconheceram a diferença que ele próprio repetidamente enfatizava com relação a idéias casuais e idéias ad hoc, interpretações especulativas, injunções particulares e princípios essenciais, ou quando prontamente admitia que pretendia fundamentalmente, como veremos mais adiante, um destacado desenvolvimento envolvendo tanto a disposição para o descarte de velhas convenções como um profundo desenvolvimento e renovação dos conceitos. Ele aprendeu pela experiência, e sua experiencia foi ampla e vívida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não é necessário aqui examinar em detalhes o caráter de seu chamado "paulinismo" ou a extensão que isso oferece à paródia do pleno desenvolvimento da fé do apóstolo. Nossa preocupação é continuar o exame do impacto de Jesus sobre seus contemporâneos e do que as "boas novas" significaram para eles. Evidentemente nenhum dos registros que chegaram até nós é mais importante ou foi mais influente do que as cartas que São Paulo escreveu no curso de sua longa e íngreme jornada. Tais registros são de valor extremo para nossos propósitos porque, ao contrário de boa parte da literatura epistolar do período, trata-se de genuínas cartas escritas, até mesmo no caso da carta aos Romanos, que se referia a uma situação definida relativa à preocupação e interesse imediatos do escritor. Afinal, o mesmo está lidando com relatórios, pedidos e planos específicos, não se trata de composições produzidas para serem publicadas. Tais escritos refletem seus próprios humores e pensamentos do momento, e são largamente independentes uns dos outros. Assim, eles não objetivam um estudo consistente nem pelo conteúdo nem pelo estilo; ele simplesmente escreve suas cartas sem maiores preocupações. Para um leitor cuidadoso é inevitável a descoberta de um claro desenvolvimento tanto no método como no significado de sua mensagem: assim que organizamos suas cartas mais ou menos na sequencia em que foram escritas, descobrimos claramente&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;50&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;sucessivas, frequentes e importantes mudanças não apenas de ênfase mas também de interpretação. A última coisa que pretendia era apresentar um único e estático sistema: podemos ver não apenas pontos de vista variados como também desenvolvimentos quase revolucionários na medida que o acompanhamos seu progresso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O resultado é mais inteligível e mais satisfatório, pelo menos para mim, se acompanharmos a linha histórica das seções sobre São Paulo em Atos. Sabe-se que um companheiro que veio a conhecer apenas em Samotace, que permaneceu com ele durante pouco tempo até sua prisão na Cesaréia, não teria conhecimento nem de suas cartas nem dos problemas abordados por elas; sabe-se também que tal companheiro, Lucas, era um grego cujo idioma e mentalidade não ajudaram em nada a sua compreensão da profundiade e da intensidade do temperamento de seu amigo e de seus principais argumentos rabínicos; sabe-se que a história narrada por Lucas abordando os procedimentos de São Paulo com a Igreja de Jerusalém não são facilmente reconciliáveis com aquela de Gálatas, onde a abordagem do falar em línguas do Pentecoste tem uma conceituação bem diferenciada na carta aos Coríntios; Se os cépticos questionam a confiabilidade de tudo aquilo que é registrado em Atos, nossa única evidência contemporânea, o fazem em bases inadequadas. É um equívoco inferir que, pelo autor incorrer em erro sobre Theudas ou Lysanias de Abilene, ou ter escrito uma ou duas frases onde sugere familiaridade com Josephus (em um tempo quando bibiliotecas de consulta não estavam disponíveis e quando as provas orais não eram necessariamente mais exatas do que é em nossos dias), ele não pode ser confiável mesmo quando declara que Saulo era de Tarso ou que tinha sentado aos pés de Gamaliel.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquele Saulo era um judeu da Dispersão, falando o grego comum daquela época, familiarizado com sua vida social, e até certo ponto com suas idéias e literatura; Tarso, por aquele tempo, era um núcleo de contato entre helenos e judeus e a principal&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;51&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;fonte de filosofia estóica, exatamente a espécie de local onde um homem como Saulo se sentiria em casa; seus pais em uma posição boa o suficiente para enviar seu filho para ser treinado como rabino em Jerusalém e possuir a cidadania romana; todas essas questões são confirmadas tanto em Atos como nas Epístolas. As próprias reivindicações de Saulo - «da semente de Abraão, da tribo de Benjamim, um Hebreu de timbre hebráico, um fervoroso observador da Lei, e um jovem de grande habilidade» - não apenas se orgulhava de sua linhagem como também era estimado pelos seus dons. Ele era dotado de uma boa memória, uma mente alerta e vívida, e uma evidente habilidade para traduzir idéias em ação. Ele também era sensível tanto à impressões como à crítica, mas avesso à introspecções insalubres ou ciúme, imaginativo, um tanto quanto místico e dotado de um ágil conhecimento da fé e da prática judia, era também um homem capaz de um julgamento rápido e decisivo, de planejamento adequado, e de enérgicos esforços para tornar seus sonhos realidade. O fato dele ser ao mesmo tempo Paulo o visionário, e Paulo o valoroso, creditou-lhe não apenas a efetiva propagação do cristianismo tal qual ocorreu, mas também sua origem, revelando o singular testemunho do poder de seu gênio, muitas vezes mal compreendido pelo seus intérpretes. Ele mesmo se declara escravo e apóstolo de Cristo e completamente dependente de seu Mestre, esforçando-se para que seu próprio pensamento e vida estejam «agasalhados com Cristo em Deus» . A este fim ele dedica toda sua versatilidade, usando de todos os materiais disponíveis, do circo, do exército, das escolas, da «religião mística» , ou das escrituras, desde que iluminasse ou enfatizasse o modo de ser de seu Mestre. Quando os atenienses o chamaram de «sonhador» (Atos 17.18) eles tinham pouca base para tal escárnio; os esforços que ele dedicou, a plenitude de seu significado e a riqueza de suas imagens podem ser encontrados em qualquer dos seus comentaristas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquele Saulo morava em Jerusalém durante o ministério de&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;52&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jesus e de fato o tinha visto como parece claro quando explicita «ainda que tenhamos conhecido a Cristo em sua vida corpórea» (2 Cor. 5.16),(1) algo não apenas reforçado por todas suas atitudes antes e depois da Crucificação, como também pela sua clara avaliação da qualidade e da mensagem do Mestre. Como muitos do fariseus, entre os quais já se destacava com evidente proeminecia, ele foi atraído obviamente pelos relatórios sobre Jesus e, na qualidade de alguém que esperava a vinda do Messias, e pronto examinar esses relatórios com simpatia. Mas ele compartilhou o dilema de seus pares. Em muitos aspectos eles estavam prontos para reconhecer Jesus e até mesmo segui-lo. Mas ele estava não apenas desconfiado de suas críticas a determinadas ordenanças, às regras do sábado sagrado, do jejum, da própria lei e da tradição, mas também a eles, os rabinos e membros da seita, que exitavam em tomar rapidamente qualquer decisão. Eles enviaram uma delegação para observá-lo na Galiléia; e não desperdiçaram nenhuma oportunidade para questioná-lo, às vezes com sutileza, às vezes com simpatia e admiração. Quando os saduceus planejaram prendê-lo e acusá-lo, eles bem que podem ter sentido um certo alívio uma vez que o assunto logo seria decidido. O resultado de tudo era óbvio: uma vez acusado de traição, se condenado, seria crucificado, «pendurado no madeiro» , uma morte especialmente amaldiçoada pela Lei ( Deut. 21.23). Se Jesus fosse de Deus, ele seguramente seria salvo: Deus não o deixaria sofrer danação: ele seria salvo e retirado da cruz. Talvez muitos dos seus discípulos, como frequentemente foi sugerido pelo próprio Judas Escariotes, podem ter compartilhado desta convicção. Calçou os insultos dos acusadores dele a Calvário e o desafio dos rabinos «Seu Messias! Seu Rei de Israel! Desça da Cruz e nos creremos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(1) Este é o significado claro do grego, e se adequa tanto com as palavras que a precedem como com a passagem que vem a seguir. Os esforços de Molfatt e de outros para dar um significado diferente como «nós soubemos» é desnecessario e incompatível com o uso regular de São Paulo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;54&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;em você!!» (Marcos 15.32), e persistiu até o fim a idéias de que Elias apareceria e o salvaria. O assunto em toda sua magnitude estava claro para Saulo, e o veredicto era imediatamente decisivo. Deus não interviera: Jesus era amaldiçoado, sua reivindicação era falsa: seus seguidores deveriam ser destruídos. O vigor da perseguição que lançada sobre os discípulos expressa a amargura de sua decepção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele deveria ter ficado bastante abalado com o martírio de Estêvão, entretanto o efeito imediato foi intensificar ainda mais a violência de sua agressão: um erro que poderia produzir tal heroísmo deveria ser contido a todo custo. Daí a súbita e desgastante experiência da presença e da atração de Jesus no caminho de Damasco. (Em suas próprias palavras, veja 1 Cor. 15.8.) a conversão foi imediata; agora podemos entender mais completamente sua psicologia e seu estado de espírito. Jesus não fora derrotado mas vindicado, não era um impostor de Galileia mas o ungido de Deus: o veredicto contra ele era falso, a maldição foi desafiada, a lei que decretou a maldição fora quebrada e repudiada. Sua recuperação do choque ofuscante, sua aceitação por Ananias, sua pregação de Jesus como o Messias, sua fuga de Aretas e da cidade (2 Cor. 11.32-33; cf. Atos 9.25), e seu exílio na Arábia, tudo isso confirma sua convicção do grau da mudança que deveria ocorrer, e de sua própria vocação especial de proclamar as boas notícias para o mundo pagão, onde teria a oportunidade de desenvolver seu ponto de vista do significado do modo de vida ensinado e vivido por Jesus Cristo. Três amos depois ele visitou Jerusalém e conheceu São Pedro e Tiago, o irmão do Senhor, aparentemente com a ajuda de Barnabás (cf. o Gal. 1.18-20; Atos 9.26-30). Quinze dias depois ele velejou de Cesarea para Tarso, onde se uniu a Barnabás que o levou a Antioquia onde passaram todo um ano. Quatorze anos depois ele novamente subiu para Jerusalém com Barnabás e Tito um grego uncircunciso, para falar&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;55&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;sobre sua missão para com os Gentios (Gal. 2.1-3). Isto despertou «controvérsia e muita discussão» mas Pedro, Tiago e João deram-lhes as mãos, e os encorajaram a continuar a pregação aos não-judeus, a única coisa sugerida por eles foi que deveriam sempre se lembrar de ajudar os pobres, presumivelmente os pobres da igreja mãe, coisa que se prontificaram a fazer. Se esta visita é a mencionada em Atos 11.30 e 12.25 (quando o dois apóstolos levaram uma elevada oferta coletada na Antioquia especialmente para os doentes e pobres de Jerusalém), ou representa algo parecido com um encontro ou Concílio, do qual participaram Paulo, Barnabás e outros, depois do seu retorno da viagem do Chipre e do Sul da Galácia descrita em Atos 15.1-35, trata-se de um assunto bastante disputado. Isso é altamente importante para o datamento da carta aos Gálatas e para a precisão histórica dos documentos. Para mim eu não vejo nenhuma razão por que a visita descrita em Gálatas não tenha sido a segunda que fez com Tito. Nesse caso, Gálatas teria sido escrita logo depois do final da viagem e antes do Concílio de Atos 15. Também parece possível que a Epístola de Tiago que, como eu acho, claramente se refere aos Gálatas, também tenha sido escrita antes do Concílio. Mas a questão é difícil e controversa, e para nosso propósito presente não muito relevante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De qualquer forma, seja lá qual tenha sido a data em que foi escrita, a Epístola aos Gálatas, naturalmente dirigidas ao povo de Iconium, Lystra e Derbe, é a mais primitiva, consideravelmente a mais primitiva, das suas cartas que sobreviveram, realmente, indica sua apresentação da fé, seu estilo e conteúdo, e a reflexão do seu temperamento, e sua suficiente perspectiva. Há algumas notáveis semelhanças verbais entre Gálatas e Romanos que são explicadas pelo simples fato de que nestes casos ele abrange um campo semelhante, ele repete um argumento familiar e que considera fundamental, todo o problema da relação entre lei e graça, a velha e a nova moral. Qualquer um que constantemente é desafiado para falar sobre um único tema saberá certamente quão inevitaveis são certas sequencias estereotipadas,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;55&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;frases e palavras chaves. Em tais casos, um intervalo de dez anos não significa que o velho vocabulário seja superado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O caráter da Epístola pode ser visto até mesmo em seus parágrafos de abertura. Há um brusco e quase violento mergulho após a abertura formal na controvérsia despertada por aqueles que tinham visitado seus novos convertidos, questionando sua autoridade e incitando a necessidade da aceitação da tradição judia deste a circuncisão até a Lei. Seguramente trata-se de texto produzido por um homem jovem ferido pelas imputações pessoais lançadas contra sua pessoa, transtornado pela aparente inconstância dos seus seguidores, e desenfreado na amargura de suas reclamações ou na violência de suas denúncias. Esta é a reação natural de um convertido capaz mas relativamente recente que ainda está comovido pela novidade de sua causa e conscio do seu poder em apresentá-la. Ele pode descrever suas anotaçõe e suas aventuras com uma legítima satisfação, pode denunciar com irritação e pode desprezar a malignidade dos seus detratores e obviamente ainda pode ter que aprender a «conter seus ímpetos» ou lidar ternamente com seus leitores. Ele era um jovem «impetuoso» quando respondeu aos seus oponentes na Galácia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A crueza do estilo e da linguagem de sua censura estão de acordo com a lógica envolvente e as analogias rabínicas de sua argumentação. Como um jovem e inteligente advogado elas são muito sutis para convencer e muito artificiais para parecer suficientemente genuínas. Deslises verbais como a distinção entre sementes e semear, ou a desnorteada declaração sobre um mediador, diminuindo a força de seu caso; e analogias como aquela entre Hagar e o Monte Sinai inspiram desconfiança. A comparação com qualquer outra de suas cartas mostra quão distante ele estava da superação deste método de apresentar seus casos - entretanto na realidade ele nunca mostrou muitos sinais de imaginação criativa na escolha dos seus exemplos ilustrativos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mesma conclusão é estabelecida quando expunha&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;56&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;algo que sempre adotava como tema principal, o significado da Cruz. Esta fase do pensamento de Paulo é bastante simples e obviamente afetada pelo seu próprio dilema. Cristo aceitando a morte amaldiçoada e passando por cima da sentença «Amaldiçoado é todo aquele que é dependurado no madeiro» quebrou a maldição, tornou-a inóqua, e assim nos livrou da escravização da Lei. Não mais podemos esperar que a Lei nos salve e nos conduza até Deus. Agora outro caminho se abriu diante de nós, nossa fé em Cristo pela qual podemos nos tornar íntegros, coisa que nunca poderíamos alcançar através de Lei. Assim ele achou a pista para a nova moral em nossa resposta ao presente de Cristo. Mas Paulo ainda não foi a fundo nessa questão: justificação ainda é uma palavra ilustrada pela fé de Abraão em Deus (Gen. 15.6), e pelo contraste entre esta fé e a «obra» da Lei. Ele percebeu a diferença, manifeste em Jesus, entre ética pessoa e legal, a vida de relação constante com Deus, vida regulada e definida por deveres precisos de obediência à sua vontade. Mas as profundas mudanças que estão por tráz desse contraste, de nosso conceito da natureza de Deus e da qualidade de nosso próprio desenvolvimento ainda não estavam evidentes para ele. A grande descoberta que ele fez em Corinto, a psicologia e a cosmologia exposta em Romanos, ainda estão no futuro. Ele ainda pesca em aguas rasas: e começa sua dura jornada em direção a águas profundas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Embora essa carta esteja aberta a críticas quando comparada com seus trabalhos posteriores, plenos de experiência e completamente amadurecidos, é notável enquanto primeira composição da apologética Cristã! Tem paixão, qualidade essencial e completamente vital, criativa e duradoura. Seu autor se preocupa intensamente, está completamente envolvido nos temas descritos, e não tem nenhum medo ou vergonha em revelar a intensidade de seus sentimentos. Se há rastros de orgulho e auto-comiseração, tais coisas sempre são superadas e subordinadas pelo seu senso de dedicação; é sua vocação, que precede seu eu, que o provê e incentiva seus esforços&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;58&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;e argumentações.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele suporta, e pode proclamar suportar, o stigmata de Jesus. Em meio às controvérsias e debates desta primeira carta, o gênio essencial do Apóstolo se revela em três declarações de surpreendente perspicácia e esplendor - três das expressões vocais mais notáveis de sua vida - três revelações que na realidade resumem os três elementos essenciais da ética Cristã: o centro em Deus, a universalidade, e a perfeição moral da fé. Tais declarações são as mais notáveis porque cada uma delas se destaca em vivo contraste com a tensa emoção e o pensamento trabalhado no resto da carta. São flashes súbitos de instantânea e brilhante inspiração, o tipo de consciência direta que é mais característica na arte que na ciência, mas que provavelmente ainda é o ambiente e instrumento de todas as grandes descobertas. Não se trata de uma realização do intelecto lógico, mas a fonte de seu mais rico material. Representa o momento de revelação quando períodos de especulação e experiência, tensão e ansiedade prévia, se resolvem. É o ponto onde revelação e descoberta se fundem, tornando-se vitais e criativos. Nele o ser do iniciado é integralmente envolvido, o mistério é aberto e o segredo descoberto. Aqui tais expressões são essenciais ao modo cristão de vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Trata-se do primeiro registro de suas relações com os líderes de igreja em Jerusalém e depois com Pedro por causa de sua conduta equivocada na Antioquia em suas argumentações sobre as obras da lei ou a fé em Cristo como meio de justificação. A posição conclusiva disto tudo é resumida por ele mesmo. «Porque eu, pela lei morri para a lei, para que pudesse viver para Deus» (o Gal. 2.19). Então ele rompe na tremenda declaração: «Eu já fui crucificado com Cristo: eu próprio não vivo mais, e sim é Cristo que vive em mim. E a vida genuína que tenho agora dentro deste corpo é resultado da minha confiança no Filho de Deus, o qual me amou e a Si mesmo Se entregou por mim» .&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;59&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aqui firma o fato central e único da experiência cristã de que nossa resposta para Cristo não como o de aluno para professor, de empregado para patrão, ou até mesmo de amigo para amigo. Fé não é concordância intelectual, obediência prática ou resposta afetuosa: é comprometimento total, uma real e íntegra união ao nível da realização pessoal. O amor em toda sua plenitude; a unidade pela qual nossos amores humanos aspiram no horizonte, que mesmo não podendo permanente e perfeitamente ser atingida, é realizada. Cristo vive em nós; nós somos transformados de dentro para fora: nós estamos nele. Isto é, naturalmente, a convicção chave de São Paulo, o en Christo que Deissmann nos ensinou a ver como a causa principal da plena maturação das realizações do Apóstolo. Vida «em Cristo» é a plenitude do impacto do ministério de Jesus: é a meta do processo criativo, o segredo de nossa lida humana. O desenvolvimento subseqüente de Paulo é o crescimento desta experiência em sua pessoa: aqueles que viram e que conheceram indivíduos que manifestaram um semelhante modo de vida centrado em Cristo, reconhecerá seu valor sem igual.