segunda-feira, 27 de agosto de 2012

ANTEMUNDO SEM FUTURO




O IMPROVÁVEL

Um dos melhores filmes sobre a luta de classes é uma sarcástica e incisiva tomada de dez minutos, feita em 10 de junho de 1968, fora do portão da Wonder Factory - uma fábrica de baterias - nos subúrbios de Paris. A maioria dos trabalhadores era formada por mulheres, mão-de-obra não-especializada, mal paga, menosprezada e que manuseava dejetos químicos. Eles iniciaram a luta em 13 de maio e ainda estavam em greve, quando foram filmados. As concessões que arrancaram do patrão foram muitas, em termos de melhores condições de trabalho, e poucas, considerada a energia posta na luta. No meio do grupo que discutia está uma mulher, com seus vinte anos, que, meio gritando, meio chorando, diz: "Não, não estou retornando. Eu nunca mais porei meus pés ali de novo! Vá lá e veja você mesmo o chiqueiro que é... aquela sujeira onde trabalhamos..."

Em 1996, um documentário entrevistou pessoas envolvidas naquela luta: homens e mulheres trabalhadores, capatazes, um datilógrafo trotskista, representantes de vendas, ativistas sindicais, o chefe do partido comunista local que tentou convencer a jovem mulher a retornar ao trabalho. Ela, porém, não deixou rastros. Poucos se lembravam bem dela. Ela deixou a fábrica logo depois dos eventos e ninguém sabe o que aconteceu com ela e nem seu nome inteiro, só o seu primeiro nome: Jocelyne.

Ficamos com uma questão decisiva não respondida, a questão posta por Jocelyne: na vida pacífica "normal", os hábitos e normas pesam sobre nós, e é quase inevitável se submeter. Mas quando milhões de grevistas constroem um força coletiva, tornam indefeso o Estado e sem valor o discurso da mídia, levam um país à beira da mudança total, e percebem que lhes é dado um aumento de salários que logo será devorado pela inflação... Percebem, também, para o que retornam, agora que sabem da miséria que os aguarda, nos próximos trinta anos?

Alguns responderão que Jocelyne e seus companheiros de trabalho não estavam esclarecidos, ou não encontraram a verdadeira luz, alguns afirmarão que os operários sofrem com a ausência de organização, outros que eles falham espontaneamente, enquanto outros especialistas dirão que maio de 68 foi levado à derrota porque a evolução capitalista não criou ainda os pré-requisitos da...

Os ensaios a seguir não solucionam o problema - isto não é um exercício de matemática ou adivinhação, em que teríamos de encontrar a resposta certa. Eles apenas levantam estas e outras questões.

De fato, um dos textos, A Luta de Classes e seus Aspectos mais Característicos nos Anos Atuais, foi primeiramente concebido não muito depois que a fábrica Wonder, como muitas outras, retornou ao trabalho. Leninismo e Ultra-esquerda vem de 1969. Capitalismo e Comunismo foi escrito em 1972, a pedido de vários operários, que o fizeram circular, na Renault.

WALL STREET VERSUS MURO DE BERLIM

Todos os três ensaios pretendem reafirmar o comunismo contra uma ideologia denominada "marxismo" - oficial, acadêmico ou esquerdista.

Por que nos dizemos comunistas? Quanto mais um termo significa, tanto mais ele é deturpado pela ideologia. Como "liberdade", "autonomia", "humano" e inúmeras outras, a palavra comunismo foi distorcida, virada ao avesso, e é hoje sinônimo de vida sob um Estado benevolente/ditatorial totalitário. Somente um despertar comunista - livre, autônomo, humano – devolverá significação a essas palavras.

Embora o senso comum proclame que o pensamento radical está superado, os últimos 25 anos oferecem uma prova ampla de sua relevância.

O QUE ESTÁ SUPERADO?

A luta de classes? Não é necessário ler 2000 páginas de Marx para entender que os despojados dos meios de produção têm lutado contra (e geralmente tem têm sido derrotados por) aqueles que os oprimem.

O valor, definido pelo tempo socialmente necessário para fabricar as mercadorias? O capitalismo é obcecado pela redução do tempo! Informática, auto-estradas e telefones celulares aumentam a velocidade da circulação. Trabalho, consumo e lazer aceleram cada ato da vida, num fluxo cada vez mais rápido. Paul Virilio assinala que a economia não produz somente objetos, mas velocidade e objetos, na medida que produzem velocidade. Embora não se reivindique marxista, Virilio descreve um mundo que se orgulha de reduzir o tempo necessário para produzir e consumir tudo, um mundo que se orienta para o tempo mínimo - pelo valor.

O lucro que age como a força dirigente deste mundo? Qualquer um que tenha perdido seu emprego, depois de dar 20 anos de sua vida a uma empresa, pode ver que o capital é valor acumulado buscando constantemente se incrementar e que destrói seja o que for que o impeça disso.

O decrescente número de operários de fábrica no ocidente, a queda do muro de Berlim, e o encolhimento dos grupos de extrema-esquerda significam a ruína final do comunismo somente para aqueles que retrataram os operários como o sal da terra, igualaram socialismo e economia planificada, e se entretiveram marchando na rua com uma bandeira do Vietnã do Norte.

O colapso dos assim chamados países socialistas mostrou como a economia domina. O ocidente e o oriente passaram, de um extremo ao outro, por crises de acumulação. A recuperação da lucratividade exigiu um novo mecanismo de produção em Cleveland, um novo regime político no Kremlin. O capitalismo de Estado não faliu porque as pessoas estavam fartas do totalitarismo, mas quando tornou-se incapaz de manter e dar substância à sua opressão.

A planificação econômica centralizada só funcionava para desenvolver indústrias de bens de capital. E o poder burocrático residiu num compromisso com os camponeses, por um lado, e com os operários, por outro (emprego vitalício e um mínimo de previdência social, em troca de submissão política: mesmo os expurgos periódicos contribuíram para a promoção social e assim para o apoio operário aos burocratas). Isso pode ter ido bem na Rússia, em 1930, mas não em 1980 - para não falar da Alemanha Ocidental ou Tchecoslováquia, em 1980. O capitalismo necessita de alguma forma de pólos de valor acumulado conflitantes, e portanto de uma certa quantidade de concorrência política e econômica.

A quebra da URSS não é a refutação definitiva de Marx, mas a verificação de Das Kapital. O politburo podia burlar seu mercado interno, mas não escapou das pressões do mercado mundial. É o mesmo mercado que força a demissão de milhares de proletários em Liverpool e põe abaixo os diques burocráticos que bloqueavam o fluxo de dinheiro e mercadorias em Moscou. O espectro ainda nos ronda, o Wall Street Journal escreveu em 1991, se referindo ao Manifesto de 1848: "A análise de Marx pode ser aplicada à surpreendente desintegração dos regimes comunistas, construídos sobre as fundações de seu pensamento mas infiel às suas prescrições."

1968 E TUDO AQUILO

No passado, houve revoltas operárias que enfrentaram abertamente tanto o Estado quanto o movimento operário institucionalizado. Muitas delas violentas, por exemplo, depois da primeira guerra mundial. Mas, por volta de 1970, a sublevação foi mais global e profunda. Ao contrário de 1871, 1917-21 ou 1936-37, nos países industrializados, o capital subordinou a totalidade da vida, transformando cada vez mais atos e relações cotidianas em mercadorias, unificando a sociedade sob sua dominação. A política, enquanto programas políticos opostos, caiu em desuso. Em 68, os sindicatos e partidos operários franceses foram capazes de sufocar uma greve de 3 semanas, feita por 4 a 5 milhões de trabalhadores, mas não podiam mais apresentar uma plataforma alternativa à dos partidos "burgueses". Quem atuou na greve geral não esperava mais de um possível governo de esquerda do que um pouquinho de bem-estar. Economia mista era a ordem do dia: com ênfase na intervenção do Estado quando a esquerda governasse; ou das forças do mercado, quando os votos favorecessem a direita.

