quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Carta aberta ao proletariado argentino



Conflicto

Irmãos:

1) A crise que se agita tão duramente sobre vossa maltratada existência pouco tem de argentina, não é consequência de "más gestões", "políticos corruptos", ou coisa parecida: é o capitalismo mundial que morre. Vós sois tão somente alguns dos primeiros a serem imolados junto dele; junto deste cadáver horripilante que em seu leito de morte continua assassinando milhões de proletários no mundo inteiro. Muito sangue terá de correr para que o sistema inteiro por fim desmorone.

2) O capital usa todas as suas armas para vos combater: partidos, sindicatos, ultra-esquerdistas, nacionalismo, balas, peronismo, pancadaria, tortura, cárcere. Em consequência, deveis usar todas as vossas armas para combater o capitalismo (a primeira de todas, a consciência de vosso/nosso projeto revolucionário de abolição da sociedade de classes, a consciência de pertencer a um movimento histórico e mundial pelo comunismo). Não pareis aqui se não quiserdes ser aniquilados. Nenhuma das forças que dizem vos representar, a vós e a vossos interesses, é outra coisa a não ser diferentes rostos da besta capitalista, nem defendem outro projeto senão o da vossa submissão e exploração. Queimai as sedes dos partidos. Não deixeis vossos assuntos nas mãos dos sindicatos: ponde vossos punhos na cara dos sindicalistas.

3) Vosso labor incendiário teve a virtude de saber tomar as ruas, e a insuficiência de não defender essa conquista. Nos dias e meses de luta que virão, devereis ganhar a força para impor vosso projeto, tomar as ruas, paralizar a economia, lançar por terra os contragolpes reacionários que virão. A gigantesca tarefa de demolição que a história vos exige é algo para o qual devereis estar preparados.

4) As sucessivas demissões e readmissões não foram mais do que manobras de distração, fraudes grosseiras para que pensasseis ter conseguido algo, mesmo uma pequena vitória. Dos "novos" burgueses no poder só podeis esperar mais duros golpes em vossas condições de sobrevivência. Irmãos: se não prosseguirdes na luta, se não a levardes a suas últimas consequências, continuareis fodidos, cada vez mais. Levar a luta a suas últimas consequências significa assumir as primeiras consequências: a luta por vossos próprios interesses de classe, sem consideração alguma à economia nacional ou à situação das empresas. A promessa de não-pagamento da dívida externa é um presente do governo recentemente demitido para os grandes burgueses argentinos, esses mesmos que entesouram bilhões de dólares nos "paraísos fiscais". A questão da dívida externa é um assunto que interessa aos capitalistas de todos os países, não aos proletários: que se mordam mais ou menos entre si, em nada muda nossa situação como explorados. Os malabarismos monetários com que uns e outros cães pretendem "solucionar" a crise significam, simplesmente, mais e mais miséria para vós. Proletários: não confieis em ninguém mais do que em vós mesmos e em vossas próprias forças, lutai por vossos próprios interesses de classe sem considerações com a economia e o estado que, mais cedo ou mais tarde, vos vereis obrigados a destruir.

5) Irmãos: vossa revolta constitui a ponta de lança do movimento internacional pela destruição do capital. As circunstâncias históricas vos colocaram em tal posição e devereis ter a coragem, a determinação e a consciência necessárias para levá-la à suas últimas e naturais consequências, abrindo o caminho a um proletariado que hoje, em todo mundo, começa de novo a se revoltar contra seus exploradores. Junto com os proletários (talvez às vezes chamados "camponeses", "indígenas", "bérberes" etc.) da Bolívia, Argélia, junto com os proletários da Europa que se dedicam a estragar a festa dos poderosos, junto com os que em qualquer lugar do mundo se rebelam contra a exploração e a opressão do Capital-Estado, sois a parte visível do iceberg que lançará, por fim, esta merda de barco à pique. Irmãos: vosso fogo é o melhor meio de comunicação. As colunas de fumaça que se estendem por toda a Argentina atravessam as fronteiras e são vistas na Bolívia, Argélia, Coréia, Europa... Não deixeis de falar com fogo, desprezai todas as câmeras de televisão: esse não é vosso terreno.

Companheiros: se nossos argumentos vos pareceram corretos, difundi e reproduzi com a maior rapidez que possais este texto por todos os meios de que disponhais ou que possais ter ao alcance. E se não, esqueçai-o neste mesmo instante e começai em seguida a publicar outros que sejam melhores! Posto que está fora de dúvida o direito que tendes de julgar com rigor nossos modestos argumentos. Mas o que está ainda mais fora de dúvida é o que a escandalosa realidade, que nós revelamos tão bem quanto pudemos, não é matéria que vós possais julgar: pelo contrário, é ela que, finalmente, vai vos julgar a todos. Pela abolição do trabalho assalariado e a mercadoria. Pela destruição do Estado e da sociedade de classes. Pelo comunismo. Pela anarquia.

Conflicto. Papeles por la guerra social.

Apartado de correos 15104, cp 28080 Madrid, Estado español.

konflizto@hotmail.com

A versão original, em castelhano, pode ser encontrada em: http://usuarios.tripod.es/pimientanegra/argentina_carta_abierta.htm

SOBRE A AUTONOMIA OPERÁRIA EM BARCELONA



“Apontamentos sobre a Autonomia operária”, Etcétera, 1979

O objeto destas notas é situar no que se revestiu o conceito de autonomia operária durante estes últimos anos em Barcelona, e no que se reveste hoje. Para isso partiremos de uma distinção, em parte fictícia, às vezes tênue, às vezes clara, entre a ação autônoma da classe operária e os grupos militantes que se reclamam do movimento autônomo, ou artífices de um discurso sobre a autonomia e de uma prática autônoma de partidos e sindicatos. Esta distinção é clara quando estes grupos já não são uma fração da classe operária, a mais radical, mas simplesmente núcleos de ações esporádicas, predominando as tarefas de publicação.

Reagindo à prática reformista e burocrática do CC.OO e ao próprio “leninismo” (1), se afirmam, nos anos 70, uma série de grupos, com ou sem siglas, que tentam impulsionar a auto-organização da classe operária em torno de questionamentos anticapitalistas. Partindo da crítica do partido como grupo separado que de fora quer introduzir a consciência na classe e cujo objetivo é a tomada do poder político e da crítica do sindicato como correia de transmissão, aparato de controle e enquadramento e peça chave para a reprodução capitalista, se propõe agrupar os operários em torno de plataformas antisindicais e anticapitalistas.

Este denominador comum agrupa uma série de grupos muito distintos: desde núcleos com militância individual em algumas fábricas até pequenas organizações com centralismo democrático; desde autônomos críticos da mesma autonomia até profissionais da autonomia como uma nova organização.

De todas as formas em seu conjunto e simplificando, seu discurso rompe verbalmente com o esquerdismo; entende, por exemplo, a formação social instaurada na URSS como capitalismo de estado e não como socialista com estado operário degenerado; entende o capitalismo não somente como propriedade privada dos meios de produção, mas como modo de produção de mercadorias, de valores de troca, e fala portanto de revolução comunista como destruição do trabalho assalariado e do Estado.

Sua prática, querendo ser autônoma de partidos e sindicatos, seguia a destes, criticando-a e radicalizando-a quando podia, mas sem colocar em questão o próprio tipo de intervenção; reproduzindo o substituísmo que criticava, querendo dar como aqueles respostas globais a todos os problemas, organizando-se em comitês de apoio... Jogando no mesmo terreno, sempre um pouco mais à esquerda, não fazia mais que fortalecê-los.

Rompendo verbalmente com o esquerdismo, ficava praticamente ancorado nele ao não levar de forma conseqüente a crítica do capitalismo e do reformismo até uma posição comunista, isto é, de crítica real do Capital. Seu anticapitalismo se diluía em socialismo autogestionário ou conselhista ao entender o capitalismo como modo de circulação ou de gestão. A autogestão aparecia assim como uma afirmação comunista e não como uma afirmação capitalista moderna. Seu antisindicalismo ficava numa crítica no nível das formas organizativas e portanto numa crítica antiburocrática, dando à organização um valor em si, sem a discussão de seu conteúdo. As lutas operárias eram avaliadas apenas pelo grau antiburocrático que manifestavam, por sua autonomia com relação aos partidos e sindicatos, mas não por seu conteúdo. Auto-organização, autogestão, no fundo apenas se opunham pois à burocracia, e, portanto, não representavam um passo fundamental na afirmação comunista.

Com a legalização dos partidos operários e dos sindicatos, estes grupos se diluem. Muitos de seus militantes abandonam toda prática de grupo e seus questionamentos e análises anteriores, mostrando um total ceticismo a respeito de qualquer tipo de intervenção. Outros ideologizam esta posição, “aceitando tudo”. Outros tentam compreender e criticar seu passado buscando outras formas de intervenção. Outros ainda entram na CNT que vem, em parte e com atraso, a ocupar o lugar deixado pelos anteriores grupos autônomos, reproduzindo seu esquerdismo mas com um inconveniente: trata-se agora de um sindicato (2). Outros continuam se agrupando em torno dos mesmos questionamentos “autônomos” anteriores, mas com o empenho agora de organizar esta autonomia. Em vez de criticar seu passado, a insuficiência de sua análise do Capital, o convertem em ideologia. O novo discurso “autônomo” que assim aparece não é mais o balbuceio questionador anterior, mas uma máscara da crítica do capitalismo.

Assim, de tanto falar de restruturação capitalista, continuam vendo o capitalismo do ponto de vista da circulação e não da produção. Então, a autogestão operária é uma luta anticapitalista e as formas organizativas - antiburocráticas – passam a ser conteúdos anticapitalistas. Tudo fica reduzido a uma luta contra a burocracia, contra a representação e pela democracia direta.

Para falar da violência do Estado e da organização contra esta violência, confundem Capital com Estado. Ao fixar a luta contra o Estado, contra as forças repressivas, como primordial, esquecem que o capitalismo é um dinamismo social que se alimenta da participação da própria classe operária nesta esfera política. Enquanto antes era a auto-organização, agora é a violência que é considerada a escala de medida da luta de classes.

Com a falta da revolução comunista: reformismo da vida cotidiana. Diante da ausência real da revolução, estes grupos idealizam como revolucionária qualquer luta de novo tipo no âmbito da vida cotidiana: ecologismo, feminismo, marginalidade... vendo aparecer continuamente novos sujeitos revolucionários que viriam realizar a tarefa comunista que Marx atribuía à classe operária no século XIX. Em vez de tentar descobrir o que há de movimento real, de ruptura, em tais lutas e em tais frações do proletariado, fetichizam o que já é ideologia. Com tudo isto, se poupam de estabelecer o problema central: a ausência até hoje da revolução comunista.

Fixaremos agora nossa atenção na atividade autônoma da classe operária na Espanha durante estes últimos anos. Sua autonomia, com relação aos aparatos de enquadramento e controle sindicais e políticos, aparece continuamente. A assembléia como único órgão de decisão, com seus delegados revogáveis, aparecem na maioria dos processos de luta tentando se afirmar contra as incipientes burocracias sindicais. Além do mais, as lutas transpõem os muros da empresa e se dão um pouco em toda parte. Nos bairros, as reivindicações por melhores equipamentos, melhores transportes... são levadas a cabo diretamente pelos próprios interessados, sem mediações, auto-organizando-se, ficando fora dos aparatos de controle e de representação, que são mais débeis por não terem uma estrutura sindical como nas fábricas. E em muitos outros setores: mulheres, estudantes, presos..., afirma-se a auto-organização de suas lutas pelos próprios interessados.

Com a legalização e fortalecimento dos partidos operários e dos sindicatos, este movimento autônomo experimenta um certo refluxo. Nos bairros, a atividade dos partidos de esquerda e de extrema esquerda, com vistas a obter votos, fortaleceu a passividade dos operários. As lutas nas empresas são mais enquadradas, mais manipuladas pelos sindicatos, ainda que estes constantemente corram o risco de serem ultrapassados e muitas vezes são.