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Além destas expressões desenvolve também a concepção do conjunto do corpo de Cristo no qual somos admitidos mediante a fé e pelo qual ela se torna efetiva. Trata-se do companheirismo do Espírito, a comunidade santificada, a sociedade orgânica nascida do Pentecostes, mas cujo pleno significado Paulo foi o primeiro a fornecer. Suas cartas subsequentes nos mostram os passos pelos quais conceitos como velhas categorias de salvação individual foram descartados, da mesma forma que fizera com a retidão legal, passos que o conduziram à percepção de que além da integração humana aqui na terra há uma relação cósmica e universal por meio da qual Cristo Deus é tudo em tudo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A segunda expressão é igualmente surpreendente e revolucionária. Surge fora do argumento relativo à Lei e à fé fundada na promessa dada a Abraão que «pela confiança que depositava em Deus&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;60&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;foi considerado reto» , e que por meio dele «todas as nações deveriam ser abençoadas» (Gen. 12.3; 18.18). Depois de argumentar que a promessa aponta em direção a Cristo e que a Lei foi um episódio estabelecido para salvaguardar os homens contra o mal e conduzi-los a Cristo, tal episódio que em certo sentido alimenta o pecado, agora chega ao fim, é esvaziado: Todos vocês são crianças de Deus pela fé em Cristo Jesus; vocês, batizados em Cristo, foram preenchidos com Cristo. «Já não somos mais judeus, nem gregos, nem escravos, nem livres, e nem simplesmente homens ou mulheres» , somos todos iguais - somos cristãos; somos um em Cristo (Gal. 3.28).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tais palavras são familiares: e diante de nossa presente situação mundial elas se tornam ainda mais proeminentes: mesmo assim sua ebrangência quase que passa desapercebida. Consciente como nós somos dos efeitos perigosos tanto de nossas diferenças largamente artificiais, nacionais e profissionais e das novas barreiras criadas pela educação especializada e interesses sectários «somos hábeis para ignorar o fato de que. Por tras das miríades de influências multiformes em conflito com nossa necessidade por adentrar em uma nova era de um mundo fraternal há três divisões «naturais» que o apóstolo apresenta. Raça e cor da pele, classe e ordem social, corpo e sexualidade, algumas dessas categorias são divinamente vaticinadas, permantentes, as quais são impossíveis, se não realmente injusto, desafiar. Ainda vemos cristãos, não apenas na África do Sul ou Little Rock, citando a maldição de Ham como sanção ao preconceito racial e a pecaminosidade do casamento inter-racial; ainda vemos os arautos da doutrina Malthusiana proclamando que sempre haverá pessoas vivendo abaixo da linha da miséria citando «vocês sempre terão pobres entre vocês» (Marcos 14.7) como um pretexto ao laissez-faire; e argumentando, apesar de toda a evidência contrária, a diferença entre a diferença entre os sexos é um ultimato e não uma distinção meramente biológica que torna inconcebível para mulheres a ordenação ao ministério da Igreja.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apesar de São Paulo ter ele próprio saido de uma seita exclusivista,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;61&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;de um povo singularmente consciente de suas origens étnicas, de estar evidentemente orgulhoso de sua cidadania, de ter nascido de ventre livre, de sua inegavel gratidão por não ter nascido mulher, ele revela nas cartas que chegaram até nós, mesmo as primeiras, um nível que muitos de nós ainda não alcançou, quando expressa aquela unidade com Deus através de Cristo que transcende e anula todas essas divisões. Ao mesmo tempo em que vira e testemunhara a universalidade de Jesus, sem nunca se desculpar por isso, ele também carregava uma forte consciencia sobre as diferentes funções e uma grata prontidão em se contentar com seus próprios recursos e limitações, embora percebendo a unidade no companheirismo ele insistia que todos os membros, quaisquer que fossem suas funções ou virtudes, são iguais em importancia em sua contribuição à vida e às necessidades do corpo e em seu necessário crescimento e bem-estar. Só se alcança isso quando «a medida da estatura da plenitude de Cristo» (Ef. 4.13) é atingida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A terceira expressão surge de forma semelhante e inesperada depois de um longo argumento sobre um problema prático que viera à tona na Galácia. Ele proclamou que Cristo veio libertar os homens da escravidão da lei e que isto estava de acordo com a promessa de Deus à semente de Abraão em Cristo. Eles eram á família livremente nascida de Jerusalém, de Isaque não de Ismael; e a Lei não tinha nenhum poder em cima deles. Por que é então que estes mesmos gálatas que no princípio receberam Paulo com tal entusiasmo que pela saúde dele eles teriam arrancado fora os olhos deles e teriam dado a ele, agora mudaram de idéia aceitando as obrigações religiosas, a circuncisão e a Lei? Paulo repudia tal idéia tão forte e violentamente que recusa-se a acreditar que tais coisas estejam realmente ocorrendo: mas prontamente enfrenta a situação. Se Cristo significa liberdade, isto envolve frouxidão ética? Rejeição da Lei encoraja o antinomianismo(1)? Como podem os padrões morais ser mantidos se as regras&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1 (NT) Antinomianismo: Antagonismo contra a lei e a legalidade que também pode manifestar-se na rejeição anarquística da autoridade legislativa do Estado. Doutrina de que, pela fé e a graça de Deus anunciadas no Evangelho, os cristãos são libertados não só da lei de Moisés, mas de todo o legalismo e padrões morais de qualquer cultura. (Michaelis)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;62&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;que as definem são abolidas? Assim ele foi constrangido a reconhecer que a responsabilidade não apenas permanece como deve ser aceita, o que representa a escolha entre aquilo que chama carne e espírito. «Andar no espírito e não satisfazer a luxúria de carne... gera rivalidade: assim você não pode fazer tudo aquilo de que gosta. Você não está debaixo de lei, mas a obra da carne é óbvia» (Gal. 5.16-19). Então após uma longa e bem fortuita lista de vícios e faltas mundanas atípicas do Reino de Deus, ele rompe em um maravilhoso resumo dos frutos do espírito: «Amor, alegria, paz, coragem, clemência, bondade, fé, mansidão, temperança» (Gal. 5.22-23). Temos essa passagem como algo familiar; e por isso talvez não percebamos quão incrivelmente ela é completa em termos de uma descrição do caráter daqueles cuja vida é centrada em Cristo. Examinando-as percebemos três grupos de qualidades ligadas entre si mas aparentemente contraditórias, e vemos quão profunda é a perspicácia em descrevê-las dessa forma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A primeira coisa que se nota é que tal arranjo combina com valores morais geralmente contrastantes. Nós podemos chamá-las tanto de qualidades como de virtudes, que irradiam da vida em Deus, como conseqüência de nossa experiência nele, que representa a resposta do homem às exigencias legais e morais na vida pessoal e social. O contraste entre a chamada ética «cristã» e «pagã» é uma trivialidade. Nessa passagem, São Paulo menciona três palavras que caracterizam as três principais qualidades greco-romanas: a alegria de Epicuro,(1) a força dos Estóicos, e a tradicional virtude de Roma, e as três de Cristo: amor, paz e clemência. Tais qualidades se intercalam, se completam, se misturam e se transcendem; e as últimas três palavras na lista mostra como esta integração é cumprida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    1 Não se trata de exagero. Epicuro foi muito mais que um mero epicureano; cf. C. Bailey, The Greek Atomists and Epicurus, pp. 498-507.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;63&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Amor, o agapé Cristão que Paulo proclamara em hino perfeito, o amor que é adoração estimulada por uma comunhão limpa daqueles sentimentos de posse e de sentimentalismo que tão facilmente o disvirtuam, o amor cuja dádiva funde-se à alegria das boas-vindas ao amor recebido e à vida abundante que esse amor evoca. É a virtude que Paulo afirmou tão livremente na carta onde mais ele se aproxima de Jesus em seus dias de ministério quando nos exorta a acatar «tudo aquilo é digno, íntegro, santo, amável, honrado». (cf. Fil. 4.8-10, 2.1-11).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Paz que muito freqüentemente nos remete à quietude, ao pacifismo, a uma bem-aventurança clausurada e estática, é por Paulo definida como «a paz de Deus que, embora mais maravilhosa do que a mente humana possa compreender, não abre mão da emoção e da inteligência» (Fil. 4.7). Na realidade é na confiança e na serenidade que se situam todas as mudanças e possibilidades de nossa condição mortal. Foi justamente em sua resistência ao sofrimento e em sua coragem, normalmente considerada a mais viril e excelente das virtudes humanas, que Jesus exibiu mais completamente do que qualquer outro a fortaleza que o manteve inabalável mesmo diante de todas as dificuldades e perigos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Misericórdia, atributo do próprio Deus, uma palavra especial que em grego se associa à bondade de Deus e que é usada em uma famosa referência latina (por Suetonius) como uma qualidade inerente a Cristo significando o calor dos procedimentos íntegros para com o gênero humano por parte de Deus, cuja tolerância e generosidade se mesclam à bondade, uma virtude que caracteriza a moralidade, a retidão e a justiça humanas, uma integridade que se aproxima da pureza por ser completamente amável, uma qualidade que o autor dos Atos descreve em Barnabé (Atos 11.24).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cada um dos três pares assim combinados representa uma&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;64&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;fase seguinte da vida ética: amor e alegria brotam a partir da relação com Deus; paz e coragem são efeitos desta relação na atitude pessoal do indivíduo para com a vida; clemência e bondade resultam da relação dele para com os outros. As três qualidades restantes descrevem os meios pelos quais estes frutos se desenvolvem. Eles representam em seu caráter e desdobramento as três fases pelas quais Jesus conduziu seus seguidores ao pleno discipulado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A fé, a primeira delas, descreve a resposta de compromisso total do ouvinte às boas notícias, ou à suficiencia de Jesus como sua corporificação e arauto. A Mansidão é o processo e o fim da entrega do eu que ele provou ser essencial para todos aqueles que deram suas vidas por ele, ganhando assim a vida eterna: ambos envolvem a humilhação do fracasso e a humildade que herda a terra e que é capaz tanto de alegrá-la como de enriquece-la.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Temperança é o completo controle por Deus em Cristo que é a plenitude da fé, é a abençoada libertação do desejo e do poder do mal, é a orientação ininterrupta do esvaziamento do eu, é uma vida dedicada. Em nosso compromisso de companheirismo com a comunidade santificada somo libertados, sustentados e inspirados para fazer a vontade de Deus. A passagem termina adequadamente com o famoso paradoxo (Gal. 6.1-5) entre responsabilidade grupal e responsabilidade individual que Paulo se esforçou em solucionar. Unidos no espírito cada um de nós pode compartilhar os fardos uns com os outros; assim, o peso da aventura da vida é sentido por todos, e por todos sustentado; auto-suficiencia é uma traição a comunidade. Deve-se exigir de cada um conforme sua capacidade, e dar a cada um conforme sua necessidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O modo de vida expresso dessa forma, a união com Cristo que soluciona a solidão, quebra as barreiras e transforma o caráter da humanidade, é resumido naquilo que o Apóstolo regularmente chama de charis, o&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;65&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;gracioso dom de Deus. O termo, com seu significado original de «graça jovial» e «favor voluntário», designa tanto a iniciação como a manutenção do novo relacionamento para com o divido e redentor ato manifesto em Jesus e operado em Paulo desde sua conversão. Graça aparece em Gálatas como a primeira daquelas palavras onde a nova esperiência dá um novo significado; e talvez maior do que qualquer outra descrita em toda a extensão do evangelho paulino.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para Saulo de Tarso, com também para o mundo, embora Jesus fosse esperado ele veio de uma forma completamente inesperada e de uma maneira manifestamente imerecida. Embora seu impacto satisfizesse o desejo dos corações, desafiasse o pensamento e revolucionasse a ética dos seus discípulos, representou sob todos os aspectos um acaso fortuito, um presente de céu. Charis denotou precisamente este senso de dádiva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas sua qualidade não termina aí. Realmente o isolamento e o exagero de sua estranheza foram a fonte principal dos erros da exclusividade e do determinismo. A dádiva não merecida provou porém ser não apenas sobrenatural mas, como insistiu Whichcote, «acima do natural». O estranho mundo admitido por Cristo provou realmente ser sua terra nativa. O que parecia ser uma convocação à selva tornou-se primeiramente uma peregrinação e depois um retorno ao lar. O padrão da vida encarnada, o drama de Cruz e da Ressurreição, se repetiu: a vida em vez de caminhar em direção a um fim tornou-se plena e livre, venturosa e compensadora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em Gálatas esta perspectiva mais ampla é dificilmente notada. Charis é associada com o chamamento do apóstolo por Deus (1.15), com seus seguidores (1.6) e com o efeito que ela provocou nele (2.9 e 21); e até mesmo a declaração «sair da graça» (5.4) insinua «rejeitar o presente de Deus». Entretanto nas cartas aos Coríntios onde a palavra é muito livremente usada, ele recorre ainda naquela ocasião à idéia de chamada e de presente (1 Cor. 1.4; 3.10), é também utilizada significando «não&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;66&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ter sido dada em vão» (15.10), sua permanência (15.23), inclusive é aplicada para um estado de vida «não em sabedoria carnal mas na graça de Deus» (II Cor. 1.12): ela é «graça abundante» (4.15) e «não em vão» (6. 1). Assim, definitivamente a graça, ou «dom gratuíto», de Nosso Senhor Jesus Cristo é identificado com o amor e com o companheirismo do Espírito Santo (13.13). Finalmente em Romanos ela é fartamente usada para descrever a plenitude da nova relação dos crentes com Deus e toda a extensão da atividade divina. Muito característico deste novo sentido de graça como constituindo o contato mútuo entre Deus em Cristo e seu povo é o tratamento dado em romanos 5. Por Cristo «recebemos acesso a este lugar do mais alto privilégio pela graça devido à nossa fé» (2). Esta graça dada por Cristo transborda em nós em toda sua plenitude de forma que todos quantos receberam o presente divino de perdão e absolvição «reinarão em vida» (15, 17) e o reino do pecado é substituído pelo reino da graça (21). Assim no próximo capítulo a lei e o seu modo de propiciar as coisas é colocado em contraste com a graça através da qual os redimidos podem agora entrar. Paulo rejeita a idéia de uma intrusão divina especial em sua vida e abraça o reconhecimento da universalidade da presença da graça de Deus. As palavras que muitos de seus intérpretes consideram básicas no pensamento do apóstolo nos permite ver como tal pensamento se desenvolve; graça nas epístolas posteriores na maior parte das vezes é substituida por conceitos de integridade, conscientização total e comunidade. Na realidade a palavra raramente surge fora das saudações e despedidas com exceção de uma frase notável, «a economia de graça» (Eph. 3.2), onde ele usa «economia» para descrever toda a dispensação e ordenação da casa de Deus.Na realidade a palavra raramente surge fora das saudações e despedidas com exceção de uma frase notável, «a economia de graça» (Ef. 3.2), onde ele usa «economia» para descrever toda a dispensação e ordenação da casa de Deus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A palavra «economia» é usada em conexão com uma outra, «mistério», evidentemente estreitamente ligada a «graça» e até certo ponto substituindo-a nas últimas fases do pensamento de Paulo. «Mistério», por sua associação com Eleusis e o mundo grego em geral, é empregada pelo Apóstolo em&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;67&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1 Corinthians e nós podemos perceber como ele a usa no sentido de uma emulação especial ou segredo e sempre em sua forma plural (4.1, 13.2, 14.2). Em Romanos o sentido ainda é de um evento especial que revela um significado oculto (11.25 e 16.25). Em Colossenses e Efésios, onde ocorre dez vezes, ela é amplamente usada para descrever o plano e a vontade de Deus, a plenitude e o significado universal de Cristo. Da mesma forma que «graça», o primário significado de «mistério» representa uma divina auto-manifestação expressa em um evento simbólico e revelador. Mas, pelo fato de estar mais ligada com ao efeito que provoca no receptor do que com a iniciativa do revelador, ela enfatiza o processo de expansão e universalização das boas novas e seu poder para iluminar, explicar e inspirar todo o campo da vida e pensamento humano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E com esta extensão da divina graça surge uma nova interpretação da resposta humana para ela. Para nós a obediencia à lei tem se revelado insuficiente. Substituí-la foi uma necessidade primária uma vez que o apóstolo não desejava conduzir seus seguidores ao caos e à desorientação. Sua experiência na lida com eles tornara-o convicto de que o amor, incondicional e expandido pelo amor de Jesus na comunidade santificada, proporcionaria proveria uma perspicácia nos sentidos e portanto uma orientação constrangedora que seria mais íntima e mais imediatamente ajustável que lei. Foi assim que ele descobriu a palavra usualmente traduzida como «pleno conhecimento», epignosis, que representa para ele a plenitude alcançada quando pela verdadeira concordância no Cristo e no companheirismo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por tres vezes em Romanos a palavra epignosis, uma palavra rara e recente no grego clássico, é mencionada, depois aparece em Filipenses, Colossenses e Efésios exercendo um papel destacado no vocabulário de Paulo (1). Qua o significado disto?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gnosis é naturalmente livremente usada no sentido especial de&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    (1) O mesmo ocorre no Novo Testamento em II Pedro, e em Hebreus na frase «pleno conhecimento da verdade» nas pastorais. Cf. M. Dibelius, G. Heinrici Festschr. 18 (Leipzig 1914).