quarta-feira, 17 de outubro de 2012
DEZ TESES SOBRE O MARXISMO HOJE (1950)
1. Já não faz sentido perguntar em que medida o ensinamento de Marx e Engels é, hoje, teoricamente aceitável e praticamente aplicável.
2. Hoje são utopias reacionárias todas as tentativas para restabelecer a doutrina marxista como um todo, na sua função original de teoria da revolução social do proletariado.
3. Apesar de basicamente ambíguo, há importantes elementos do pensamento marxiano que mantiveram até hoje a sua operacionalidade, mudando de função e lugar de aplicação. Além disso, o ímpeto desencadeado pela praxis do velho movimento operário marxista está presentemente incorporado nas lutas práticas dos povos e das classes.
4. O primeiro passo para restabelecer uma teoria e uma prática revolucionárias consiste em romper com esse marxismo que pretende monopolizar a iniciativa revolucionária e a direção teórica e prática.
5. Marx é hoje apenas um entre os numerosos precursores, fundadores e continuadores do movimento socialista da classe operária. Não menos importantes são os chamados socialistas utópicos desde Tomás Morus até ao presente. Não menos importantes, também, são os grandes rivais de Marx, como Blanqui, e os seus inimigos irredutíveis, como Proudhon e Bakunine. Não menos importantes, no resultado final, são os mais recentes desenvolvimentos, tais como o revisionismo alemão, o sindicalismo francês ou o bolchevismo russo.
6. São particularmente críticos os seguintes pontos do marxismo:
a) A sua subordinação às condições econômicas e políticas pouco desenvolvidas da Alemanha e dos outros países da Europa central e oriental, onde viria a adquirir importância política;
b) A sua adesão incondicional às formas políticas da revolução burguesa.
c) A aceitação incondicional das condições econômicas avançadas da Inglaterra como um modelo do futuro desenvolvimento de todos os países e como condições prévias objetivas para a transição para o socialismo.
A que é preciso acrescentar:
e) As conseqüências das suas tentativas repetidas, desesperadas e contraditórias para romper essas condições.
7. Os resultados destas condições foram:
a) A superestimação do Estado como elemento decisivo da revolução social;
b) A identificação mística do desenvolvimento da economia capitalista com a revolução social da classe operária;
c) O subseqüente desenvolvimento ambíguo desta primeira forma da teoria marxiana da revolução, com o enxerto artificial nela de uma teoria da revolução comunista em duas fases; esta teoria, dirigida por um lado contra Blanqui e por outro lado contra Bakunine, exclui do movimento presente a real emancipação da classe operária, adiando-a para um futuro indeterminado.
8. É este o ponto de inserção do desenvolvimento leninista ou bolchevista. E foi sob esta nova forma que o marxismo se transferiu para a Rússia e para a Ásia. Com isto foi mudado o marxismo que de teoria revolucionária se tornou uma ideologia. Esta ideologia poderia ser e foi, de fato, utilizada para uma série de fins diferentes.
9. É sob este ponto de vista que se pode julgar com espírito crítico as duas revoluções russas de 1917 e 1928. E é sob este ponto de vista que é preciso determinar as funções desempenhadas hoje pelo marxismo, na Ásia e em escala mundial.
10. O poder de os trabalhadores disporem da produção das suas próprias vidas não resultará da ocupação por eles, nos mercados internacionais e mundial, das posições abandonadas pela concorrência auto-destruidora e dita livre dos proprietários monopolistas dos meios de produção. Este poder só poderá resultar duma intervenção concertada de todas as classes que são exploradas, numa produção que, de todo o modo, já hoje tende a ser regulada duma forma monopolista e planificada.
Karl Korsch
Biblioteca virtual revolucionária
CONTRA A DEMOCRACIA
Apresentação
A realização deste texto se fazia imprescindível; era necessário que alguém iniciasse já a crítica da democracia. Hoje, mais do que nunca, quando todos os meios de comunicação (rádio, televisão, imprensa) e instituições (partidos, universidades, colégios, clubes, igrejas), enfim, todos os setores sociais proclamam aos berros seu espírito democrático.
Os objetivos deste folheto são claros: informar a origem da democracia; para que serve e a quem beneficia de fato. A crítica não é de hoje. Pelo contrário, outros proletários antes de nós a vêm fazendo desde o século XIX; nós apenas continuamos essa linha militante.
Consideramos necessário analisar a democracia que, como um objeto sagrado, se tornou intocável. Pensamos que não deve ser assim; o espetáculo eleitoral a que assistimos é miserável, decrépito, mais do que patético: palhaços, bobos, atores, excelentes charlatães, mascates que oferecem de tudo... A questão é que nós e você, amigo leitor, sejamos obrigados a votar por alguns desses fantoches defensores do capitalismo, do sistema em que os ricos mandam e os pobres obedecem. A isso chamam "cumprir o dever cidadão".
Esclareçamos, pois: numa sociedade injusta, os cidadãos "iguais perante a lei" não existem. O que existe são duas classes sociais que se enfrentam: a burguesia e o proletariado. A democracia é a ordem que mantém essa realidade. Por isso, nós proletários devemos estar fora e contra a democracia. Esperamos que este folheto sirva para que tu também assumas esta posição.
OS EDITORES
A Origem Histórica da Democracia
Da ruptura da comunidade primitiva à monarquia: o Estado
Há milhares de anos, os primeiros grupos humanos se organizavam coletivamente sem explorar uns aos outros e sem governo. A aparição da agricultura na Ásia, China, Índia, América Central e Peru, fará surgir as primeiras aldeias com grande população. O cultivo e colheita de trigo e cevada no Oriente Médio e nos Bálcãs fez com que, nas comunidades iniciais desses lugares, surgisse um grupo que, se colocando acima da gente comum, começou a fazer produzirem alimentos para ele com o pretexto de que são "eleitos pelos deuses". Surgem então os sacerdotes, que depois se converteriam em reis e fariam construir templos. Este fenômeno se daria principalmente na Mesopotâmia, Egito, Fenícia, onde surgem os primeiros Estados e classes dominantes. Na Grécia ocorre o mesmo: surgiu a civilização, o poder do rei que já é dono de terras e dos trabalhadores das mesmas: os camponeses. Ao mesmo tempo, os reis obrigam seus subordinados a se apropriar, pela força, das riquezas de outros povos. A "arte" da guerra promoveu o surgimento dos especialistas do roubo e do saque, e, segundo Aristóteles, a pilhagem é também uma forma de "indústria". Os heróis da "Ilíada" e da "Odisséia" nada mais são do que piratas e ladrões de profissão, segundo Heichelhein. As conseqüências das conquistas dos senhores gregos foram gigantescas: por um lado, foram utilizados prisioneiros de guerra na exploração de terras e minas roubadas, lançando milhões de homens, mulheres e crianças numa das formas mais miseráveis e infames de exploração: a escravidão. As cidades gregas receberam milhares de escravos, cujo suor e lágrimas sustentavam a produção de mercadorias, que originaria, anos depois, o comércio internacional e a democracia.
Por outro lado, o poder militar e político desses conquistadores se fortalece e eles constituem a nobreza ou aristocracia, que, na Grécia escolhe em seu seio o rei. A aristocracia se consolidou como forma de governo na mais importante cidade grega (ano 800 A.C.): Atenas, o futuro berço da democracia.