Portanto, o conjunto de toda atividade da classe nos aparece como Autônoma com relação ao sindicato, mas isto não quer dizer que seja autônoma no relativo ao Capital. Idealizar estas lutas, como fazem os grupos autônomos, ficando-se no nível das formas organizativas e não passar para o nível dos conteúdos, é um engano que nos impede de ver a força real da classe. Uma luta levada a cabo fora dos sindicatos pode ser tão sindicalista, tão reformista, como a mais enquadrada, se já não apontam, juntamente com as novas formas de auto-organização, para conteúdos que visem a destruição do trabalho assalariado.

Estamos falando de autonomia com relação ao Capital e de conteúdos anti-assalariados. Isto requer uma maior explicação. Evidentemente, estas lutas autônomas no relativo aos aparatos de controle, levadas a cabo pelos próprios operários e para eles mesmos, são lutas dentro da estrutura capitalista, isto é, que não se propõem diretamente a abolição do trabalho assalariado e o comunismo. Mas é certo que podem aparecer, e aparecem, conteúdos que mesmo que expressos em reivindicações limitadas, já apontam contra o Capital. Não se trata de que algumas reivindicações sejam integráveis e outras não – todas hoje são integráveis pelo Capital -, mas enquanto algumas o interiorizam e dão-lhe suporte, outras introduzem elementos críticos da totalidade do sistema de exploração e dominação capitalista.

Do mesmo modo, se falamos separadamente de formas e conteúdos, não é para opô-los, pois se fundem no movimento de luta, mas para ver a força do movimento. Forma e conteúdo, autoemancipação e autodestruição são para o proletariado os dois lados de uma mesma moeda: a revolução comunista. Separando estes dois lados, olhando apenas a auto-organização, o Capital, com seus partidos e sindicatos operários, pode chegar a conceder tudo à classe trabalhadora: autogestão, estado operário, etc., menos que deixe de ser classe trabalhadora. Mas o comunismo não é a gestão do Capital por representantes da classe operária ou pela própria classe operária (capitalismo de Estado ou conselhismo) mas a destruição do Capital e portanto a destruição do proletariado como tal, o começo de uma atividade diferente: a realização da comunidade.

Tentaremos agora colocar mais explicitamente alguns dos problemas, das questões, que nos surgiram ao longo destas notas críticas, fundamentalmente a questão da ausência da revolução e da força real da classe, mesmo que não saibamos avançar para nenhuma solução. Mas isto não invalida a perspectiva crítica que adotamos, ainda que não tenhamos alternativas. Não ter outra coisa a propor, não saber que caminho escolher, não é razão para fazer “algo”, para recorrer a caminhos conhecidos que já saibamos para onde vão.

O proletariado no processo para sua autoemancipação se auto-afirmou, não se negou, não se auto-destruiu, não levou – salvo em poucos momentos – uma atividade autônoma com relação ao Capital. Foi beligerante nas duas últimas guerras mundiais; vimo-lo enquadrado nas organizações estalinistas; vimo-lo manter a Economia, trabalhando para consumir coisas de nulo interesse;... vimo-lo lutar por interesses que não eram os seus: a democracia num terreno que não era dela, a guerra interclassista. Vimo-lo também lutando contra o Capital, recusando o trabalho, mas em assaltos... que terminam. E outros que nem começam. Por que não começam? Por que terminam? Vimos como, no ponto mais culminante da luta, os vencedores se rendiam aos vencidos: julho de 1936.

Na ausência da revolução comunista, o Capital se reproduziu até a barbárie atual, generalizando o proletariado. Nesta situação, o que quer dizer levar a cabo uma atividade autônoma em relação ao Capital? O que quer dizer levar a cabo uma intervenção comunista? O que quer dizer se revolucionário?... Que sentido tem tudo isso?

Hoje a classe em seu conjunto sabe que em e com suas lutas não vai ao assalto do todo. Não se engana. Não é que não tenha consciência, que não seja consciente de sua exploração pelo patrão, pelo Estado e pela Economia. Não há portanto lugar para os grupos que querem contribuir consciência. Sobra-lhe consciência e sobram-lhe dirigentes. Falta-lhe força. Prefere ainda, pelo momento, a segurança de sua vida com pouco sentido, pouco apaixonante, ao risco à ousadia da liberdade e da comunidade. Contudo, algumas frações resistem, atacam, mas rapidamente são isoladas do resto da classe, são reduzidas ao gueto. O Capital divide continuamente o proletariado: homens-mulheres, jóvens-velhos, empregados-desempregados... Alguns se agrupam e recobrem a ausência da revolução com o desespero: terrorismo arcaico e moderno. Mas com seu isolamento, o Capital sempre é mais forte.

É a partir de tudo isto que queríamos situar o problema da intervenção. Que espaço (no sentido de intervenção fora da política institucionalizada mas dentro do macro-social) fica para nós que, já sem poder entrar no espetáculo da representação política (sem ser democratas de toda a vida), apostamos no comunismo – na possibilidade da comunidade – sendo-nos mais impensável a contínua reprodução do mesmo que a ruptura radical? Que espaço pode configurar esta paixão pelo comunismo, esta paciência que não descansa, atenta ao novo assalto proletário, às rupturas que determinadas forças sociais introduzem...? Que espaço pode configurar este resistir ao engano das novas ideologias do Capital – que com o fim de manter o proletariado pode falar de autogestão, de vida cotidiana, de autogestão da vida cotidiana, de ecologismo, de feminismo... – lançando mil lanças contra elas para esmiuçá-las e fazê-las aparecer como realmente são: armadilhas para a participação, para a manutenção do assalariado?

Encontrar este espaço de intervenção continua sendo nosso empenho.

Barcelona, 1979

Carta Sobre o Uso da Violência



Apêndice 3 de Eclipse e Reemergência do Movimento Comunista, de Jean Barrot e François Martin
02 de Maio de 1973

Queridos companheiros,

A abordagem "marxista" usual é claramente não-revolucionária (quero dizer: pseudo-marxista). A maioria dos militantes da extrema esquerda diz apoiar completamente a necessidade de uma ação armada e uma guerra civil no futuro. Para eles isso é um mero princípio.

Deve-se não apenas dizer: Se você quer a paz prepare-se para revolução. Mas também: Se você quer a revolução, prepare-se para a guerra – isto é, a guerra civil.

Ë tão fácil delirar que ninguém consegue ser cuidadoso tratando deste assunto. Por outro lado, a atitude da maioria dos grupos políticos que se recusam a assumir seriamente o problema deve ser denunciada.

Sinto que na maioria das vezes os apelos revolucionários se referem à violência sob um ponto de vista puramente político, no sentido em que Marx atacou a política enquanto tal: por exemplo, no seu artigo de 1844 sobre o rei da Prússia e a reforma social. O objetivo da política é mudar o sistema de governo, e não as bases da sociedade; mudar a gestão do sistema, não o sistema em si. Se examinarmos os grupos de esquerda, sejam trotskistas, maoístas ou mesmo anarquistas, veremos que o quadro que pintam de uma sociedade futura não é muito diferente da realidade atual. Quem faz realmente avançar o programa comunista? Qual deles fala realmente sobre a abolição da produção mercantil, da supressão da teoria e da prática econômicas enquanto campos separados? O que eles querem é um capitalismo democraticamente controlado, no qual os trabalhadores seriam aparentemente a nova classe dominante... por meio de seus representantes - eles, os grupos de esquerda, é claro. Raramente, um desses grupos revolucionários entende a revolução como a emergência de novas relações, cujas bases materiais já existem. Aqueles que apóiam tais visões geralmente as interpretam no sentido de que tal mudança é possível agora e deve começar já. Isto é, na prática, um rechaço total da revolução que pode ser rotulado de contra-cultura e ser encontrado em qualquer lugar.

Talvez soe um pouco confuso, mas é importante compreender que o uso da violência - na revolução e também antes - depende do programa social da revolução. Basicamente, o conteúdo do movimento é o mesmo, mas a maneira de conduzi-lo será diferente. No tempo de Marx, o proletariado ainda tinha de desenvolver as forças produtivas; hoje em dia, ele terá apenas de transformá-las - comunizá-las, digamos assim. No tempo de Marx, como em 1920, ainda existia uma importante parcela pequeno-burguesa da população, mesmo em países como a Alemanha. O partido era apenas um corpo separado, uma organização formal. Sua tarefa era: primeiro derrotar o Estado e seu exército, e só então começar a transformar a sociedade. Hoje, a comunização da sociedade pode começar logo e é, na verdade, parte da ação puramente militar. Podemos e devemos fazer com que a burguesia e o Estado, ou seja, os órgãos da economia capitalista se tornem completamente inúteis, destruindo a economia e implantando o comunismo. Do nosso ponto de vista, a ação militar emprega agora armas sociais que não existiam há 50 anos atrás - ou que existiam num grau muito menor. Por outro lado, do ponto de vista do capital, o Estado se tornou muito mais eficiente. Talvez fosse interessante conhecer War Without End (Vintage Books, 1972), de M. Klare. Embora focalize principalmente as guerras em "áreas subdesenvolvidas", este livro fornece informações úteis sobre a estratégia preparatória para a guerra civil dos estados capitalistas do "mundo desenvolvido" (é claro que isso inclui a Rússia e a China: a maneira como a China reagiu à insurreição do Ceilão foi típica). O Estado sabe o que os esquerdistas ignoram, isto é, que a comunização é possível e é um perigo real para sua existência. Ele tentará isolar os revolucionários com a ajuda das organizações oficiais (sindicatos, partidos "comunistas", socialistas e trabalhistas, e a maioria dos grupos esquerdistas). Provavelmente, sua estratégia consistirá em isolar as áreas revolucionárias. E suas táticas, para evitar que evoluam para o comunismo, incluirão a destruição sistemática de suas condições materiais: indústria, poder, transporte etc. Se necessário, com os mesmos métodos que utilizou na segunda guerra mundial (que foi imperialista, exatamente como a primeira). Mas, antes de alcançar esse estágio, tentará esmagar o movimento revolucionário usando tropas de elite. Considerada sob um enfoque puramente material, a superioridade do capital é notável: nossa única esperança está numa subversão geral e coerente, que combata o Estado em todos os lugares.

Acredito que não se devam fazer tais generalizações. Todavia, muita coisa pode ser feita, neste momento. Se observarmos os Tupamaros ou Baader-Meinhof , parece que optaram pela luta armada para fornecer uma espécie de impulso à sociedade e também porque não queriam utilizar os métodos tradicionais. Este segundo motivo não é um "erro": apenas, não podiam fazer diferente. Estavam fartos e desgostosos deste mundo. Não os condeno por esse elemento "irracional". Mas devemos admitir que tal atitude está próxima da loucura. Nada tenho contra a loucura: o que nós chamamos de "louco" é apenas um indivíduo produzido pela sociedade. Esta sociedade também se livra dos elementos subversivos tornando-os loucos.

Mas eles começaram a luta armada pretendendo colocar o proletariado em movimento. Eles esperavam acordá-lo. Isso foi pura ilusão, típica da política. A mente politizada sempre tenta agir sobre as outras, para organizá-las ou forçá-las a fazer algo, enquanto se mantém fora do movimento social. Nossa tarefa também é política, mas somente quando lida com a destruição do poder político. A tarefa principal dos comunistas não é juntar-se a outros. Eles se juntam com outros para executar as tarefas decorrentes de suas próprias necessidades: pessoais e sociais, imediatas e teóricas.

Isto é, infelizmente, muito mal expressado. Quero ressaltar que nosso objetivo principal não é agir sobre as consciências das pessoas para que elas mudem. Isto é uma ilusão com a eficiência da propaganda, seja ela feita por textos ou por ações. Nós não "convencemos" ninguém. Podemos apenas expressar o que está acontecendo. Não podemos criar um movimento na sociedade. Podemos apenas atuar num movimento ao qual já pertençamos.