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;68&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«conhecimento esotérico» como uma palavra religiosa, no Novo Testamento é muito bem descrita por W. L. Knox como «a mistura Cristã de fé e amor» (1). Epignosis aparentemente aponta o sentido do conhecimento como uma «consciência institucional» em vez de um «contato físico» ou uma «percepção intelectual». Ela é aplicada para Deus (2) e para ninguém mais (3). Sua forma verbal, mantendo esse significado de «consciência», tem um significado mais geral. Ela é especialmente frequente em Lucas e Atos onde usualmente está ligada ao senso de reconhecimento. Epignosis parece ser uma palavra singularmente apropriada para descrever a interior e constrangedora consciência da real verdade em torno de um objeto ou situação, uma profunda e completa percepção daquilo que Chardin chama de o «interior» das coisas, quando de uma forma admiravel descreve a experiencia de amor e de companheirismo que explode e se propaga na comunidade quando as pessoas se vêem libertas do egoismo e da hipocrisia. Como um holofote a passagem em Fil. 1.9 «amor dá uma sensação de toque» chama a atenção. Tal sensação torna possível uma convicção maior do que o conhecimento intelectual ou logicamente formulado pode proporcionar. Isto é mais facilmente apreciado por aqueles que tiveram a experiência de enfrentar conflitos de lealdade associados a problemas como a guerra por exemplo. Enfrentando-os e procurando a direção de Deus ficamos diante de duas tarefas preliminares a cumprir, primeiro um estudo do assunto à luz do nosso conhecimento de Deus e dos valores cristãos, depois o exame de nossa própria natureza e motivos, descartando nossos egoísmos e examinando da melhor forma possível&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    1 Some Hellenistic Elements in Primitive Christianity, p. 86.&lt;br /&gt;    2 Rom. 1.28, 10.2; Col. 1.9, 1.10, 2.2 («do mistério de Deus»);Eph. 1.17, 4.13 («do Filho de Deus»).&lt;br /&gt;    3 Para «pecado» (Rom.3.20) e para «todo bem» (Filemon 6).&lt;br /&gt;    4 Este significado é defendido por Dorn H. Dupont, Gnosis: la connaissance religieuse dans les Epitres de St Paul, segundo meu amigo Prof. C. F. Moule, Dupont dá mais relevo a esse aspecto do que ao sistema sacramental. .&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;69&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;nossos desejos e preconceitos conscientes e inconscientes. Dessa forma podemos nos colocar a nós mesmos e nossas necessidades sob a direção de Deus e do companheirismo cristão, e esperar Sua vinda, acredito que não no formato de instrução ou de fórmula: o que costuma ocorrer é a percepção de que tais instruções e fórmulas não mais funcionam entre nós; estes caminhos são intransitáveis; um caminho, um único caminho, torna-se claro para nós; e nós o abraçamos. É seguramente isso o que Paulo queria dizer por pleno conhecimento, a percepção do estado de consciência pelo qual o cristão tem que viver, um estado de consciência de todo o ser e não apenas da mente. Por isto é notável que a palavra syneidesis ou consciência mencionada apenas na carta aos Corintios e três vezes em Romanos é sempre usada no sentido de auto-conhecimento ou consentimento intelectual, no sentido de obrigação no que diz respeito a problemas relacionados com sacrifícios a ídolos que é o objeto o argumento, e que nas cartas posteriores é substituída por epignosis mais abrangente e mais intuitiva. .&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim a mensagem de Gálatas evolui nas epístolas subseqüentes. «A graça de nosso Senhor Jesus Cristo» (Gal. 6.18) se desdobrou em «o segredo aberto de Deus, em Cristo, onde está armazenado todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento» (Col. 2.2,3), e onde todos os homens, tanto judeus como gentios se tornam um (Ef. 3.6-12).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;===&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;V - A DESCOBERTA DE CORINTO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À LUZ do tempo exato e da importância do Conselho em Jerusalém conforme descrito em Atos 15, parece claro que a aguda controvérsia com a qual a Epístola para os Gálatas estava preocupada fora na realidade definitivamente resolvida apenas antes da segunda viagem missionária. Os judeus ainda faziam oposição: em toda parte se tornou patente que aquele novo modo de vida não poderia ser aceito por eles, e que a parábola da roupa velha remendada com um pedaço de pano novo estava se cumprindo.(1) Mas para os cristãos a discussão estava aberta. Os gentios estavam eram na igreja sem se adequarem às leis e aos ritos do judaísmo, mais uma vez a autoridade de São Paulo enquanto apóstolo não fora seriamente desafiada. Tratava-se não apenas de um problema específico envolvendo lei e graça mas da formulação básica do conceito da Igreja de Deus, de Cristo, da própria fé e da conduta, que precisava ser empreendida. Se o impacto de Jesus estava claro e tinha se afirmado, o significado disto, diante das três passagens que consideramos, tinha ainda que ser testado, definido e explicado. Se Jesus fosse como Deus - e esta era a base da autoridade dele - então Deus era como Jesus. Isto pareceu envolver mudanças nos conceitos tradicionais acerca do divino. Até que este problema fosse resolvido, assuntos de conduta, natureza da retidão e justificação, julgamento e destino humano, de relações humanas para com Deus e para com a comunidade, tudas essas coisas permaneceriam obscuras. Este seria o próximo grande passo de Paulo, a interpretação da fé.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    (1) No formato de Lucas (Lucas 5.36; cf. Marcos 2.21).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;72&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sabemos muito pouco acerca do desenvolvimento do pensamento dele durante a segunda viagem missionária até que entrasse na Europa. Aparte da escolha e circuncisão de Timóteo em Lystra que bem pode ter sido um ato de reconciliação para dar um fim à controvérsia de Gálatas, não há nenhum evento de importância especial até a decisão de cruzar a Macedônia e a significativa associação do doutor grego com os evangelistas judeus. Diante de suas conseqüências é provavel que tal abordagem não tivera um bom começo. A brutalidade do castigo em Filipos e a irritação muito natural de Paulo («eles nos bateram publicamente sem julgamento e nos puseram no cárcere - e nós somos cidadãos romanos! Agora querem que vamos embora às escondidas? Nada disso! Que venham eles mesmos e nos soltem!». Atos 16.37) o coloca em uma posição ruim. Não é fácil ver Deus em alguem que tem sua dignidade espezinhada. Isso pode ser notado mesmo quando ele chega a Tessalônica e ora a Cristo por três sábados seguidos, e em suas próprias cartas quando mostram que ele não tivera mesmo um grande sucesso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Parece claro que ele julgara mal tanto a audiência como a ocasião. O lugar era, como ainda é, um porto de escala de passageiros e mercadorias, com uma população heterogênea ávida por fofocas e sedenta por rumores. Cláudio César estava próximo do fim: seria sucedido por Nero? Se não, quem seria? O próprio Cláudio acabara de expulsar de Roma alguns fabricantes de tendas, entre eles alguns judeus; e até mesmo o céptico Tácitus registra os maus agouros e presságios predominantes naquela época. Paulo proclamava o Cristo, mas claramente no idioma cataclístico do judeu apocalíptico. A audiência confunde essa mensagem como a proclamação de «um outro rei, Jesus, em lugar de César» (Atos 17.7). Eles prestaram atenção àquela mensagem que falava de alguém que súbitamente descera do céu, que se levantara dentre os mortos e que ascendera para viver nos céus, interpretando tais coisas de uma forma tão literal que chegaram a abandonar seus afazeres em um frenesi de excitação dando lugar ao alvoroço. À luz das cartas aos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;73&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tessalonicenses vemos quão difícil foi conter aquele motim e explicar melhor suas palavras. Ele proclamara um Deus de poder e falhara em seu intento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As duas cartas escritas depois do encontro com Silas e Timóteo em Corinto revela sua perplexidade e insatisfação. Ele ainda afirma sua mensagem acerca de uma eminente e literal segunda vinda, entretanto na segunda carta ele introduz um fator retrógrado e a ingenuidade de séculos de comentários não teve sucesso em expor a precisa expectativa de Paulo. Mas o efeito de seu trabalho na Tessalônica obviamente marcou sua mente, fazendo com que modificasse e rapidamente abandonasse a crueza de tal exposição apocalíptica das boas novas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A primeira carta aos Tessalonicenses contém uma frase que não apenas tornou-se importante na teologia patrística como também nos proporciona uma interessante visão do conceito do Apóstolo sobre a constituição de nossa natureza humana. Ele pede para que Deus santifique seu povo em sua totalidade e «os preserve íntegros em espírito, alma e corpo» (1 Tess. 5.23) na vinda do Senhor. (1)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O significado atual de todas as condições descritas por Paulo sobre os vários elementos de nossa natureza nem sempre é definido com precisão e quase nunca é usado. Um exame da palavra «espírito» por exemplo às vezes nos deixa duvidosos se ele considera espírito (pneuma) como divino, a morada do Espírito Santo nos santos, ou um componente normal de alguns ou de todos os seres humanos, e se assim for qual sua relação com «mente». Da mesma forma também, «alma» (psyché) normalmente é identificada com o princípio estimulante e centro dos mais baixos impulsos, embora seu uso pejorativo não seja muito consistente. Até mesmo «corpo» (soma) é às vezes aplicado à natureza física como um todo mas às vezes distingue-se nitidamente de «carne» (sarx) que é o assento das paixões&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    (1) Frequentemente abordado nas controvérsias apolinárias, quando Apolinário adota esta tripla divisão da natureza humana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;74&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;animais. Aqui o vocabulário dele não adquire tecnicamente um claro significado.(1)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas desta passagem um ponto é evidente; e é confirmado na discussão que posteriormente ele levanta sobre a ressurreição. Ele tem um forte senso da inteireza de nossa personalidade humana, e nítidamente não está predisposto a dividí-la no dualismo de corpo e alma, físico e espiritual. Ele insiste que a ressurreição decerto não envolve «carne e sangue» mas um «corpo espiritual» dando continuidade e habilitando a realização das funções de contato com seu ambiente e de relação com outros para os quais aqui o corpo funciona como um meio de consecução. Se não pudermos chamar tais conceitos de «psico-somáticos», no mínimo poderiam ser compartilhados com os antipáticos conceitos filosóficos da teoria do «fantasma na máquina» do Prof Ryle. Este senso da unidade essencial da personalidade é de suma importância por possibilitar o desenvolvimento de sua doutrina do Corpo de Cristo, e ainda mais em seus desdobramentos em seu significado cósmico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De Beréia Paulo dirigiu-se a Atenas, e naquele grande centro acadêmico entre os mestres do Areópago falou, de acordo com Atos 17, para um grande público sobre o deus desconhecido. Referiu-se a esse deus como o criador do universo, o senhor do céu e da terra, que não mora em templos feitos por mãos humanas, mas que dá a vida e a respiração a tudo e satisfaz todas as necessidades que existem. Que suas dádivas se extendem a todas as nações que a despeito de suas diferenças o procuram, vivem e se movem nele, citando o poeta Aratus, convidou-lhes a prestar atenção às boas novas proclamadas pelo homem que Deus escolheu e que se levantou dentre os mortos. Aquele discurso deve ter sido bem apropriado para aquela audiência, mas foi recebido com gargalhadas embora alguns expressaram a vontade de querer ouvir mais a respeito daquele assunto. Ele&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(1) Como ocorreu em outros casos, trata-se de termos descritivos formulados pelos dirigentes da igreja; é um erro supor que tais palavras posteriormente circunscritas a bispos ou diáconos possuísse para Paulo algum significado restritivo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;75&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;pregara um Deus de sabedoria mas sem muito sucesso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como ele mesmo revela, humildemente dirigiu-se a Corinto atento para que seus ouvintes percebessem verdadeiro significado de sua mensagem. «Decidi-me a falar só de Jesus Cristo e de sua morte na cruz. Fui até vocês em fraqueza - temeroso e trêmulo, e a minha pregação foi muito simples, não com abundante oratória e sabedoria humana; entretanto, o poder do Espírito Santo estava em minhas palavras, provando a todos quantos as ouviam que a mensagem vinha de Deus. Fiz isso, porque desejava que vocês tivessem uma fé firmemente baseada em Deus, e não em grandes idéias de algum homem». (1 Cor. 2.2-5). Com aquele espírito de humildade ele encontrou a verdadeira resposta às suas necessidades.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele admite o êrro que cometeu apresentando Deus como poder ou como sabedoria proclamando com tais formulações uma paródia das boas novas. «Parece absurda para os judeus, porque eles desejam um sinal do céu como prova de que o que está sendo pregado é verdadeiro; e é ridícula para os gentios, porque eles crêem somente naquilo que concorde com a sua filosofia e lhes pareça sábio. Por isso, quando pregamos que Cristo morreu para salvá-los, os judeus se ofendem e os gentios afirmam que tudo isso é disparate» (1 Cor. 1.22-24). Se Deus é como Jesus, ele não é nem operador de milagres sobrenaturais, nem filósofo, nem engenheiro. Seu retrato é a figura de um homem pregado em uma cruz, o símbolo do amor que dá e que sofre. Ele é «nosso Pai»; e amor não é outra coisa senão poder verdadeiro e verdadeira sabedoria. Se apenas percebêssemos e nos lembrássemos disso, os cristãos não endossariam a política do direito divino dos reis [e governantes] ou a filosofia que concebe Deus e o mundo como um relojoeiro diante de seu relógio; poderíamos ter sido poupados de séculos de conflito, com a Igreja normalmente posicionando-se no lado errado. Deveríamos ter penetrado mais profundamente na natureza e na necessidade do poder e da sabedoria, e nos detido um pouco mais acerca do significado do mal e da dor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O efeito desta mudança básica no conceito de Paulo acerca da natureza de Deus, como resultado lógico de sua transformação interior pela experiência com Cristo, também é&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;76&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;a solução dos problemas dele com respeito a lei e graça. Ele percebe agora que todo conceito de Deus como legislador é defeituoso e deve ser substituido. Em Gálatas às duras penas ele percebeu que, mesmo que a lei fosse insuficiente ou mesmo antiquada, havia um claro e suficiente senso de diferença entre o certo e o errado para nos salvar da confusão moral. Mas a despeito de suas listagens de vícios e de frutos do espírito é evidente que ele ainda está longe de ter alcançado um critério definido pelo qual as ações podem ser julgadas .Agora, na medida em que alcança uma melhor compreensão do amor e da paternidade de Deus, ele dá mostras, no confronto com os enganos e incertezas de seus seguidores, de ter encontrado o fio-da-meada de uma nova, satisfatória e apropriada teologia plenamente coberta pela ética. Nesta primeira carta aos Corintios tal teologia ainda está em fase de desenvolvimento e ainda não explora completamente o valor que ela representa: depois de sua última visita à cidade ela alcançou um padrão mais aceitavel e consistente. Este padrão, naturalmente, além de ser completamente pessoal e comunal, identifica a meta de conduta correta para o bem-estar e para o desenvolvimento do companheirismo no Espírito Santo, na família universal de Deus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É uma curiosa miscelânea esta coleção de problemas que o Apóstolo menciona tentando alertar seu grupo com base no princípio de que barreiras de raça, classe e sexo são superadas no Cristo Jesus. Eles vão desde problemas morais sérios como como o incesto e a questão do matrimônio com incrédulos, até temas esparsos como comer a carne de animais dos sacrifícios pagãos ou o velamento das mulheres enquanto rezam; nessa relação há uma interessante variedade. Ele sustenta uma completa igualdade dos sexos na relação matrimonial, é generoso em sua atitude para com matrimônios mistos, embora obviamente considere a vida de solteiro como preferível, sem abraçar nem o ascetismo nem o puritanismo. Uma seção aborda hábitos contemporâneos de difícil compreensão para nós; em uma ou duas frases&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;77&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ele tropeça em supremacia masculina (por exemplo 1 Cor. 11.7-10), e por diversas vezes faz uma distinção entre os mandamentos do Senhor e suas próprias opiniões. Em matéria de condição social inclusive o horrível mas universal fato da escravidão que o poder romano tornou especialmente degradante, ele é muito menos definido do que poderíamos esperar; o mesmo ocorre no que diz respeito a circuncisos e incircuncisos, ou entre escravos e livres, cada um deveria manter sua própria condição, entretanto se o escravo tivesse uma oportunidade de liberdade ele deveria abraçá-la. Nós somos todos escravos de Cristo e «comprados por um preço» (1 Cor. 7.23); o que importa é nossa relação para com Deus. No que diz respeito a regras alimentares e costumes, embora assuntos por si mesmos triviais, tais coisas podem causar ofensa a um irmão mais escrupuloso; e a consciência dele deve ser respeitada. Nós devemos no exercício de nossa liberdade ter o cuidado para fazer o que é recomendavel ao nosso modo de vida levando em consideração círculos os mais amplos possíveis. «Eu faço tudo para levar o evangelho a eles e também pela bênção que eu próprio recebo» (1 Cor. 9.23). Como o atleta ou o pugilista temos que nos dedicar ao extremo de forma a nos tornarmos aptos. Sempre há um modo de superar aquela tentação que trairia nossa confiança. Você que está em comunhão com o sangue e o corpo do Cristo e se torna uma pessoa com ele tem que se privar da idolatria: «tudo é lícito; nem tudo é apropriado; tudo é possível; nem tudo edifica: que ninguém busque sua própria vantagem, mas a do outro». Assim ele transcende a indagação da salvação individual, e toma como critério a edificação do corpo de Cristo. «Faça tudo pela glória de Deus» (1 Cor. 10.23-31) e de acordo com «o testemunho de nossa consciência» (2 Cor. 1.12).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele admitia que tais padrões eram todos frequentemente ignorados. Havia facções mesmo em suas Assembléias da Igreja, que por aquele tempo pareciam combinar elementos como práticas gregas eranas, ceia pascal dos judeus e eucaristia cristã; alguns traziam sua própria&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;78&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;comida enquanto outros permaneciam com fome. Você ignoram a santidade naquilo que fazem e nem mesmo reconhecem a natureza do corpo do Deus; «em vez de proclamar a morte do Senhor vocês a ignoram» (1 Cor. 11.26,27) (1). Assim, a partir disto, ele expõe o que concebe como sendo o corpo de Deus. Nós o constituímos. Nossos dons, ministérios e atividades são individuais e diferentes; mas nosso espírito é um espírito e o mesmo espírito - o Espírito Santo por meio do qual confessamos que Jesus é Senhor. Todas nossas funções - e ele lista nove delas - são operações distintas de um mesmo Espírito. Cristo é como nosso próprio corpo, constituido por muitos membros, mão, orelha, olho, cada um deles é necessário e não pode haver nenhuma rivalidade entre eles. E entre eles estão alguns que parecem fracos, vergonhosos e antipáticos, contudo são essenciais à vida do todo. «Se uma pessoa estiver em dor, todos sofrem com isto, se uma pessoa é elogiada, todos se alegram com isto: todos vocês juntos são o corpo de Cristo, cada parte com sua própria função» (1 Cor. 12.26,27), desde apóstolos até intérpretes de «línguas»; «mas façam o máximo para ter os dons mais importantes desses todos». (12.31a) Assim ele expõe a visão dele de comunidade e abre a fonte de sua unidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Porém, primeiramente eu quero falar-lhes sobre outra coisa que é melhor do que qualquer um deles». (1 Cor. 12.31b). E em um hino (1 Cor. 13) proclama aquela nova qualidade, o amor cristão para o qual agapé é uma palavra intraduzível, o amor que imediatamente expressa, integra e purifica a unidade da comunidade, o amor que reflete a própria essência de Deus. O amor que transcende todos os valores denominados estéticos e psíquicos, intelectuais e institucionais, intencionais e morais. É imune ao egoísmo, incorruptível à paixão. Não tira partido nem explora os sentimentos. É adequado a todas as ocasiões, ilimitado em sua extensão, e eterno em sua qualidade. Aqui, em nossa presente fase, ainda estamos como crianças, tropeçando na fala, no pensamento e no argumento; aqui, até mesmo nossa visão é&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    (1) Para o significado do ensinamento paulino dessas passagens no que diz respeito ao sacramento vide H. A. A. Kennedy, St Paul and The Mystery Religions, pp. 263-79.