A revolução comercial origina a democracia
Antes da aparição do Estado e da sociedade de classes, as comunidades antigas produziam o necessário para satisfazer suas necessidades. Os intercâmbios entre as comunidades se assemelhavam à troca e tinham caráter ocasional. Com a aparição do poder, dos escravos e dos artesãos, surge a produção intencional de alimentos e objetos, não para satisfazer as necessidades, mas tendo como fim o enriquecimento de alguns às custas do sofrimento dos explorados nas terras, minas e oficinas.
As antigas relações verdadeiramente humanas entre comunidades se contaminam quando a mercadoria e as finanças se tornam a finalidade. Junto às mercadorias, aparecem os especialistas em traficá-las: os comerciantes. Mesmo assim, o comércio se difundirá por todo o mundo ocidental antigo. Surge o Comércio Mundial que terá como cenário as costas do sul europeu, o norte da África e a Ásia Menor, no mar Mediterrâneo. Inicialmente, Egito e Síria serão os centros e rotas mais importantes; depois, as cidades fenícias ( Biblos, Sidon e Tiro), mercados onde se traficavam tecidos, perfumes, madeira, peles, minerais e, obviamente, seres humanos. O comércio do estanho, que vinha da Itália, e a crescente produção de cereais, azeite, vinho, cerâmica e artesanato nas terras e oficinas dos gregos ricos provocarão em toda a Grécia o surgimento de prósperas cidades comerciais (Corinto, Megara, Sicione, Egina, Atenas). As rotas que uniam a Grécia com a Ásia, o Mar Negro e a península itálica farão da Grécia o centro de gravidade da economia mundial. A agricultura passa ao segundo plano e o comércio se torna a atividade dominante nessas cidades-Estados ou pólis, cujas estruturas políticas aristocráticas vão se transformar de maneira brutal com a atividade mercantil. Os comerciantes gregos criaram uma poderosa marinha mercante e fundaram colônias-mercados em todo o Mediterrâneo. Serão portadores de uma nova forma de ver o mundo, mediante a compra e venda de tudo. Emergirão como nova classe dominante e farão uma concorrência feroz à aristocracia, que resiste em compartilhar o poder e que, em muitos casos, será derrotada na pólis. Os comerciantes trarão de suas viagens novas formas de organização política mais acordes com a atividade comercial. Os comerciantes atenienses, por exemplo, trouxeram para a Grécia as experiências políticas dos comerciantes fenícios que se reuniam em assembléias e cujo funcionamento tinham observado em seus afazeres mercantis. No início do ano 700 A.C., já haviam ocorrido as guerras entre nobres e comerciantes. Nas pólis gregas, a luta pelo poder será de vida ou morte.
A classe mercantil percebeu que a melhor maneira de favorecer seus negócios era estabelecer uma ordem que negasse o absolutismo dos reis aristocratas e proclamasse a "igualdade e capacidade" de todos os habitantes (pobres e ricos), fazendo abstração das abismais diferenças entre ambas as classes e formando uma comunidade política em que todos participem no governo da sociedade mercantil. Desta maneira, a classe mercantil atraía os proletários (artesãos, camponeses...) com o engodo da "participação", quando do que se tratava era de que os gregos pobres se aliassem com os superexpolorados escravos, e se prevenia contra qualquer tentativa de rebelião social que fizesse perigar os negócios e o poder estabelecido. Nasceu, pois, a democracia. A pólis de Atenas, a mais desenvolvida cidade comercial, será o pólo democrático mais avançado do mundo antigo.
A democracia ateniense: Sólon e o governo dos ricos
O primeiro golpe que a nascente Democracia assesta no sistema Aristocrático foram as reformas que Sólon decretou, nomeando o arconte (máxima autoridade ateniense) em 594 A.C. Este comerciante determinou que não era mais a origem familiar nobre mas a riqueza que determinava a que grupo social alguém pertencia. Deste modo, a democracia reconhecia que era o dinheiro que permitia aos ricos capturar os principais postos do Estado. Para fazer os pobres participarem dessa forma política, foi-lhes permitido participar em assembléias onde, por sua vez, elegiam os funcionários do Estado indicados pelos ricos. Este ilusionismo gestionário transformou os pobres em cúmplices ativos de uma ordem que os mantinha na indigência, de uma falsa comunidade à medida de seus exploradores. Ademais, como corolário e frente à covardia de Sólon, que não ousara expropriar as terras dos nobres, decreta a igualdade perante a lei de todos os habitantes da cidade. Em palavras claras, isto significou que, para a lei, não existiam pobres e ricos, existiam os cidadãos atenienses. Ou seja, igualdade no papel e a mais descarada desigualdade nos fatos.
Essa situação de equilíbrio aparente entre democratas não duraria muito, os democratas se insurgem e tomam o poder da cidade arrasando as propriedades dos nobres, estabelecendo a tirania de Pisístrato (560 A.C.). Pisístrato incentivou decididamente o comércio e os negócios em Atenas; repartiu terras e difundiu a pequena propriedade. Com sua política de dádivas e seu populismo a todo custo, a democracia foi conquistando a consciência popular. A liberdade foi identificada com a liberdade de fazer negócios e lucrar; a felicidade era triunfar nos negócios. Ter riqueza era o trampolim para o poder; a liberdade era para obter lucros às custas dos outros. A liberdade dos 40 mil cidadãos atenienses na realidade não era senão a liberdade dos ricos comerciantes que, em número de 6 mil, viviam às custas dos cidadãos pobres e dos sofrimentos de 250 mil escravos. Eis aí a verdadeira natureza da democracia que surgia.
Em 50 anos, o personalismo populista de Pisístrato e de seu sucessor Hípias fracassou, encorajando os homens de negócio a assumir o governo da cidade e consolidar a Democracia como seu sistema. O partido Democrático não quis mais intermediários. Uma nova guerra civil se abateu sobre Atenas.
Clístenes e o apogeu da democracia
A guerra civil entre Isagoras e Clístenes culminou com a insurreição popular dos demos (municípios), que conseguem expulsar os partidários do primeiro e os invasores de Esparta. Clístenes ingressou em Atenas triunfante e consolidou a obra democrática iniciada por Sólon. As classes dominantes necessitavam de aperfeiçoar as instituições que lhes permitiam manter seu poder e suas propriedades e, por outro lado, enquadrar os proletários-cidadãos nas tramóias do gestionismo. Clístenes consolida a democracia representativa, reforçando o Conselho dos representantes ou Bulé (500 membros, 50 por cada tribo ateniense) e a Assembléia ou Eclésia (que existia em cada um dos 100 demos ou províncias que compunham o território ateniense).
Evidentemente, os cargos de peso (arcontes e o areópago) permaneciam nas mãos dos ricos. O povo só tinha a assembléia, para falar e eleger os candidatos que os ricos assinalavam. Participavam os maiores de 18 anos e a história a registrou como a forma de governo "mais justa", quando o que se fazia era iludir as pessoas com a participação na manutenção de uma ordem injusta e superexploradora. Isso que se chamou democracia duraria mais 50 anos. Na época de Péricles, a pólis de Atenas se consolida como uma potência comercial, bancária e industrial.
O sistema democrático representativo grego, arruinado pelas invasões macedônicas e romanas, seria retomado na revolução francesa quando a nova classe dominante do mundo, a burguesia, culmina sua conquista do poder. A democracia desde o século XVII serviu e serve para a implantação da ordem que hoje governa o mundo: o capitalismo.