Tratando da questão militar, o mesmo princípio é válido. Claro, é necessário explicar o programa militar da revolução - por meio de textos, panfletos etc. Na prática, existem muitas coisas para fazer. Mas elas também têm em vista algo que já está sendo feito de uma maneira ou de outra, que esteja mal entendido ou no qual existe uma contradição ativa, por menor que seja. Darei um exemplo. Se alguma pessoa tem sido particularmente nociva para os operários (um capitalista, um militar), isto não significa que se deva necessariamente atacar essa pessoa, como se ela fosse um símbolo. Tal ato pode ser útil ou não, segundo o contexto. É ingênuo crer que o proletariado compreenderá o significado desse ato e mudará sua atitude. Seria o caso, se o proletariado já estivesse engajado numa ação violenta. De outra forma, tal ataque fortalecerá o Estado.

Por outro lado, se uma minoria organiza uma ação contra o exército, contra um aspecto decisivo de sua função e seu papel contra-revolucionário, isto pode ter um impacto, ainda que nenhuma força social pareça estar atuando contra o exército em "nosso" país neste momento. Tal atividade ajuda a mostrar - mesmo para poucas pessoas - que os revolucionários já estão em guerra contra o exército. Mas isso exige que tenhamos habilidade para explicar o significado de nossos atos, o que requer no mínimo alguma capacidade de expressão.

Uma das forças do capital é que o povo - mesmo o proletariado - nem imagina o que o Estado é capaz de fazer numa guerra civil. Talvez se surpreendam, depois. É muito útil frisar agora os aspectos importantes da futura guerra civil. Supostamente, deveríamos contatar elementos radicais (e mesmo "liberais") do próprio exército. Mas tais ações parecem estar totalmente fora da realidade do movimento social. Além disso, já há muitos operários radicais examinando a questão militar.

Não digo que a Angry Brigade, Baader e outros estejam "errados". Digo que foram vítimas de uma espécie de delírio, no qual a lógica da violência e do isolamento social gera mais violência e isolamento social. Expressei apenas visões parciais. Entretanto, nada de bom pode ser feito se não conectarmos nossa atividade agora com o que já sabemos sobre a revolução no futuro. Rejeito a autodestruição. Qualquer tolerância neste assunto é irresponsável e criminosa.

Você deve ter ouvido falar da agitação que se desenvolveu na França em torno da questão do serviço militar obrigatório, nas escolas e universidades. Mas dificilmente você poderia imaginar a ideologia dos grupos trotskistas e maoístas (o partido "comunista" é nacionalista desde 1934). Há poucos dias, li um texto maoísta que pregava o controle popular do exército! Os esquerdistas se recusam a dizer: "Abaixo o serviço militar!", porque acreditam que o exército tal como existe é um pouco mais democrático e popular do que um exército de voluntários. Alguns, pretensamente mais radicais, ousaram dizer: "Abaixo o exército!". Mas ninguém disse uma palavra sobre a guerra civil. Por este motivo, fizemos um panfleto altamente dogmático: no mínimo para estabelecer o princípio de que a questão militar é parte necessária da revolução. Mas é espantoso ver que mesmo revolucionários genuínos adotam uma atitude tão simplória nestes assuntos.

Por favor, encarem essa carta apenas como uma carta, e não como um "texto" propriamente dito.

Fraternalmente,

Jean Barrot


Biblioteca virtual revolucionária

Notas sobre Trotsky, Pannekoek, Bordiga








APÊNDICE 2
Apêndice 2 de Eclipse e Reemergência do Movimento Comunista, de Jean Barrot e François Martin


Pode ser interessante examinar esses três homens, não enquanto indivíduos, mas como pontos de vista, porque na opinião de muitas pessoas que tentam compreender algo hoje em dia, eles representam três diferentes situações e análises.

I
Se voltarmos à querela de Trotsky com Lênin, em 1903-4 e nos anos seguintes, no período "menchevique" de sua vida, devemos admitir que ele corretamente viu o erro na concepção (de Kautsky & Lênin) de que a "consciência de classe" é introduzida no movimento operário pelo "partido". Isso foi explicitado em Nossas Tarefas Políticas, ainda que consideravelmente obscurecido por muitas outras idéias. Mas Trotsky refuta a concepção de Lênin de um ponto de vista democrático: ele não vê o comunismo como abolição da mercadoria e criação de um novo mundo, mas como domínio dos operários sobre a sociedade. Portanto, ele critica Lênin por substituir o proletariado pelo partido. Mas a teoria de Lênin deve ser refutada por outro ângulo: Lênin não viu o que Marx havia tentado mostrar. Transformado numa mercadoria e tendo todos os aspectos de sua vida reduzidos a mercadorias, o proletariado, quando o capital o força à revolta (por exemplo, depois de uma crise), não pode evitar a destruição da economia e todas as suas conseqüências sobre o trabalho, as relações pessoais, a vida afetiva, o uso do espaço e da natureza, a representação etc. Lênin, como os militantes da Segunda Internacional, não viu que o programa comunista era imanente ao proletariado. Essas pessoas ignoraram a dinâmica do capital, e o que o comunismo realmente é. Todas as contribuições para a discussão da crise - de Luxemburgo, Hilferding etc, a maioria das quais tinha uma concepção puramente econômica – focavam o problema do ponto de vista do capital: porque ele não podia funcionar. E não do ponto de vista do proletariado: como a revolta dos operários cria novas relações sociais. Isso não significa dizer que o comunismo surge apenas da ação dos proletários. Pelo contrário, eles só atacam o capital porque o capital os ataca devido a seus problemas internos - a queda da taxa de lucro etc. Mas isso não basta para entender as crises econômicas; é necessário compreender também o que elas implicam para o proletariado.

Porém, isso não foi compreendido naquela época, devido a estabilidade e prosperidade geral, que levou os revolucionários a cometerem uma série de erros. Um deles foi a incompreensão de que o movimento operário naquela época só podia ser reformista, e também que o movimento social-democrata poderia apenas ser gradualista (com poucas exceções). Em 1914, o colapso da Segunda Internacional lhes mostrou o que os partidos social-democratas realmente pretendiam.

A concepção de Trotsky, sobre a revolução permanente na Rússia, só pode ser entendida nesse contexto. Ele pensava que, depois da revolução democrática (que só poderia ser feita pelos operários e camponeses, pois a burguesia era muito fraca, e Lênin concordava com isso), os operários não podiam deixar de avançar e de tomar o poder, imediatamente - com o apoio dos camponeses pobres - para implantar o socialismo. Foi aí que Lênin não concordou. Agora, é óbvio que o comunismo - como Marx e a teoria comunista o definem - era impossível naquele estágio na Rússia, devido ao enorme setor pré-capitalista. Trotsky não se preocupava com isso, para ele o socialismo equivalia ao poder dos operários. Isto é o que tenho a dizer sobre sua concepção democrática da revolução. Entretanto, o comunismo é uma transformação da vida social, e não apenas sua gestão pelas massas.

Apesar ou, melhor, por causa dessa concepção, Trotsky desempenhou um papel mais importante na revolução de 1905 (porque estava muito mais próximo dos operários) do que Lênin, cuja posição centralista e rígida na cisão do partido social-democrata, em 1903, o havia alienado de muitos proletários atuantes. Lênin desconfiava dos movimentos espontâneos. É possível que os eventos de 1905 o tenham ajudado a modificar sua posição e a se tornar mais eficiente no período de 1906 à 1914.

Durante a guerra, o internacionalismo de Trotsky, assim como o de Rosa Luxemburgo, não era tão radical quanto a posição expressa por Lênin em seu slogan: transformar a guerra imperialista em guerra civil.

Depois que se juntou aos bolcheviques, Trotsky não compreendia muito bem o que estava acontecendo. Antes, ele havia identificado o socialismo com o poder dos operários; agora, identificava o poder dos operários com o poder do partido. Logo, ele concluiu que a Rússia estava construindo o socialismo. Em Comunismo e Terrorismo, ele afirmou que o dever dos operários era obedecer ao Estado (operário) e que o socialismo significava disciplina e alta produtividade do trabalho. Lênin agiu da mesma forma, mas ele pelo menos tinha alguma noção de comunismo. Ele mais ou menos compreendeu que a Rússia não era e só poderia ser socialista com a vitória do proletariado na Europa.

Devemos ser muito cuidadosos nesta questão. Trotsky realmente acreditava que o capitalismo poderia ser evitado na Rússia, mesmo sem uma revolução na Europa. É verdade que ele não foi tão longe a ponto de acreditar que a Rússia era completamente socialista. Este é o motivo pelo qual ele inventou um estágio intermediário, nem capitalista nem socialista, e uma fantástica teoria do bonapartismo.

Trotsky participou ativamente na supressão de toda oposição que tivesse algum conteúdo comunista. Sua própria oposição era oportunista (aliou-se com Zinoviev, em 1926) e temia ameaçar o Estado. Ele organizou sua própria derrota. Quantas pessoas sabem hoje que ele se absteve de toda atividade política durante um ano e meio, entre 1925-1926? Não há necessidade de insistir nesse assunto.

A nível internacional, ele foi incapaz de compreender os esforços das minorias comunistas e apoiou a Terceira Internacional em todos os seus erros (atividade nos sindicatos e parlamentos, partidos de "massa", slogan de governo operário etc). Depois de ser expulso da Rússia, ele foi totalmente incapaz de estabelecer qualquer espécie de contato útil com os grupos revolucionários. Ele se recusou a discutir a validade dos notórios "quatro primeiros congressos da Internacional Comunista." Foi sectário e oportunista, tinha uma visão burocrática da revolução. Na França, por exemplo, ele apoiou pessoas que não tinham ligações com proletários nem aptidões revolucionárias, mas eram intelectuais de esquerda. Uma lista de todas as suas asneiras políticas seria assombrosa. Em busca de uma massa de seguidores, ele exortou seus adeptos a se filiarem aos partidos socialistas. Ele fundou uma Internacional que tinha programa mas não proletários. Estava sempre procurando novos truques para ir às massas, mas sempre fracassou. De fato, Trotsky não tinha programa. Deve ser reconhecido como um ativo militante, cheio de atividade e habilidade, mas carente de base teórica comunista. Ele foi excelente no ascenso do movimento insurrecional, em 1905, mas equivocou-se completamente no declínio. Então, ele poderia se tornar o pior dos burocratas se estivesse no poder; ou um causador de problemas, se não tivesse poder algum. É discutível que ele sempre teve uma teoria própria, excetuada a teoria da revolução permanente - e ninguém sabe exatamente o papel de Parvus na criação dessa teoria.

Trotsky tornou-se uma figura importante, como um símbolo da revolução russa. Depois da derrota do movimento revolucionário, ele permaneceu importante apenas por causa da fraqueza da minoria comunista.

II
Pannekoek (1873-1960) não é muito conhecido no ocidente. Há poucos anos somente um punhado de militantes e especialistas universitários haviam escutado falar dele. Suas idéias e seu passado estão retornando, porque o período atual está recriando as condições de seu tempo - mas com importantes diferenças que nos forçam a corrigir suas concepções.