As relações mercantis passaram a mediar as mais simples necessidades humanas. O sonho americano é de quem for rico o bastante para ele. Mas o carro atraente nunca é o que você comprou, mas o do comercial na TV. As mercadorias são sempre melhores nos cartazes. Enquanto o paraíso operário ao estilo russo deixou de ser válido, o céu do consumidor pareceu incansável - pela natureza. Dessa forma, nenhum futuro seria encontrado através da fábrica: nem o pesadelo do outro lado da cortina de ferro, nem o sonho deste lado. Como resultado, o local de trabalho já não é mais onde se começa a construir um mundo melhor. Embora o livro da Internacional Situacionista, A Sociedade do Espetáculo, tivesse poucos leitores naquele tempo, sua publicação (em 1967) foi precursora das críticas posteriores. É verdade que aquele período também foi de sindicalização para muitos trabalhadores oprimidos e mal pagos que finalmente a conseguiram no século XX. Só uma minoria da classe operária recusou a sociedade, rebeldes com uma causa, à margem da força de trabalho, especialmente o jovem. Mas a onda mundial de greve e rebelião permanece incompreensível sem sua característica subjacente: recusa massiva da fábrica e da vida oficial. "Quem quer trabalhar?", perguntava Newsweek em meados dos anos 70.

Até agora, quase todos os grevistas ocuparam o local de trabalho e não foram além. De todos os gestos de transgressão: a tomada dos serviços de gás e de transporte por grevistas poloneses em 1971, a auto-redução italiana, ocupações, greves "sociais" (motoristas de ônibus, pessoal de hospital e caixas de supermercado provendo transporte, tratamentos de saúde e alimentação gratuita, eletricitários cortando fornecimento para burocratas ou empresas, e milhares de outros exemplos) - dificilmente algum poderia ter sido um começo de comunização. A interrupção do trabalho e a violação da mercadoria não se fundiram num ataque ao trabalho como mercadoria, ou seja, ao trabalho assalariado como tal. Desde a prisão até a educação infantil, tudo esteve sob fogo, mas o assalto permaneceu fundamentalmente negativo.

A falta de iniciativas criadoras para transformar a sociedade permitiu a manutenção do capitalismo. As sublevações históricas não tiveram data de nascimento ou morte, mas certamente a da Fiat foi mais do que um símbolo - um marco. Durante anos, a empresa de Turim sofreu interrupções constantes das linhas de montagem, absenteísmo em massa e assembléias. Porém, a desordem organizada não superou positivamente a negação. Assim, os gestores foram capazes de atacar uma (razoavelmente grande) minoria, com a ajuda passiva de uma exausta maioria temerosa por seus empregos. Os radicais romperam com a lógica social, mas não a transformaram em algo novo. As ações violentas (mesmo armadas) gradualmente se desconectaram do chão de fábrica. Em 1980, a companhia demitiu 23.000 dos 140.000 operários. A greve parou a fábrica por 35 dias, no fim dos quais 40.000 operários da Fiat tomaram as ruas. Então os sindicatos assinaram um compromisso pelo qual os 23.000 receberam indenização do Estado. Depois, muitos milhares seriam demitidos pela reestruturação.

BLUES DOS PROLETÁRIOS TRISTES

Desde então, as derrotas da classe operária se deveram à sua posição defensiva contra um inimigo constantemente móvel. Apesar de firmemente entrincheirada nas minas e oficinas, a militância operária não resistiu à reestruturação. O trabalho é forte na medida em que é necessário ao capital. Ou, então, pode manter-se, durante algum tempo, com apoio do resto da comunidade operária, e permanecer como um contingente de força de trabalho não lucrativa. Nos anos 70 e 80, os operários tinham número e organização, mas foram derrotados porque a economia os privou de sua função, que é a sua arma social. Nada forçará o capital a empregar trabalho que não é útil para ele.

Ao mesmo tempo, os autônomos "comitês de ação", "grupos de base" etc., que eram os órgãos da atividade de base dentro e fora do local de trabalho, desapareceram. Quando novos organismos de coordenação surgiram, nas greves nas ferrovias (1986) e de enfermeiros (1988) na França, não sobreviveram e se dissolveram (muitos poucos doaram sua energia aos recentemente formados sindicatos de base e foram integrados pelo capital).

Durante anos, os proletários da linha de montagem se recusaram a ser tratados como robôs, enquanto uma minoria rejeitou o trabalho e a sociedade de consumo. O capital respondeu instalando robôs, suprimindo milhões de empregos e renovando, intensificando, adensando o que restou de trabalho não especializado. Ao mesmo tempo, um desejo generalizado de liberdade foi convertido em liberdade de comprar. Em 1960, quem imaginaria o cartão de crédito? Seu dinheiro - sua liberdade... Os famosos slogans de 68: Nunca trabalhe! Exija o impossível! foram ridicularizados quando as pessoas se viram forçadas a se agarrar a seus empregos e lhes foram ofertadas sempre mais abundantes e frustrantes mercadorias para comprar.

Muitos comparam a situação de hoje à dos anos 20 e 30, incluída a ameaça fascista. Mas, diferentemente das insurreições e da contra-revolução armada que ocorreram entre 1917 e a segunda guerra mundial, o atual refluxo proletário foi uma lenta e demorada absorção de grandes setores da classe operária no desemprego e no trabalho precário. Se há esperança, ela está com os proles, disse Winston (personagem de Orwell, no livro 1984). É como se muitos dos proles de 1994 tivessem surgido alguns anos antes dessa data, tomassem o mundo em suas mãos e se recusassem aceitá-lo ou mudá-lo. Décadas antes, seus avós se aprisionaram atrás dos portões de fábrica (Itália, 1920), muitas vezes com armas. Lutaram e morreram, mas as propriedades sempre terminaram com os patrões.

Não há como negar essa derrota. O capitalismo vence, mais fluído e imaterial do que há 25 anos, universalizando tudo de uma maneira abstrata, passiva, televisiva, negativa. Num comercial dos anos 60, o operário da fábrica de automóveis vê a foto de um novo carro e se maravilha: "Quem fez este modelo?" Em tempo parcial ou flexível, o operário da fábrica de automóveis do ano 2000 assistirá Crash na TV, enquanto seu filho joga um vídeo com programas baixados por ele mesmo. A humanidade nunca foi tão unida e dividida. Bilhões de pessoas vêem as mesmas imagens e têm vidas cada vez mais separadas. As mercadorias são produzidas em massa e indisponíveis. Em 1930, milhões de pessoas foram demitidas devido ao colapso econômico. Hoje, recebem pensões numa fase de crescimento, porque a recuperação da economia é capaz de produzir lucros sem eles. De fato, resolvida a crise de lucratividade dos anos 70, a maioria dos capitalistas está em melhor situação do que antes. O paradoxo é que a produtividade do trabalho cresceu tanto que o capital não necessita de empregar mais trabalho para se valorizar.

ALTAS ESPERANÇAS...

O movimento operário que existia em 1900 ou em 1936, não foi esmagado pela repressão fascista nem comprado por eletrodomésticos. Ele se destruiu como força de transformação porque tentou preservar a condição proletária, e não superá-la. Na melhor das hipóteses, conseguiu uma vida melhor para as massas fatigadas, na pior, foi lançado em duas guerras mundiais. Agora, tudo isso pertence ao passado. A popularidade dos filmes sobre cultura operária significa sua passagem da realidade para as lembranças e museus. Os stalinistas fizeram da social-democracia uma centro-esquerda. Tudo move para a direita e os trotskistas logo se chamariam de democratas radicais. O que outrora era um ambiente revolucionário é preenchido por fatalismo e nostalgia. Quanto a nós, não temos saudades de um tempo em que Brejnev era chamado de comunista e milhares de jovens pararam as ruas cantando A Internacional quando estavam de fato apoiando grupos que procuravam ser a esquerda da esquerda.