Conteúdo de afirmações
1. A democracia nasce com a ruptura da igualdade entre os seres humanos
A democracia é produto de todo um processo histórico, que começa com a ruptura da comunidade originária onde todos eram iguais, seres humanos capazes de se organizar e agir para satisfazer suas necessidades.
A democracia não existiu sempre e não é algo natural, como dizem muitos historiadores e políticos de profissão, é um produto histórico como já afirmamos antes.
O rompimento da comunidade originária, onde deixamos de ser seres humanos para ser indivíduos, coincide e começa também com a existência da mercadoria e portanto do comércio, inaugurando a propriedade privada, o trabalho assalariado, o Estado, a divisão e o enfrentamento de classes sociais antagônicas, que a democracia quer fraternizar, e criando uma comunidade fictícia na qual os interesses de alguns se consolida cada vez mais.
2. Toda democracia necessita historicamente de um Estado
O Estado nem sempre existiu, mas sempre serviu de sustentáculo e fundamento da Democracia. Nada é melhor do que o Estado para regular e garantir a repartição da riqueza (produção), as relações entre os indivíduos! Esta é uma realidade concreta e todo mundo sabe; como vemos, o Estado é o guardião (com o terror e as armas) das relações de reprodução da sociedade do capital, uma sociedade atravessada por interesses antagônicos de classes (proletariado e burguesia).
A democracia tenta se consolidar como Estado Democrático para assegurar e perpetuar sua grande mentira: a de "que na sociedade se pode viver em bem-estar, igualdade, paz", sendo os miseráveis cidadãos submetidos ao modo de governo (seja qual for) e à dominação de uma classe que, através do Estado Democrático, une e concilia os interesses contrários existentes. Um exemplo claro são as chamadas "frentes amplas" que nas mobilizações passadas saíam às ruas pedindo democracia e nas quais podíamos ver organizações constituídas por patrões e trabalhadores, ou seja, exploradores e explorados, como se ambos tivessem os mesmos interesses, como se ambos pertencessem à mesma classe.
3. A democracia não é só uma forma de governo, mas a forma de viver que o capitalismo nos impõe
Dizem-nos até o cansaço que a democracia, as eleições, são o melhor sistema de vida porque nos dão a liberdade de escolha. "Abaixo a ditadura! Queremos democracia!" gritavam os partidos de toda tendência nas lutas recentes. E nos perguntamos: a democracia é somente uma forma de governo, em que se vota a cada 5 anos? Não, a democracia é a conciliação, a reunião forçada dos exploradores com os explorados aos quais a lei, as constituições reconhecem como "iguais", ainda que os ricos vivam em luxuosas mansões e comam bem e os pobres, os proletários, comamos mal e vivamos em barracos e assentamentos. Aí não mais se vê como o tal palavrório da igualdade dos cidadãos ou eleitores não passa de uma monumental mentira. A democracia quer unir o que por si mesmo está separado; é uma comunidade falsa, na qual nos fazem crer que ir votar é uma "grande festa", quando a única coisa que fazemos é escolher os próximos tiranos que nos obrigarão a trabalhar o máximo para garantir os lucros do patrão e sem que tenhamos o que nos pertence. O objetivo da democracia é manter tudo como está, dando a aparência de mudança, com a substituição do governante a cada 3 ou 5 anos, a fim de continuar garantindo que o Capital se reproduza cada vez mais. Chame-se como quiser (representativa, direta ou popular), a democracia é o reino da injustiça e do engano e é por isso que não se diferencia em nada da ditadura, salvo em alguns métodos.
4. As instituições democráticas agrupam os indivíduos para reproduzir o capital
A democracia sempre tem uma preocupação: a manutenção e fortalecimento de suas instituições. Para que serve fortalecer as instituições democráticas? É evidente. O fim é controlar, enquadrar as massas, mantê-las e fixá-las nas formas sociais que convêm ao Capital.
Por isso, a doentia preocupação da democracia na busca de instituições que sejam as mais aptas para encerrar os miseráveis cidadãos nas prisões do Capital.
Em resumo, as instituições democráticas são estruturas de coação, violência e despotismo que constituem, assim como os direitos e liberdades democráticas, armas da dominação burguesa, da classe dominante.
5. Quando sais à rua para pedir democracia, estás pedindo, aos gritos, a manutenção de tuas cadeias
Quando as falsas comunidades (movimentos estudantis, partidos, sindicatos, frentes) reivindicam democracia, na realidade só estão pedindo para manter o modo de vida e as relações entre os homens baseadas na mercadoria máxima: o dinheiro. Defender a democracia é defender a sociedade de classes, defender a existência de explorados e exploradores, defender os aparatos que a classe dominante estabeleceu para reforçar nossas cadeias: o Congresso, o Estado, as Forças Armadas, o Poder Judicial. Porque não queremos conviver com nossos inimigos, por isso recusamos a democracia. Uma autêntica luta proletária nunca reivindica a democracia, por mais "popular" que ela se pinte. Queremos a abolição do trabalho assalariado, do poder, das relações humanas baseadas na exploração. Enfim, lutamos pela desaparição da democracia.
6. Democracia e ditadura não se opõem, são os dois lados da mesma moeda
Democracia e ditadura não são formas políticas de governos distintas. Pelo contrário, em ambas existe intrinsecamente uma ditadura. O Estado Democrático ou Ditatorial sempre oculta a dominação de classe. A democracia é o ideal do Capital Mundial; nela se reproduz a sociedade mercantil e a propriedade privada. Assim, a democracia é a ditadura do capital por excelência, não há diferença entre democracia e ditadura, ambas engendram valor, exploração, ódio e guerras. No Peru, Fujimori foi sinônimo de ditadura e nela encontramos: classes sociais, propriedade privada, mercadorias... Se elegermos presidente Toledo, Alan García, Lourdes ou seja quem for, continuarão existindo classes sociais, propriedade privada, mercadorias... , a miséria e, enquanto estas existirem, sempre haverá exploração, ou seja: relação entre explorados e exploradores, a felicidade por um lado, infelicidade por outro, amos e escravos. Mas, com a democracia, isto não se vê com clareza, porque a democracia fala de unidade e conciliação entre todos os peruanos. A mentira desse discurso é algo que não devemos perder de vista, não somos iguais aos nossos exploradores, não aceitamos uma paz social em meio à guerra que se vive dia a dia e na qual o proletariado leva a pior parte.
7. As pessoas não são livres dentro da democracia
O que os democratas denominam "liberdades democráticas" (de sufrágio, de imprensa, de trabalho, de ir e vir) é apenas a consagração dos seres humanos atomizados, convertidos em cidadãos, obrigados a vender sua força de trabalho a outros que lucram com isso. Para sobreviver no mundo do Capital não temos saída, nem escolha, não temos liberdade de escolher entre nos deixar ou não explorar por outros; ou nos submetemos ou morremos de fome (eu, tu, teus filhos, e teus pais...), assim simples e brutalmente. No fundo, nós não passamos de escravos modernos, vendedores da mercadoria chamada trabalho. Não somos seres humanos, mas coisas. A liberdade de empresa, a livre concorrência, o direito de propriedade que a ideologia democrática tanto apregoa não é nada mais do que a liberdade dos capitais para circular e dos capitalistas para explorar os proletários e concorrer entre si. Em tudo isso somos peões, meros instrumentos dessa voragem, em troca de alguns centavos para a comida do dia, para sobreviver. A democracia, o Estado, o salário, a concorrência, as mercadorias, a propriedade privada e as liberdade de opinar e de votar nada mais são do que a consagração real de nossa escravidão. A verdadeira liberdade está fora e contra a democracia.