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;79&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;obscurecida e defeituosa, e nosso conhecimento parcial; À medida que crescemos nossa visão se torna mais direta, mais objetiva no conhecimento, mais plena. O amor é imediato e sem distorções; auto-suficiente, a fonte e o conteúdo de uma real experiência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim na mais bela passagem de seus escritos ele expõe a maturidade desta nova e ainda indescritível qualidade que possibilita aquilo que os biólogos chamam de simbiose desabrochando um novo tipo de relação humana; uma qualidade que ele qualifica como o atributo específico de Deus, a qualidade que de uma forma crescente proporciona para ele o completo valor e significado de vida. É a rapsódia mais notável principalmente por se dirigir ao povo de Corinto, uma cidade marcada pelo templo de Afrodite Pandemos, por si só sinônimo de vício sofisticado em toda parte do mundo mediterraneo. Em um lugar onde toda palavra associada a sexo tinha um significado sujo, ele insistia que não não é nem pelo intelecto nem pela ética, nem por ações íntegras nem por preceitos legais, mas por relações pessoais dedicadas ao amor a Deus e aos vizinhos em Cristo que os homens atingem maturidade plena e uma experiência redentora, é uma prova suficiente do próprio crescimento dele na compreensão das boas notícias, e do seu poder em propiciar uma mensagem nova a outros. É por isso que ele tanto insistia nessa vida em Cristo, incentivando sua expansão e sua aplicabilidade universal; em termos de eficácia humana, essa teologia alterada passa a conceber Deus como amor e o Cristo crucificado como o símbolo perfeito de amor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isso deve ser visto como uma profunda análise da natureza e do funcionamento do amor cristão, e a plena relação de companheirismo pelo Espírito que aparece primeiramente no capítulo 13, o conduziu para o ponto mais alto em sua interpretação das boas novas. O aspecto novo é que ele passou a conceber o amor como o cumprimento da Lei e o fator primário na vida de Deus e dos homens por meio de Cristo. Além disto ele vem proclamar isto como a&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;80&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;condição universal do ser real, o elemento de integração entre a natureza e a história, do cosmo como o indivíduo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O resto da Epístola contém uma discussão muito interessante acerca do falar em línguas, uma expressão ininteligível muito freqüentemente resultante de excitação psíquica, a glossolalia foi interpretada pelo autor de Atos como o dom de falar em diversos idiomas, que exerceu um importante papel nas assembléias dos cristãos primitivos. São Paulo adota uma visão fortemente crítica com respeito a esse dom quando comparado com a pregação, a qual é inteligível enquanto meio direto de explicar as boas notícias enquanto que a glossolalia é sem sentido a menos que seja traduzida. Cantar com espírito e louvar com sinceridade edifica todos os que ouvem. «Eu preferiria falar cinco palavras inteligíveis na igreja que dez mil palavras em uma língua desconhecida» (1 Cor. 14.19). É importante notarmos a ênfase que ele dá ao aspecto intelectual comparado à influência emocional: o evangelismo tem muito freqüentemente negligenciado essa advertência de Paulo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Daí ele passa a abordar assuntos de igual interesse mas de menor importância do ponto de vista ético, exceto quando revela que a despeito do grande avanço em sua teologia ele ainda retem algo de sua velha ênfase na imagem apocalíptica e individual. A lista que ele apresenta das aparições de Jesus pós-ressureição é importante não apenas por mostrar sua insistencia nesta categoria de evidência da vida ressurreta e da presença de Cristo, mas por não fazer nenhuma distinção entre as aparições antes da Ascensão e aquela que testemunhou na estrada de Damasco. Aqui não há nenhum fundamento para afirmar que as alegações dos santos ao longo da era cristã de terem visto o Senhor Ressurreto foram fisicamente diferentes das descritas nos Evangelhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É quando São Paulo passa a discutir e a descrever nossa ressurreição, tema que na carta aos Tessalonicenses ele restringe a apenas uma única frase. Paulo escreve que nossas vidas aqui não terminam com a morte&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;81&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;do corpo e que posteriormente nós ainda seremos «encarnados» (se considerarmos essa palavra significando consciência das relações e capacidade de reconhecer e de se comunicar com outros), e que entretanto «carne e sangue», a vida puramente física e auto-aprisionada por sua corrupção inerente, «não pode herdar o Reino de Deus» (1 Cor. 15.50) contudo de repente «ao som do último trompete» (cf. 1 Tess. 4.16), um corpo incorruptível experimentará a ressurreição e o mortal será lançado na imortalidade. O conceito e a imagem do segundo advento realmente tem bem menos dramaticidade e violencia intrusiva do que antes, Paulo não está muito preocupado se tal evento ocorrerá num futuro próximo ou num momento específico. Mas a narrativa sugere que tais coisas ultrapassam a plena compreensão no que diz respeito à continuidade e consistência da ação divina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É na segunda, ou como alguns pensam, na segunda e na terceira cartas que o Apóstolo se afasta dos problemas temporários, locais e práticos e passa a abordar a extensão e unicidade das boas notícias e o contraste delas com os recipientes térreos que as contém. Uma boa parte do texto tem a ver com suas próprias fraquezas pessoais, seus motivos e aspirações, suas aventuras e consolos. Sem precisarmos exatamente as circunstancias e relações da carreira dele, torna-se difícil calcular ou até mesmo interpretar o profundo significado da crítica e da análise que fez de si mesmo: a própria instabilidade de seu humor em nada facilita essa empreitada. Mas quem freqüentemente se maravilha com a profundidade e perspicácia psicológica de sua Epístola aos Romanos, pode perceber a partir dessa correspondência quão radicalmente ele inspecionava seu próprio trabalho e as influências que o determinaram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De um ângulo mais geral 2 Coríntios propicia uma crescente compreensão da harmonia da base teológica da fé que tem o poder de nos transformar e de nos integrar na real vida de Deus. Expressa em frases como «Deus é o Espírito que lhes concede a vida, e onde ele está aí há liberdade» (2 Cor. 3.17), onde a&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;82&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;singularidade da revelação em Cristo refletida em nós como em um espelho se afirma; ou como «o Cristo que é a imagem de Deus» (2 Cor. 4.4), uma frase básica em sua cristologia. Todas essas coisas se resumem na grande passagem: «Se qualquer homem está em Cristo, há uma criação nova: o velho faleceu; teve início uma nova vida: mas tudo isso vêm de Deus, que nos reconciliou a ele por Cristo e nos deu um ministério de reconciliação, pois Deus estava em Cristo, que reconcilia o mundo a ele, não levando em conta as faltas dos homens mas estabelecendo em nós a palavra de reconciliação» (II Cor. 5.1719). Assim ele expõe o significado de sua frase característica «em Cristo» e indica a filosofia da história que o conduziu à extensa exposição de sua frustração, trabalho e meta da criação em Romanos 8 e a doutrina do Cristo cósmico e consumado em Colossences e Efésios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As seções finais da Epístola, provavelmente uma outra carta, reitera um tema similar de uma forma diferente. Elas acrescentam uma sentença derradeira, a contínua repetição da palavra «graça», que pode ter feito parte do primitivo credo cristão: «o dom da graça de Nosso Senhor Jesus Cristo, que nos garante o amor de Deus e nos capacita na comunidade do Espírito Santo» (2 Cor. 13.13).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;===&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;VI - O TRATADO DE ROMA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se fizera uma grande descoberta em Corinto, foi em Éfeso que Paulo desenvolveu seu significado, na forma de uma exposição ordenada das boas novas na Epístola aos Romanos. Após um longo interlúdio onde paga um tributo à sua origem judaica, enfrenta a terrível pergunta: «Por que Jesus foi rejeitado pelo seu próprio povo?». A resposta traz à tona discussões apaixonadas. Tanto a parte teológica quanto a parte ética de sua exposição revelam a maturidade de seu pensamento e a grandeza de sua sabedoria, uma coerência e uma perspicácia que tornaram esta carta nada menos que ponto de partida para a doutrina Cristã. Seu pensamento versatil acabou inevitavelmente sendo o pivô de uma variedade de interpretações; onde a figura do próprio Jesus é desenhada pelos homens da maneira que mais lhes convem, não poucas vezes de forma caricata e inteiramente distorcida. Mas por trás da diversidade de seus elementos há uma solidez e uma profundidade que faz com que todo estudante perceba o quanto ainda há por compreender. A Epístola aos Romanos foi seguramente fruto de seus dois anos na Ásia, de suas conferências na escola de Tyrannus, e do perigo que correu sob Alexandre. (1) Ele teve tempo não apenas para refletir e analizar sua própria experiência, mas também de discutir, expor e aprofundar ainda mais seu pensamento. Como resultado disso o antigo super-naturalismo externo de sua linguagem traduz-se quase que inteiramente em uma explicação interior e psicológica em termos de relacionamentos pessoais e coisas semelhantes, uma nova compreensão da natureza e do propósito de Deus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    (1) Cf. Atos 19 e 20; 2 Cor. 1.8-11; Tim. 4.14-5.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;84&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O tratado começa com uma cristologia. O Apóstolo descreve a si mesmo como um escravo de Jesus Cristo. Relata que a boa nova foi prometida há muito tempo pelos profetas de Deus nas escrituras, que Seu Filho «tomou a forma humana e veio como criança, tendo nascido da linhagem e da descendencia do Rei Davi. E, ressurgindo dentre os mortos, Ele revelou-se como o poderoso FIlho de Deus, com a natureza santa do próprio Deus» (Rom. 1.3,4). A ênfase nessa dupla filiação aparece apenas nas passagens paulinas, introduzindo formalmente a teologia de sua obra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele exprime sua gratidão por Jesus Cristo e pela sua boa nova, e por poder compartilhar sua proclamação com gregos e não-gregos, com doutos não doutos, e não apenas repartir com eles sua fé, mas tambem ser animado com a fé que eles possuiam. Então ele desenvolve uma filosofia da história, focalizando o fracasso do gênero humano em geral e dos judeus em particular. É uma interpretação bastante nova para o pensamento dele, e uma clara evidência de seu crescimento. Homens falham negligenciando a religião, negligenciando a retidão e consequentemente pervertindo a verdade. Deus tem se revelado: «Desde os primeiros tempos os homens viram a terra, o céu e tudo quanto Deus fez, tendo conhecido sua existência e seu grande e eterno poder». (Rom. 1.20). Assim eles são indesculpáveis. Eles bem sabiam de Deus, mas não admitiram, nem o adoraram, nem mesmo agradeceram a ele todo o seu cuidado diário. E, depois, começaram a fazer idéias tolas de como deus seria e o que ele queria que eles fizessem. O resultado foi que suas mentes insensatas ficaram confusas e em trevas. Dizendo-se sábios sem Deus, tornaram-se em vez disso completamente tolos. E então, em vez de adorarem ao Deus glorioso, vivente, tomaram madeira e pedra e fizeram ídolos para si, esculpindo-os para que parecessem simples aves, animais, serpentes e homens mortais. E assim Deus deixou que continuassem com toda a espécie de pecados sexuais e que fizessem tudo quanto desejassem: coisas vis e pecaminosas com os corpos uns dos outros, corrompendo aquilo que há de mais íntimo e sagrado nas relações humanas. «Abandonaram a Deus e nem mesmo o reconheceram» (1), lançando-se em todo tipo de vício e crime, desconsiderando e ignorando todos seus padrões morais. Mesmo que não se compartilhe do ponto de vista dele em todos os detalhes, coisas como sua insistência no primitivo e universal&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    (1) Rom. 1.28, onde Paulo usa pela primeira vez a palavra epignosis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;85&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;fato da religião, a importancia primaria do sexo e dos contatos pessoais, a necessidade de padrões de decência, são muito mais apropriadas para nós do que a maioria das teorias éticas de seu tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então ele se refere aos judeus afirmando que eles não estão em condições de criticar ninguém: na realidade sua condição não é de modo algum privilegiada. Deus não olha para rótulos ou aparências: ele julga os homens pelo que fazem sejam eles judeus ou gregos. Os judeus tem sua revelação especial, não na natureza mas na Lei: embora a lei não salve ninguém a menos que os homems a guardem; e as Escrituras declaram que todos praticaram aquilo que a Lei define como pecado; a Lei não nos livra do pecado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Diante deste pano de fundo ele proclama uma nova revelação da retidão de Deus. Já havia sido dada pela Lei e pelos profetas, mas agora vem de uma forma nova e universal. Isto é, pelo comprometimento com Jesus Cristo, a dádiva e a oportunidade dada por Deus para nossa justificação, o meio de libertação de nossa escravidão do pecado, a expiação e a propiciação, o objeto sagrado como a Arca da Convenção (Rom. 3.25), o ponto de intersecção de Deus com o homem, um exemplo, uma inspiração, um refúgio. Este é o ato de Deus, o presente gratuito de Deus para nós todos, tanto para gentios como para judeus; pois todos são de Deus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele conclui esta primeira seção voltando ao caso de Abraão conforme já tinha feito na carta aos gálatas. É impossível saber se tinha conhecimento da objeção feita ao seu argumento na Epístola de Tiago (2.20-24), mas certamente estava familiarizado com seu conteúdo. Sua resposta, embora feita com cortesia, é decisiva. A promessa em Gen. 15.6 foi dada não por obedecer oferecendo Isaac (Gen. 22), como Tiago alega, mas bem antes quando Abraão era ainda incircunciso e antes mesmo do nascimento de Isaque. Assim a promessa era claramente uma recompensa à sua fé e não teve nada a ver com a&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;86&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lei ou seus atos subseqüentes; e a bênção foi cumprida em Cristo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na segunda seção ele desloca-se do vasto campo da história para o campo mais restrito do significado de nossa reconciliação. Por causa de Jesus Cristo temos paz e acesso à graciosa relação com Deus, confiamos e esperamos pela glória de Deus. Além disso podemos encarar até mesmo nossas aflições com semelhante confiança e garantida esperança uma vez que tais coisas vêm para nos fortalecer e nos testar. Nossas aflições eram nossa fraqueza quando éramos pecadores e inimigos de Deus, até que Cristo entregou sua vida por nós: agora que a morte dele nos salvou, a vida dele nos manterá seguros e reconciliados com Deus. Por um homem, Adão, o pecado e a morte nos contaminou a todos, agora, e em grande escala, pela graça de um homem o dom da graça de Deus foi conquistado para nós. A morte é substituída pela vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas se fora de nosso pecado Deus achou ocasião para nos salvar, nós não podemos retirar disso um argumento para continuar pecando? Por que não aceitar o pecado e permanecer nele? Para as pessoas que resolvem a questão do pecado através de uma sucessão de atos particulares (e certos tipos de ensinamentos na igreja aparentemente fazem isso) isto pode ser plausível. Mas Paulo rejeita isso de imediato: pecado e graça não funcionam como débito e crédito de uma conta: trata-se de uma questão de vida ou morte. O homem reconciliado com Deus não pode viver novamente «em pecado». Ele morreu em Cristo, o representante dele: ele foi elevado por ele para viver nele. A morte já não pode dominar Cristo e não pode, devido a nosso pecado, ter licença para tomar posse de nós que estamos em Cristo. Esta união primária com Deus em Cristo é o evento decisivo - a experiência da conversão. Como podemos interpretar isto? E tendo feito assim, como podemos estabelecer a possibilidade de seu cumprimento?