A proposta do velho movimento operário era tomar o poder sem transformar a sociedade, limitando-se a geri-la de outra maneira: pondo o preguiçoso à trabalhar, desenvolvendo a produção, introduzindo a democracia operária (no princípio). Somente para uma minúscula minoria, "anarquista" bem como "marxista", uma sociedade diferente significa a destruição do Estado, da mercadoria e do trabalho assalariado, embora ela raramente tenha definido isso como processo, mas como um programa a pôr em prática depois da tomada do poder, muitas vezes depois de um longuíssimo período de transição. Esses revolucionários não apreenderam o comunismo, como movimento social cuja ação mina os fundamentos do poder de classe e do Estado, e o potencial subversivo das relações fraternas, abertas e comunistas que reemergiram em cada profunda insurreição (Rússia, 1917-19; Catalunha, 1936-37...).

Não há mais necessidade de criar as precondições capitalistas do comunismo. O capitalismo está em toda parte, muito menos visível do que há 100 ou 50 anos, quando as diferenças de classe se revelaram ostensivamente. O trabalhador manual identificou num relance o proprietário da fábrica, conheceu ou pensou que conheceu seu inimigo, e percebeu que estaria numa situação melhor no dia em que ele e seus companheiros conseguissem se livrar do patrão. Hoje, as classes ainda existem, mas ocultas por infinitos graus de consumo, e ninguém espera da propriedade estatal da indústria um mundo melhor. Hoje, o "inimigo" é uma relação social impalpável, abstrata embora real, que tudo permeia e está em toda parte: os proletários são aqueles que produzem e reproduzem o mundo, podem romper com ele e revolucioná-lo. O objetivo é a imediata comunização, não totalmente completada antes de uma geração ou mais, mas iniciada já. O capital invadiu a vida, determina como nós alimentamos nosso gato, visitamos nossos amigos e, nessa mesma medida, nosso objetivo só poderia ser a fábrica social, invisível, totalitária, impessoal (ainda que o capital saiba como usar pessoas para defendê-lo, a inércia social é uma força mais conservadora do que a mídia e a polícia). A comunidade humana é acessível: sua base social está presente, muito mais do que há um século. Só a passividade impede sua emergência. Nossa necessidade vital, o nosso outro, parece tão fechada e distante ao mesmo tempo. Os vínculos mercantis são igualmente fortes e fracos.

As rebeliões de Los Angeles em 1991 ultrapassaram as de Watts em 1965. A sucessão de rebeliões nos EUA revela uma fração significativa da juventude que não pode ser integrada. Aqui e ali, apesar do desemprego em massa, os trabalhadores não querem ser chantageados, nem aceitar diminuições dos salários em troca da criação de empregos. Os proletários coreanos demonstraram que a "empresa mundial" difunde agitação fabril ao mesmo tempo que lucros, e a "atrasada" Albânia pariu uma revolta moderna. Quando uma importante minoria que está farta da realidade virtual começar a realizar as possibilidades, a revolução emergirá de novo, terrível e anônima.

Isto é dedicado à Jocelyne, a proletária anônima.

1997


Biblioteca virtual revolucionária

Nokia Ocupada




Trabalhador@s em Milão/Itália ocupam uma fábrica de Nokia e respondem, ágil e flexivelmente, aos novos desafios…

Antecedentes

En 1997, Nokia-Maillefer comprou a empresa suíça Nextrom, fabricante de cabos e máquinas para a produção de membrana de plástico. Estas máquinas eram produzidas numa fábrica ao norte de Milão, onde trabalhavam 67 pessoas. Nokia-Maillefer havia fechado uma oficina e transferido a produção para outras empresas. No princípio de 2002, a filial Nokia-Nextrom anunciou o fim da fábrica de montagem e a demissão d@s trabalhador@s em fins de maio. Isto não foi nada bom para @s trabalhador@s…

A resposta d@s trabalhador@s…

Só três trabalhador@s apresentaram sua demissão, todos @s demais decidiram uma ação comum contra as demissões iminentes. Rechaçaram a “oferta“ de exame individual por uma consultoria. No dia 15 de fevereiro, ocupam a fábrica, para impedir que as máquinas sejam retiradas. Auto-organizados em assembléia permanente, decidem as próximas medidas: usar a tecnologia da empresa para mandar e-mails e fax a outras fábricas de Nokia no mundo ou comunicar-se com a imprensa (supra)regional. No mesmo dia, manifestaram-se ao redor da fábrica e cortaram a via férrea da estação mais próxima para chamar a atenção sobre sua luta. E, depois, convidam para um concerto, no centro social no norte de Milão, para reunir-se com muita gente. No momento, esperam a reação da empresa. Entretanto, querem manter ocupada fábrica e planejam outras ações. Um trabalhador dizia que ocupavam a fábrica mas não se consideram donos dela. O único que tinha alguma coisa a perder era o proprietário. Se acabarem com os postos de trabalho, a fábrica também poderá se acabar…

Para escrever aos grevistas de Nokia: basta_nokia@yahoo.it

Assim como outras empresas, Nokia também une pessoas...na cadeia de montagem, @s trabalhador@s com diferentes contratos (por exemplo, das empresas de trabalho temporário etc.) para ver quem trabalha mais por menos dinheiro. Nas cadeias de transporte, os diferentes fluxos de produção para fazê-los “racionalizar-se” na competição.

Quando ocorre a crise - quando Nokia já nos estressou na linha de montagem e inundou o mercado com telefones móveis ou ceras depilatórias - também nos separam: fecham esta ou aquela fábrica, jogam na rua est@s ou aquel@s trabalhador@s.

Além da crise (da deterioração de nossas condições de vida, do Vale do Rhur a Tóquio) há algo de novo no ar: com a crise global agravada, nos informamos de que, no mundo inteiro, ocorrem novas respostas dos explorad@s aos ataques dos capitalistas. São ações diretas, que desconfiam dos aparatos sindicais e dos governos. Ações que só confiam em si mesmas, “autoconfiadas”…

Na Argentina, @s desempregad@s cortam importantes vias de acesso para lutar contra a redução dos serviços sociais; empresas são ocupadas e produzem controladas pel@s trabalhador@s; proletários discutem nas assembléias de bairros, em vez de confiar nas enésimas eleições. Na Coréia do Sul, em fins de fevereiro, ocorreu uma greve geral que fez balançar o governo. Ademais, em diversos paises, pequenas lutas proletárias encontram respostas parecidas sob condições parecidas, sejam @s trabalhador@s encarregados de limpar as estações de Milão ou @s grevistas do McDonalds em Paris (a ver: www.prol-position.net). Sabemos, também, de muitos enfrentamentos que os meios de comunicação e as burocracias sindicais não informam, atividades auto-organizadas e ofensivas contra a exploração. Estas informações nos parecem importantes, por isso distribuímos este volante. O exemplo d@s grevistas da Nokia nos mostra que a organização (internacional) do trabalho - as tecnologias de comunicação da empresa, as cadeias de transporte, a estrutura de suprimento de materiais para a produção etc. - nos dá várias possibilidades para organizar a luta. Também nos mostra a necessidade de derrubar as fronteiras entre os departamentos, as empresas e regiões para evitar que nossa luta fique isolada e sejamos vencidos.