Pannekoek era holandês, mas a maior parte de sua atividade ocorreu na Alemanha. Ele foi um dos poucos socialistas que manteve viva a tradição revolucionária anterior a 1914. Mas ele só assumiu posições radicais durante e após a guerra. Seu texto de 1920, Revolução Mundial e Tática Comunista, é uma das melhores obras desse período. Pannekoek viu que o fracasso da Segunda Internacional não era devido a uma falha de sua estratégia, mas que a própria estratégia se enraizava na função e na forma da Segunda Internacional, que se adaptara a um estágio preciso do capitalismo no qual os operários reivindicavam reformas econômicas e políticas. Para fazer a revolução, o proletariado teve que criar órgãos de um novo tipo, que ultrapassavam a velha dicotomia partido/sindicato. Neste ponto, ele não pôde evitar uma ruptura com a Internacional Comunista. Primeiro, porque os russos jamais compreenderam o que a velha Internacional tinha sido, e acreditavam ser possível organizar os operários de cima, sem ver a conexão entre a "consciência socialista" (segundo Kautsky, introduzida nas massas) e a posição contra-revolucionária de Kautsky; segundo, porque o Estado russo estimulava os partidos de massa na Europa, capazes de pressionar seus governos para negociar com a Rússia. Pannekoek expressou o elemento comunista real na Alemanha. Rapidamente, porém, ele foi derrotado e vários partidos comunistas de massa apareceram no ocidente. Então, a esquerda comunista foi reduzida a pequenos grupos, divididos em diferentes frações.

No início dos anos 30, Pannekoek e outros tentaram definir o comunismo. Dez anos antes, no início dos anos 20, já tinham denunciado a Rússia como capitalista. Agora, voltaram à análise de Marx sobre o valor. Eles afirmavam que o capitalismo é produção para a acumulação de valor, enquanto o comunismo é produção de valor de uso, para a satisfação das necessidades das pessoas. Mas algum planejamento é necessário: sem a mediação do dinheiro, a sociedade terá de organizar um rigoroso sistema de contabilidade, para se manter informada sobre a quantidade de tempo de trabalho contida em cada bem produzido. Uma contabilidade precisa cuidará para que nada seja desperdiçado. Pannekoek e seus amigos estavam certos em voltar ao valor e suas aplicações. Mas se equivocavam ao procurar um sistema de contabilidade racional baseado no tempo de trabalho. De fato, o que eles propõem é o domínio do valor (porque o valor nada mais é do que a quantidade de tempo de trabalho socialmente necessário para produzir um bem) sem a intervenção do dinheiro. Deve-se acrescentar que isso foi atacado por Marx em 1857, no início dos Grundrisse. Mas a esquerda comunista alemã (e holandesa) pelo menos enfatizou a essência da teoria comunista.

Na guerra civil alemã, de 1919 a 1923, os proletários mais ativos criaram novas formas de organização, principalmente o que eles chamaram "uniões operárias" [1] e às vezes "conselhos". No entanto, a maioria dos conselhos operários era reformista. Pannekoek desenvolveu a idéia de que essas formas eram importantes, de fato vitais para o movimento, enquanto opostas à tradicional forma partidária. Foi neste ponto que o comunismo de conselhos atacou o comunismo de partido. Pannekoek desenvolveria isso plenamente. Até o fim da segunda guerra mundial, ele publicou Os Conselhos Operários, elaborando uma ideologia puramente conselhista, na qual a revolução se torna um processo democrático, decidido e controlado pelos operários durante todo o tempo. O socialismo é reduzido à gestão operária; os revolucionários devem apenas se corresponder, divulgar a teoria, fazer circular a informação e descrever o que os proletários estão fazendo. Mas não devem se organizar como grupo político permanente, tentar definir uma estratégia, ou agir conseqüentemente, evitando assim se tornarem os novos líderes do proletariado e mais tarde a nova classe dominante. Tentei mostrar o quanto isso é errado no capítulo "Leninismo e a Extrema Esquerda", publicado em 1969 como panfleto.

Da análise da Rússia, enquanto capitalista de Estado, Pannekoek voltou-se à análise daqueles que, no países ocidentais, agem como representantes dos operários no capitalismo, sobretudo os sindicatos.

Pannekoek estava familiarizado com as formas diretas de resistência do proletariado contra o capital, e compreendeu o triunfo da contra-revolução. Mas não entendeu o contexto geral do movimento comunista: sua base (transformação do operário numa mercadoria), sua luta (ação centralizada contra o Estado e o movimento operário existente), seu objetivo (criação de novas relações sociais, nas quais não há economia enquanto tal). Ele assumiu um importante papel na reforma do movimento revolucionário. Devemos ver os limites de sua contribuição, e então integrá-la numa reformulação geral da teoria comunista.

III
Bordiga (1889-1970) viveu numa situação diferente. Como Pannekoek, que havia lutado contra o reformismo antes da guerra e abandonou o partido socialista holandês para criar um novo, Bordiga pertenceu à esquerda de seu partido. Mas não foi tão longe quanto Pannekoek. Durante a primeira guerra mundial, o partido italiano tinha uma imagem radical, e não havia possibilidade de cisão. O partido inclusive se opôs à guerra, ainda que de uma forma mais ou menos passiva.

Quando o partido comunista italiano foi fundado, em 1921, rompeu com a direita e o centro do partido socialista. Este fato desagradou a Internacional Comunista. Bordiga dirigiu o partido. Ele se recusou participar nas eleições, não como questão de princípio, mas de tática. A atividade parlamentar poderia às vezes ser usada, mas nunca quando a burguesia pode utilizá-la para distrair os operários da luta de classes. Mais tarde, Bordiga escreveu que não era contra o uso do parlamento como uma tribuna quando isso fosse possível. Por exemplo, no início do fascismo, fazia sentido tentar usá-lo como uma tribuna. Mas em 1919, no meio de um movimento revolucionário, quando a insurreição e sua preparação estavam na ordem do dia, tomar parte nas eleições significava reforçar as mentiras burguesas e as concepções equivocadas sobre a possibilidade de uma mudança através do parlamento. Esse foi um tema importante para Bordiga, cujo grupo no partido socialista havia sido chamado de "fração abstencionista". A Internacional Comunista não concordou com isso. Considerando um problema de tática e não de estratégia, Bordiga decidiu obedecer à I.C., porque pensava que a disciplina era necessária em tal movimento, mas manteve sua posição.

As táticas de frente única foram o pomo da discórdia. Pareceu a Bordiga que o simples fato de convidar os partidos socialistas para uma ação comum confundiria as massas e camuflaria a oposição inconciliável desses partidos contra-revolucionários ao comunismo. E também ajudaria alguns partidos comunistas, que não haviam realmente rompido com o reformismo, a desenvolver tendências oportunistas.

Bordiga se opôs ao slogan de governo operário, que só criou confusão na teoria e na prática. Para ele, a ditadura do proletariado era uma parte necessária do programa revolucionário. Hoje, podemos ver que ele estava certo nessas duas questões. Entretanto, diferente de Pannekoek, recusou-se a explicar essas posições em termos da degeneração do partido e Estado Russos. Ele sentiu que a I.C. estava equivocada, porém acreditava que ela ainda fosse comunista.

Diferentemente da Internacional Comunista, Bordiga adotou uma clara posição sobre o fascismo. Ele não apenas considerou o fascismo uma forma de dominação burguesa, como a democracia; mas também acreditou que não havia que escolher entre elas. Esta questão tem sido debatida freqüentemente. A posição da esquerda italiana é geralmente distorcida. Os historiadores costumam considerar Bordiga como responsável pela subida de Mussolini ao poder. Ele é até mesmo acusado de não se preocupar com o sofrimento do povo sob o fascismo. Porém, na visão de Bordiga, não é verdade que o fascismo é pior do que a democracia, ou que a democracia cria melhores condições para a luta da classe proletária. Mesmo se a democracia fosse considerada como um mal menor do que o fascismo, seria estúpido e inútil apoiar a democracia para evitar o fascismo: a experiência italiana (e, depois, a alemã) mostrou que a democracia não havia sido apenas impotente perante o fascismo, mas que havia chamado o fascismo em seu socorro. Com medo do proletariado, a democracia realmente engendra o fascismo. A única alternativa ao fascismo era, portanto, a ditadura do proletariado.

Outro argumento foi defendido mais tarde pela esquerda - pelos trotskistas, por exemplo - para apoiar a política antifascista. O capital necessita do fascismo: ele não pode ser democrático. Portanto, se lutamos pela democracia, nós estamos na verdade lutando pelo socialismo. Foi assim que a maioria das pessoas da esquerda (de fato, quase todas elas) justificou sua atitude durante a segunda guerra mundial. Mas se a democracia cria o fascismo, o fascismo cria a democracia. A história tem demonstrado que o que Bordiga afirmou em teoria se realiza na prática: o capitalismo substitui um pelo outro; democracia e fascismo sucedem-se um ao outro. Ambas as formas têm se misturado e interpenetrado, desde 1945.

É claro que a Internacional Comunista não podia tolerar a oposição de Bordiga, e, entre 1923 e 1926, ele perdeu o controle do Partido Comunista Italiano [2]. Apesar de não concordar totalmente com Trotsky, ele o apoiou contra Stálin. No Comitê Executivo da Internacional Comunista, em 1926, ele atacou os líderes russos: esta foi provavelmente a última vez que alguém atacou publicamente a I.C., de dentro e num nível tão alto. Ainda aqui, é importante notar que Bordiga não analisou a Rússia como capitalista e a I.C. como degenerada. Ele só rompeu realmente com o stalinismo alguns anos depois.

Bordiga esteve preso de 1926 a 1930. Durante os anos 30, ele permaneceu afastado da intensa política dos emigrados. Mas sua influência foi grande e seus companheiros foram muito ativos na produção teórica.

Os anos 30 foram dominados pelo antifascismo e pelas frentes populares, que conduziram as preparações para uma nova guerra mundial. A minúscula esquerda italiana emigrante argumentava que a próxima guerra só poderia ser imperialista. A luta contra o fascismo através do apoio à democracia foi vista como uma preparação material e ideológica para essa guerra.

Depois do início da guerra, havia pouca oportunidade para a ação comunista. As esquerdas italiana e alemã adotaram uma posição internacionalista. Enquanto isso, o trotskismo escolheu apoiar os aliados contra o eixo. Naquela época, Bordiga ainda se recusava a definir a Rússia como capitalista, mas ele nunca defendeu - como o fez Trotsky - apoiar qualquer lado com que a União Soviética se aliasse. Ele jamais concordou com a defesa do "Estado Operário". É bom lembrar que, quando a Rússia, junto com a Alemanha, invadiu e dividiu a Polônia em 1939, Trotsky disse que isso era positivo, porque alteraria as relações sociais polonesas de um modo socialista!

Em 1943, a Itália mudou de lado e a República foi criada, dando oportunidades para ação. A esquerda italiana criou um partido. Eles sentiam que o fim da guerra levaria a lutas de classe similares em natureza àquelas do fim da primeira guerra. Bordiga realmente acreditava nisso? Ele aparentemente compreendeu que a situação era muito diferente. A classe operária estava nessa época totalmente sob controle do capital, que havia conseguido manobrá-la sob a bandeira da democracia. Quanto aos perdedores (Alemanha e Japão), foram ocupados e portanto controlados pelos vencedores. Mas Bordiga não se opôs de fato às opiniões da parte otimista de seu grupo, e manteve essa atitude até sua morte. Ele tendia a se manter afastado da atividade (e do ativismo) de seu "partido", e estava mais interessado na compreensão e explanação teórica. Portanto, ele ajudou a criar e perpetuar ilusões com as quais discordava. Seu partido perdeu a maioria de seus membros em poucos anos. No fim de 1940, estava reduzido a um pequeno grupo, como antes da guerra.

A maior parte da obra de Bordiga foi teórica. Uma parte considerável tratava da Rússia. Ele mostrou que a Rússia era capitalista e que seu capitalismo não era diferente em natureza do ocidental. A esquerda alemã (ou extrema esquerda) estava equivocada nessa questão. Para Bordiga, a coisa importante não era a burocracia, mas as leis econômicas essenciais que a burocracia devia obedecer. Essas leis foram as mesmas descritas em O Capital: acumulação de valor, troca de mercadorias, declínio da taxa de lucro etc. Na verdade, a economia russa não sofreu devido à superprodução, mas somente por causa de seu atraso. A extrema esquerda acreditava que a Rússia havia alterado as leis básicas descritas por Marx. Ela insistia no controle da economia pela burocracia, à qual opunha o slogan da gestão operária. Bordiga disse que não havia necessidade de um novo programa; a gestão operária é um problema secundário; os operários somente serão capazes de gerir a produção se as relações mercantis forem abolidas. É claro que esse debate ultrapassou o quadro da análise da Rússia.