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em seguida Paulo usa duas ilustrações para tornar claro o abismo entre o velho e o novo, e demonstrar que nossa obrigação anterior à Lei terminou. Isso significa que não&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;87&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;nenhuma razão por se viciar no pecado que Lei proibe. O pecado é de certa forma uma escravidão: e a continuidade nessa escravidão do pecado significa perder não apenas nossa nova liberdade mas também renunciar nosso novo serviço a Deus, significa preferir morte à vida. É como nossa mudança de condição pelo matrimônio. Uma viúva pela morte do marido desliga sua relação com ele: não há agora nenhum adultério se ela se casar novamente. Da mesma forma para nós, que já nascemos casados com o pecado, a morte do pecado desliga nossa relação com ele: somos recém-casados com Deus em Cristo; e essa nova vida transforma toda nossa relação. Brincar com o mal é trair a Deus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tais exemplos, apesar de menos insatisfatórios que as cansativas analogias e ninharias acadêmicas da carta aos Gálatas, realmente não trazem nenhuma prova convincente de perspicácia. Paulo, embora menos rabínico e criativo do que da primeira vez que tratou do assunto, não propicia aquela espécie de compreensão empática típica dos quadros vívidos das situações que caracterizam as parábolas de Jesus. As metáforas de Paulo são marcadas pelo lugar comum e pela imprecisão; com um efeito pedante e inconvincente. Mas repentinamente, e com poder notável, ele dá vazão a uma genuína e impressionante auto-revelação; e todo o problema do conflito moral ganha vida diante de nós, uma lucidez tão brilhante quanto aqueles três flashes geniais apresentados em Gálatas. Imediatamente surge uma pessoa real e sensível diante de um assunto profundo e universal. A «guerra em nossos membros», a guerra civil que se trava dentro de nós, é uma passagem que penetra o âmago da vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É típico das exegeses paulinas os comentaristas atribuir uma importancia vital ao argumento de que o Apóstolo está naturalmente relembrando as agonias de seu estado inconverso, quando ele ainda estava lutando pelo comprimento da Lei e dando de cara não apenas com o fracasso, mas também com o fato de que a proibição era por si só um incentivo. Sua análise do conflito quando ele admite a óbvia retidão da Lei e seu valor em definir pecado para ele, ainda é incapaz de reprimir seu impulso por&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;88&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;resisti-lo, e é tomado por um terrível desespero: «Quando quero fazer o bem, não faço; e quando procuro não errar, mesmo assim eu erro. Agora, se estou fazendo aquilo que não quero, é simples dizer onde a dificuldade está: o pecado ainda me retém entre suas garras malignas. Parece um fato da vida que, quando quero fazer o que é correto, faço inevitavelmente o que está errado. Quanto à minha nova natureza, eu gosto de fazer a vontade de Deus; contudo existe alguma coisa bem no meu íntimo, lá em minha natureza inferior, que está em guerra com a minha mente e ganha a luta, fazendo-me escravo do pecado que ainda está dentro de mim. Em minha mente desejo de bom grado ser um servo de Deus mas, em vez disso, vejo-me ainda escravizado ao pecado. Assim, vocês podem ver como isto é: minha nova vida manda-me fazer o que é correto, porém a velha natureza que ainda está dentro de mim gosta de pecar. Que situação terrível, esta em que eu estou!» (Rom. 7.19-25). Uma trágica expressão de aflição. Trata-se de uma questão de vida e morte para todos nós. Por nós mesmos não temos nenhum poder que nos ajude, a independência nos deixa cegos e aumenta nossa impotência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não precisamos discutir detalhadamente os argumentos usados que diz que isso se refere a reminicências do passado, não experiências do presente. Pode ser que nas vidas dos santos haja lugar para a doutrina do compromisso inabalável, daquela certeza da própria salvação que eles tem e que muito facilmente se torna um intolerável desaforo. Mas uma coisa é certa: pela inquebrantavel percepção de Deus e pela real descoberta, passada ou presente, de suas falhas, eles continuamente se libertam da inquietação. Talvez a maior lição do grito de desamparo no Calvário seja o fato de que quanto maior nosso amor e conhecimento de Deus, melhor é nosso nosso olfato para pressentir a eminência do mal. E no próprio caso de Paulo sua humildade certamente aumentava na medida em que ele crescia na graça. De qualquer forma a frase em 1 Tim. 1.15, «pecadores, dos quais eu sou o principal» reflete genuinamente a mente do Apóstolo, pelo menos está de acordo com a totalidade de suas Epístolas. Ele também está atento que precisa continuamente de perdão e ainda pode ser um náufrago.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;IEm todo caso ele nos dá uma exposição minuciosa de nosso problema moral, que é a causa principal do erro. Em diferenciar ética legal de ética pessoal. Dos homens obviamente não se tornando virtuosos pelas Leis do Parlamento, homens que quanto mais débeis de vontade menos conhecem o mal que lhes afige. A tensão moral raramente foi tão vívida e honestamente descrita; e poucos foram entre os santos os que expuseram suas próprias lutas com tanta objetividade e intimidade. Aqui temos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;89&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;uma revelação daquilo que Paulo acreditava a respeito do significado de Jesus. E essa fé básica faz muita diferença pelo efeito e influência que exerce nos crentes. Temos aqui uma ética centrada em Deus, para um mundo de homens como nós. Embora ainda incompleta nesta fase de sua evolução, tem pelo menos o mérito de enfrentar o problema através da análise, um campo recentemente descoberto pela ciência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No estudo da ética cristã a questão do propósito e do valor de lei é algo que demanda grande atenção. A necessidade de formular padrões de conduta capazes de ser mantidos e aplicados parece bastante evidente à maioria de nós. Um mundo sem tais padrões tem sido suficientemente manifestado durante os últimos vinte anos. Mas a máxima legal «povo duro, duras leis» que quase foi aceito universalmente cinqüenta anos atrás e que ainda é considerado por muitos como a saída inevitável da justiça legal, foi desafiado e subvertido pelos recentes descobrimentos em psicologia genética. O fato de «sermos aquilo que nossos gametas determinam», mesmo sem significar que «pais cleptomaniacos não podem ter uma criança honesta», é uma declaração que a justiça não podem ignorar. O tratamento penal da condição hereditária (isso é de toda a humanidade) tem que levar em conta estas condições. Semelhantemente, pela psicologia, sabemos que cada um de nós é um «caso difícil», ou, na linguagem teológica fora de moda «pecadores», que veio ao mundo através de uma ascendência infinitamente longa e originalmente animal exposta de nascença a influências e eventos que deixam profundas marcas em nossas vidas subconscientes. Se não somos completamente loucos, também não somos completamente sãos; e uma verdadeira justiça deve ser ajustada ao conhecimento de que por trás de cada ação localizam-se complexos padrões de conduta e um indivíduo que único. Adequar tais condições à administração tradicional da lei é um assunto que parece estar bem longe&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;90&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;de qualquer solução clara. Enquanto isso, os juízes, diante dos efeitos gravemente injustos que a definição legal cria, se vêem diante de um volume tal de jurisprudencia que torna a tarefa deles quase impossível.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Além disso, para muitos de nós, atentos a essas questões, a lei, se não age como um asno é freqüente e cruelmente inadequada. É sobre isso que Paulo fala com clareza e honestidade. Suas palavras não estão apenas restritas às relações entre judeus e pagãos do primeiro século ou de Moisés com Jesus. Trata-se de um assunto de profunda importância e urgência para o indivíduo e para o bem geral, fundamental para qualquer consideração em torno da moralidade cristã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No caso de Paulo a psicologia da exposição dele nos leva em direção ao ponto central do problema. Ainda não podemos afirmar com certeza mas podemos sentir que embora sua reação de gratidão e libertação sejam emocionalmente válidas e constrangedoras, não é em si mesma conclusiva. Como o homem poderia abdicar da direção e da detalhada disciplina da Lei? Como ele construiria um incentivo moral igualmente constrangedor? Poderia o amor de Deus e o desprendimento do ego substituir todos os códigos legais por uma aceitação inteligente de uma moral completamente cristã? Paulo responde que sim; mas apenas em sua última epístola ele mostra como o amor e a comunidade geram o «pleno conhecimento».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na terceira seção, começando com a afirmação triunfante: «não há nenhuma condenação aguardando aqueles que pertencem a Cristo Jesus» (Rom. 8. 1), ele esboça sua própria solução, primeiro discutindo uma seção prévia e depois desenvolvendo sua filosofia da história. Em ambos os casos seu pensamento alcança um altíssimo nível de discernimento e expressão. No primeiro caso desenvolve sua idéia anterior, no segundo caso ele alcança um dos momentos mais singulares, originais e iluminados das Escrituras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acima da lei do pecado e da morte, coisas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;91&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;das quais os homens foram libertados, ele fixa aquilo que chama a lei do espírito da vida em Cristo Jesus que é o padrão expresso por Cristo e dado por ele àqueles que se entregam a ele e assim incorporam seu Espírito. A Lei, pela nossa natureza física, é débil e não pôde efetuar o alívio necessário: Deus pela missão do seu Filho, encarnou em nossa carne pecadora e preocupado com nosso pecado, condenou o pecado na carne revelando sua prevaricação e realizando a exigência da Lei que foi cumprida em nós que não estamos na carne mas no espírito. «Se o Espírito de Deus mora em você, você não está na carne mas no espírito. Se alguém não tem o Espírito de Cristo, não é dele. Se Cristo está em alguém, o corpo dele está morto com respeito a pecado, o espírito dele está vivo com respeito à retidão. Se o Espírito de Deus mora em vocês ele que elevou Cristo Jesus elevará seus corpos mortais pelo Espírito que mora em vocês». (Rom. 8.9-11). Mais que isto, todos aqueles que são conduzidos assim pelo Espírito são a família de Deus, os herdeiros dele, para em conjunto compartilhar tanto os sofrimentos como a glória de Cristo. O Espírito dele e os nossos unem em testemunho disto. Assim a unidade essencial da Divindade é estabelecida tanto quanto a Divindade; e a Igreja é definida não em termos de instituições e cerimoniais mas de relações espirituais e pessoais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E as coisas não terminam por aí: o princípio assim estabelecido da unidade de toda real vida pode ser aplicado em um campo maior. Se sofrer por Cristo e por nós é o prelúdio da glória, por que não seria também assim para a criação como um todo? «Toda a criação espera com paciencia e esperança por aquele dia futuro quando Deus ressuscitará os seus filhos. Sabemos que até mesmo as coisas da natureza, como os animais e as plantas, sofrem na doença e na morte enquanto esperam esse tão grande acontecimento» (Rom. 8.19-21). Liberdade, glória, comunidade. Nós sabemos que toda a criação está gemendo e trabalhando juntamente até agora; e não apenas a criação mas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;92&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;nós, que temos os primeiras frutos do Espírito, gememos em nós mesmos na medida em que esperamos pela adoção que envolve a redenção de nossa vida corporal. É pela esperança que seremos salvos, é na esperança das coisas que estão por vir que está nossa fortaleza. Além disso nós não estamos sós: em nossa fraqueza o Espírito de Deus se envolve conosco, intervindo ao nosso lado e guiando nossas aspirações; e Deus, que procura nossos corações, conhece a mente do Espírito, que intercede a Deus pelos santos. «E nós sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus de acordo com seu propósito» (1), Deus os escolheu e os formou à imagem do Filho dele, o primogênito de muitos irmãos, e esses a quem escolheu ele também chamou, justificou, e glorificou. Todos são de Deus; e ninguém pode desafiar ou se opor a eles. Se Deus nos deu o Filho dele, Ele seguramente nos dará tudo o mais. Quem nos separará de tal amor? Seguramente nenhuma aflição, nem morte, nem vida, nem anjos, nem governantes, nem presente, nem futuro, nem poderes, nem altura, nem profundidade, nem qualquer outra coisa criada: O amor de Deus em Cristo Jesus nosso Senhor prevalece.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É desnecessário e errado associar esta notavel passagem à cosmologia de Tellhard Chardin ou a uma moderna doutrina da evolução. Indubitavelmente, Paulo tem em mente a história da maldição na terra e de seus habitantes humanos de Gênese 3, talvez tivesse recebido influencias da doutrina Estóica do progresso que estava sendo proclamada por Sêneca, seu contemporâneo. Mas, mesmo assim, a originalidade, a verdade e a relevância de sua interpretação para nós situa-se no melhor sentido profético. Ele firmou-se em quatro pontos de permanente e inigualável importância para nossos dias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Primeiro ele não vê a criação como um ato realizado de uma só vez no princípio, mas como um processo originalmente condicionado&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    1 Rom. 8.28. A variação das palavras não afeta seriamente o significado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;93&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ao desenvolvimento de variáveis. É e sempre esteve incompleta, carente de suas plenas possibilidades, frustrada e defeituosa.(1) Conseqüentemente é um cenário de agonia e de esforço que se desdobra em dor aspirando pela conquista de seu verdadeiro fim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Segundo, esta frustração traz consigo a qualidade da agonia da gravidez, um árduo trabalho de gestação: a criação labuta para fazer nascer uma comunidade que ainda está dentro do útero. Esta, quando nascida, será livre, não será escrava de suas próprias paixões, nem deteriorará por seus erros passados, livre para a plenitude da vida e com o brilho de uma glória refletida. Será a família, a família mundial, de Deus. Agora, ainda na metade do caminho, ela vive e vive pela esperança; e já recebeu em Jesus o primeiro cumprimento de sua meta. Esta esperança, assim aumentada, é nosso conforto e meio de prosseguir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Terceiro, em nossa aventura nós não estamos sós. Deus não é um espectador distante assistindo o conflito e elogiando ou condenando seus participantes. Ele envolveu a si mesmo. O Espírito dele está engajado ao lado e dentro do esforço, compartilhando em sua agonia e inspirando sua direção. Conosco e em nós está o divino, manifestado em Cristo e morando em seu povo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então, finalmente após feroz e prolongada luta - e nossa liberdade é um elemento essencial que deve ser preservado e seu progresso pode ser retardado ou antecipado - o fim está seguro. Deus está envolvido, e o testamento dele está sendo terminado. Tal testamento é o amor; assim, sua operação é condicionada por nosso estado como pessoas: nós não somos escravos nem máquinas e Deus não pode negar a própria natureza dele nos tratando como se fôssemos tais. A agonia continua até que nós achemos nossa liberdade perfeita no fazer sua vontade e no serviço de sua comunidade. Mas mesmo agora duas coisas já estão claras. O mundo está condicionado de tal forma que, como Jesus disse, se nós buscarmos em primeiro lugar o reino de Deus e a sua justiça, tudo o mais que precisamos estará disponível para nós -&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    1 Cf. Sanday and Headiam, Romans, p. 208.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;94&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;as coisas espirituais e materiais cooperam para bem se nós amarmos a Deus. Além disso aqui e agora nada que possa acontecer pode nos separar desse amor, exceto nossa rejeição ou descrença disto. A menos que digamos não haver tais coisas como progresso, ou haver condições nas quais o amor de Deus não possa ser cumprido - a menos que percamos a esperança - não há, a despeito e em meio a todo mal e frustração, nenhuma ruptura do amor com o qual Deus nos liga a ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dificilmente é necessário fazer mais que lembrar-nos que a maior parte de nossa angústia e heresia presente deve-se à negligência quase completa deste entendimento paulino acerca do mundo natural. Desde os conflitos entre Gênesis e geologia, darwinismo e evolução, ou mesmo como ocorre no momento presente entre liberalismo e neo-ortodoxia, podemos ver intensa luz é lançada sobre ambos os lados nessa seção onde Paulo conclui os capítulos teológicos da maior de suas epístolas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O interlúdio que ilustra o padrão da vida brotando da morte como uma leitura da história é um cri du coeur de alguém que chamou a si mesmo de nada menos que um hebreu de hebreus. Se aspiração e agonia é nosso destino e se Deus faz juntamente todo trabalho para o bem, como é que as pessoas escolhidas, tão privilegiadas e tão pacientes, no momento em que a esperança deles foi cumprida, o rejeitam? A tragédia dessa recusa é evidente a todo cristão: para Paulo foi apenas sublinhado pela sua conversão e subseqüente experiência. O que pode dizer ele sobre isto?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que Israel sempre foi teimoso, que o Testamento Velho está cheio de advertências, e que em tempos de crise apenas um remanescente faria a escolha correta, é um consolo pouco satisfatório: o tema era demasiado catastrófico para ter uma fácil aceitação. Mas o fato ainda permanece; e Deus tem que ter algum propósito nisso tudo. Seguramente o significado de todas essas coisas, embora nenhum homem possa conhecer a mente de Deus, pode ser visto no fato de que foi a recusa de Jesus por parte dos judeus que o conduziu aos gentios. Poder-se-ia reivindicar que a&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;95&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;auto-exclusão que fizeram de Cristo abriu caminho para a missão para o resto do mundo? Nesse caso, em algum aspecto isso teve um valor sacrificatório: a perda deles foi o ganho dos gentios. A desgastada comparação da oliveira cujos galhos foram arrancados para dar lugar a um enxerto de uma oliveira selvagem faz sentido, a despeito de seu absurto horticultural.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Além disso essa exclusão não é definitiva: A clemência de Deus prevalecerá sobre eles e eles serão restabelecidos quando os gentios ganharem seu pleno lugar em Cristo. E se a alienação deles funcionou tão bem para os outros, quão grande será o cumprimento quando eles retornarem. De Deus, por Deus e para Deus são todas as coisas. A seção termina com uma declaração, a mais clara possível, do universalismo para onde o conceito paulino de Deus em Cristo é magistralmente conduzido, o mesmo conceito que ele desenvolve em Colossenses e Efésios, mas que é tão difícil para os seus comentaristas tradicionalistas aceitarem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;TAs conseqüências práticas e éticas das boas notícias é o assunto que preenche o restante da carta. Sua primeira preocupação está na qualidade fundamental dos membros da comunidade santificada cujas vidas corporais são um sacrifício vivo a Deus, e que não imitem a conduta e os costumes deste mundo. «Seja, cada um, uma pessoa nova e diferente, mostrando uma sadia renovação em tudo quanto faz e pensa. E assim vocês aprenderão, de experiência própria, como os caminhos de Deus realmente satisfazem a vocês. Como mensageiro de Deus, faço a cada um de vocês uma advertência dEle: sejam honestos na avaliação de si mesmos, medindo seu próprio valor pela quantidade de fé que Deus lhes deu. Pois tal como existem muitas partes em nossos corpos, assim também é com o corpo de Cristo. Todos nós somos parte dele, e cada um de nós é necessário para fazê-lo completo, porque cada um de nós tem um trabalho diferente a executar. Assim, pertencemos uns aos outros e cada um precisa de todos os demais» (Rom. 12.2-5).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Essas três sentenças vão à raiz do assunto. Jesus tinha dito: «mude sua perspectiva». O discípulo dele diz: «você deve evitar de se acomodar a idéias e&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;96&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;padrões mundanos: tudo o que você faz e pensa deve ser afinado na consciência da presença e da vontade de Deus. Isto envolve libertação do egoísmo e conhecimento da si mesmo com relação a Deus e a comunidade». Nesta comunidade nós podemos achar nosso espaço de lazer, e nossa própria atividade. Se nós comparamos isto com o slogan familiar dos psicólogos «conheça a si mesmo, aceite a si mesmo, seja você mesmo», perceberemos a grande e vital diferença entre eles.