Somente poderemos superar a falta de comunicação atraindo outr@s explorad@s. Isto é: exercendo uma atração mediante nossas ações inesperadas e espontâneas, que façam chorar os patrões e chefes. E que durante essas ações desenvolvamos novas e intensas relações sociais entre nós mesm@s, relações que usualmente se perdem na cotidianidade do trabalho. Assim, resolveremos a questão do novo: o movimento para uma sociedade na qual nos unamos por nós mesm@s e não nos entreguemos às “moedoras de carne humana” como Nokia e outros centros de exploração…

Contatando Prols

Ultimamente, podíamos ver uns conflitos isolados nesta região (Vale do Rhur), por exemplo: ações contra o fechamento do centro telefônico de DeutscheBank24 em Duisburgo; @s condutor@s de ônibus em greve durante o inverno de 2001/02, em Dusseldorf, ou os enfrentamentos contra os contratos limitados e os turnos extraordinários na fábrica da GM, em Bochum. Tudo continua sendo um pouco defensivo e disperso, mas se tens histórias mais excitantes do “inferno do trabalho”: escreve para nós!

prols@prol-position.net
www.prol-position.net

A LUTA AUTÔNOMA




Lúcia Bruno


A força de trabalho é a única mercadoria cujo valor se estabelece através de uma luta social.
Enquanto o operário procura incorporar o máximo de tempo de trabalho nesta mercadoria que vende ao capitalista, tendo em vista aumentar o seu valor, o capitalista procura reduzi-lo ao máximo.
Essa luta tem um caráter muito peculiar no capitalismo. De um lado, constitui fator integrante do sistema, pois é o próprio processo econômico que determina a fixação de um valor para a força de trabalho, que encontra no salário a sua expressão jurídica.

Por outro lado, essa luta não tem condições de se desenvolver no tipo capitalista de organização operária que o sistema de exploração impõe. A disciplina da fábrica implica na completa obediência e submissão do operário ao sistema tecnológico de produção. E esta é a única forma de organização que o capitalismo pode admitir.

No entanto, esta luta não pode deixar de existir porque ela é exigida pelo próprio sistema econômico. É a partir daí que se dá o assalariamento produtivo, e dessa luta resulta o aumento da produtividade e da intensidade do trabalho.

Além disso, sem a luta do proletariado pela diminuição do grau de exploração, ele correria o risco de, não opondo resistência à miséria, desaparecer fisicamente.

Nesse sistema econômico onde o proletariado procura aumentar o valor da sua força de trabalho e o capitalista procura diminuí-la, desenvolve-se um campo institucional que garante a reprodução dessa contradição: o campo sindical.

A organização sindical representa precisamente o ponto em que a luta pelos seus objetivos se insere no capitalismo.

Você pode prestar atenção; sempre que se desenvolve uma luta proletária efetiva, ela acaba extravasando o campo sindical e criando formas de organização fora do sindicato. Por exemplo: os comitês de greve, as comissões de fábrica, etc.

Quando se verificam aumentos salariais onde essas novas formas de organização não surgem, é porque não houve nenhuma luta proletária. É quando o sindicato cumpre plenamente o seu papel no capitalismo: de organismo especializado que planifica para o capitalismo os aumentos que este necessita para a expansão do mercado de consumo particular.

Quando, ao contrário, se desenvolvem lutas proletárias, que extravasam, pelo menos no interior de cada unidade produtiva, os limites do sindicato, os dirigentes sindicais cumprem a tarefa de definir um meio-termo aceitável para os patrões. É dessa forma que integram as lutas proletárias na dinâmica do capitalismo. Com isto quero dizer que nenhuma luta pode se expandir nos limites estritos do aparelho sindical, assim como não se desenvolve sob o esquema rígido da disciplina fabril.

Mas então fica a pergunta: se a classe operária quando luta diretamente pela diminuição da exploração não atua nas instituições existentes no capitalismo, onde é que ela atua? Eu diria que ela atua fundamentalmente nas organizações que cria no próprio processo de luta - nas instituições autônomas.

Esta é uma contradição muito importante do capitalismo. É a própria dinâmica de seu desenvolvimento que determina o surgimento de relações sociais que lhe são antagônicas. Relações sociais igualitárias e não especializadas, que destroem o sistema da “representatividade”, característico do capitalismo.

Na resistência contra a exploração do capital todos os operários são iguais. O movimento social dos explorados, hoje, tende a projetar esta igualdade para além da destruição do sistema no qual ela foi gerada. . . Isto é, as novas relações sociais criadas no processo de luta tendem na sua expansão a se realizarem em novas formas econômicas e, portanto, em novo modo de produção.

Por isso, podemos dizer que nas sociedades contemporâneas se articulam duas realidades sociais antagônicas: o modo de produção capitalista e o socialismo em permanente tendência para o desenvolvimento, fundado nas relações igualitárias e comunitárias que o proletariado cria no decorrer de suas lutas.

Tudo isto é bastante abstrato. Vejamos de maneira mais concreta como essas lutas se desenvolvem e por que têm sido derrotadas.

AS INSTITUIÇÕES AUTÔNOMAS

Os indivíduos não atuam no vazio, mas dentro de instituições que criam no decorrer de sua existência. Isto quer dizer que quando a classe proletária luta diretamente contra a sua situação de explorada/oprimida, separando-se da lógica capitalista, cria nesse ato novas organizações sociais que constituem as condições da transformação social.

Essas organizações, a que chamei conselhos operários ou comissões de fábrica, privilegiam a luta na empresa, ultrapassando os aparelhos sindicais e partidários, desenvolvem práticas novas onde se afirma a preponderância das bases trabalhadoras frente aos dirigentes e a satisfação das necessidades da vida cotidiana frente ao capital, etc.

Saídas diretamente do processo de luta, essas organizações unem os trabalhadores em função das lutas práticas e não de objetivos abstratos mais ou menos limitados.

Por viabilizarem praticamente formas embrionárias de controle e gestão da produção pelos trabalhadores, as comissões de fábrica constituem a forma embrionária das novas relações sociais de produção.

Ao mesmo tempo, iniciam formas institucionais de extinção do poder político, porque são organizações que enquadram os representantes eleitos pelos trabalhadores, especialmente quando a luta se expande e passa das comissões de fábrica locais para formas mais avançadas constituídas por órgãos que articulam outras comissões.

É importante salientar que a comissão de fábrica não é forma política no sentido tradicional do termo. Ela não tem autonomia com relação ao conjunto dos produtores; tal como ocorre com o Estado, por exemplo.
Quanto mais se desenvolve a comissão de fábrica - enquanto órgão de controle e gestão da produção, por exemplo - mais diminui o caráter intermediário nesse controle.

Se criamos instituições através das quais podemos decidir em conjunto sobre todos os aspectos da vida social, eliminamos aqueles que sempre decidiram por nós: os políticos profissionais, que detém o controle das decisões. Criando as instituições que realizam a democracia direta eliminamos o Estado, que existe para decidir por nós e sobre nós.

Com isto quero dizer que a dinâmica do socialismo é dada pelo conjunto organizado da classe operária. mediante a criação de estruturas próprias de poder, onde os representantes estão controlados nas suas atribuições por todos, podendo ser destituídos a qualquer momento.

É preciso diferenciar a representação nessas organizações e a representação nas estruturas políticas capitalistas, onde ninguém controla a ação dos nossos “representantes”.

1- Os elementos eleitos pelos trabalhadores não têm possibilidades de decidirem por si mesmos. Eles são simplesmente executores. Apenas o conjunto dos representados pode decidir.
2- Os representantes eleitos só executam tarefas e não determinam linhas de ação, pois seus limites estão de antemão delimitados e, portanto, não podem extravasar as suas funções.
3- Esses elementos permanecem como representantes, no máximo, até o tempo de executarem as tarefas, eles não têm como se reproduzir em nova classe dominante.
4- Os representantes permanecem na produção e os seus atos podem ser controlados a cada momento. O desempenho de funções na qualidade de representantes dos trabalhadores não lhes confere nenhum tipo de privilégio.
Você pode notar que o tipo de organização social que os operários criam na sua luta direta e autônoma é completamente diferente e oposto ao sistema de representação existente no capitalismo. No sistema dominante quais os mecanismos de controle que temos sobre os indivíduos que elegemos? Nenhum. Que informações temos de sua atuação no parlamento ou na chefia de um Estado ou coisa semelhante? Aqui impera o sigilo, fundamental em toda estrutura burocrática, onde informação é poder.
Mas não se trata de mistificar ou idealizar as comissões de fábrica. A existência dessas instituições atestam o descrédito em que caíram os sindicatos e os partidos políticos no mundo contemporâneo. Ao mesmo tempo, expressam o grau de autonomia da classe operária com relação às instituições capitalistas.
No entanto, nem sempre isto quer dizer que exista uma absoluta democracia na condução das lutas e que são as próprias bases operárias a manterem em mãos a iniciativa e o poder, no combate contra a exploração.