Essa concepção tornou-se clara, no final dos anos 50. Bordiga escreveu alguns estudos sobre os textos mais importantes de Marx. Em 1960, ele afirmou que toda a obra de Marx era uma descrição do comunismo. Este é, indubitavelmente, o comentário mais profundo feito sobre Marx. Assim como Pannekoek havia voltado à análise do valor por volta de 1930, Bordiga voltou a ela trinta anos depois. Mas o que Bordiga desenvolveu foi uma concepção geral do processo e dinâmica da troca, de sua origem à sua morte no comunismo.

Entretanto, Bordiga engavetava sua teoria do movimento revolucionário, que incluía uma compreensão errada da dinâmica interna do proletariado. Ele pensou que os operários primeiramente se uniriam num nível econômico e alterariam a natureza dos sindicatos; eles então alcançariam o nível político, graças à intervenção da vanguarda revolucionária. É fácil ver aqui a influência de Lênin. O pequeno partido de Bordiga participou de sindicatos (controlados pelo partido stalinista) na França e Itália, sem resultado algum. Ainda que mais ou menos desaprovasse isso, ele não assumiu uma posição pública contra tal atividade desastrosa.

Bordiga manteve vivo o núcleo da teoria comunista. Mas não pôde se livrar das ilusões de Lênin, ou seja, as da Segunda Internacional. Portanto, sua ação e suas idéias tinham de ser contraditórias. Mas hoje não é difícil compreender aquilo que foi - e ainda é - válido em seu trabalho.

IV
Existem muitas lendas sobre os que tentaram resistir e manter viva a tradição revolucionária durante a longa contra-revolução que vivenciamos desde o início dos anos 20. Como a teoria é parte necessária e indispensável da subversão (todo movimento social quer compreender o que está fazendo), e já que a tradição marxista é a mais precisa e, de fato, a única válida, seria útil conhecer as tendências representadas por Trotsky, Pannekoek e Bordiga.

A primeira coisa a saber é o que eles realmente representam. Trotsky liderou uma facção no Estado Russo, e só se tornou oposicionista porque foi expulso do círculo interno dos líderes russos. Ele sempre se considerou um cidadão da União Soviética, cujos interesses eram mais importantes para ele do que os do proletariado. Na Rússia, ele foi contra qualquer oposição que tivesse um real conteúdo proletário, quaisquer que fossem as suas deficiências - como a Oposição Operária (1920-1921), o Grupo Operário (1921-1922) e até mesmo os centralistas democratas. Fora da Rússia, ele nunca tentou ver o que os comunistas de esquerda europeus (na Itália, Alemanha e outros países) realmente foram. Morreu sem ter aprendido nada. É difícil encontrar em sua obra alguma coisa que possa ser útil, hoje em dia. Muitas pessoas foram atraídas por seu prestígio e ainda o são. Mas quem procura algo verdadeiramente radical e tenta formular questões fundamentais deve ir além dele. Trotsky foi um excelente revolucionário, numa parte de sua vida. Mas pertence ao passado.Pannekoek e Bordiga são essencialmente diferentes. Eles são produtos dos melhores elementos da onda revolucionária na Europa, depois da primeira guerra mundial. Seguramente, devem existir militantes similares em outras partes do mundo, no mínimo nos países altamente desenvolvidos - no Japão por exemplo. Talvez seja instrutivo examinar isso.

Pannekoek entendeu e expressou a resistência do proletariado à contra-revolução, num nível imediato. Viu os sindicatos como um monopólio do capital variável, similar aos monopólios que concentram o capital constante. Descreveu a revolução como apropriação da vida pelas massas, contra o produtivismo, a hierarquia e a visão nacionalista do "socialismo" stalinista e social-democrata (compartilhada pelo trotskismo, e agora pelo maoísmo). Mas não apreendeu a natureza do capital, ou a natureza da mudança que o comunismo acarretaria. Em sua forma extrema, desenvolvida por Pannekoek no fim de sua vida, o comunismo de conselhos se torna um sistema de organização no qual os conselhos assumem o mesmo papel que o "partido" desempenha na visão leninista. Mas seria um erro grave identificar Pannekoek com seu pior período. Do mesmo modo, não se pode aceitar a teoria da gestão operária, especialmente numa época em que o capital procura novas maneiras de integrar os proletários, oferecendo-lhes a participação em sua gestão.

Este é precisamente o motivo pelo qual Bordiga é importante: porque ele considerou toda a obra de Marx como uma tentativa de descrever o comunismo. O comunismo existe potencialmente no proletariado. O proletariado é a negação desta sociedade. Ele irá eventualmente se revoltar contra a produção de mercadorias, nem que seja apenas para sobreviver, porque a produção de mercadorias o destrói, até mesmo fisicamente. A revolução não é uma questão de consciência, tampouco um problema de gestão. Isso faz Bordiga ser muito diferente da Segunda Internacional, de Lênin, e da Internacional Comunista oficial. Mas ele nunca tentou traçar uma linha entre o presente e o passado. [3] Agora, nós podemos fazê-lo.

Janeiro, 1973

Notas

[1] Nesse contexto, a palavra alemã não tem nada a ver com a palavra trade-unions = sindicatos (que são chamados de Gewerkschaften em alemão). As "uniões operárias" ("unions") lutavam contra as trade-unions.

[2] Quando tinha a maioria, ele renunciou em favor de Gramsci, contrariando as normas.

[3] Veja, por exemplo, The Fundamentals of Revolucionary Communism, Partido comunista Internacional, Paris, 1972 (em inglês).


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segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Notas sobre Trotsky, Pannekoek, Bordiga


APÊNDICE 2
Apêndice 2 de Eclipse e Reemergência do Movimento Comunista, de Jean Barrot e François Martin


Notas sobre Trotsky, Pannekoek, Bordiga

Pode ser interessante examinar esses três homens, não enquanto indivíduos, mas como pontos de vista, porque na opinião de muitas pessoas que tentam compreender algo hoje em dia, eles representam três diferentes situações e análises.

I
Se voltarmos à querela de Trotsky com Lênin, em 1903-4 e nos anos seguintes, no período "menchevique" de sua vida, devemos admitir que ele corretamente viu o erro na concepção (de Kautsky & Lênin) de que a "consciência de classe" é introduzida no movimento operário pelo "partido". Isso foi explicitado em Nossas Tarefas Políticas, ainda que consideravelmente obscurecido por muitas outras idéias. Mas Trotsky refuta a concepção de Lênin de um ponto de vista democrático: ele não vê o comunismo como abolição da mercadoria e criação de um novo mundo, mas como domínio dos operários sobre a sociedade. Portanto, ele critica Lênin por substituir o proletariado pelo partido. Mas a teoria de Lênin deve ser refutada por outro ângulo: Lênin não viu o que Marx havia tentado mostrar. Transformado numa mercadoria e tendo todos os aspectos de sua vida reduzidos a mercadorias, o proletariado, quando o capital o força à revolta (por exemplo, depois de uma crise), não pode evitar a destruição da economia e todas as suas conseqüências sobre o trabalho, as relações pessoais, a vida afetiva, o uso do espaço e da natureza, a representação etc. Lênin, como os militantes da Segunda Internacional, não viu que o programa comunista era imanente ao proletariado. Essas pessoas ignoraram a dinâmica do capital, e o que o comunismo realmente é. Todas as contribuições para a discussão da crise - de Luxemburgo, Hilferding etc, a maioria das quais tinha uma concepção puramente econômica – focavam o problema do ponto de vista do capital: porque ele não podia funcionar. E não do ponto de vista do proletariado: como a revolta dos operários cria novas relações sociais. Isso não significa dizer que o comunismo surge apenas da ação dos proletários. Pelo contrário, eles só atacam o capital porque o capital os ataca devido a seus problemas internos - a queda da taxa de lucro etc. Mas isso não basta para entender as crises econômicas; é necessário compreender também o que elas implicam para o proletariado.

Porém, isso não foi compreendido naquela época, devido a estabilidade e prosperidade geral, que levou os revolucionários a cometerem uma série de erros. Um deles foi a incompreensão de que o movimento operário naquela época só podia ser reformista, e também que o movimento social-democrata poderia apenas ser gradualista (com poucas exceções). Em 1914, o colapso da Segunda Internacional lhes mostrou o que os partidos social-democratas realmente pretendiam.

A concepção de Trotsky, sobre a revolução permanente na Rússia, só pode ser entendida nesse contexto. Ele pensava que, depois da revolução democrática (que só poderia ser feita pelos operários e camponeses, pois a burguesia era muito fraca, e Lênin concordava com isso), os operários não podiam deixar de avançar e de tomar o poder, imediatamente - com o apoio dos camponeses pobres - para implantar o socialismo. Foi aí que Lênin não concordou. Agora, é óbvio que o comunismo - como Marx e a teoria comunista o definem - era impossível naquele estágio na Rússia, devido ao enorme setor pré-capitalista. Trotsky não se preocupava com isso, para ele o socialismo equivalia ao poder dos operários. Isto é o que tenho a dizer sobre sua concepção democrática da revolução. Entretanto, o comunismo é uma transformação da vida social, e não apenas sua gestão pelas massas.

Apesar ou, melhor, por causa dessa concepção, Trotsky desempenhou um papel mais importante na revolução de 1905 (porque estava muito mais próximo dos operários) do que Lênin, cuja posição centralista e rígida na cisão do partido social-democrata, em 1903, o havia alienado de muitos proletários atuantes. Lênin desconfiava dos movimentos espontâneos. É possível que os eventos de 1905 o tenham ajudado a modificar sua posição e a se tornar mais eficiente no período de 1906 à 1914.

Durante a guerra, o internacionalismo de Trotsky, assim como o de Rosa Luxemburgo, não era tão radical quanto a posição expressa por Lênin em seu slogan: transformar a guerra imperialista em guerra civil.

Depois que se juntou aos bolcheviques, Trotsky não compreendia muito bem o que estava acontecendo. Antes, ele havia identificado o socialismo com o poder dos operários; agora, identificava o poder dos operários com o poder do partido. Logo, ele concluiu que a Rússia estava construindo o socialismo. Em Comunismo e Terrorismo, ele afirmou que o dever dos operários era obedecer ao Estado (operário) e que o socialismo significava disciplina e alta produtividade do trabalho. Lênin agiu da mesma forma, mas ele pelo menos tinha alguma noção de comunismo. Ele mais ou menos compreendeu que a Rússia não era e só poderia ser socialista com a vitória do proletariado na Europa.

Devemos ser muito cuidadosos nesta questão. Trotsky realmente acreditava que o capitalismo poderia ser evitado na Rússia, mesmo sem uma revolução na Europa. É verdade que ele não foi tão longe a ponto de acreditar que a Rússia era completamente socialista. Este é o motivo pelo qual ele inventou um estágio intermediário, nem capitalista nem socialista, e uma fantástica teoria do bonapartismo.

Trotsky participou ativamente na supressão de toda oposição que tivesse algum conteúdo comunista. Sua própria oposição era oportunista (aliou-se com Zinoviev, em 1926) e temia ameaçar o Estado. Ele organizou sua própria derrota. Quantas pessoas sabem hoje que ele se absteve de toda atividade política durante um ano e meio, entre 1925-1926? Não há necessidade de insistir nesse assunto.