8. A votação é o ritual de eleger nossos carrascos dos próximos 5 anos
O mecanismo unitário e sistemático que são as eleições, que em certos períodos se repetem (3 ou 5 anos), não é mais do que a delegação de nossa soberania, da capacidade e poder humano ao Estado. Convertemo-nos em meros cidadãos iludidos, ao pensar que, votando, participamos do fazer político que marcará o curso de nossas vidas. Nada mais falso do que isso. Votando, delegamos nosso poder como pessoas, entregamo-nos de corpo e alma aos nossos carrascos de plantão, e garantimos nossa escravidão por mais 3 ou 5 anos.
Escutamos os democratas falarem de "garantias", no momento em que as eleições ocorrem (ver os casos de manipulação e corrupção das eleições passadas). Mas, para eles, do que se trata é de garantir e perpetuar as relações de exploração.
As garantias democráticas de uma "eleição limpa", como pedem os candidatos, não são senão o pedido de garantias para que o Capital continue se reproduzindo e ninguém altere esse processo.
O voto é a menor expressão da miséria dos cidadãos.
Vocabulário Básico
Para que nossos leitores compreendam melhor o texto acima, apresentamos este vocabulário que ajudará a ver a que grau de desumanização a sociedade do capital nos conduziu.
Cidadão: Categoria à que os proletários estamos reduzidos, depois que nos foram expropriados os meios para satisfazer nossas necessidades, há séculos, pela classe dominante que até hoje nos usa conforme seu capricho. Para ocultar as diferenças entre pobres e ricos, as leis e constituições elaboradas pelos legisladores da burguesia afirmam que somos todos "iguais perante a lei". A finalidade é que esqueçamos nossas diferenças de classe, pelo fato de ter o direito de votar ou maioridade legal. A cidadania é a transformação do proletário em indivíduo burguês.
Mercadoria: São todos os objetos fabricados para o consumo (lápis, sapatos, roupas etc.). Por um lado, são produzidos usando a força de trabalho dos proletários. Por outro, são trocados nos mercados, gerando, para os capitalistas, gigantescos lucros. Assim, a mercadoria é o centro em torno do qual gira a sociedade em que vivemos. Viver nesta sociedade não é realizar a felicidade e bem-estar de todos os seres humanos, mas uma concorrência brutal entre todos para conseguir a mercadoria máxima: o dinheiro.
Burguesia: Classe social dos ricos. Agrupa os chamados "investidores" ou "empresários", donos das fábricas, oficinas e terras. É uma classe parasitária e exploradora, aliada de todos os governos de turno. Necessita de que nós, proletários, lhe entreguemos nosso trabalho de muitas horas, em troca de um salário, o que nos converte em escravos modernos, garantindo assim seus lucros.
A burguesia se organiza em partidos políticos (de direita, centro e esquerda). Assim, maneja o estado conforme seus interesses: democraticamente, em períodos de paz social, ou mediante a ditadura (civil ou militar), em épocas de protesto popular.
Proletários: Classe a que pertencem todos os que têm de vender o trabalho a outros (o capitalista) para sobreviver e alimentar a prole. Nossa classe tem uma origem muito antiga, desde a aparição das primeiras sociedades de classe (Mesopotâmia, Egito) há 5 mil anos. Desde a época da escravidão, os proletários tentaram se libertar da exploração - exemplos: a rebelião de Espártaco, antes de cristo; os movimentos insurrecionais no México, com Zapata; a revolução russa, de 1917, e a espanhola, de 1936.
O objetivo dos proletários é invariável: acabar com a exploração do homem pelo homem, acabar com a escravidão assalariada e estabelecer a igualdade em todo o mundo, estabelecendo a verdadeira COMUNIDADE HUMANA MUNDIAL.
Grupo de Lucha Proletaria (Peru)
email: glproletaria@hotmail.com
URL: http://www.geocities.com/grupolp/
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COMUNISMO CONTRA DEMOCRACIA
- TESES -
I. A democracia não pode ser reduzida a uma simples forma (nem mesmo a mais "adequada") da dominação capitalista. Ao contrário, a democracia se afirma, sempre, como a substância da ditadura capitalista, por sua ligação intrínseca e histórica com a mercadoria, "forma elementar da riqueza capitalista" (Marx).
II. A gênese da democracia e seu desenvolvimento histórico (culminante no modo de produção capitalista) estão intimamente ligados à aparição da mercadoria e, portanto, à aparição, ao desenvolvimento, ao apogeu capitalista e ao desaparecimento do valor (a revolução comunista suprimindo o ciclo do valor).
III. A democracia surge com a necessidade de constituir uma esfera política, uma comunidade de indivíduos - os cidadãos - submetidos aos interesses da classe dominante. O Estado é a organização da classe dominante para se manter enquanto tal, a democracia é esta mesma organização para o conjunto da sociedade. O Estado democrático, o Estado capitalista é, então, o apogeu, a síntese de todas as sociedades de classes porque ele é a organização ditatorial e terrorista da classe dominante e a organização de todos os indivíduos livres, iguais e proprietários, organizados no seio duma comunidade não-humana (e, neste sentido, fictícia) - a democracia - no interesse exclusivo da classe dominante. A mistificação é, pela primeira (e última) vez, total: o homem-indivíduo, cidadão atomizado não existe mais enquanto ser humano (isto é, enquanto ser genérico), ele não é mais do que uma mercadoria entre outras e, a esse título, livre e igual no interior da circulação. Ele não é, pois, enquanto indivíduo singular, senão um simples átomo político do capital. É na esfera da circulação - o Éden democrático, segundo Marx - que as classes e, em particular, a classe revolucionária - o proletariado - são negadas, destruídas, abolidas. Só existem cidadãos, organizados no e pelo Estado democrático.
IV. Esta situação extrema de não-existência da classe revolucionária se reencontra nos períodos de contra-revolução intensa, quando o Estado democrático consegue atingir um grau tão elevado de purificação que pretende ser o único sujeito da história. As formas dessa purificação se reencontram tanto nas diversas frentes populares quanto nas diferentes formas de bonapartismo: do stalinismo ao nazismo, do fascismo ao peronismo. Neste sentido, as formas fascistóides (putschs militares de esquerda ou de direita) não são uma mudança de natureza da ditadura capitalista; ao contrário, são o seu reforço, conforme sua substância democrática: a negação ditatorial dos antagonismos de classes em benefício da dominação impessoal dos capitalistas enquanto classe.
V. Consequentemente, rejeitamos toda aliança, frente,... visando a ligar o proletariado à defesa de tal ou qual forma da ditadura capitalista contra tal ou qual outra. Sendo essencialmente idênticas essas ditaduras, trata-se, para o comunismo revolucionário, de destruir a democracia sob todas as suas formas, não somente aquelas "malignas", "ditatoriais" e "militares", mas também as "benignas", "parlamentares" e "representativas". A revolução comunista será antidemocrática ou não será.
VI. A democracia é, pois, a organização dos cidadãos (ou seja, a desorganização, a negação da classe revolucionária) em proveito da classe capitalista. O proletariado - desde que começa a se constituir em classe, reconstituindo uma outra comunidade de interesses na e pela sua luta - começa a destruir a democracia, a comunidade fictícia do capital, em benefício de seu projeto: a comunidade humana mundial, o comunismo.