É preciso ver os problemas com os quais as comissões de fábrica se deparam, e o funcionamento das mesmas. Na realidade, o caráter complexo dos processos de transformação social inviabiliza qualquer tentativa de impor um modelo acabado de organização.
O estudo da história do movimento operário e das novas formas de luta que hoje presenciamos podem nos indicar as tendências e possibilidades futuras do movimento, nunca suas formas concretas de realização. Estas dependem da articulação complexa de todas as variantes e especificidades históricas de cada momento considerado.

Voltando ao problema colocado, pode acontecer de uma comissão limitar-se a servir de intermediária entre o sindicato e os trabalhadores. Se isto mostra a exterioridade do sindicato com relação à classe, mostra também que é o sindicato quem conduz todas as lutas, mantendo os trabalhadores em uma situação de apatia. A comissão limita-se a dizer ao sindicato o que os trabalhadores gostariam que fosse feito e a dizer aos trabalhadores o que o sindicato decidiu fazer. Vemos que na realidade essa comissão exerce a função de seção sindical, subordinada ao sindicato.
Há ainda comissões que, apesar de informarem todos os trabalhadores e os consultarem antes de qualquer atuação, acabam se isolando das bases. Isto acontece não porque se tornaram “pelegas”, mas porque os trabalhadores caíram numa certa apatia. E a que se deve esta apatia?

Este é o ponto central, pois nenhuma organização pode fazer sozinha o que compete ao conjunto dos trabalhadores. Antes de avançarmos nesta questão, a partir de que momento se verifica o isolamento das bases?

O aparecimento de uma comissão de fábrica, autônoma, demonstra um grau elevado de atividade dos operários, e essa atividade vai se refletir no controle a que estará sujeita a comissão eleita pelo conjunto dos operários. No início são realmente todos a decidirem o que a comissão vai executar. Mas depois começa a haver uma distinção entre o conjunto dos operários e os executores. São sempre os mesmos - os membros da comissão - que executam e decidem.

Os trabalhadores, então, se afastam de toda a atividade e a comissão se apodera de todas as iniciativas.
A partir daí está criado o isolamento da comissão e se desenvolve o terreno ideal para a sua burocratização, para a defesa de interesses particulares (partidários ou não) que acabam prevalecendo sobre os interesses do conjunto. É ainda o momento propício para a repressão patronal, que acaba despedindo os trabalhadores mais combativos.

Isso porque os trabalhadores foram afastados do trabalho prático e voltaram a uma situação amorfa. Com isto quero dizer que as organizações autônomas só podem existir em momentos de luta direta e conjunta de todos os interessados.

De nada adianta criticar as lutas operárias pelo fato de acabarem integradas no capitalismo. Ou dizer que as organizações autônomas não sobrevivem por muito tempo, pois são destruídas pela repressão ou subordinadas às cúpulas sindicais e partidárias.

A questão fundamental é procurar novas formas de manter essas organizações, generalizando-as e unificando-as.

A circulação de informações, a troca de experiências entre trabalhadores inseridos em lutas diferentes, é indispensável para desenvolver a solidariedade e a coesão dos trabalhadores.

Nas sociedades contemporâneas, o peso das práticas sociais que tendem a integrar indivíduos e grupos sociais pertencentes a classes sociais antagônicas é muito grande. Essas práticas são realizadas a todo o momento nas instituições de consumo, de lazer, na escola, nos partidos políticos, nas instituições religiosas, etc.

Em momentos de ascenso revolucionário, elas acabam sendo negadas na prática, através da criação de novas instituições sociais - as comissões autônomas, os comitês de moradores, etc. Mas para que elas se desenvolvam e se generalizem é fundamental a expansão das diversas lutas, ultrapassando, assim, o localismo em que surgem. Não é possível a existência de “ilhas” autônomas num contexto capitalista.

Uma comissão autônoma tem grande poder, porque expressa o que há de mais importante na fábrica: a força-de-trabalho, sem a qual não existiria capital. Por esse motivo, ela é sempre “objeto de desejo” de muitos.

São os patrões que procuram cooptá-la para que funcione como amortecedor dos conflitos internos da fábrica.

São os partidos políticos que tentam a todo instante inchar-se com a força alheia.

São as cúpulas sindicais que procuram estender seu campo de controle para dentro das fábricas.
É contra tudo isso que os trabalhadores têm de lutar, tendo em vista manter a comissão sob seu controle efetivo. Para que funcione como instrumento de luta e campo de desenvolvimento das relações igualitárias, a autonomia das comissões é fundamental. De nada adianta eleger comissões de trabalhadores, se estes não as controlam diretamente. Os trabalhadores não lutam por delegação. Lutam eles próprios ou não há luta revolucionária.

Uma comissão que não seja a expressão da luta auto-organizada e autodirigida pelos operários nada tem de autônoma. Muito menos aquelas criadas pelo patronato, ou ainda as fomentadas de fora por militantes que pretendem utilizá-las como células de seus partidos.

O caráter subversivo das organizações operárias reside no controle que o conjunto dos interessados tem sobre a ação daqueles que foram eleitos como seus porta-vozes.

Pensar que o capitalismo integra estas instituições é ver apenas os seus traços exteriores. Não existe a menor possibilidade de se conciliar estruturas de organização antagônicas.

As comissões de fábrica, enquanto expressão das relações igualitárias e coletivistas, nada têm a ver com as comissões criadas pelo patronato, pelos partidos políticos ou pelas cúpulas sindicais.

Sobre estruturas desse tipo, centralistas e burocratizadas, só podem se desenvolver relações sociais de militarização, submissão e dependência, que prefiguram as relações sociais numa sociedade de exploração.

A integração das comissões de fábrica, assim como de outras práticas autogestionárias, se dá pela destruição dessas instituições e práticas. Muitas vezes, se conserva o mesmo nome, mas para encobrir práticas absolutamente diversas.

Por isso, não é para o nome das organizações que devemos olhar. É para a sua estrutura interna e para as funções práticas que concretamente realizam. E isto não apenas num dado momento. E preciso ver, no processo de evolução das lutas, como estas organizações vão se desenvolvendo.

Extraído de O que é Autonomia Operária, Lúcia Barreto Bruno, Coleção Primeiros Passos, Editora Brasiliense, 1985.

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OS AMIGOS DE DURRUTI ACUSAM



"OS AMIGOS DE DURRUTI ACUSAM": (grupo franco-espanhol AMIGOS DE DURRUTI)

É necessário que os militantes, os revolucionários das organizações de trabalhadores, que sofreram a cruel experiência da derrota militar e a humilhação como refugiados, dediquem uma séria e concentrada atenção às lições da guerra e da revolução espanhola, pela qual pagaram tão caro com o seu sangue e o sangue de seus melhores camaradas.

Quebrando o silêncio que nos foi imposto pela tirania dos estalinistas e outros contra-revolucionários, continuaremos falando com a clareza que sempre utilizamos no órgão de nosso grupo "O Amigo do Povo" . Nosso grupo, que escolheu como símbolo Durruti, tem ocupado um lugar importante na revolução espanhola. Assim foi, nos dias sangrentos de maio de 1937, quando empunhamos a bandeira da revolta e combatemos os contra-revolucionários (o P.C., o governo republicano, etc) assim como o reformismo dos dirigentes da CNT-FAI.