A nível internacional, ele foi incapaz de compreender os esforços das minorias comunistas e apoiou a Terceira Internacional em todos os seus erros (atividade nos sindicatos e parlamentos, partidos de "massa", slogan de governo operário etc). Depois de ser expulso da Rússia, ele foi totalmente incapaz de estabelecer qualquer espécie de contato útil com os grupos revolucionários. Ele se recusou a discutir a validade dos notórios "quatro primeiros congressos da Internacional Comunista." Foi sectário e oportunista, tinha uma visão burocrática da revolução. Na França, por exemplo, ele apoiou pessoas que não tinham ligações com proletários nem aptidões revolucionárias, mas eram intelectuais de esquerda. Uma lista de todas as suas asneiras políticas seria assombrosa. Em busca de uma massa de seguidores, ele exortou seus adeptos a se filiarem aos partidos socialistas. Ele fundou uma Internacional que tinha programa mas não proletários. Estava sempre procurando novos truques para ir às massas, mas sempre fracassou. De fato, Trotsky não tinha programa. Deve ser reconhecido como um ativo militante, cheio de atividade e habilidade, mas carente de base teórica comunista. Ele foi excelente no ascenso do movimento insurrecional, em 1905, mas equivocou-se completamente no declínio. Então, ele poderia se tornar o pior dos burocratas se estivesse no poder; ou um causador de problemas, se não tivesse poder algum. É discutível que ele sempre teve uma teoria própria, excetuada a teoria da revolução permanente - e ninguém sabe exatamente o papel de Parvus na criação dessa teoria.

Trotsky tornou-se uma figura importante, como um símbolo da revolução russa. Depois da derrota do movimento revolucionário, ele permaneceu importante apenas por causa da fraqueza da minoria comunista.

II
Pannekoek (1873-1960) não é muito conhecido no ocidente. Há poucos anos somente um punhado de militantes e especialistas universitários haviam escutado falar dele. Suas idéias e seu passado estão retornando, porque o período atual está recriando as condições de seu tempo - mas com importantes diferenças que nos forçam a corrigir suas concepções.

Pannekoek era holandês, mas a maior parte de sua atividade ocorreu na Alemanha. Ele foi um dos poucos socialistas que manteve viva a tradição revolucionária anterior a 1914. Mas ele só assumiu posições radicais durante e após a guerra. Seu texto de 1920, Revolução Mundial e Tática Comunista, é uma das melhores obras desse período. Pannekoek viu que o fracasso da Segunda Internacional não era devido a uma falha de sua estratégia, mas que a própria estratégia se enraizava na função e na forma da Segunda Internacional, que se adaptara a um estágio preciso do capitalismo no qual os operários reivindicavam reformas econômicas e políticas. Para fazer a revolução, o proletariado teve que criar órgãos de um novo tipo, que ultrapassavam a velha dicotomia partido/sindicato. Neste ponto, ele não pôde evitar uma ruptura com a Internacional Comunista. Primeiro, porque os russos jamais compreenderam o que a velha Internacional tinha sido, e acreditavam ser possível organizar os operários de cima, sem ver a conexão entre a "consciência socialista" (segundo Kautsky, introduzida nas massas) e a posição contra-revolucionária de Kautsky; segundo, porque o Estado russo estimulava os partidos de massa na Europa, capazes de pressionar seus governos para negociar com a Rússia. Pannekoek expressou o elemento comunista real na Alemanha. Rapidamente, porém, ele foi derrotado e vários partidos comunistas de massa apareceram no ocidente. Então, a esquerda comunista foi reduzida a pequenos grupos, divididos em diferentes frações.

No início dos anos 30, Pannekoek e outros tentaram definir o comunismo. Dez anos antes, no início dos anos 20, já tinham denunciado a Rússia como capitalista. Agora, voltaram à análise de Marx sobre o valor. Eles afirmavam que o capitalismo é produção para a acumulação de valor, enquanto o comunismo é produção de valor de uso, para a satisfação das necessidades das pessoas. Mas algum planejamento é necessário: sem a mediação do dinheiro, a sociedade terá de organizar um rigoroso sistema de contabilidade, para se manter informada sobre a quantidade de tempo de trabalho contida em cada bem produzido. Uma contabilidade precisa cuidará para que nada seja desperdiçado. Pannekoek e seus amigos estavam certos em voltar ao valor e suas aplicações. Mas se equivocavam ao procurar um sistema de contabilidade racional baseado no tempo de trabalho. De fato, o que eles propõem é o domínio do valor (porque o valor nada mais é do que a quantidade de tempo de trabalho socialmente necessário para produzir um bem) sem a intervenção do dinheiro. Deve-se acrescentar que isso foi atacado por Marx em 1857, no início dos Grundrisse. Mas a esquerda comunista alemã (e holandesa) pelo menos enfatizou a essência da teoria comunista.

Na guerra civil alemã, de 1919 a 1923, os proletários mais ativos criaram novas formas de organização, principalmente o que eles chamaram "uniões operárias" [1] e às vezes "conselhos". No entanto, a maioria dos conselhos operários era reformista. Pannekoek desenvolveu a idéia de que essas formas eram importantes, de fato vitais para o movimento, enquanto opostas à tradicional forma partidária. Foi neste ponto que o comunismo de conselhos atacou o comunismo de partido. Pannekoek desenvolveria isso plenamente. Até o fim da segunda guerra mundial, ele publicou Os Conselhos Operários, elaborando uma ideologia puramente conselhista, na qual a revolução se torna um processo democrático, decidido e controlado pelos operários durante todo o tempo. O socialismo é reduzido à gestão operária; os revolucionários devem apenas se corresponder, divulgar a teoria, fazer circular a informação e descrever o que os proletários estão fazendo. Mas não devem se organizar como grupo político permanente, tentar definir uma estratégia, ou agir conseqüentemente, evitando assim se tornarem os novos líderes do proletariado e mais tarde a nova classe dominante. Tentei mostrar o quanto isso é errado no capítulo "Leninismo e a Extrema Esquerda", publicado em 1969 como panfleto.

Da análise da Rússia, enquanto capitalista de Estado, Pannekoek voltou-se à análise daqueles que, no países ocidentais, agem como representantes dos operários no capitalismo, sobretudo os sindicatos.

Pannekoek estava familiarizado com as formas diretas de resistência do proletariado contra o capital, e compreendeu o triunfo da contra-revolução. Mas não entendeu o contexto geral do movimento comunista: sua base (transformação do operário numa mercadoria), sua luta (ação centralizada contra o Estado e o movimento operário existente), seu objetivo (criação de novas relações sociais, nas quais não há economia enquanto tal). Ele assumiu um importante papel na reforma do movimento revolucionário. Devemos ver os limites de sua contribuição, e então integrá-la numa reformulação geral da teoria comunista.

III
Bordiga (1889-1970) viveu numa situação diferente. Como Pannekoek, que havia lutado contra o reformismo antes da guerra e abandonou o partido socialista holandês para criar um novo, Bordiga pertenceu à esquerda de seu partido. Mas não foi tão longe quanto Pannekoek. Durante a primeira guerra mundial, o partido italiano tinha uma imagem radical, e não havia possibilidade de cisão. O partido inclusive se opôs à guerra, ainda que de uma forma mais ou menos passiva.

Quando o partido comunista italiano foi fundado, em 1921, rompeu com a direita e o centro do partido socialista. Este fato desagradou a Internacional Comunista. Bordiga dirigiu o partido. Ele se recusou participar nas eleições, não como questão de princípio, mas de tática. A atividade parlamentar poderia às vezes ser usada, mas nunca quando a burguesia pode utilizá-la para distrair os operários da luta de classes. Mais tarde, Bordiga escreveu que não era contra o uso do parlamento como uma tribuna quando isso fosse possível. Por exemplo, no início do fascismo, fazia sentido tentar usá-lo como uma tribuna. Mas em 1919, no meio de um movimento revolucionário, quando a insurreição e sua preparação estavam na ordem do dia, tomar parte nas eleições significava reforçar as mentiras burguesas e as concepções equivocadas sobre a possibilidade de uma mudança através do parlamento. Esse foi um tema importante para Bordiga, cujo grupo no partido socialista havia sido chamado de "fração abstencionista". A Internacional Comunista não concordou com isso. Considerando um problema de tática e não de estratégia, Bordiga decidiu obedecer à I.C., porque pensava que a disciplina era necessária em tal movimento, mas manteve sua posição.

As táticas de frente única foram o pomo da discórdia. Pareceu a Bordiga que o simples fato de convidar os partidos socialistas para uma ação comum confundiria as massas e camuflaria a oposição inconciliável desses partidos contra-revolucionários ao comunismo. E também ajudaria alguns partidos comunistas, que não haviam realmente rompido com o reformismo, a desenvolver tendências oportunistas.

Bordiga se opôs ao slogan de governo operário, que só criou confusão na teoria e na prática. Para ele, a ditadura do proletariado era uma parte necessária do programa revolucionário. Hoje, podemos ver que ele estava certo nessas duas questões. Entretanto, diferente de Pannekoek, recusou-se a explicar essas posições em termos da degeneração do partido e Estado Russos. Ele sentiu que a I.C. estava equivocada, porém acreditava que ela ainda fosse comunista.

Diferentemente da Internacional Comunista, Bordiga adotou uma clara posição sobre o fascismo. Ele não apenas considerou o fascismo uma forma de dominação burguesa, como a democracia; mas também acreditou que não havia que escolher entre elas. Esta questão tem sido debatida freqüentemente. A posição da esquerda italiana é geralmente distorcida. Os historiadores costumam considerar Bordiga como responsável pela subida de Mussolini ao poder. Ele é até mesmo acusado de não se preocupar com o sofrimento do povo sob o fascismo. Porém, na visão de Bordiga, não é verdade que o fascismo é pior do que a democracia, ou que a democracia cria melhores condições para a luta da classe proletária. Mesmo se a democracia fosse considerada como um mal menor do que o fascismo, seria estúpido e inútil apoiar a democracia para evitar o fascismo: a experiência italiana (e, depois, a alemã) mostrou que a democracia não havia sido apenas impotente perante o fascismo, mas que havia chamado o fascismo em seu socorro. Com medo do proletariado, a democracia realmente engendra o fascismo. A única alternativa ao fascismo era, portanto, a ditadura do proletariado.

Outro argumento foi defendido mais tarde pela esquerda - pelos trotskistas, por exemplo - para apoiar a política antifascista. O capital necessita do fascismo: ele não pode ser democrático. Portanto, se lutamos pela democracia, nós estamos na verdade lutando pelo socialismo. Foi assim que a maioria das pessoas da esquerda (de fato, quase todas elas) justificou sua atitude durante a segunda guerra mundial. Mas se a democracia cria o fascismo, o fascismo cria a democracia. A história tem demonstrado que o que Bordiga afirmou em teoria se realiza na prática: o capitalismo substitui um pelo outro; democracia e fascismo sucedem-se um ao outro. Ambas as formas têm se misturado e interpenetrado, desde 1945.

É claro que a Internacional Comunista não podia tolerar a oposição de Bordiga, e, entre 1923 e 1926, ele perdeu o controle do Partido Comunista Italiano [2]. Apesar de não concordar totalmente com Trotsky, ele o apoiou contra Stálin. No Comitê Executivo da Internacional Comunista, em 1926, ele atacou os líderes russos: esta foi provavelmente a última vez que alguém atacou publicamente a I.C., de dentro e num nível tão alto. Ainda aqui, é importante notar que Bordiga não analisou a Rússia como capitalista e a I.C. como degenerada. Ele só rompeu realmente com o stalinismo alguns anos depois.

Bordiga esteve preso de 1926 a 1930. Durante os anos 30, ele permaneceu afastado da intensa política dos emigrados. Mas sua influência foi grande e seus companheiros foram muito ativos na produção teórica.

Os anos 30 foram dominados pelo antifascismo e pelas frentes populares, que conduziram as preparações para uma nova guerra mundial. A minúscula esquerda italiana emigrante argumentava que a próxima guerra só poderia ser imperialista. A luta contra o fascismo através do apoio à democracia foi vista como uma preparação material e ideológica para essa guerra.