VII. A luta operária tende a afirmar seu próprio ser, sua substância, a nova comunidade de que é portadora e que só poderá se estender com a destruição total da sociedade burguesa, de seu Estado e de suas relações sociais: o trabalho assalariado. Desde que se afirmem, ainda que de forma minoritária e elementar, os interesses e as necessidades do proletariado na menor ação de classe, essa afirmação é uma afirmação ditatorial e antidemocrática, porque exige a força organizada de uma classe para impor, ao conjunto da sociedade, um projeto que não pode existir no interior do capitalismo senão como negação violenta de toda a ordem existente. Desde que se manifesta como ação de classe, isto significa, por sua vez, uma fissura, ainda que mínima, no consenso democrático, na comunidade fictícia, e o aparecimento, mesmo embrionário, da classe revolucionária, isto é, de uma comunidade baseada sobre os interesses históricos dessa classe: a sociedade comunista. O movimento comunista e a democracia estão, pois, em direta contraposição; eles representam, no mais alto ponto, a contradição, presente em todos os níveis da sociedade, entre comunismo e capitalismo.
VIII. Logo que essa contradição explode e que o proletariado revolucionário se auto-organiza em classe dominante (a revolução comunista conduzindo à ditadura do proletariado para a abolição do trabalho assalariado), esta organização do proletariado em classe dominante realiza ditatorialmente o programa comunista, impõe cada vez mais radicalmente ao conjunto da sociedade a destruição do valor, a extensão e, portanto, a extinção da classe dominante enquanto esfera separada (negação da negação). A conclusão desse processo social é a emergência da sociedade comunista, sem classes e sem Estado. Antes, porém, afirma a ditadura do proletariado para a abolição do trabalho assalariado, destrói o Estado e a democracia, superando a atomização dos indivíduos, em proveito da aparição/generalização da comunidade nova prefigurada pela organização comunista dirigindo o conjunto do processo de transição. Assim, com o triunfo da revolução, está destruída a substância da ditadura capitalista: a democracia.
IX. O processo ditatorial e terrorista de afirmação/negação do proletariado como classe dominante, destruindo cada vez mais as bases de sua própria dominação e fundando assim uma sociedade sem dominação, sem classes, sem Estado, sem violência,... nada tem a ver com qualquer democracia "operária". Ao contrário, a ditadura do proletariado para a abolição do trabalho assalariado é a mais completa negação da democracia, principalmente a dita operária. A confusão entre ditadura do proletariado e democracia "operária" é um dos desvios contra-revolucionários mais graves, destruindo a base mesma da ditadura do proletariado em benefício da retorno ao sistema de escravidão assalariada sob uma forma mais "operária".
X. A democracia "operária" só faz prolongar e aprofundar todas as mediações do capital (entre política e economia, entre homem e sociedade,...) substituindo o culto do parlamento, das liberdades, dos indivíduos atomizados,... pelo culto idêntico, na essência, dos "sovietes democráticos", dos "sindicatos livres", dos operários atomizados,... Ao mito aclassista do povo, da nação, versão "democracia burguesa", corresponde o também aclassista dos "operários sociais", da "maioria explorada", das "massas populares", versão "democracia operária". O acréscimo do adjetivo "operária" à realidade da democracia, à sua ligação histórica com a mercadoria, com o dinheiro e o capital não altera em nada a substância da democracia; serve apenas para tentar, uma vez mais, fazer passar a realidade capitalista sob um vocábulo "operário". A democracia "operária" quer representar o pólo positivo da ditadura capitalista (na qual o pólo "riqueza" se opõe ao pólo "pobreza"), negando a totalidade que constitui essa ditadura: a produção/reprodução do valor sobre a base da escravidão assalariada. Assim como Proudhon e os socialistas burgueses, que queriam manter o capitalismo suprimindo seus aspectos mais "desagradáveis", os democratas "operários" querem, a qualquer custo, manter a democracia e seu cortejo de "Liberdade-Igualdade-Fraternidade", atribuindo à classe operária a irrealizável tarefa de suprimir o efeito mais "desagradável" do cortejo exploração-prisão-alienação. A democracia "operária" nada mais é do que o velho mito capitalista da gestão "operária": a administração, pelos operários atomizados, de sua própria exploração. Os proletários - atomizados, triturados, sufocados, negados enquanto classe - seriam assim ditatorialmente determinados a democraticamente votar pela continuação de sua exploração, pela perpetuação da escravidão assalariada. A ditadura do capital sob a cobertura da democracia "operária" é desmascarada: o capital sem contradição, uma "humanidade" composta unicamente de escravos assalariados que não existem senão como carne de mais-valia.
XI. Para os revolucionários proletários, existe uma contradição fundamental entre comunismo e democracia. A vitória do comunismo implica necessariamente a destruição da democracia.
" O pressuposto elementar da sociedade burguesa é que o trabalho produz imediatamente o valor de troca, logo o dinheiro, e que em seguida o dinheiro compra imediatamente o trabalho e não o trabalhador, que aliena por si mesmo sua atividade na troca. O trabalho assalariado, de um lado, e o capital, do outro, nada mais são do que outras formas do valor de troca desenvolvido e do dinheiro, enquanto sua encarnação. O dinheiro é, assim, imediatamente, por sua vez, uma comunidade real, na medida em que é a substância universal da existência para todos e, ao mesmo tempo, o produto coletivo de todos. Mas no dinheiro, como vimos, a comunidade é pura abstração, pura coisa exterior e contingente para o indivíduo singular e, ao mesmo tempo, puro meio de sua satisfação enquanto indivíduo singular isolado. A comunidade antiga pressupõe toda uma outra relação do indivíduo para si. E, então, o desenvolvimento do dinheiro, em sua terceira determinação, quebra esse indivíduo. Toda produção é uma objetivação do indivíduo, mas no dinheiro (valor de troca), a objetivação do indivíduo não é mais a do indivíduo em sua determinação natural, mas aquela em que ele está posto numa determinação (numa relação) social que lhe é, ao mesmo tempo, exterior." Marx - Grundrisse
Traduzido de Le Communiste No 19, publicação em francês do G.C.I. (Grupo Comunista Internacionalista)
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DECLÍNIO DO MODO DE PRODUÇÃO CAPITALISTA OU DECLÍNIO DA HUMANIDADE?
JACQUES CAMATTE
Muitas vezes se pensou e escreveu que o comunismo floresceria após a destruição do modo de produção capitalista, o qual seria minado por contradições tais que seu fim seria inevitável. Mas inúmeros eventos deste século infelizmente trouxeram outras possibilidades à vista: o retorno à “barbárie”, analisado por Rosa Luxemburgo e toda a ala esquerda do movimento operário alemão, por Adorno e a Escola de Frankfurt; a destruição da espécie humana, como se evidencia a cada dia que passa; enfim, um estado de estagnação no qual o modo de produção capitalista sobrevive ao se adaptar a uma humanidade degenerada desprovida do poder de destruí-lo. Para compreender o colapso de um futuro que se pensava inevitável, devemos levar em conta a domesticação dos seres humanos, implementada por todas as sociedades de classes e principalmente pelo capital, e analisar a autonomização do capital.