Nós havíamos previsto que a linha traçada depois de julho de 1936, dissociando a guerra da revolução, conduziria inevitavelmente ao desastre. Nossas teses foram confirmadas pelos fatos. A revolução foi perdida em maio de 1937, E COM ELA A GUERRA. Gradualmente, as zonas de importância econômica foram perdidas, culminando com a queda de Aragón, uma grande derrota no Levante, terminando na debandada da Catalunha, na rendição incondicional de Madrid e do que ainda restava.

As causas da derrota foram evidentes. Quando o espírito revolucionário das milícias foi sepultado - em conseqüência de sua militarização, após terem sido subordinadas a um exército desprovido de entusiasmo e dinamismo – forjou-se o primeiro elo da cadeia que nos levaria à derrota.

Os múltiplos ataques e desfigurações das tarefas revolucionárias, ocorridos já em julho de 1936, foram as sementes da trágica colheita que nos levaria ao exílio sangrento, um exílio que não pode ser entendido a não ser que compreendamos os primeiros movimentos de traição e incapacidade, os golpes pelas costas e a imoralidade que se estabeleceu.


DUAS CHANCES PERDIDAS

Durante a revolução espanhola, houve dois momentos decisivos: julho de 1936 e maio de 1937. Nessas duas ocasiões, o mesmo erro foi cometido. Os líderes da CNT-FAI não impuseram o poder de nossas organizações, que eram apoiadas pelas massas nas ruas, fábricas, campos e outros locais de trabalho. Esses líderes foram, portanto, os maiores responsáveis pelo desastre que aconteceu - a perda da revolução, a derrota militar na guerra e o sangrento exílio na França. Eles temiam a intervenção estrangeira. Não assumiram a direção econômica e política do país para não suscitar a hostilidade dos "ditadores".

Mas, recusando-se a liderar a revolução, nem por isso a abandonaram: eles começaram a derrotá-la. Seu medo foi responsável pela contra-revolução, pelo fato de os estalinistas terem tomado a terra dos camponeses e trabalhadores. Esse foi o maior fator na quebra da unidade revolucionária das massas.

Além de não impor uma ditadura sobre os partidos antiproletários, os dirigentes da CNT-FAI se tornaram assistentes dos liberais burgueses, da pequena burguesia e do capitalismo internacional, os quais, sob a máscara da democracia, serviram ao fascismo. Portanto, os dirigentes da CNT-FAI derrotaram a revolução espanhola.

O final da guerra foi catastrófico. Tudo foi perdido, nada foi ganho. Muito poderia ter sido salvo e usado para evitar a terrível derrota. Negrin e seus lacaios haviam depositado todo o dinheiro e ouro em bancos estrangeiros. Eles também fizeram sua parte no massacre do proletariado espanhol.

O exército dos trabalhadores não sabia por que lutava. Mas, na frente de batalha, os soldados não estavam dispostos a lutar. Eles sabiam que, enquanto estavam sendo massacrados no Ebro, na retaguarda, os burocratas se divertiam à larga com mulheres bonitas e afundavam a República na corrupção.

As pessoas trabalhavam e morriam de fome. Na fila do pão, as mulheres e a população em geral estavam cheias de ódio de Negrin e seu grupo de aduladores. Os trabalhadores e suas famílias não tinham pão, mas nos lares e residências do governo e dos chefes do PC comia-se pão branco. O mundo inteiro nem sequer imaginava como era alto o nível moral da população de Barcelona. Foram os proletários de Barcelona que sofreram os bombardeios aéreos. Não havia refúgio para eles. Mas os altos funcionários e burocratas estavam sempre bem protegidos e seus familiares permaneciam escondidos em lugares distantes.


O POVO RESPONSÁVEL

O governo, além de não representar os trabalhadores, defendia interesses decididamente opostos aos deles. Aqueles que deveriam ter ouvido as reivindicações do proletariado e que foram por ele convocados para defender seus interesses de classe, ou seja: os líderes da CNT-FAI foram os primeiros a traí-lo. Isso nós temos afirmado claramente e sem subterfúgios. E continuaremos sempre a repetir nossas acusações.

"Os Amigos de Durruti" foram chamados de fascistas e provocadores. Duas vezes tentaram expulsar-nos da CNT-FAI. Mas os proletários rejeitaram essa ordem de exclusão, que veio da ala reformista.

Deixamos a Espanha com nossas cabeças erguidas. Fomos a países estrangeiros sem um centavo. Sofremos fome e frio nos campos de concentração. Contudo, vários dos reformistas que exigiram nossa expulsão passam muito bem. Não falamos apenas de Negrin e seus assassinos stalinistas, que nos perseguiram e nos aprisionaram. Essas pessoas possuem enormes somas em dinheiro, mas um dia terão de pagar por sua traição.

Os acontecimentos nos deram razão. Os mesmos problemas que nós publicamos em nossos jornais clandestinos podem ser apresentados hoje ou mesmo amanhã. Nós não estamos batidos. Apesar da tragédia, não nos desviamos de nossos princípios e mantemos nossas críticas. O reformismo da CNT-FAI levou-nos à derrota.

A liderança anarquista foi parte influente na rendição incondicional de Madrid a Franco. Os estalinistas, com seus protestos contra a rendição de Madrid, tentaram posar como revolucionários. Mas não iludiram os proletários, que já os odiavam muito antes da iniciativa de Casado. Esse ódio existe desde o começo da revolução, particularmente nas jornadas de maio de 1937.

A lição foi dura. A imensa importância e o poder da revolução espanhola podem ser avaliados pelos problemas que acarretou para os negócios dos países europeus.

Se a revolução espanhola tivesse sido bem sucedida, o fascismo teria sido derrotado, com a importante conseqüência do início de uma ofensiva proletária internacional. Não há dúvida, o proletariado e o capitalismo têm mostrado estar permanentemente envolvidos numa luta de vida ou morte. O capitalismo tem triunfado, mas nós sabemos os motivos.

A democracia derrotou o povo espanhol, não o fascismo. Franco jamais teria vencido sem o PCE e Negrin. Mas o proletariado internacional também é responsável. Ou melhor, seus líderes, que se tornaram escudos para os capitalistas. Mas se nós tivéssemos sido claros e diretos, em vez de falar jargões e usar uma linguagem confusa, talvez tivéssemos alcançado os trabalhadores do mundo todo.


AS LIÇÕES

Da catástrofe, cabe-nos extrair lições valiosas. Como anarquistas, devemos corrigir uma série de pontos táticos e posições que impedem o sucesso da ação revolucionária. A revolução necessita da força e de saber usá-la contra seus inimigos. Quando se possui a força revolucionária do proletariado, é necessário saber como usá-la e como preservá-la.

Nós somos inimigos da colaboração com os capitalistas e a classe média. A administração dos trabalhadores exige o poder dos trabalhadores. A revolução requer a absoluta dominação das organizações dos trabalhadores, como foi o caso de julho de 1936, quando a CNT-FAI comandava. Há muitos aspectos da situação e seria necessário estudá-los em detalhe. Mas não devemos esquecer que o movimento dos trabalhadores deve ser reconstruído sobre uma nova base, com uma nova moral, após ter banido os líderes responsáveis pelo desastre.

Nós afirmamos que é necessário formar uma Aliança Revolucionária; uma Frente de Trabalhadores, na qual ninguém seja autorizado a entrar exceto numa base revolucionária, e fosse totalmente proibido o ingresso de reformistas, do partido comunista, de democratas republicanos e também daqueles militantes que, no caso espanhol, contribuíram para o desastre.

Desde o início dessa emigração, que começou após 30 meses de luta, os "Amigos de Durruti" mantém a defesa dos interesses do proletariado com a mesma energia e honestidade que empregaram durante o curso da revolução espanhola. (junho/julho de 1939)




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AÇÃO DIRETA




Texto publicado em KAOS #4. 11/1998 (boletim aperiódico e experimental do Grupo Autonomia).