Depois do início da guerra, havia pouca oportunidade para a ação comunista. As esquerdas italiana e alemã adotaram uma posição internacionalista. Enquanto isso, o trotskismo escolheu apoiar os aliados contra o eixo. Naquela época, Bordiga ainda se recusava a definir a Rússia como capitalista, mas ele nunca defendeu - como o fez Trotsky - apoiar qualquer lado com que a União Soviética se aliasse. Ele jamais concordou com a defesa do "Estado Operário". É bom lembrar que, quando a Rússia, junto com a Alemanha, invadiu e dividiu a Polônia em 1939, Trotsky disse que isso era positivo, porque alteraria as relações sociais polonesas de um modo socialista!

Em 1943, a Itália mudou de lado e a República foi criada, dando oportunidades para ação. A esquerda italiana criou um partido. Eles sentiam que o fim da guerra levaria a lutas de classe similares em natureza àquelas do fim da primeira guerra. Bordiga realmente acreditava nisso? Ele aparentemente compreendeu que a situação era muito diferente. A classe operária estava nessa época totalmente sob controle do capital, que havia conseguido manobrá-la sob a bandeira da democracia. Quanto aos perdedores (Alemanha e Japão), foram ocupados e portanto controlados pelos vencedores. Mas Bordiga não se opôs de fato às opiniões da parte otimista de seu grupo, e manteve essa atitude até sua morte. Ele tendia a se manter afastado da atividade (e do ativismo) de seu "partido", e estava mais interessado na compreensão e explanação teórica. Portanto, ele ajudou a criar e perpetuar ilusões com as quais discordava. Seu partido perdeu a maioria de seus membros em poucos anos. No fim de 1940, estava reduzido a um pequeno grupo, como antes da guerra.

A maior parte da obra de Bordiga foi teórica. Uma parte considerável tratava da Rússia. Ele mostrou que a Rússia era capitalista e que seu capitalismo não era diferente em natureza do ocidental. A esquerda alemã (ou extrema esquerda) estava equivocada nessa questão. Para Bordiga, a coisa importante não era a burocracia, mas as leis econômicas essenciais que a burocracia devia obedecer. Essas leis foram as mesmas descritas em O Capital: acumulação de valor, troca de mercadorias, declínio da taxa de lucro etc. Na verdade, a economia russa não sofreu devido à superprodução, mas somente por causa de seu atraso. A extrema esquerda acreditava que a Rússia havia alterado as leis básicas descritas por Marx. Ela insistia no controle da economia pela burocracia, à qual opunha o slogan da gestão operária. Bordiga disse que não havia necessidade de um novo programa; a gestão operária é um problema secundário; os operários somente serão capazes de gerir a produção se as relações mercantis forem abolidas. É claro que esse debate ultrapassou o quadro da análise da Rússia.

Essa concepção tornou-se clara, no final dos anos 50. Bordiga escreveu alguns estudos sobre os textos mais importantes de Marx. Em 1960, ele afirmou que toda a obra de Marx era uma descrição do comunismo. Este é, indubitavelmente, o comentário mais profundo feito sobre Marx. Assim como Pannekoek havia voltado à análise do valor por volta de 1930, Bordiga voltou a ela trinta anos depois. Mas o que Bordiga desenvolveu foi uma concepção geral do processo e dinâmica da troca, de sua origem à sua morte no comunismo.

Entretanto, Bordiga engavetava sua teoria do movimento revolucionário, que incluía uma compreensão errada da dinâmica interna do proletariado. Ele pensou que os operários primeiramente se uniriam num nível econômico e alterariam a natureza dos sindicatos; eles então alcançariam o nível político, graças à intervenção da vanguarda revolucionária. É fácil ver aqui a influência de Lênin. O pequeno partido de Bordiga participou de sindicatos (controlados pelo partido stalinista) na França e Itália, sem resultado algum. Ainda que mais ou menos desaprovasse isso, ele não assumiu uma posição pública contra tal atividade desastrosa.

Bordiga manteve vivo o núcleo da teoria comunista. Mas não pôde se livrar das ilusões de Lênin, ou seja, as da Segunda Internacional. Portanto, sua ação e suas idéias tinham de ser contraditórias. Mas hoje não é difícil compreender aquilo que foi - e ainda é - válido em seu trabalho.

IV
Existem muitas lendas sobre os que tentaram resistir e manter viva a tradição revolucionária durante a longa contra-revolução que vivenciamos desde o início dos anos 20. Como a teoria é parte necessária e indispensável da subversão (todo movimento social quer compreender o que está fazendo), e já que a tradição marxista é a mais precisa e, de fato, a única válida, seria útil conhecer as tendências representadas por Trotsky, Pannekoek e Bordiga.

A primeira coisa a saber é o que eles realmente representam. Trotsky liderou uma facção no Estado Russo, e só se tornou oposicionista porque foi expulso do círculo interno dos líderes russos. Ele sempre se considerou um cidadão da União Soviética, cujos interesses eram mais importantes para ele do que os do proletariado. Na Rússia, ele foi contra qualquer oposição que tivesse um real conteúdo proletário, quaisquer que fossem as suas deficiências - como a Oposição Operária (1920-1921), o Grupo Operário (1921-1922) e até mesmo os centralistas democratas. Fora da Rússia, ele nunca tentou ver o que os comunistas de esquerda europeus (na Itália, Alemanha e outros países) realmente foram. Morreu sem ter aprendido nada. É difícil encontrar em sua obra alguma coisa que possa ser útil, hoje em dia. Muitas pessoas foram atraídas por seu prestígio e ainda o são. Mas quem procura algo verdadeiramente radical e tenta formular questões fundamentais deve ir além dele. Trotsky foi um excelente revolucionário, numa parte de sua vida. Mas pertence ao passado.Pannekoek e Bordiga são essencialmente diferentes. Eles são produtos dos melhores elementos da onda revolucionária na Europa, depois da primeira guerra mundial. Seguramente, devem existir militantes similares em outras partes do mundo, no mínimo nos países altamente desenvolvidos - no Japão por exemplo. Talvez seja instrutivo examinar isso.

Pannekoek entendeu e expressou a resistência do proletariado à contra-revolução, num nível imediato. Viu os sindicatos como um monopólio do capital variável, similar aos monopólios que concentram o capital constante. Descreveu a revolução como apropriação da vida pelas massas, contra o produtivismo, a hierarquia e a visão nacionalista do "socialismo" stalinista e social-democrata (compartilhada pelo trotskismo, e agora pelo maoísmo). Mas não apreendeu a natureza do capital, ou a natureza da mudança que o comunismo acarretaria. Em sua forma extrema, desenvolvida por Pannekoek no fim de sua vida, o comunismo de conselhos se torna um sistema de organização no qual os conselhos assumem o mesmo papel que o "partido" desempenha na visão leninista. Mas seria um erro grave identificar Pannekoek com seu pior período. Do mesmo modo, não se pode aceitar a teoria da gestão operária, especialmente numa época em que o capital procura novas maneiras de integrar os proletários, oferecendo-lhes a participação em sua gestão.

Este é precisamente o motivo pelo qual Bordiga é importante: porque ele considerou toda a obra de Marx como uma tentativa de descrever o comunismo. O comunismo existe potencialmente no proletariado. O proletariado é a negação desta sociedade. Ele irá eventualmente se revoltar contra a produção de mercadorias, nem que seja apenas para sobreviver, porque a produção de mercadorias o destrói, até mesmo fisicamente. A revolução não é uma questão de consciência, tampouco um problema de gestão. Isso faz Bordiga ser muito diferente da Segunda Internacional, de Lênin, e da Internacional Comunista oficial. Mas ele nunca tentou traçar uma linha entre o presente e o passado. [3] Agora, nós podemos fazê-lo.

Janeiro, 1973

Notas

[1] Nesse contexto, a palavra alemã não tem nada a ver com a palavra trade-unions = sindicatos (que são chamados de Gewerkschaften em alemão). As "uniões operárias" ("unions") lutavam contra as trade-unions.

[2] Quando tinha a maioria, ele renunciou em favor de Gramsci, contrariando as normas.

[3] Veja, por exemplo, The Fundamentals of Revolucionary Communism, Partido comunista Internacional, Paris, 1972 (em inglês).


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Carta aberta à Conferência de Grupos Revolucionários, realizada na Inglaterra em Maio de 1973


Apêndice 1 de Eclipse e Reemergência do Movimento Comunista, de Jean Barrot e François Martin:
Carta aberta à Conferência de Grupos Revolucionários, realizada na Inglaterra em Maio de 1973

NOTA DOS TRADUTORES: Esta carta foi enviada aos grupos que participaram da conferência e algumas pessoas, na Inglaterra e outros lugares, como uma contribuição para a discussão, para ser reproduzida e criticada. Ela resume alguns pontos essenciais, que seus autores deliberadamente simplificaram. Conscientes do caráter abstrato deste texto, queremos que ele seja o ponto de partida para uma discussão maior.

I
Deve-se retornar à análise do capital para compreender a importância das lutas atuais dos proletários, e também a natureza dos grupos revolucionários e nossos problemas. A ação revolucionária não é uma repetição do passado, nem é totalmente diferente do que foi. Não há necessidade de abandonar noções relevantes: devemos compreendê-las e desenvolvê-las.

II
Os conflitos entre lucros e salários são apenas um aspecto de um movimento mais geral. O capital é uma acumulação de valor, isto é, de trabalho abstrato cristalizado [1]. O caráter subversivo do proletariado surge do movimento de valorização e desvalorização. A verdadeira teoria comunista, como foi expressa por Marx e depois esquecida pela maioria dos marxistas, inclusive muitos revolucionários verdadeiros, não separa a “economia” da “luta de classes”. O Capital de Marx destrói os campos especializados de conhecimento. Somente conseguiremos ver os potenciais comunistas no capitalismo se compreendermos a sociedade moderna como um todo.

III
É inútil perder tempo discutindo se as ações proletárias surgem das crises econômicas ou se a luta dos operários cria dificuldades econômicas. O proletariado é uma mercadoria que tende a destruir-se enquanto tal, porque o sistema o ataca e suas condições de vida tornam-se insuportáveis. O capital tenta reduzir os salários e expulsar parte da classe operária da produção: ambas as tendências são conseqüências da acumulação de valor. O proletariado é um valor que não pode mais existir enquanto tal.

IV
A origem da crise não está no esgotamento do mercado, tampouco no aumento dos salários, mas na queda da taxa de lucro, que em si mesma inclui a ação dos operários. Como soma de valor, o capital encontra uma crescente dificuldade de valorizar-se na taxa média. Superprodução e aumento de salários têm sua importância, mas são apenas um momento do processo.

V
A revolução transforma todos os elementos sociais (pessoas, coisas, relações, idéias, natureza etc.) numa comunidade. A base material para tal sociedade já existe, porém todos esses componentes estão ainda dominados pelo valor, seja na forma de capital ou de simples mercadorias. A força de trabalho é uma mercadoria. Ao invés de capacitar o homem para se apropriar do mundo em níveis materiais, intelectuais e afetivos, o trabalho é apenas um meio de incrementar valor [2]. A sabotagem tem sido uma tentativa de livrar-se do valor como relação social. Deve-se ter isso em mente quando se consideram greves selvagens, rebeliões etc., mesmo quando essas ações não assumem e expressam uma perspectiva comunista.
VI
O comunismo não é apenas um estágio que será alcançado no futuro: ele é também a força motriz do movimento atual. Isso nos ajuda a compreender como as rebeliões de Watts, Detroit e Newark (1965-7) atacaram a mercadoria [3], embora não tenham ultrapassado a esfera da distribuição. Isso também nos ajuda a compreender porque os operários da UCS (Upper Clyde Shipyard) na Escócia foram levados a fracassar desde o princípio: não porque sua ação não tenha sido organizada de uma maneira democrática, mas nenhuma mudança decisiva pode ocorrer enquanto os operários permanecerem na esfera da unidade de produção e gestão. O proletariado continua sendo a força revolucionária dominante, mas sua ação ultrapassa o limite da fábrica. A revolução muda a sociedade como um todo.