Não pretendemos tratar exaustivamente desses desvios históricos nestas poucas páginas. Comentando uma passagem dos Grundisse de Marx, podemos mostrar que é possível compreender a autonomização do capital com base na obra de Marx, e também podemos ver as contradições do pensamento marxista e sua incapacidade para resolver o problema. A passagem é do capítulo sobre o processo de circulação. Para compreendê-lo, devemos ter em mente o que Marx diz logo antes desta passagem:
“O tempo de circulação, assim, aparece como uma barreira para a produtividade do trabalho = um aumento do trabalho necessário = uma diminuição do tempo de sobretrabalho = uma diminuição da mais-valia, um obstáculo, uma barreira ao processo de auto-realização [Selbstverwertungsprozess] do capital.” [1]
Aqui Marx faz uma digressão extremamente importante:
“Aparece aqui a tendência universalizante do capital, que o diferencia de todas as formas anteriores de produção, se convertendo assim em pressuposição de um novo modo de produção, fundado não no desenvolvimento das forças produtivas com o propósito de reproduzir ou mesmo expandir uma dada condição, mas no qual o livre, desobstruído, progressivo e universal desenvolvimento das forças produtivas é em si mesmo a pressuposição da sociedade e, portanto, de sua reprodução; no qual a superação do ponto de partida é a única pressuposição.” [2]
O que torna o capital uma barreira não é afirmado aqui, embora o aspecto revolucionário, positivo, seja enfatizado (este aspecto é enfatizado em muitas outras páginas dos Grundisse e do Capital): a tendência para o desenvolvimento universal das forças produtivas. Porém, e é isso que nos interessa aqui, o capital não pode realizar isso. Será tarefa de outro modo de produção, superior. O futuro da sociedade aqui toma a forma de um movimento indefinido, acumulativo.
“Essa tendência – inerente ao capital mas que, ao mesmo tempo, visto que o capital é uma forma limitada de produção, o contradiz e assim o conduz à dissolução – diferencia o capital de todos os modos de produção anteriores, e ao mesmo tempo, contém esse elemento, pelo qual o capital é posto como um mero ponto de transição.” [3]
Conseqüentemente, o capital é conduzido para a dissolução mediante essa contradição. É uma pena que Marx não explicite o significado de “forma limitada de produção”, o que não nos permite “ver” claramente o que ele entende por contradição neste caso específico. Isto condiciona a compreensão da afirmação de que o modo de produção capitalista é uma forma de produção transitória. Mesmo sem uma explicação da contradição, podemos compreendê-la assim: o modo de produção capitalista não é eterno – polêmico argumento de Marx contra os ideólogos burgueses. Este é o conteúdo de suas principais afirmações. Mas um outro argumento está embutido no precedente: o modo de produção capitalista é revolucionário e torna possível a passagem a outra forma social, superior, na qual os seres humanos não serão mais dominados pela necessidade (esfera da produção da vida material) e na qual a alienação deixará de existir.
Hoje, depois que o marxismo surgiu como uma teoria do desenvolvimento, outra parte dessa sentença parece básica: há um continuum entre os dois períodos. O que é uma transição, se não o oposto de uma ruptura? Este continuum consiste no desenvolvimento das forças produtivas. Do qual decorre a vergonhosa, mas real, relação: Marx-Lênin-Stalin! Mas nosso assunto não é este. Nossa finalidade é determinar o que constitui as forças produtivas e para quem elas existem - segundo Marx, nos Grundisse.
“Todas as formas anteriores de sociedade – ou o que é o mesmo, das forças de produção social – se arruinaram com o desenvolvimento da riqueza.”[4]
A riqueza reside nas forças produtivas e nos resultados de sua ação. Há uma contradição aqui que, segundo Marx, caracteriza a totalidade da história da humanidade: a riqueza é necessária e portanto procurada, mas ela destrói as sociedades. Conseqüentemente, as sociedades devem se opor ao seu desenvolvimento. Não é assim no modo de produção capitalista (que, por conseguinte, destrói todas as outras formações sociais), que exalta as forças produtivas. Mas exalta para quem?
“Os pensadores da antiguidade tinham consciência disso e, portanto, denunciavam diretamente a riqueza como dissolução da comunidade [Gemeinwesen]. O sistema feudal, por exemplo, sucumbiu à indústria urbana, ao comércio e à agricultura moderna (até mesmo como resultado de invenções individuais como a pólvora e a máquina de impressão). Com o desenvolvimento da riqueza – e também de novas forças e a expansão da troca por parte dos indivíduos –, as condições econômicas nas quais a comunidade [Gemeinwesen] se baseava foram dissolvidas, juntamente com as relações políticas dos vários constituintes da comunidade que correspondiam àquelas condições: a religião, em que eram vistas de forma idealizada (e ambos [religião e relações políticas] se baseavam, por sua vez, numa determinada relação com a natureza, na qual todas as forças produtivas se resolviam); o caráter, a visão etc. dos indivíduos. O desenvolvimento da ciência - em si mesmo, produto e produtor da riqueza – era suficiente para dissolver essas comunidades. Mas o desenvolvimento da ciência, esta riqueza ao mesmo tempo ideal e prática, é apenas um aspecto, uma forma pela qual o desenvolvimento das forças produtivas humanas, ou seja, a riqueza, aparece. Considerada idealmente, a dissolução de uma determinada forma de consciência bastou para matar toda uma época. Na realidade, essa barreira para a consciência corresponde a um grau definido de desenvolvimento das forças de produção material e, por conseguinte, da riqueza. É certo que havia não apenas um desenvolvimento sobre a antiga base, mas também um desenvolvimento desta base em si mesma.”[5]
Para Marx, as forças produtivas são humanas (do ser humano) e para o ser humano, para o indivíduo. A ciência como força produtiva (assim também a riqueza, como já tinha sido mostrado nos Manuscritos de 1844 e na Ideologia Alemã) é determinada pelo desenvolvimento dessas forças e corresponde ao aparecimento de um grande número de externalizações, uma possibilidade maior de apropriar a natureza. Inclusive quando adquire uma forma ambígua, o florescimento do ser humano é possível; é o momento em que, no desenvolvimento da classe dominante, os indivíduos podem encontrar um modelo de uma vida plena. Para Marx, o modo de produção capitalista, impulsionando o desenvolvimento das forças produtivas, torna possível uma autonomização libertadora do indivíduo. Este é seu aspecto revolucionário mais importante.
“o máximo desenvolvimento dessa base (a flor em que ela transforma a si mesma; mas é sempre essa base, essa planta como flor; consequentemente, murcha depois da floração e como consequência da floração) é o ponto em que ele é enquanto tal acabado, desenvolvido, numa forma compatível com o máximo desenvolvimento das forças de produção e portanto também ao mais rico desenvolvimento dos indivíduos. A partir deste ponto, o desenvolvimento aparece como declínio, e o novo desenvolvimento começa de uma nova base.”[6]
Há declínio porque o desenvolvimento dos indivíduos é bloqueado. Não é possível usar esta sentença para defender a teoria do declínio do modo de produção capitalista [7]. Antes, porém, ela deve significar que o declínio começou, não no início deste século, mas, no mínimo, na metade do século XIX; ou então deve ser demonstrado que o declínio dos indivíduos é simultâneo ao declínio do capital, impossibilitando sua observação. Entretanto, o próprio Marx explicou, repetidamente, que o desenvolvimento do capital foi acompanhado pela destruição dos seres humanos e da natureza.