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele segue nestes princípios gerais através duas listas que explicam primeiro as variadas funções que os membros no serviço de Deus realizam e depois as qualidades que eles exercitarão nos procedimentos mútuos. Estas listas correspondem a serviços internos e externos dos membros, tanto no sentido radial como tangencial, em suas atividades: mas inevitavelmente os dois convivem lado a lado. Então ele delineia um conjunto de breves preceitos que envolvem tanto atitudes como comportamentos para com as pessoas de fora, que resume na frase: «Não deixem que o mal prevaleça, mas triunfem sobre o mal, praticando o bem» (Rom. 12.21). O conselho dele retrata uma vida gentil, simpática, harmoniosa e pacífica - que ele previamente descreve como ministério da reconciliação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O próximo parágrafo (Rom. 13.1-7) sai das recomendações gerais e entra em um específico e sempre urgente e difícil problema: qual deve ser a atitude dos cristãos diante da autoridade secular, e aqui o Apóstolo se refere particularmente ao império pagão de Roma. Paulo segue sua linha prévia e advoga a sujeição com o pano de fundo de que não há nenhuma autoridade exceto pela sanção de Deus e que aqueles que estão no cargo são estabelecidos por Deus: assim aquele que resiste à autoridade coloca-se a si mesmo contra o decreto de Deus, e trará julgamento sobre si próprio. Aqueles governantes não amedrontam quem faz o bem mas aqueles que fazem o mal. O governo é o ministério de Deus para a bondade; aqueles que praticam o mal sempre terão medo dele; e para os serviços públicos poderem existir são necessários os impostos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;97&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pagamento de impostos foi algo muito natural àqueles que viram e avaliaram a pax Romana e a segurança que ela proporcionava (essa carta foi escrita durante o famoso quinquennium Neronis - DC 54-59, quando Sêneca e Burrus deram ao Império seu melhor período de governo) àqueles que viviam na Judéia ocupada por um país inimigo, sabedores da futilidade que uma rebelião poderia representar, e da amargura que aquela ocupação representava. Além disso os escravos e os pequenos negociantes que constituíram os pequenos grupos locais de cristãos não tinham nenhum tipo de responsabilidade ou influência nos negócios públicos. Seria surpreendente se o Apóstolo usasse essa mesma linguagem referindo-se a qualquer Cesar posterior, até mesmo se os proconsules e procuradores deles fossem em geral os homens de integridade. Mas considerar hoje esse aconselhamento de Paulo como uma regra divina fixa para todo tipo de governo, certamente incide no erro de assumir que em um meio radicalmente mutavel seja possível estabelecer regras infalíveis onde detalhes de conduta possam ser definitivamente fixados. Isto seria, naturalmente, estabelecer exatamente o tipo de sistema legalista contra o qual todo esforço de Paulo estava dirigido; e nós vimos como os cristãos usaram esse erro para justificar obediência a qualquer tipo de despotismo desde a teocracia de Calvino em Genebra até o nazismo de Hitler em Berlim. É um fato irônico que não haja nenhuma passagem em todas as epístolas que tenha sido tão freqüentemente citada tanto na literatura como nas pregações cristãs; e igual e certamente nenhuma que tenha produzido tantas conseqüências monstruosas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É altamente significante a descoberta do Apóstolo de que, logicamente mantendo a ética das relações pessoais, temos que viver como Jesus fez «no Reino» - o que envolve também viver entre pessoas e eventos de caráter extensamente diferente, e que traduzir a espontaneidade e a inteireza da resposta pessoal em um código definido e estereotipado é&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;98&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;destruir seu caráter e, realmente, tentar o impossível. Não estamos mais debaixo da lei mas sob a graça, não mais escravos mas livres.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na próxima seção Paulo insiste nesta mesma transformação. Ele conclui o parágrafo sobre os poderes civis dizendo «honrem e respeitem a todos aqueles a quem isso for devido». Ele começa o próximo com as palavras «Paguem todas as suas dívidas, exceto a dívida do amor aos outros; nunca terminem de pagá-la! Se vocês amarem aos outros, estarão obedecendo a todas as leis de Deus, e satisfazendo todas as suas exigências» (Rom. 13.8). As ordens detalhadas do decálogo estão todas resumidas na injunção de amar ao próximo como a si mesmo: tal amor não provoca nenhum mal e é o cumprimento da lei. Agora você tem que acordar para um novo amanhecer; parar com as obras das trevas e seguir em frente equipado para o dia. Vista-se com o Senhor Jesus Cristo e não pague nenhum tributo à carne e às suas paixões.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Finalmente vem uma última exortação de tolerância àqueles que são fracos e facilmente transtornados. Se eles têm dúvidas em cima de observâncias relacionadas a festivais ou comida, não seja contencioso. Cristo morreu por todos nós. Você pode facilmente chocar e escandalizar com sua crítica. Não julgue um ao outro; e deixe o Deus da paciência e do conforto guiar você no caminho de Cristo Jesus para que vocês possam unidos glorificá-lo a uma só voz!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os capítulos finais contam algumas coisas que espera deles e o que planeja para o futuro. Fala sobre o dinheiro coletado na Macedônia e em Achaia para os pobres de Jerusalém, sobre visitá-los e sobre sua viagem para a Espanha. Ele escreve uma advertência afetuosa, e esboça uma longa lista de saudações e mensagens que alguns acham ter sido originalmente endereçadas a Éfeso e posteriormente anexadas a esta carta. É certamente uma saudação por demais extensa e pessoal para constar em um documento tão formal e cuidadosamente ordenado como este. Mas dá ênfase ao seu cuidado pastoral para com os indivíduos, tanto quanto para a fé, a ordem e a unidade da igreja. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;===&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;VII - A EXPANSÃO DO PENSAMENTO DE PAULO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nas últimas quatro cartas - as Epístolas do Cativeiro - vemos poucas mudanças e uma grande expansão do tema central. Até agora o conceito da pessoa e da obra de Cristo desenvolve-se continuamente. Do Messias que nos livrou da Lei e que logo voltará do céu para inaugurar uma nova era, Paulo passa, em Coríntios, ao conhecimento de que Cristo tem de fato não apenas já revelado para nós o Deus dessa nova era como também nos introduzido nela. Em Romanos o método e a extensão de nossa iniciação e a qualidade da comunidade que constitue a meta do processo criativo em Cristo torna-se claro; os detalhes da mudança, «o caminho da salvação» como foi chamado pelos nossos pais, é analisado e explicado em termos que nós ousamos descrever como uma filosofia da história; mas o método preciso e a extensão desta consumação em Cristo ainda esperam discussão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim, é natural que essas duas cartas, aos Filipenses e aos Colossenses, tratassem de dois assuntos, os aspectos sobre a natureza divina, que podem ser vistos em Cristo, como funciona sua mente, conforme nos é revelado em seu ministério, e de Cristo como o arquétipo e a incorporação universal de Deus em sua criação. Filipenses mostra-nos Cristo nos dias de sua carne, esvaziado de egoísmo em sua condição humana, e a revolução que suas servitude humana tornou possível para nós. Colossenses o vê como não apenas como o cumprimento e o protótipo da nova humanidade nova mas como a imagem do Deus invisível, a verdadeira apresentação do divino, e como&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;100&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;a fonte e consumação de toda criação. Assim, nessa dupla mensagem ele traça para nós a medida da plenitude de Cristo, e descreve a nova perspectiva e o profundo conhecimento tornado disponível para nós em Cristo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Finalmente, o Apóstolo desenvolve esta visão em um quadro claro da perfeição da realização total; purga sua teologia daqueles elementos pré e sub-cristãos retirados de prévios sistemas e metáforas, legais ou apocalípticos, reais ou mecânicos e que encontraram lugar em suas primeiras interpretações; e mostra como na realidade toda gama da energia divina concebível ao homem tinha sido pela graça de Deus acrescentada a nós em Cristo. Na carta circular que nós chamamos Efésios ele fez o que ele fez em Romanos mais brevemente. Aquilo que escreve está mais para tratado do que para espístola, e ele mostra como o amor e o companheirismo da vida em Cristo nos equipam com pleno conhecimento tanto da totalidade do processo criativo como do detalhamento das obrigações envolvidas em nossa resposta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A pequena nota para Filemom com sua intimidade e mensagem pastoral é um típico pós-escrito à série. Essa missiva mostra que paralelamente aos mais importantes temas da fé cristã o Apóstolo ainda podia voltar sua mente para um escravo fugido, «meu filho Onésimo, a quem eu ganhei para o Senhor enquanto estava aqui nas minhas cadeias», o qual agora ele devolve ao seu dono.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquele profundo e dedicado afeto para com seus companheiros e seguidores não são em nenhuma parte tão vividamente expressos como na primeira destas quatro cartas. Filipos ocupou um lugar bem especial em seu coração; e se nos arriscarmos a pensar em Paulo, especialmente quando jovem, como uma pessoa pouco afeita a demandas por reconhecimento, ou eventuais críticas e exortações, podemos nos convencer da intensidade e da solicitude do amor que tinha por aquela gente. «Só Deus sabe como é profundo o meu amor e a saudade que tenho de vocês - com a ternura de Jesus Cristo. Minha oração por vocês é que cada vez mais vocês&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;101&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;transbordem de amor pelos outros e que, ao mesmo tempo, continuem a crescer em conhecimento e compreensão espiritual» (Filip. 1.8-10).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O próximo parágrafo mostra a mesma alegria. Ele revela como suas dificuldades resultaram em um avanço em direção a boas notícias; que ele estava na cadeia simplesmente por ser cristão, coisa reconhecida não apenas pelos magistrados como também por todos os demais, e que os irmãos estavam convencidos de que a prisão dele foi por causa de sua ousadia por pregar mais livremente a palavra de Deus. Alguns proclamam o Cristo por inveja, outros por pureza, alguns por amor, outros por puro exibicionismo; mas pelo menos Cristo é anunciado. Realmente, ele é engrandecido em minha pessoa esteja eu vivo ou morto. Por mim preferiria morrer e estaria com Cristo; mas quando penso em vocês eu prefiro viver e algum dia ver vocês todos novamente. Torne sua cidadania merecedora das boas notícias de tal forma que, presente ou ausente, eu possa saber que vocês estão firmes em um só espírito e em um só coração como atletas das boas notícias, nunca subvertidos por seus adversários, nunca apenas compartilhando sua confiança em Cristo mas também seus sofrimentos em Cristo, e participando do mesmo conflito que vocês vêem e ouvem em mim. Assim por toda essa consolação, amor, camaradagem e compaixão, vocês me enchem de alegria, bem como pela condolência e interêsse desinteressado para com os outros em vez de para com vocês mesmos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Através desta efusão da gratidão ele os conduz ao exemplo de Cristo. Eles podem compartilhar a mesma mente e pensamento do Mestre, realmente. «A atitude de vocês deve ser semelhante àquela que nos foi mostrada por Jesus Cristo, que, embora Deus, não exigiu nem tampouco Se apegou a seus direitos como Deus, mas pôs de lado seu imenso poder e sua glória, ocultando-se sob a forma de escravo e tornando-se como os homens. E Se humilhou ainda mais, chegando ao ponto de sofrer uma verdadeira morte de criminoso numa cruz. Contudo, foi por causa disso que Deus O elevou até às alturas do céu e Lhe deu um Nome que está acima de qualquer outro nome, para que ao Nome de Jesus todo joelho se dobre no céu, na terra, e debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para a&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;102&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;glória de Deus o Pai» (Filip. 23-11). A precisão nua do grego - o turbilhão de substantivos e verbos com quase nenhum artigo em toda a passagem - é intraduzível e dá uma impressão de concentração e ênfase sem igual nos escritos de Paulo. O contraste entre divino e humano, a grandeza da auto-entrega, e a realidade e a perfeição daquilo que ainda está por vir. O que vemos aqui não é uma cristologia, como tantas descrições posteriores pretenderam transformar, de um ator divino assumindo um papel temporário. Denota uma completa transformação, um estado sendo alterado inteiramente pelo auto-esvaziamento, o kenosis, possível apenas mediante intervenção divina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com este conhecimento a comunidade amada tem que funcionar com temor e tremor a no que diz respeito à sua própria salvação: é claro que Deus que opera neles, tanto no esforço original da vontade como na energia para sua execução. Devem fazer tudo sem murmuração e reclamações: vocês são as crianças de Deus em um mundo distorcido e distraído; vocês tem que brilhar, vocês são portadores da tocha da palavra da vida e eu me orgulho de vocês; porque eu não corri nem labutei em vão. «Se eu tiver que morrer por vocês - mesmo assim ficarei contente, e repartirei minha alegria com cada um de vocês» (Filip. 2.17-18). Ele acrescenta a esta mensagem de alegria a promessa de enviar Timóteo até eles e o aviso do retorno de Epafrodito, que trouxe a oferta deles, que esteve seriamente doente mas que agora já está bom.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então após uma mensagem adicional de alegria no Senhor ele os adverte contra um tipo especial de malfeitores, auto-mutiladores que chama de «cães perigosos» e que «vangloriam-se na carne». «Entretanto, todas estas coisas que eu antigamente julgava muito valiosas, agora, lancei-as todas fora, a fim de poder pôr minha confiança e esperança somente em Cristo. Sim, todas as outras coisas perdem o valor quando comparadas com o ganho inestimável de cohhecer a Cristo Jesus, meu&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;103&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Senhor. Eu pus de lado tudo o mais, achando que valia menos do que nada, a fim de que possa ter a Cristo, de tornar-me um com Ele» (Filip. 3.7-15). Isso marca o crescimento de sua humildade, que começou no momento em que verificou que não poderia salvar-se por ser suficientemente bom ou por obedecer às leis de Deus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Finalmente ele os adverte mais específicamente contra alguns, aparentemente membros da comunidade, que são de fato «inimigos da cruz de Cristo. O futuro deles é a perdição eterna, pois seu deus é o apetite; eles têm orgulho daquilo que deveria envergonhá-los; e tudo o que eles pensam é nesta vida, aqui na terra» (Filip. 3.18-19), enquanto nós somos os cidadãos do céu (1), e damos boas-vindas ao Salvador, nosso Senhor Jesus Cristo, que reconstituirá o corpo de nossa humilhação transformando-o no corpo de sua gloria. Paulo recomenda que eles se regozijem e repete o lema da epístola, que permitam que sua cortesia (ou «doce racionalidade» conforme Matthew Arnold) seja conhecida por todos . Não se aflijam com nada; ao invés disso, orem a respeito de tudo; repetindo constantemente a advertência de seu Mestre. Contem a Deus as necessidades de vocês, e não se esqueçam de agradecer-lhe suas respostas. Sua paz que ultrapassa todo o intelectualismo conservará a mente e o coração de vocês na calma e tranqüilidade, à medida que vocês confiam em Cristo Jesus.. «E agora, irmãos, ao terminar esta carta, quero dizer-lhes mais uma coisa. Firmem seus pensamentos naquilo que é verdadeiro, bom e direito. Pensem em coisas que sejam puras e agradáveis e detenham-se nas coisas puras e belas que há em outras pessoas. Pensem em todas as coisas pelas quais vocês possam louvar a Deus e alegrar-se com elas». (Filip. 4.8). Foi dito que este é o único verso no Novo Testamento que nos recomenda aquilo que hoje chamamos de «valores». Seguramente, em seu sentido mais profundo, não se trata apenas disso; o amor de Deus inclui todos os valores. O verso se enquadra como uma conclusão apropriada às exortações de Paulo. Ele demole a barreira entre lei e graça; e refuta a idéia de que regras e preceitos específicos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    (1) Filipos se orgulhava de ser «a principal cidade de seu distrito, uma colônia romana», veja Atos 16.12.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;104&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;possam definir o conjunto integral de nossas obrigações; ele enfatiza que todo o mundo visível é instrumento para o exercício desse amor; e que este amor é universalmente apropriado. É altamente significante que nessa que muito bem pode ser sua última Epístola ele faça uma derradeira exortação aos valores universais e que independente da raça ou coloração religiosa ele os recomende para o pensamento e a prática da Igreja.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim, o caminho do amor completa seu círculo. Aqueles a quem tal amor é revelado, na medida em que vêem, experimentam e encarnam este amor, Cristo vê neles, a despeito da evidência do sofrimento e do pecado, o próprio universo. E nós - os pagãos que embora impressionados com o mundo que nos rodeia não ousamos aclamar o amor de Deus ou confessar a Cristo como sua imagem - pelo menos podemos começar a fazer isso de uma outra forma, e como diz Meredith&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    Diante do coração daquele que fez a rosa&lt;br /&gt;    Deveria eu, estremecido, cair?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim, a idéia da perfeição e do valor patente, pode nos encorajar a descobrir esses valores harmonizados no mundo, inteligível e explanado em Cristo - ou seja, todo esse nosso mundo é uma preparação. Deveríamos meditar continuadamente em todos os valores descobertos no mundo de nossa experiência, que correspondem à visão da significação cósmica de Cristo, o tema de Colossenses e de Efésios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este é o ponto onde o crescimento de sua perspicácia desde a carta aos Romanos revela-se em toda sua plenitude. Ele enfrenta o fato da redenção do pecado vir pela graça, e reafirma a libertação da fraqueza da vontade e da instabilidade da conduta na êxtase da liberdade do Espírito. Mas ele não tinha ainda revelado como esta experiência produziria novos padrões de valor, nova percepção na distinção entre bem e mal e uma nova e constrangedora obrigação ética. Agora, trabalhando em cima de nossa necessidade&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;105&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;de entrar na mente de Cristo conforme revelado em Jesus e perpetuado na comunidade do seu Corpo, ele responde à questão sobre afonte, o caráter e o conteúdo da ética Cristã. Não se trata aqui de fornecer um novo decálogo, ou oferecer preceitos dogmáticos ou algum sistema de moral cerimonial. Mas isso também não significa a perda de nossa «livre» escolha, em favor do antinomianismo e de especulações em torno de nossas idéias individuais. O amor a Deus e ao próximo, a solidariedade para com a comunidade santificada, a vida «em Cristo», todas essas coisas nos dão o critério perfeito para o coração, a mente e a vontade. Nós «percebemos e sabemos exatamente o que fazer».