VII
A crise não pode ser estudada abstraindo o comunismo e vice-versa. Isso não significa que todas as crises têm potencialidades comunistas. O crash de 1929 foi uma crise no interior da economia e sociedade existentes, e não uma crise da economia e da sociedade. Isso ocorreu numa época em que a força social ativa - a classe operária - já havia sido derrotada. Não é o caso de hoje. De agora em diante, a guerra civil é possível, mesmo que as lutas atuais não mostrem uma atividade comunista positiva. Um movimento comunista extremo e violento ainda não surgiu das situações limitadas que têm acontecido.

VIII
A forma do movimento proletário é sempre realizada pelo seu conteúdo, pelo que ele pode de fato fazer em uma dada situação. No passado, uma revolução tinha de desenvolver alguns dos fundamentos do comunismo que ainda não haviam sido totalmente criados pelo capital. Uma mediação econômica e política era necessária, uma organização separada [4]. Os partidos socialistas perderam rapidamente seu impulso “revolucionário”. Organizações unitárias nasceram de uma luta contra o reformismo : a IWW, depois a AAU e AAU-E, na Alemanha [5]. Tinham como objetivo a união geral de militantes radicais e rejeitavam a interferência de grupos políticos. Sua atitude foi certa e ilusória ao mesmo tempo: os limites impostos pela fábrica são tão perigosos quanto os impostos pela política. Quando atacaram a sociedade, assumiram uma forma diferente, como na insurreição do Ruhr (1920). A ação cotidiana por “reformas” ainda tinha um impacto revolucionário. Movimentos como a CIO foram tentativas de lutar por reivindicações operárias da maneira mais intransigente [6]. Esta foi a última luta antes da vitória do capital, a segunda guerra mundial. Hoje em dia, a situação é diferente. O reformismo é planejado pelo capital. As mais importantes greves mostram que os operários se esforçam por algo mais do que as demandas oficiais. A organização não-oficial não é principalmente uma maneira de alcançar reivindicações específicas, mas um modo de criar novas relações para outra luta, que ainda não é possível. Organizações permanentes e formais (tanto política quanto unitária) tendem a funcionar como um fim em si mesmas. A organização revolucionária não pode mais existir enquanto tal, como um instrumento que será usado depois. Ela somente pode ser organização das tarefas.

IX
Esse fenômeno corresponde a uma crise dentro do movimento. Por um lado, a organização é crescentemente necessária; por outro, organizações permanentes e instituídas, que existem independentemente de sua função, são reacionárias. O resultado é a considerável fraqueza do movimento, que é em parte inevitável. Há cinqüenta anos, a necessária existência de grupos formais criou outros perigos. Não existe fórmula mágica. Nosso próprio esforço não tem sido totalmente adequado. Porém, a solução não está numa atitude exclusivamente orientada para a fábrica, mas antes na expressão dos mais profundos aspectos das lutas. Corremos o risco de propor meros “princípios”. A abstração é um sinal de isolamento social. Seja como for, todos os verdadeiros revolucionários estão agora atuando junto com os operários de uma forma ou outra, e muitos deles são operários. Um ponto de vista radical implica a sistemática atividade nessa direção, e não apenas “contatos”.

X
As oposições burocracia x base e maioria x minoria são reais, mas secundárias. O comunismo é o movimento da vasta maioria, e os operários devem controlar sua ação por si mesmos. Neste sentido, o comunismo é “democrático”. O que é errado é sustentar a democracia como princípio. A única posição revolucionária consiste em avançar primeiro o conteúdo do movimento, e depois suas formas. Chefes e líderes sindicais tiram vantagem das ações da minoria e da maioria quando lhes convém. As lutas operárias muito freqüentemente começam pela ação de uma minoria. O comunismo não é o domínio de uma minoria ou da maioria. Tampouco a democracia funciona como um processo normal, sem ser organizada ou mesmo proposta; ela se torna uma instituição que age de um modo conservador, como todas as outras instituições. É basicamente errado enfatizar o momento e o mecanismo da tomada de decisões. Esta separação é típica do capital [7]. Uma iniciativa radical inclui decisões - suas próprias decisões - sem qualquer tomada de decisões. Os trabalhadores devem decidir por si mesmos: mas o que é uma decisão? Ela sempre depende do que já aconteceu. Toda vez que uma decisão revolucionária é alcançada democraticamente, ela já foi preparada previamente. Quem levanta a questão determina a resposta; quem organiza o voto já possui a decisão. Isto não é uma abstração, este problema se apresenta em toda luta. O revolucionário não propõe uma forma diferente de organização, mas uma solução diferente daquela do capital e dos sindicatos.

XI
Os conselhos operários foram uma forma de luta proletária cujo conteúdo comunista não aparece plenamente de um modo positivo. Mesmo na Alemanha, o movimento foi incapaz de alterar a estrutura social. O “comunismo de conselhos”, como oposto ao “comunismo de partido”, enfatizou a forma em detrimento do conteúdo. Pannekoek, em Os Conselhos Operários, define o comunismo como um sistema democrático de contabilidade de valores. O problema com Castoriadis e o Solidarity não é que eles estejam errados sobre as dinâmicas do capitalismo, mas que eles escolheram ignorá-las. No início de 1926, a KAI (Internacional Comunista dos Operários) descreveu o capitalismo como desenvolvimento de um tipo de pirâmide social sem distinções de classe, que é uma visão semelhante a de Castoriadis. Entretanto, a análise do capital como uma acumulação de valor explica como a concorrência cria o monopólio e como a democracia cria a burocracia. O capital se torna burocrático como um resultado de suas leis invariantes. Enquanto princípios, democracia e burocracia são igualmente errados. Ambos implicam a separação entre decisão e ação. A decisão se torna um momento aparentemente “especial” e privilegiado, mas ela é de fato pré-determinada. Numa época em que o proletariado era incapaz de atuar enquanto classe, o comunismo de conselhos ainda era positivo. A contradição fundamental não aparecia. Daí a procura por outra solução, num nível superficial. Isso agora é cada vez mais reacionário. O comunismo deverá derrotar a autogestão e sua ideologia pseudo-operária.

XVII
Combater a rejeição de Marx por Castoriadis é só um passo. A evolução de Socialisme ou Barbarie (1949-65) foi um processo lógico. Em seus primeiros textos, Castoriadis encara o valor como mero instrumento de medida, como um conceito útil, não como a realidade do capital. O comunismo de conselhos jamais concebeu o capitalismo como relação social, mas como sistema de gestão. Em Marx and Keynes [8], Mattick interpreta a análise do valor como uma crítica da natureza superficial da economia clássica: ele não vê a realidade do valor como um mecanismo social.

XIII
Existem e ocorrerão muitas lutas nas quais os elementos comunistas permanecerão muito fracos. Uma visão excessivamente otimista nos levaria a acreditar que estamos à beira da revolução, e isso nos permitiria evitar a questão de nossa própria intervenção. Mas não se pode afirmar que o comunismo não é ativo em casos em que ele não age positivamente. O que os operários radicais não fazem é tão importante quanto o que eles fazem. Nada pode ser eficiente sem uma clara perspectiva comunista. A pesquisa mais minuciosa sobre as greves selvagens ou sobre as taxas de lucro não nos leva a compreender para onde estamos indo.

XIV
Alguns grupos são uma expressão mais “direta” do proletariado. Outros podem ser mais “dogmáticos” quando tentam criticar todo o movimento histórico. Suas origens e experiências são muito diferentes. Os revolucionários são capazes de compreender e criticar uns aos outros. A comunicação é vital. Aqueles que estão apenas interessados na teoria, bem como aqueles que estão apenas interessados em organizar a atividade alheia, estão fora do movimento comunista.

Le mouvement communiste

Abril, 1973

Notas [1] Marx, Grundrisse (Pelican Books, 1973).

[2] Rubin, Essays on Marx's Theory of Value, Black & Red, 1972. [3] Situationist International, The Rise and Fall of the Spectacular Commodity Economy (1966).

[4] Critique of the Gotha Programme, de Marx (1875). [5] Workers' Voice, The Origin of the Movement for Workers' Councils in Germany; Aberdeen Solidarity, The KPD, 1918-24.

[6] Root and Branch, The Sitdown Strikes of the 1930s, 1971. [7] Marx, Theories of Surplus-Value, Vol. I, Lawrence and Wishart, 1969, p. 409.

[8] Porter Sargent, Boston, 1969. Resumido em Internationalism, No. 2.



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Antiterrorismo = desenvolvimento do terror contra nossas lutas




A guerra no Afeganistão e as medidas antiterroristas tomadas em cada país são um passo no desenvolvimento da guerra geral contra o proletariado!

· Bombardeios massivos ou "cirúrgicos", massacres em grande escala ou "perdas colaterais", ... mergulham o planeta em sangue e fogo, ... os burgueses defendem, pelo terror, a paz de seu mundo de miséria.

· Tribunais especiais, decretos militares, "internamentos administrativos", detenções sem limite, julgamentos a portas fechadas, ... o capital afia suas garras para condenar todo proletário suspeito de subverter a ordem pública, a segurança nacional; de perturbar a paz social, a ditadura da economia.

· Cooperação internacional entre os serviços de espionagem, mandatos de prisão internacionais, ... As listas de nomes de grupos e indivíduos a serem abatidos circulam, ... hoje, somente nos EUA, 5000 pessoas são visadas.

· O antiterrrorismo serve de pretexto para acelerar violentamente a espiral: reduções de salários, demissões, fome, militarização, ... Nos transportes aéreos, rodoviários, ... nos serviços postais, na indústria química, nas companhias de seguros, ... chovem demissões, às centenas de milhares, nos EUA, na Europa, na Ásia, ... Em contrapartida, nos setores repressivos (armamento, vigilância eletrônica, polícia, ...) os burgueses investem e recrutam!

Diante das lutas proletárias que "ameaçam" se desenvolver, todos os Estados se apóiam e se unem.

O antiterrorismo é o monopólio estatal das armas, contra nossas lutas!

Precisamos olhar e ver que a guerra que está sendo feita no Afeganistão, Iugoslávia, Iraque, ... é uma guerra contra nossas próprias lutas! E que as lutas de nossos irmãos de classe na Argélia, Síria, Líbano, Irã, Indonésia, ... são nossas próprias lutas!

Submeter-se às campanhas antiterroristas é aceitar a diminuição brutal dos salários, lá como aqui; é contribuir para a repressão de nossos camaradas, lá como aqui.

Nossa luta é aqui e agora contra tudo que nos faz escravos do trabalho e da penúria, do dinheiro, do capital.

O INIMIGO ESTÁ NO NOSSO PRÓPRIO PAÍS: É NOSSA PRÓPRIA BURGUESIA!

Que o capital se diga socialista ou liberal, belicista ou pacifista, poluente ou biodegradável, do Sul ou do Norte, ... ele é sempre a ditadura do lucro, do dinheiro. Nas cimeiras e anticimeiras, nos referendos e eleições, o capital põe em cena os burgueses que decidirão com que molho seremos devorados.

Organizemo-nos: por cima das fronteiras; fora e contra as cimeiras e anticimeiras; fora e contra toda e qualquer estrutura do Estado !

A única alternativa é A REVOLUÇÃO MUNDIAL !



GRUPO COMUNISTA INTERNACIONALISTA - B.P.54 - St. Gilles (BRU) 3 - 1060 Bruxelas - Bélgica

http://www.geocities.com/paris/6368/ - e-mail : icgcikg@yahoo.com