Quando foi que o desenvolvimento das forças produtivas acompanhou o desenvolvimento dos indivíduos, em diferentes sociedades? Quando o modo de produção capitalista foi revolucionário para si mesmo e para os seres humanos? As forças produtivas avançam continuamente, apesar dos momentos em que os indivíduos declinam? Marx disse: “...a partir deste ponto, o desenvolvimento aparece como declínio...”. As forças produtivas estagnam? O modo de produção capitalista declina? [8]
O restante da digressão de Marx confirma que o declínio se refere aos seres humanos. Os indivíduos florescem quando as forças produtivas permitem que eles se desenvolvam, quando sua evolução acompanha a evolução delas. Mediante uma comparação com o período pré-capitalista, Marx mostra que o capital não é hostil à riqueza mas, pelo contrário, impulsiona sua produção. Deste modo, ele impulsiona o desenvolvimento das forças produtivas. Anteriormente, o desenvolvimento dos seres humanos, de sua comunidade, era oposto ao desenvolvimento da riqueza; agora, há uma espécie de simbiose entre eles. Para isso acontecer, foi necessária uma determinada mutação: o capital teve que destruir o caráter limitado do indivíduo; este é outro aspecto de seu caráter revolucionário.
“Já dissemos que a propriedade nas condições de produção foi posta como idêntica à uma forma de comunidade [gemeinwesen] definida e limitada, e portanto do indivíduo com as características – desenvolvimento e características limitados de suas forças produtivas – exigidas por essa comunidade [gemeinwesen]. Esta pressuposição era, por sua vez, o resultado de um limitado estágio histórico do desenvolvimento das forças produtivas, da riqueza bem como do modo de criá-la. O propósito da comunidade [gemeinwesen] e do indivíduo – tanto quanto a condição da produção – é a reprodução dessas específicas condições de produção e dos indivíduos, tanto isoladamente quanto em seus agrupamentos e relações sociais – como suportes vivos dessas condições. O capital põe a produção de riqueza enquanto tal e, conseqüentemente, o desenvolvimento universal das forças produtivas, a constante destruição de seus pressupostos como pressuposto de sua reprodução. O valor [de troca] não exclui nenhum valor de uso, isto é, não exige como condição absoluta nenhum tipo particular de consumo etc., de troca etc. E, do mesmo modo, cada grau de desenvolvimento das forças sociais de produção, de troca, de conhecimento etc., aparece-lhe somente como um obstáculo que ele procura superar.”[9]
Esta passagem tem conseqüências notáveis. Não há referência ao proletariado; é o papel revolucionário do capital destruir todas as suas pressuposições. Marx já tinha dito isto, de uma maneira ainda mais impressionante:
“É destruindo tudo isso, revolucionarizando constantemente, ultrapassando todas as barreiras ao desenvolvimento das forças produtivas, à expansão das necessidades, ao desenvolvimento diversificado da produção, à exploração e à troca das forças naturais e mentais.” [10]
Temos que fazer uma nova abordagem da maneira como Marx situou o proletariado no contexto da contínua revolucionarização efetuada pelo modo de produção capitalista. De imediato, evidencia-se que o modo de produção capitalista é revolucionário com relação à destruição das antigas relações sociais, e que o proletariado é definido como revolucionário com relação ao capital. Mas é aí que o problema começa: o capitalismo é revolucionário porque desenvolve as forças produtivas; o proletariado não pode ser revolucionário se, após sua revolução, desenvolve ou permite um novo desenvolvimento das forças produtivas. Como distinguir, efetivamente, o papel revolucionário de um e o do outro? Como justificar a destruição do modo de produção capitalista pelo proletariado? Isto não pode ser feito num contexto estritamente econômico. Marx nunca se defrontou com este problema, porque ele estava absolutamente certo de que o proletariado se levantaria contra o capital. Mas devemos enfrentar este problema, se quisermos sair do impasse criado pela aceitação da teoria segundo a qual as relações de produção entram em conflito com o desenvolvimento das forças produtivas (forças cujo postulado era existir para os seres humanos, já que, se fosse assim, por que os seres humanos se rebelariam?). Se as forças produtivas não existem para os seres humanos, mas para o capital, e se elas conflitam com as relações de produção, então isto significa que essas relações não fornecem a estrutura apropriada ao modo de produção capitalista, e que, portanto, pode haver uma revolução que não é para os seres humanos (por exemplo, o fenômeno geral que é chamado de fascismo). Conseqüentemente, o capital escapa. Na passagem que estamos examinando, Marx faz uma extraordinária afirmação sobre a dominação do capital:
“Sua própria pressuposição – o valor – é posta como produto, e não como uma arrogante pressuposição que flutua sobre a produção.” [11]
O capital domina o valor. Dado que o trabalho é a substância do valor, a conclusão é que o capital domina os seres humanos [enquanto trabalhadores]. Marx só indiretamente se refere à pressuposição também como um produto: o trabalho assalariado, isto é, a existência da força de trabalho que torna a valorização possível:
“A barreira ao capital está em que todo esse desenvolvimento ocorre de um modo contraditório, e a realização das forças produtivas, da riqueza geral etc., do conhecimento etc., aparece de tal maneira que o trabalhador individual se aliena [sich entaussert]; relaciona-se com as condições extraídas dele por seu trabalho como condições que não lhe são próprias, mas de uma riqueza alienada e de sua própria pobreza.” [12]
De que maneira isso pode limitar o capital? É possível supor que o subconsumo dos trabalhadores causa as crises, e a crise final. Esta é uma possibilidade; no mínimo, é assim que acontece em certas épocas. Marx sempre se recusou a fundamentar uma teoria da crise a partir disso, o que não impediu que ele mencionasse o subconsumo. Para Marx, o capital tem uma barreira porque espolia o trabalhador individual. Devemos ter em mente que Marx está argumentando contra os apologistas do capital, afirmando que o modo de produção capitalista não é eterno e não produz a emancipação humana. No curso dessa análise, ele aponta a possibilidade de o capital se livrar das condições humanas. Percebemos que não são as forças produtivas que se tornam autônomas, mas o capital, posto que, num determinado momento, as forças produtivas se tornam “uma barreira que ele procura superar”. Isso ocorre assim: as forças produtivas não são mais forças dos seres humanos, mas do capital e para o capital [13].
O despojamento (alienação) do trabalhador individual não pode ser uma barreira para o capital, a menos que Marx use o termo barreira no sentido de uma debilidade que faria o capitalismo inferior aos outros modos de produção, particularmente quando contrasta essa debilidade ao enorme desenvolvimento das forças produtivas que ele impulsiona. A obra de Marx é ambígua quanto ao sujeito a que as forças produtivas se referem: elas são para os seres humanos ou para o capital? Esta ambigüidade permite duas interpretações de Marx. A interpretação ética (veja principalmente em Rubel) enfatiza a extensão em que Marx denuncia a destruição do ser humano pelo capital, e insiste vigorosamente que o modo de produção capitalista só pode ser um estágio transitório. A interpretação de Althusser e sua escola é a de que Marx não consegue eliminar o ser humano de sua análise econômica, o que reflete sua incapacidade de abandonar o discurso ideológico. Daí o problema de Althusser: situar corretamente o corte epistemológico.