Os sindicatos e partidos já não têm qualquer importância na luta dos proletários contra o capital. Mas a luta continua, a crise se agrava e a resistência dos trabalhadores se desenvolve também. Com a redução da taxa de lucros, os capitalistas intensificam ainda mais a exploração e, com isso, exasperam os antagonismos sociais. Contra o poder do capital, cuja eficácia segue aumentando, os velhos métodos de luta se tornaram obsoletos. Novas formas de luta aparecem espontaneamente, nas greves selvagens: é a ação direta. Ação direta é a luta dos trabalhadores que não aceitam intermediários, sejam eles burocratas sindicais ou chefes partidários. Uma greve é "selvagem" (ilegal ou não oficial) por oposição às greves deflagradas pelos sindicatos, sempre respeitosas dos regulamentos e leis.

O combate dos proletários contra o capital seria impossível sem a organização. Esta nasce espontaneamente, às vezes assim: os trabalhadores, atribuindo a ineficácia da luta aos defeitos pessoais dos velhos dirigentes e furiosos com os sindicatos tradicionais, fundam um novo sindicato, à frente do qual põem os militantes mais enérgicos e confiáveis. A princípio, as lutas se tornam mais duras, encarniçadas. Mas, com o tempo, o novo sindicato, se não cresce, revela-se fraco, qualquer que seja o seu ativismo. Se cresce, logo adquire os mesmos vícios dos sindicatos tradicionais. Após terem vivenciado experiências deste tipo, os operários aprenderão a importância de manter inteiramente em suas mãos a direção de suas lutas. Isto é: toda iniciativa e decisão emanam dos próprios trabalhadores.

Mesmo existindo um comitê de greve – indispensável quase sempre, pois os trabalhadores não podem estar permanentemente reunidos – tudo será feito pelos grevistas, que permanecem ligados, repartindo entre si as tarefas e decidindo diretamente todas as ações a efetuar. A decisão e ação, ambas coletivas, formam um todo.

A primeira tarefa a executar, a mais importante, é fazer propaganda e tentar estender a greve. A pressão sobre o capital deve ser cada vez maior. Diante do gigantesco poder do capital, não somente os operários, como indivíduos, são impotentes; mas todo e qualquer grupo de trabalhadores que permaneça isolado. A burguesia sabe disso, e a única coisa que a faz ceder é o medo de que a greve se torne geral. A possibilidade de vitória é tanto maior quanto maiores sejam a vontade coletiva nitidamente expressa e o número de trabalhadores em luta.

Quando a greve se estende, o descontentamento dos trabalhadores é imenso e há motivos de sobra para a explosão social. É por si mesmos que os trabalhadores entram em luta. Quando se sentem isolados, com medo de perder seus empregos, ignoram seus companheiros e, na ausência de unidade, recuam diante da ação.

Mas, uma vez que tenham começado a lutar, transformam-se: o medo e o egoísmo são esquecidos e novas forças jorram. O sentimento comunitário, a própria comunidade, a solidariedade e a abnegação despertam-lhes a coragem e os estimulam na determinação de ir até as últimas conseqüências. Este sentimento é contagioso e o exemplo subleva outros proletários, que sentem nascer em si próprios as mesmas forças, a mesma confiança em si e em seus irmãos de classe. Assim, a greve selvagem, como o fogo num rastilho de pólvora, se estende, alcançando outras empresas e englobando massas cada vez mais numerosas e importantes de proletários em luta.

Tal resultado não pode ser obra de um pequeno número de chefes, de burocratas sindicais ou de novos porta-vozes. Ainda que, sem dúvida alguma, a ousadia de alguns camaradas resolutos possa impulsionar fortemente a ação, faz-se necessária a vontade de cada um e a ação de todos. Mas os trabalhadores não devem somente agir, é preciso que imaginem, reflitam e decidam por si mesmos. Os trabalhadores jamais devem entregar ou delegar a responsabilidade de decidir a um sindicato, um partido ou qualquer organização que se encarregaria por eles de solucionar os problemas. Os trabalhadores têm de assumir totalmente a luta, pois sabem que a vitória ou a derrota só depende deles. Eram passivos, são ativos; eram indivíduos isolados, que se importavam apenas consigo mesmos, são agora um grupo unido e consciente de sua força.

As greves espontâneas apresentam outro aspecto importante: a divisão dos trabalhadores em sindicatos diferentes é anulada. No mundo sindical, as rivalidades corporativas contribuem para separar os trabalhadores em categorias e setores, debilitando a classe operária. Há países em que diferenças étnicas e religiosas, além de políticas, levam à criação de sindicatos católicos, socialistas, etc., separando os trabalhadores uns dos outros. Deste modo, quando ocorre uma greve, permanecem isolados, sem se deixar contaminar por idéias de solidariedade e deixando para a burocracia sindical a responsabilidade de negociar e fazer acordos com os patrões. Numa greve selvagem, caracterizada pela ação direta, as diferenças perdem a importância e o interesse, porque a unidade é uma necessidade vital. E esta unidade existe, pois sem ela não haveria luta. Todos os que trabalham numa fábrica, que estão na mesma situação, submetidos à mesma exploração, lutam contra o mesmo patrão e se reencontram na ação comum. As antigas divergências, resultantes de pendências sindicais ou religiosas, apagam-se. Espectros do passado, estão quase esquecidos na realidade viva e nova que constitui a fraternidade na luta comum.

A greve selvagem se caracteriza pelo grau de espontaneidade, pela iniciativa pessoal dos trabalhadores envolvidos, que mantém em suas mãos toda atividade e decisão. E também pela unidade na luta, que, ultrapassando todas as antigas divisões corporativas e outras mais, se realiza a partir da empresa. Mas isto não significa por si só que os ventos tenham mudado e que a vitória é certa. Nada disso. A greve selvagem conduz, na maioria das vezes, à derrota, porque as lutas continuam sendo muito limitadas, não assumindo um caráter de greve de massas. Somente em alguns casos favoráveis conseguem evitar ou reduzir a degradação das condições de trabalho e de vida. Sua importância reside no fato de mostrarem um vivo espírito de luta, uma vontade de auto-afirmação coletiva que brota de seus compromissos para com sua família e seus companheiros de luta. Assim se reencontram, desenvolvem a confiança em si mesmos e a consciência de classe.

Quando as greves selvagens eclodem, mais ou menos simultaneamente em vários lugares, envolvendo grandes massas de trabalhadores, ramos inteiros da indústria, cidades ou regiões, estendendo-se cada vez mais, a organização tem de assumir novas formas.

Torna-se, então, impossível reunir numa única assembléia todos os proletários em luta. Mais do que nunca, porém, a compreensão mútua se faz necessária para a ação comum. Formam-se os comitês de greve, agrupando os delegados (representantes) eleitos por todos os grevistas. É claro que esses comitês de greve nada têm em comum com os secretariados formados por burocratas sindicais. Nascem da luta, da necessidade de unificar o movimento, dando-lhe direção e objetivos claros.

Os comitês de greve não têm qualquer poder. Os delegados, que não são sempre as mesmas pessoas, limitam-se a exprimir a opinião e manifestar a vontade das assembléias que os elegeram.

Mas os delegados não são simples mensageiros, têm um papel preponderante na discussão, encarnando as convicções dominantes. Nas reuniões dos comitês, as opiniões são discutidas e examinadas à luz das circunstâncias. As deliberações e resoluções são retransmitidas pelos delegados às bases que os elegeram, as assembléias de grevistas. Dessa maneira, o trabalhador na fábrica toma parte nas deliberações. É assim que, no caso de grandes massas de proletários em luta, fica assegurada a unidade de ação.