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No que tange a Filipos, a preocupação do Apóstolo era estabelecer esta solidariedade na comunidade, superar o individualismo e assim prevenir as facções, o ponto fraco de todas as sociedades gregas. Stasis, as perpétuas erupções sectárias e discussões políticas, foram, como perceberam seus historiadores, a ruína do mundo heleno. Eles nunca produziram uma sociedade maior ou mais estável que superasse os conceitos de sua cidade-estado; e mesmo assim - o melhor que conseguiram e por pouco tempo foi a Atenas do tempo de Péricles, por seu brilho e esplendor - nunca tiveram qualquer segurança de sobrevivência ou mesmo qualquer liberdade real em suas discussões internas. Paulo tinha visto em Corinto em suas imediações o crescimento de partidos rivais - «eu sou de Paulo», «eu de Apolo», «eu de Pedro» (1 Cor. 1.12) - e na realidade, a igreja daquela cidade, apesar de todos seus méritos, nunca se tornou um grande centro. Esse hábito grego pelo argumento, controvérsia e cisma revelara-se de uma forma bem clara na Macedônia, mas foi superado pelo apelo à abnegação de Cristo e pela prática do afeto e fraterna lealdade. Uma evidência de sua profunda convicção em torno da edificação do corpo de Cristo é a importância que ele dá ao discipulado, ele realmente dedicou sua própria vida a isso, tanto que ele gasta esta carta, a mais jovial de todas, a este propósito. Ele se esforça ao máximo procurando constranger seus leitores a reconhecer e a experimentar a plenitude de Cristo nas relações pessoais deles, e a amar tão inclusivamente&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;106&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;que a presença dEle possa se materializar em cada um deles e em suas relações mútuas. Cisma no corpo significa desastre, morte certa para todos os membros infetados por ela: pela destruição do amor o egoísmo desperta, a visão fica turva, e a força da verdadeira sabedoria é corrompida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A carta aos Colossenses, obviamente semilar em estilo, ocasião, e com abertura saudação quase idêntica, também está preocupada com a plenitude de Cristo, mas em uma conexão diferente. Foi chamada de carta aos intelectuais; e seu objetivo é afirmar a suficiência de Cristo a uma comunidade profundamente interessada em especulações gnósticas e teosóficas. Através dela somos introduzidos a algo parecido com uma espécie de politeismo místico característico da Índia e presente na maioria das religiões orientais, e que exerceu um grande papel no mundo contemporâneo da cultura oriental e judaica, além de figurar em grande parte do desenvolvimento da Igreja primitiva. O gnosticismo, como chegou a ser chamado em sua forma cristã, foi prevalecente e poderoso entre as igrejas mediterrâneas desde o sul da França até a Alexandria: produziu muitos excelentes professores e uma variedade de seitas diferentes, absorveu a atenção e a hostilidade de muitos dos pais primitivos, desde Irenaeus até Epifanius. Os mais sábios dos teólogos ortodoxos, Clemente de Alexandria e Origen, perceberam que por trás de todas as «genealogias» e jargões houveram significativos e valorosos elementos - como indubitavelmente descobrimos quando o cristianismo tornou-se novamente nativo no mundo Oriental. O rígido dogmatismo, insaciável em sua violência e superficialidade: expeliram os gnosticos sem mesmo se dar ao luxo de compreendê-los. Por conseguinte, de lá para cá, a perspectiva e as características gerais do esoterismo nunca deixaram de dar o ar de sua graça. Eles adotam formatos extensamente diferentes e costituem uma multidão de instituições, atraindo em geral pessoas sensitivas, paranormais, e&lt;br /&gt;107&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;freqüentemente gente de temperamento religioso - mas também, introvertidos, exibicionistas e charlatões. Nós não sabemos nada, e a carta nos fala muito pouco a respeito, sobre as convicções particulares dos Colossenses, exceto que eles combinaram elaboradas classificações no plano do mundo invisível - «tronos, domínios, governos e poderes» (Col. 1.16) - com rígida observância de regras com respeito à comida, bebida, festivais, luas novas e sabbaths, e coisas limpas e sujas. Era claramente um tipo de ecletismo muito parecido com o que vemos em nossos dias no mundo dos horóscopos e astrologia, quiromancia e espiritualismo, ioga e reencarnação, tranqüilizantes e mescalina. Separados ou combinados, cada um deles tem seus próprios defensores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para os discípulos de Colossos, os quais nunca tinha visitado pessoalmente, Paulo proclama o Cristo em termos de «mistério» de Deus ou «auto-revelação»,(1) e como gostava de fazer, de «plenitude», totalidade (2) ou do divino. Ele tinha, como as cartas dele abundantemente provam, o hábito de apanhar e empregar termos próprios da localidade e do interêsse de seus leitores. Acho desnecessário gastarmos tempo em profundas preocupações procurando definir o preciso significado técnico de cada uma dessas palavras, e tendo em vista nossos propósitos, fazer isso se reveste como algo de pequena importância. Mas o significado de sua principal posição e a relevância dela para nossos dias é óbvia. Estes teósofos poderiam prontamente reservar um lugar para Jesus como um Mahatma ou Senhor da vida interior ao lado de outros membros de sua extensa hierarquia. Naqueles dias quando as igrejas não tinham evoluído, nem formulado um credo, nem enfrentado as longas controvérsias doutrinais dos séculos IV e V, o fato deles dedicar um lugar elevado a Cristo em seu sistema gnóstico, ou mesmo no panteão Greco-Romano, talvez poderia parecer satisfatório&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    (1) A maneira como essa palavra é usada nesta Epístola parece não ter nenhuma conecção com um mistério-religioso específico.&lt;br /&gt;    (2) Pleroma em si mesmo é um termo técnico do gnosticismo: conseqüentemente o uso que Paulo faz desse termo aqui é necessariamente mais específico do que em Efésios ou outras cartas. Cf. C. L. Mitton, Ephesians, pp. 94-7.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;108&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;enquanto uma etapa de um processo. Mas aceitar isto em nossos dias significa não apenas quebrar com o monoteísmo judaico mas também prejudicar a singularidade de Cristo. O fato de negar - e nisso Paulo foi radical - a diferença básica entre Deus como Pai e os «muitos deuses e muitos senhores» do paganismo, ou entre a lei e a graça, destrói inteiramente o conceito da integridade do corpo de Cristo e o «esquema de salvação» delineado na Epístola aos Romanos. Tanto que, na seqüência, dando continuidade ao tema do significado cósmico e universal de Cristo ele adota uma linguagem para descrever isso que implica em um avanço adicional em sua compreensão de Jesus, abrindo caminho para a exposição na Epístola aos Efésios a respeito da compensação e consumação de todo processo criativo.A exposição de Paulo vai no sentido da unidade de todo nosso universo de experiências, na medida em que esta unidade se revela a nós em Cristo, encontramos uma base para a integração consciente entre nossa perspectiva e nosso modo de vida, proporcionando à cristandade uma visão maior na escala e no tamanho da fé.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A abertura da Epístola, além do registro da aceitação das boas novas anunciada por Epafras, companheiro de Paulo, não contém nada peculiar a Colossos a não ser uma referencia acerca das coisas que ainda estão por vir. Se Filipenses é a carta da alegria na mente de Cristo, esta é a carta da busca pelo conhecimento e que Paulo procura prover, «a mesma Boa Nova que chegou, até vocês está saindo pelo mundo todo, e transformando vidas em toda parte, tal como mudou a de vocês, naquele primeiro dia mesmo, quando vocês a ouviram e compreenderam a grande bondade de Deus para com os pecadores. Epafras, nosso mui amado companheiro de trabalho, foi quem lhes levou esta Boa Nova. Ele é um escravo de Jesus Cristo, e está aqui em lugar de vocês para nos ajudar. Foi ele quem nos contou acerca do grande amor pelos outros que o Espírito Santo lhes deu. Assim, desde que ouvimos falar a respeito de vocês pela primeira vez, temos estado em oração e pedindo a Deus que os ajude a compreender o que Ele deseja que vocês façam, e que os torne sábios nas coisas espirituais, a fim de que a maneira de vocês viverem sempre agrade ao Senhor e O glorifique, para que vocês sempre façam pelos outros coisas boas e agradáveis, aprendendo em todo o tempo a conhecer a Deus cada vez melhor. » (Col. 1.6-10). A abertura da Epístola, além do registro da aceitação das boas novas anunciada por Epafras, companheiro de Paulo, não contém nada peculiar a Colossos a não ser uma referencia acerca das coisas que ainda estão por vir. Se Filipenses é a carta da alegria na mente de Cristo, esta é a carta da busca pelo conhecimento e que Paulo procura prover, (Col. 1.6; 9-10). Ele une avanço mental com avanço moral e insiste que as especulações estão relacionadas não apenas com problemas intelectuais mas também com relacionamentos pessoais e o desenvolvimento ético deles. Foi na luz de Deus que nós, os prisioneiros das trevas, encontramos nossa liberdade no reino do Filho do amor que é «a semelhança perfeita do Deus&lt;br /&gt;109&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;invisível. Ele já existia antes de Deus criar qualquer coisaa, e, de fato, 16 o próprio Cristo é o Criador que fez tudo no céu e na terra, as coisas que podemos ver e as que não podemos; o mundo espiritual com seus reis e reinos, seus governantes e suas autoridades: todos foram feitos por Cristo para seu próprio proveito e glória. Ele existia antes que tudo o mais começasse e é o seu poder que sustém todas as coisas em conjunto. Ele é a Cabeça do corpo formado pelo Seu povo - isto é, sua igreja - começado por Ele; e Ele é o Líder de todos os que se levantam dentre os mortos, de modo que Ele é primeiro em tudo; porque Deus queria que tudo dEle mesmo estivesse em seu Filho. Foi por meio daquilo que seu Filho fez que Deus abriu um caminho para que tudo viesse a Ele, todas as coisas no céu e na terra, pois a morte de Cristo na cruz trouxe para todos a paz com Deus através de seu sangue. » (Col. 1. 1520).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi pela oração que eles puderam permanecer firmes no evangelho universal do qual Paulo é um ministro, ele descreve suas próprias aflições como um complemento às aflições de Cristo «ajudando a completar o resto dos sofrimentos de Cristo pelo seu corpo, a igreja» (Col. 1.24). «Até que finalmente todos creiamos do mesmo modo quanto à nossa salvação e ao nosso Salvador, o Filho de Deus, e todos nos tornemos amadurecidos no Senhor. Sim crescermos a ponto de que Cristo ocupe completamente todo o nosso ser» (Ef. 4.13).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aceitar a Cristo como Salvador significa uma completa dedicação da vida. Viemos dele, Ele é nossa base, nele somos edificados e sustentados pela fé. «Não permitam que outros lhes estraguem a fé e a alegria com suas filosofias, suas soluções erradas e superficiais baseadas em idéias e pensamentos humanos, em lugar daquilo que Cristo disse. Porque em Cristo existe tudo de Deus em um corpo humano: portanto, quando vocês têm Cristo, têm tudo e vocês têm a plenitude de Deus por meio da sua união com Cristo. Ele é o mais alto soberano, com autoridade sobre qualquer outro poder. Quando vocês foram a Cristo, Ele os libertou dos seus maus desejos, não por meio de uma operação física de circuncisão mas de uma operação espiritual: o batismo das suas almas. No batismo vocês vêem como sua velha natureza pecaminosa morreu com Ele e foi enterrada com Ele; e então vocês ressurgiram da morte com Ele para uma nova vida, porque confiaram na Palavra do poderoso Deus que levantou Cristo dentre os mortos. Vocês estavam mortos em pecados e seus desejos pecaminosos ainda não tinham sido afastados. Então Ele deu-lhes participação na própria vida de Cristo, porque lhes perdoou todos os pecados, e apagou as acusações confirmadas que havia contra vocês, a lista dos seus mandamentos a que vocês não tinham obedecido. Tomando esta lista de pecados, Ele a destruiu, pregando-a na cruz de Cristo. Deste modo Deus&lt;br /&gt;110&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;tirou o poder de Satanás de acusar vocês de pecado e exibiu publicamente ao mundo inteiro o triunfo de Cristo na cruz, onde foram tirados todos os pecados de vocês» (Col. 2.8-15).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim Paulo reprovou-lhes suas tendências em observâncias e superstições. Eles chegaram a ser professos adoradores de anjos: quebrando o conceito de membros do Corpo de Cristo «e assim nos tornaremos cada vez mais, e de todas as maneiras, semelhantes a Cristo, que é o Cabeça do seu corpo, a igreja. Sob sua direção o corpo inteiro se ajusta perfeitamente, e cada um dos membros em sua maneira particular auxilia os outros membros, de tal modo que todo o corpo saudável, está em crescimento e chio de amor» (Ef. 4.16). A união com Cristo os salvará da dogmatização em cima de minuciosos rituais, fantasias, falsa humildade e desprezo do corpo - usar o corpo de uma maneira indevida, como auto-flagelação, por exemplo. «A verdadeira vida de vocês está no céu com Cristo e com Deus. E quando Cristo, que é a vossa vida verdadeira, vier de novo, então vocês brilharão com Ele e participarão de todas as suas glórias» (Col. 3.3-4). Aqui está a última ruína da escatologia, e claramente identifica a vinda de Cristo com a manifestação do Corpo dele. Nossa união não é um fixo e final Segundo Advento, mas é aqui a agora, na medida em que e quando sua presença é concretizada na terra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele conclui detalhando qualidades morais e de conduta que envolve a união com Cristo. Primeiro em seu lado negativo, as paixões corporais, indulgência e ganância que são evidências de idolatria, «provocam a ira de Deus», e constituem uma rebelião contra ele. Tudo isso é acompanhado de ira, inveja, malícia, blasfêmia e conversa suja. A verdade tem que controlar todas nossas relações. A casca do velho homem e seus caminhos já são coisa do passado; o novo consiste no completo conhecimento que reflete o Criador; e nele não há grego ou judeu, circunciso ou incircunciso, bárbaro ou civilizado, escravo ou livre; barreiras raciais, rituais, lingüísticas e sociais são superadas; Cristo é tudo em todos. Compaixão, clemência, humildade, bondade, fortaleza, paciência, generosidade, gratidão, perdão como o perdão de Deus, e acima de tudo amor que ele descreve aqui como o cimento da maturidade e o adubo da plenitude do crescimento, amor disponível àqueles que estão na paz de Cristo. A palavra de Cristo deveria morar abundantemente dentro de cada um e com&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;111&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;toda sabedoria que ela traz consigo: ensinando, aprendendo e usando salmos, hinos e melodias espirituais; e cantando a Deus com seus corações. «E tudo quanto fizerem ou disserem, seja como se vocês fossem representantes do Senhor Jesus, e vão com Ele à presença de Deus o Pai para dar-Lhe graças» (Col. 3.17).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de algumas sentenças curtas instruindo esposas e maridos, crianças e pais, escravos (a mais cumprida) e mestres; ele pede que orem também por ele, que se encontra encarcerado; elogia Tíquico; procede várias saudações e lembranças, e fecha com sua bênção. Não é injusto dizer que estamos aqui mais uma vez diante daquela falta de imaginação criativa que impossibilita Paulo de ilustrar suas exposições através de exemplos claros e naturais, e isso acaba dando um tom frouxo, enfadonho, maçante e formal em suas exortações relacionadas a obrigações sociais mútuas. Jesus em suas parábolas mais longas, e não menos complicadas como as do mordomo injusto ou dos trabalhadores do vinhedo, transporta-nos vividamente para o palco onde ocorre a cena, incitando nosso interesse e despertando nossa simpatia; Paulo quando se refere a matrimônio ou escravidão fala de uma maneira tão óbvia e convencional que parece discrepar em sua ênfase ao amor, à paciência e ao compartilhamento de fardos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para nós é realmente uma coisa notável que, pelo menos com respeito a escravidão, o Apóstolo mostre tal frieza. Da mesma forma que alguns versos em 1 Coríntios, as observações feitas aqui (e reafirmadas em Efésios) mostram o chocante panorama dos escravos no mundo romano, o tratamento, e especialmente os impedimentos colocados na vida pessoal, moral e religiosa daquelas pessoas. Não há dúvida que os judeus ricos que observavam os regulamentos acerca do tratamento de escravos no Velho Testamento já estivessem familiarizados com a ergástula da ordem civil, a tirania, a lascívia e a crueldade dos donos de escravos, mas é duro aceitar que um homem tão rígido em&lt;br /&gt;112&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;sua ética individual e tão afetuoso em suas relações humanas fosse tão indiferente diante do sistema social e das iniqüidades sociais de seu tempo. Há alguns poucos pontos em que o cristão moderno percebe mais obviamente a mudança tanto na consciência social como em nossa atitude para a importância e os efeitos do mal social. Apenas quando lemos obras cheias de sabedoria a respeito desse assunto como The Two Moralties, (1) de Lord Lindsay, ou lembramos de John Newton, o autor de «How sweet the name of Jesus sounds», na condição de um capitão de navio ativamente empenhado no tráfico de escravos, é que podemos apreciar o esforço de Paulo no caráter e na primazia do amor Cristão, e sua insistência de que viver em Cristo é viver em um reino de verdadeira família e para todos, o que provou ser no final das contas, pelo menos neste sentido, triunfante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desta vida-em-familia, Paulo, apesar de tudo o que foi dito sobre seu puritanismo e misoginia, estabelece claramente o matrimônio como sua expressão e exemplo mais elevado: «que os maridos amem suas esposas como Cristo amou a Igreja» (Ef. 5.25). Como vimos, embora considere a degradação das relações sexuais como conseqüência número um da apostasia humana: pois degradar a religião é degradar a paternidade (Rom. 1.20-25). Ele é um dos primeiros a reconhecer direitos amorosos iguais para ambos os sexos (1 Cor. 7.3,4). Não há nele nenhuma sugestão de que o amor entre os casados seja lascivo ou licencioso, e nenhuma evidência do contraste entre eros e agape que foram afirmados por Dr. Nygren e que constituíram a falha fatal na filosofia sexual de D. H. Lawrence. Nós não devemos aceitar que a severidade das advertências de Paulo contra promiscuidade, prostituição, perversões ou sua aceitação em alguma medida da subordinação da mulher turve o salutar contexto geral de sua atitude ou a sinceridade de seu idealismo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esta carta é de alto valor na medida em que vindica e aumenta o clamor da universalidade e da suficiência de Cristo, e prepara para uma apresentação mais completa a respeito disso em sua&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    (1) pp. 63-75.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;113&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;carta aos Efésios - um tratado circular dirigido a nenhum local ou situação específica. Mas com uma abordagem a algumas especulações como aquelas que surgiram em Colossos, assim, suas abordagens sobre o gnosticismo foram necessariamente influenciadas pela educação estritamente judia do Apóstolo e pela sua preferência temperamental à definição lógica. Ele sabia interpretar a escritura hebréia: ele teve algum contato com o pensamento grego e estóico. Ele não tinha evidentemente nenhum conhecimento em primeira mão sobre esoterismo, e nenhuma avaliação natural do tipo de experiência que expressa. Assim ele não pode entrar profundamente nas razões que tornaram isto tão atraente para tantos indivíduos e raças: ele não pode simpatizar com o dom psíquico encontrado neste tipo de misticismo ao ponto de considerá-lo um método natural e nunca impróprio de descrever e analisar a experiência humana. Quase todos nós do mundo Ocidental, parte por herança ou educação, parte pela ignorância de Paulo: não sabemos o bastante para distinguir o perito do charlatão, e se tocamos nesse assunto somos logo evitados ou repugnados por isto. Geralmente rechaçamos o tema como um todo, como ele fez, considerando aquilo como nada mais que o produto de uma imaginação fora do normal ou uma revivificação de superstições desgastadas e na pior das hipóteses como uma exploração deliberada de credulidade humana por gente mercenária ou exibicionista. Há uma necessidade urgente, não apenas para pesquisa psíquica no sentido mais restrito, mas também de reunir de seus pensadores mas representativos, tanto do Oriente como do Ocidente, como foi feito no Colóquio Oriente-Ocidente em Bruxelas na época da Exibição. Mas este lado do problema não será completamente compreendido até que os cristãos adotem para com o esotérico uma atitude muito diferente da de Paulo. Uma vez que a universalidade de cristo é afirmada, isso significa que tanto a filosofia hindu como a budista merecem estudo e uma interpretação simpática. Eles também pertencem ao mundo de Deus, e seguramente podem nos ajudar a apreciá-lo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;===&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;VIII -   A PLENITUDE DE CRISTO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A última da série de cartas universalmente descritas como paulinas, independente de ser ou não realmente de Paulo, é um tratado conhecido como «aos Efésios». Esta carta consiste de uma revisão de suas exposições, e em alguns aspectos de uma forma mais profunda, tanto no completo significado da vida em Cristo como na qualidade ética das relações conseqüentes. É considerada por alguns estudiosos como uma recapitulação e um sumário dos ensinamento dos apóstolos; e por outros, talvez com mais justiça, como sua consumação. É obviamente mais íntima que Colossenses, suas seções finais são freqüentemente quase idênticas: mas em sua teologia envolve a extensão e a generalização do conjunto de pensamentos contidos nas duas epístolas examinadas no capítulo anterior. Contém uma rapsódia tão esplêndida quanto a de 1 Coríntios 13. Provavelmente nenhuma passagem de Bíblia descreva a comunidade ideal de uma forma tão perfeita.