Bem entendido, a unidade de ação não significa que os trabalhadores aceitem sem questionar as decisões do comitê de greve. A unidade é uma resposta espontânea às exigências da situação, numa atmosfera de livre e apaixonada discussão, em que os interessados decidem o que fazer. Pode acontecer que os comitês, após considerarem tudo minuciosamente e não tomarem uma decisão, sejam ultrapassados pelos trabalhadores, que desencadeiam uma luta de massas. Também é possível que os trabalhadores, antes decididos a fazer greve, vacilem no momento de agir, e a greve não aconteça.

Quando os proletários se lançam à ação direta, novas formas de organização e de luta surgem, contrapondo-se aos sindicatos domesticados e às greves que respeitam as leis burguesas. Então, acontecem as greves espontâneas, formam-se os comitês de greve e, a partir destes – unificando e coordenando as lutas, atuando já como órgãos de insurreição e de poder -, os conselhos operários.


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ORGANIZAÇÃO CONSELHISTA





Teses para a abolição do trabalho


A ideologia do trabalho é o estratagema com que a sociedade atual consegue retardar sua ultrapassagem, já agora possível, no sentido de uma sociedade sem classes e livre da escravidão do trabalho.
O mercado mundial, na sua última fase: a troca de mercadorias materiais subsiste apenas como forma econômica em vias de superação; a forma mais evoluída, doravante realizada em escala planetária, é a troca de mercadorias ideológicas.

As ideologias, fundamento da atual riqueza das nações, são as mercadorias em sua moderna versão: o seu valor é proporcional à duração do consenso que conseguem garantir. Elas são a forma pela qual se manifesta o capital, e é através delas que o poder se exerce.

A ideologia permutada entre os estados, inclusive os "comunistas", será posteriormente distribuída ao proletariado, para ser consumida, no varejo. Vem imposta sob a forma de leis naturais: o trabalho como maldição contínua e a produção como necessidade inelutável.

Porém, a lógica do trabalho contém as condições para sua total superação. O capital poderia, hoje, reduzir o tempo de trabalho à metade: as forças que se dizem revolucionárias incluem nos seus objetivos a redução progressiva do tempo de trabalho, já que representam assim o dissenso consentido.

A produção imposta de mercadorias materiais e o consumo imposto de mercadorias ideológicas se identificam, e o regime salarial ocupa as 24 horas do dia, alternando as duas imposições. A jornada de trabalho é, doravante, de 24 horas: vida produtiva e vida cotidiana coincidem, desde já, na sua miséria.
Nenhuma forma de trabalho assalariado, mesmo que uma possa minimizar os inconvenientes da outra, pode eliminar os inconvenientes do próprio trabalho assalariado. Portanto, é necessário que o pensamento se arme durante a ação.

Na revolta proletária de Reggio Calabria - como antes, nas de Casetta e Battipaglia -, isso aconteceu. O proletariado se constituiu em ralé para lançar seu desafio consciente à inconsciência da ordem constituída. A solidão do proletariado, a aparência obscena e ameaçadora de suas insurreições deixam consternados seus opressores e falsos protetores.

Os companheiros napolitanos e os devastadores calabreses esclareceram, de uma vez por todas, que a nova luta espontânea começa sob o aspecto criminal e se lança na destruição das máquinas do consumo permitido.

Hoje, em Reggio, os motivos de revolta são considerados "fúteis". De fato, o proletariado não tem alguns motivos para rebelar-se, porque os têm todos; não há reivindicações particulares a apresentar ao poder, porque seu objetivo é a destruição de todo poder que não seja exercido pelos conselhos proletários.

Os Conselhos Proletários não exigirão nada menos do que a destruição desta sociedade, a abolição do trabalho, a eliminação violenta de toda instituição separada (escolas, fábricas, prisões, igrejas, partidos etc.), após o que existirá o poder decisório de cada um no poder unitário e absoluto dos Conselhos.

Os Conselhos Proletários nada mais serão do que o início da construção, por todos, da vida livre e feliz hoje relegada aos desejos e sonhos produzidos pela infelicidade da atual sobrevivência.

Proletários conscientes, que a maldição do trabalho seja maldita, que a inelutabilidade da produção se transforme no seu luto.

Panfleto distribuído pela Organização Conselhista, em outubro de 1970. Texto extraído de "Acheronte", 14/11/70, Turim.


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quinta-feira, 20 de maio de 2010

Geocities renasce como reocities

Bem-vindos ao ReoCities ...




O Yahoo! fez uma coisa incrível, manteve GeoCities vivo enquanto pode. Mas achamos que seria um desperdício deixar a Internet com um buraco de tal magnitude.

No mínimo, o Yahoo! poderia simplesmente preservar o GeoCities como um monumento aos primeiros dias.

Talvez fechá-lo para edição e simplesmente deixá-lo estático após livrar-se das páginas de spam de uma vez por todas.

Atrás desta página minimalista estende-se a riqueza da história da Internet.

Se nada disso foi feito tivemos que recuperá-la com êxito, e esperamos que te faça feliz vê-la restaurado.

Nós reconstruimos as muralhas das cidades e as ruas que grande parte dos primeiros colonos da World Wide Web utilizaram para viver. Você ainda pode encontrá-los onde eles estavam antes, mas nem todas as casas foram reconstruídas ainda.

Com o passar do tempo, vamos tentar recuperar mais e mais do que foi perdido, pelo menos tanto quanto for tecnicamente possível. Se você quiser ajudar com este esforço, se você tem o seu conteúdo GeoCities em um velho backup, por favor, envie-nos um e-mail para j@ww.com, mas não antes de paramos de importar os dados que temos agora.

Se você tem um site com links para conteúdo GeoCities, para conseguimos restaurar o conteúdo, gostaríamos lhe pedir para mudar os links do Geocities.com de Reocities.com. É apenas uma mudança que ajudará a Internet a trabalhar melhor o conjunto.

Para corrigir links que apontam para páginas GeoCities velhas, fornecemos um pequeno script Greasemonkey Firefox. Isso não é tão bom como fazer as links fixos nas próprias páginas, mas por enquanto, é uma boa ferramenta para ter. Isso evita que você receba mensagens de erro ou desembarque em locais que você não teve a intenção.

Não temos uma seção "FAQ" ainda, mas se há uma pergunta que continua aparecendo na minha caixa de correio é esta:

Por que isso? Por que não deixá-lo ir embora, era tudo lixo de qualquer maneira.

Nas milhares de páginas que temos arquivadas, há uma abundância dos tesouros. Por exemplo, há um link para uma página de uma pessoa que morreu muito jovem, e cuja contribuição duradoura para a internet e as nossas vidas futuras teria sido perdida se de alguma forma não fosse salva. Foi o que fizemos.

Nem todas as páginas aqui, ou a história por trás deles é tão comovente como esta, mas todas elas em conjunto, representam uma riqueza cujo valor só se tornará mais evidente ao longo do tempo, e que esperamos permanecerá conosco para sempre, de alguma forma.

David Davelicious 'Feinman, com agradecimentos à Sylvia

Espero que a resposta do 'porquê?' seja da mesma forma conclusiva.

Infelizmente, no momento não podemos oferecer-lhe uma forma de atualizar, apagar ou adicionar páginas. Nós não sabemos quem são os uploaders originais (estamos trabalhando em um método de verificação) e não temos acesso às credenciais da conta. Estamos ainda no processo de limpeza de páginas para restaurá-las à sua antiga glória. Dada a quantidade de dados, esperamos que este processo vai demorar um pouco. Nesse meio tempo, sinta-se livre para explorar. Você provavelmente conhece o caminho melhor do que aqui fazemos, mas se você precisar de alguma orientação, dê uma olhada aqui.

O texto acima foi extraido e traduzido a partir de http://www.reocities.com/newhome/

O nosso antigo site hospedado no finado geocities até 26 de outubro de 2009 parece que foi completamente restaurado e pode ser acessado em http://www.reocities.com/projetoperiferia/