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este derradeiro escrito de Paulo tem duas implicações - que a Epístola para os hebreus é de um autor não mencionado que difere amplamente dele em temperamento e teologia, familiar com grego em vez do pensamento rabínico, e lidando com os problemas em circunstancias e de uma forma oposta a do Apóstolo; e que as «Epístolas Pastorais» (1 e 2 Timóteo e Tito), embora muito mais íntimas ao seu ambiente e contendo muitas frases e reflexões paulinas, são fruto do trabalho de um discípulo cujo interesse é manter a tradição e centralizar a administração. É muito difícil de ajustar as insinuações destas três Epístolas Pastorais ao que conhecemos da história subseqüente do Apóstolo, e é mais difícil ainda acreditar que ele tenha perdido toda a amplitude de sua visão, sua confiança no futuro, seu temperamento e paixão,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;116&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;de uma forma tão completa. Para este escritor a Igreja tornou-se uma instituição com seus dirigentes oficiais, suas convenções, seu paroquialismo e seu conservadorismo. Qualquer estimativa sobre a participação de Paulo na produção destes documentos [1 e 2 Timóteo e Tito] não pode ser usada com confiança, nem eles proporcionam qualquer grande contribuição.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, como mencionamos anteriormente, a autencidade de Efésios não é universalmente aceita, em termos gerais, mesmo entre os estudiosos ortodoxos; e uma interessante hipótese colocada de uma forma bem detalhada pelo Dr. E. J. Goodspeed fortalece ainda mais as dúvidas deles provendo uma exposição definida de seu caráter e das circunstâncias de sua composição. (1) Ele a associa com uma certa coleção e publicação das Cartas Paulinas, no final do primeiro século. Goodspeed considera a carta aos Efésios uma introdução ao volume dessa coleção recolhida por um «paulino», particularmente familiarizado com os colossenses, mas fazendo menção de nove outras cartas e de Lucas-Atos. Tal teoria, ampliada por outros estudiosos, chama atenção para a importância de Efésios enquanto introdução e recapitulação dos ensinos paulinos. Mas corre o perigo de representar a epístola enquanto fragmentos de palavras e frases selecionadas da série de cartas e carentes em originalidade ou novidade. Mas para aqueles que se preocupam com as diferenças de estilo entre Efésios e as outras cartas genuínas, há um real problema a ser enfrentado. Goodspeed exagera em seus argumentos de que Efésios é uma cópia deliberada, e assume um pano de fundo literário, com suas bibliografias e bibliotecas, para o Novo Testamento, que considera mais apropriado para os estudiosos e modernos pesquisadores do que os cristãos do primeiro século. Ele também recusa admitir o crescimento do pensamento de Paulo na epístola, mesmo mostrando corretamente que certas palavras usadas em Efésios revelam um significado ligeiramente mais desenvolvido do que em qualquer outro lugar - mas um desenvolvimento completamente consistente com sua autenticidade. Ele ignora a grandeza e originalidade dos Capítulos 3 e 4; e quase nem liga&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    1 E. J. Goodspeed, The Meaning of Ephesians (University of Chicago Press).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;117&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;para a evidência crucial de Ef. 3.1-4, onde Paulo explicitamente afirma ter previamente escrito a carta aos Colossenses, o que está de acordo com Col. 4.16, assumindo que seus leitores na Laodicéia já a receberam, além de citar as palavras «economia» (NT) e «mistério» de Col. 1.25,26. Admitida como uma carta circular, como um tratado como Romanos, ou que Marcion estava certo chamando-a de «aos Laodiceanos», podemos seguramente apontar essa doutas e engenhosas hipóteses como não comprovadas. O que mais podemos dizer? Como temos visto, os estudiosos que defendem a originalidade dessa carta fazem isso levando em conta sua marcante diferença de estilo, e particularmente o fato dela conter na maior parte de seu conteúdo questões similares, tanto em significado como muitas vezes em vocabulário, às cartas escritas anteriormente. O escritor que de fato produziu o manuscrito original teria sido Tertius que escreveu para aos romanos (Rom. 16.22)? Teria sido a mesma pessoa usada para escrever Filipenses e Colossenses? A resposta para ambas essas questões é geralmente não. Orações muito longas unidas em uma sucessão de frases conectadas são contrárias a qualquer coisa que o Apóstolo tenha enviado para outros lugares. Este escritor amarra longas seções em parágrafos irrompíveis de discurso que são em outro lugar informados, resumidos e separados, mas freqüentemente repetidos, em orações. A meu ver, isso não torna a leitura mais fácil de compreender: mas dá suavidade de ritmo, distinto da brevidade das anteriores.Com relação a isso, um estudioso que produz um sumário poderia agir assim, há algumas frases notavelmente novas e pelo menos duas passagens extensas que são originais e criativas, mas em completa harmonia com as tendências do pensamento desenvolvidas pelo Apóstolo. Um tratado em vez de uma carta enviado primeiro à Laodicéia, escrito logo após Colossenses e com uma referência definida para isto, (1) mas ditado a um escriba diferente e em um humor mais tranqüilo - talvez seja esse o caso que melhor descreve o que aconteceu. Seu tema,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    1 Ef. 3.3, referindo-se a Col. 1.25-6: cf. C. Gore, Ephesians, pp. 11-0-1&lt;br /&gt;    (NT) Em inglês «economy», no sentido de «to be economical» ou ocultar algo deliberadamente do conhecimento público. «Deus me enviou [...] para revelar seu plano secreto a vocês, os gentios. Porque através de séculos e geraçõs passadas Ele guardou este segredo, porém agora, finalmente, foi do seu agrado revelá-lo àqueles que O amam e vem para Ele; e as riquezas e a glória do seu plano são também para vocês, os gentios. E este é o segredo: que Cristo no coração de vocês é a sua única esperança de glória.» Col. 1 25-27, ênfase minha)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;118&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;como o tema de suas cartas anteriores, é a unidade de estar em Cristo, a unidade da natureza e da conduta em meio a uma diversidade de funcões e de preparo que constitui a comunidade santificada do Corpo e a consumação de sua natureza e propósito. É claramente uma carta circular, não uma carta endereçada a Éfeso onde o Apóstolo viveu e trabalhou durante tanto tempo: tanto que ela não contém nenhuma saudação, nem nomes exceto o de Títico que presumivelmente foi o encarregado de transportá-la, nem referências locais ou instruções específicas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Psicologicamente soa como o trabalho de um homem em idade avançada: seu autor olha para um passado longíquo, longe das paixões e perigos do passado, repete as frases que encarnam os lampejos mais elevados de suas experiências, e tece suas recordações no contexto de uma vida plena. Há um senso de perfeição na mensagem resultante; a penitência por ter perseguido a Igreja, a pungência de sua lamentação para com Israel, a tensão das suas lutas contra o mal e seus assaltos que, embora ainda evidentes, já não quebram a calma do seu espírito. Se não atingiu ainda, pelo menos alcançou a visão de sua meta: ele pode ver sua vida de trabalho como um todo e pode recapitular e consumá-la proclamando a universalidade e a unicidade em Cristo na ordem cósmica como um todo. Ele é uma pessoa que está agora entrando dentro dessa ordem, na paz de Deus, e convocação seus discípulos a agir conforme essa paz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de uma saudação simples a Epístola começa com um parágrafo de vinte e quatro linhas impressas em grego, sem um único ponto final, exigindo uma cuidadosa leitura. A primeira seção é um ato de adoração que parte para o louvor a Deus em três títulos, cada qual introduzido por um particípio. «Deus, o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos abençoou com todas as bênçãos do céu porque nós pertencemos a Cristo! Muito antes de criar o mundo, Deus nos escolheu para Lhe pertencermos, por meio do que Cristo faria por nós; naquela época Ele decidiu fazer-nos santos aos seus olhos, sem uma única falta - a nós, que nos encontramos diante dele cobertos com o seu amor. Seu plano imutável sempre foi adotar-nos em sua própria família, pelo envio de Jesus Cristo para morrer por nós. E Ele fez isto porque quis! [...] Deus nos revelou sua razão secreta para enviar Cristo, um plano que Ele em misericórdia traçou há muito tempo; e este era o seu propósito: quando o tempo for propicio, Ele nos reunirá a todos, onde&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;119&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;quer que estejamos - no céu ou na terra - para estarmos com Ele, em Cristo, para sempre» (cf. Ef. 1.3-10). A novidade aqui está na ênfase de que o propósito de Deus já estava determinado, um tema tocado em Romanos 8 mas que é aqui relacionado ao conjunto total do movimento da vontade de Deus. Nossa vocação é uma expressão do plano divino para o mundo; não em termos de predestinação no sentido da seleção individual, mas controlado pelo amor universal de Deus e isto necessariamente envolve nossa liberdade como filhos e não como escravos ou robôs. Isto não implica, como declarado aqui, que outros não sejam selecionados, ou que sejam destinados à danação. Pelo contrário, Paulo vê todo o processo criativo como um propósito, não mais vedado ao conhecimento público, rumo a uma completa expansão do tempo e descobre sua unidade e sua plenitude em Cristo. Ele vai nessa direção, e define seu próprio estado em Cristo. «Além do mais, devido àquilo que Cristo fez, nós fomos oferecidos a Deus como dádivas nas quais Ele se compraz, pois como parte do plano soberano de Deus fomos escolhidos desde o princípio para sermos dEle, e todas as coisas estão acontecendo tal qual Ele decidiu desde o princípio do mundo. O propósito de Deus nisto era que louvássemos a Deus e déssemos glória a Ele por ter feito estas coisas poderosas por nós, que fomos os primeiros a confiar em Cristo» (Ef. 1.11-12). He concludes by direct reference to his readers. «E por causa daquilo que Cristo fez, todos vocês também, qua ouviram a Boa Nova sobre a maneira de ser salvos e confiaram em Cristo, foram marcados pelo Espírito Santo como pertencentes a Cristo, o qual há muito tempo havia sido prometido a todos nós, os cristãos. Sua presença em nosso íntimo é a garantia de que Deus realmente nos dará tudo quanto prometeu; e o sinal do Espírito dobre nós significa que Deus ná nos comprou e que Ele garante levar-nos para Si mesmo. Esta é justamente mais uma razão para que louvemos o nosso glorioso Deus» (Ef. 1.13-14).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isso é seguido por uma sentença quase que igualmente longa que expressa suas orações àqueles aos quais Deus dará por completo o espírito de sabedoria e da revelação de Seu conhecimento. «Oro para que seus corações sejam inundados de luz, a fim de que vocês possam ver alguma coisa do futuro que Ele os chamou a partilhar. Quero que vocês compreendam que Deus enriqueceu porque nós, que somos de Cristo fomos dados a Ele! Oro para que vocês comecem a compreender como é incrivelmente grande o seu poder para ajudar aqueles que crêem nele. Foi esse mesmo grandioso poder, que levantou a Cristo dentre os mortos e O fez sentar-Se no lugar de honra no céu, à mão direita de Deus, muitíssimo acima de qualquer outro rei, governador, ditador ou líder. Sim, sua honra é muito mais gloriosa do que a de qualquer um outro, seja neste mundo, seja no&lt;br /&gt;120&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;mundo futuro. E Deus colocou todas as coisas debaixo de seus pés e O fez o Cabeça da igreja que é o seu corpo, repleto dEle mesmo, que é o Autor e Doador de todas as coisas em toda parte» (Ef. 1.18-23). Então ele lembra que antigamente eles percorreram maus caminhos «seguindo a multidão e eram bem iguais a todos os outros, seguindo o poderoso príncipe do poder da presunção que está operando agora mesmo no coração daqueles que estão contra o Senhor» (Ef. 2.2), mas que agora foram salvos pela graça através da fé, não pelas suas próprias obras, mas pela obra de Deus gerada em Cristo e que resultou em boas obras que Ele preparou para nós.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eles sempre têm que se lembrar que foram gentios um dia, aparte de Cristo, alienados da comunidade de Israel, estranhos à convenção das boas notícias, sem esperança e sem Deus no mundo. A morte de Cristo mudou tudo os trouxe também para perto dele. Ele é nossa paz; ele fez isso por judeus e por pagãos, demoliu o muro que os dividia, e por essa incorporação anulou a inimizade entre eles, isso é, a lei dos mandamentos e dos decretos, para fazer dos dois um novo homem. «Agora vocês já não são mais estranhos a Deus e estrangeiros no céu, mas sim membros da própria família de Deus e cidadãos do país de Deus, e pertencem à casa de Deus como todos os outros cristãos. Vejam o alicerce sobre o qual vocês se encontram agora; os apóstolos e os profetas; e a pedra de esquina do edifício é o próprio Jesus Cristo! Nós, os que cremos, somos cuidadosamente colocados juntamente com Cristo como partes de um templo a Deus, belo e em constante crescimento. E vocês também são unidos a Ele, e uns aos outros, pelo Espírito, e formam parte desta morada de Deus» (Ef. 2.19-22).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A primeira metade do tratado fecha com uma nota pessoal moral. Paulo, o prisioneiro do Senhor, suplica-lhes perceber como ele acabou recebendo o segredo aberto de Cristo, previamente desconhecido mas agora descoberto aos seus apóstolos e profetas, de que realmente os gentios agora compartilham plenamente da herança, do corpo e da comunidade das boas notícias em Cristo. «Imaginem só! Embora eu nada tivesse feito para merecê-lo, e ainda que eu seja o cristão mais inútil que há, ainda assim fui escolhido para ter esta alegria especial de falar aos gentios da Alegre Nova dos tesouros infindáveis acessíveis a eles em Cristo» (Ef. 3. 8). Assim, a igreja levará ao conhecimento dos altos governos e poderes as «mais variadas colorações» da sabedoria de Deus. E então faz sua grande oração:&lt;br /&gt;121&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Quando penso na sabedoria e na extensão do seu plano, eu caio de joelhos e rogo ao Pai de toda a grande família de Deus - alguns deles lá em cima no céu e outros aqui embaixo na terra - que de seus recursos gloriosos e ilimitados Ele conceda a vocês o poderoso fortalecimento interior dado pelo seu Espírito Santo. E oro para que Cristo se sinta mais e mais à vontade em seus corações, morando em vocês à medida que confiarem nEle. Que vocês aprofundem suas raizes no solo do amor maravilhoso de Deus; e que possam ser capazes de sentir e compreender, como devem todos os filhos de Deus, quão extenso, quão largo, quão profundo e quão alto é, na realidade, o seu amor; e por si mesmos experimentar este amor, embora seja ele tão grande que vocês nunca verão o seu fim, nem o poderão conhecer ou compreender completamente. E desta maneira, finalmente, vocês ficarão repletos do próprio Deus» (Ef. 3.14-19). Assim ele celebra a universalidade e a majestade do divino, a eficácia da realidade de sua presença em nós, e por conseguinte a perfeição da comunidade que é nossa. «Agora, glória seja dada a Deus, que pelo seu grandioso poder operando em nós é capaz de fazer muito mais do que nós jamais ousaríamos pedir ou mesmo imaginar, infinitamente além de nossas mais sublimes orações, anseios, pensamentos ou esperanças. A Ele seja dada glória por todo o sempre, pelos séculos sem fim, por causa de Seu plano soberano de salvação para a igreja por meio de Jesus Cristo» (Ef. 3.20-21).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A segunda metade da Epístola é uma versão alongada e fortalecida do que foi dito em Cosossenses, na medida em que lida com os mesmos assuntos, na mesma ordem e freqüentemente com as mesmas palavras. Determina assim um esboço geral da expressão prática da fé universal e de como ela funciona nas simples circunstancias das vidas humanas e nas condições do primeiro século cristão. Não apela para detalhados comentários; não toca na grande questão da obediencia civil discutida em Romanos, nem acrescenta conselhos aqui ou ali. Mas é precedido por um dos mais familiares, e durante os últimos cem anos um dos mais amados temas de tudo quanto Paulo escreveu, a rapsódia na unidade e da integração no Corpo de Cristo, uma passagem que assume e completa o hino do amor cristão de 1 Coríntios, e é o pleno desenvolvimento da idéia da simbiose ou da materialização da vida esboçada naquela carta.&lt;br /&gt;122&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seguir em frente permanecendo merecedor de tal chamado significa não apenas paciência mútua, mas o esforço contínuo para a manutenção da unidade espiritual na sociedade da paz. Há apenas um corpo e um só espírito; unidos em sua vocação e em sua esperança: há apenas um senhor, uma fé, um batismo, um Deus e um Pai de todos que está acima de todos, por todos e em todos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A cada um de nós foi dado determinado dom e graça: cada um de nós tem sua função na amálgama dos santos em seu trabalho e em seu serviço, construir o corpo de Cristo, «até que finalmente todos creiamos do mesmo modo quanto à nossa salvação e ao nosso Salvador, o Filho de Deus, e todos nos tornemos amadurecidos no Senhor. Sim, crescermos a ponto de que Cristo ocupe completamente todo o nosso ser. Então não seremos mais como crianças, sempre mudando nossa idéia a respeito daquilo que cremos porque alguém nos disse uma coisa diferente, ou habilmente nos mentiu, e fez que a mentira soasse como verdade. Em vez disso, seguiremos com amor a verdade em todo tempo - falando com verdade, tratando com verdade, vivendo em verdade - e assim nos tornaremos cada vez mais, e de todas as maneiras, semelhantes a Cristo, que é o Cabeça do seu corpo, a igreja. Sob sua direção o corpo inteiro se ajusta perfeitamente, e cada um dos membros em sua maneira particular auxilia os outros membros, de tal modo que todo o corpo saudável, está em crescimento e cheio de amor» (Ef. 4.13-16).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Finalmente, nesta grande sentença, o princípio biológico da simbiose, um novo princípio ao nível da divina comunidade humana universal, encontra expressão. Para nós ele&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;123&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;significa co-pertinencia, ou cristificação, do gênero humano em uma única personalidade orgânica. Como os átomos na molécula, como as células na criatura viva, como os cromossomos no zig