É possível sair dessa ambigüidade. Se ultrapassar essa barreira, o capital alcançará a total autonomia. Eis porque Marx afirma que o capital deve abolir a si mesmo. Esta abolição decorre do fato de que ele não pode desenvolver as forças produtivas para os seres humanos, embora torne possível um desenvolvimento universal e variado que só pode ser realizado por um modo de produção superior. Há aqui uma contradição: o capital foge à compreensão dos seres humanos, mas ele deve perecer porque não pode desenvolver as forças produtivas humanas. Isto também contradiz a assertiva de Marx, da destruição dos seres humanos pelo capital. Como podem se rebelar os seres humanos destruídos? É possível, ignorando tais contradições, considerar Marx um profeta do declínio do capital, mas isso dificultaria a compreensão de sua obra e da situação atual. O final da digressão de Marx esclarece essas contradições.
“Mas essa forma antitética é, ela mesma, transitória, e produz as condições reais de sua própria supressão. Resultado: o tendencial, geral e potencial desenvolvimento das forças de produção – da riqueza enquanto tal – como uma base; do mesmo modo, a universalidade da troca e, portanto, o mercado mundial como base. A base como possibilidade de desenvolvimento universal do indivíduo, e o desenvolvimento real dos indivíduos a partir dessa base como constante suspensão de sua barreira, reconhecida como tal, não como um limite sagrado. Não uma universalidade ideal ou imaginária do indivíduo, mas a universalidade de suas relações reais e ideais. Portanto, também, a tomada de sua própria história enquanto processo e o reconhecimento da natureza (presente do mesmo modo como um poder prático sobre a natureza) como seu corpo real. O desenvolvimento é posto e reconhecido como a pressuposição do mesmo. Para isso, no entanto, é sobretudo necessário que o pleno desenvolvimento das forças de produção tenha se tornado a condição de produção; e não que condições de produção específicas sejam postas como um limite ao desenvolvimento das forças produtivas.” [14]
Se esse processo deve concernir aos indivíduos, o capital deve ser destruído e as forças produtivas devem ser para os seres humanos. No artigo “Le KAPD et le mouvement proletarien” [15], nos referimos a esta passagem para indicar que o ser humano é uma possibilidade, dando fundamento à afirmação: a revolução deve ser humana. Isto não é de modo algum um discurso sobre o ser humano concebido como invariante em cada atributo, uma concepção que seria uma mera reafirmação da imutabilidade da natureza humana. Mas isso ainda é insuficiente, visto que o desenvolvimento das forças produtivas, que, de acordo com Marx, ocorrerá num modo de produção superior, é precisamente o mesmo desenvolvimento efetuado atualmente pelo capital. O limite de Marx é que ele concebe o comunismo como um novo modo de produção, no qual as forças produtivas florescem. Estas forças são indubitavelmente importantes, porém sua existência num certo nível não define adequadamente o comunismo.
Para Marx, o capital supera suas contradições assimilando-as e mistificando a realidade. Só aparentemente ele supera sua natureza limitada, sua base estreita que é a troca de capital-dinheiro por força de trabalho. Inevitavelmente, o capital deve entrar em conflito com esta pressuposição; assim Marx fala da oposição entre apropriação privada e socialização da produção. Apropriação privada de que? De mais-valia, que pressupõe o proletário, e conseqüentemente a relação assalariada. Mas todo o desenvolvimento do capital (e as explicações de Marx são uma valiosa ajuda para compreender isso) torna a mistificação efetiva, fazendo o capital independente dos seres humanos, capacitando-o assim a evitar o conflito com sua pressuposição. Pode-se dizer que, apesar disso, o conflito persiste, como resultado do processo total: socialização. Isto é verdade. Mas a socialização da produção e da atividade humana, o desenvolvimento universal das forças produtivas e conseqüentemente a destruição do caráter limitado do ser humano – tudo isso era somente um fundamento possível para o comunismo, não põe o comunismo automaticamente. Além disso, a ação do capital tende constantemente a destruir o comunismo, ou pelo menos a inibir sua emergência e realização. Para transformar esta possibilidade em realidade, é necessária a intervenção humana. Porém, o próprio Marx mostrou que a produção capitalista integra o proletariado. Como a destruição dos seres humanos e da natureza deixaria de ter repercussões na capacidade humana para resistir ao capital e, a fortiori, se rebelar?
Alguns pensarão que estamos atribuindo a Marx uma posição que nos é conveniente. Citaremos uma passagem extraordinária:
“O que diferencia precisamente o capital da relação senhor-servo é que o trabalhador confronta [o capital] como consumidor e possuidor de valores de troca, e que, na forma de possuidor de dinheiro, na forma de dinheiro, ele se torna um simples centro de circulação – um de seus infinitamente múltiplos centros, nos quais sua especificidade como trabalhador se extinguiu.” [16]
Uma das maneiras de reabsorver a força revolucionária do proletariado tem sido exaltar seu aspecto de consumidor, capturando-o assim na teia do capital. O proletariado deixa de ser uma classe que nega. Então, a composição da classe operária se dissolve no corpo social. Marx antecipa os gurus da “sociedade de consumo” e, como em outros casos, explica um fenômeno que só seria observado depois e, então, dissimuladamente, só nos termos do nome que se deu a ele.
A observação precedente não leva a uma concepção fatalista (desta vez, negativa) do tipo: independentemente do que fizermos, não há saída; é tarde demais; ou qualquer outro derrotismo insensato que geraria um mórbido reformismo. Antes de tudo, temos que extrair a lição. O capital se desvencilha dos obstáculos naturais e humanos. Os seres humanos têm sido domesticados: esta é sua decadência. A solução revolucionária não pode ser encontrada no contexto da dialética das forças produtivas, no qual o indivíduo seria um elemento da contradição. As atuais análises científicas do capital proclamam uma completa indiferença com os seres humanos, que, para alguns, nada mais são do que um resíduo sem consistência. Isto significa que o discurso da ciência é o discurso do capital, ou que a ciência é possível somente depois da destruição dos seres humanos; ela é um discurso sobre a patologia do ser humano. Portanto, é insensato fundar a esperança de libertação na ciência. A posição mais estúpida de todas é aquela que, semelhante a de Althusser, não pode fazer sua própria ruptura, liquidar sua “arqueologia”, visto que permanece fiel a um proletariado – um proletariado que nessa concepção é meramente um objeto do capital, um elemento da estrutura. Mas este incapaz e destruído ser humano é o indivíduo produzido pelas sociedades de classes. E sobre isto concordamos: o ser humano está morto. A única possibilidade de outro ser humano aparecer está na luta contra nossa domesticação, nossa emergência dela. Humanismo e cientificismo(os seguidores da “ciência ética” a la Monod são os mais absolutos escravos do capital) são duas expressões da domesticação da humanidade. Todos aqueles que nutrem a ilusão da decadência do capital revivem as antigas concepções humanistas ou originam novos mitos científicos. Eles permanecem impermeáveis ao fenômeno revolucionário que está acontecendo através do nosso mundo.
Até agora, todos os lados tem argumentado como se os seres humanos permanecessem inalterados nas diversas sociedades de classes e sob a dominação do capital. É por isso que o papel do contexto social foi enfatizado (o homem, que era fundamentalmente bom, seria modificado positivamente ou negativamente pelo contexto social) pelos filósofos materialistas do século XVIII, enquanto que os marxistas enfatizavam o papel de um ambiente condicionado pelo desenvolvimento das forças produtivas. A mudança não era negada e, depois de Marx, repetia-se que a história é uma contínua transformação da natureza humana. Não obstante, sustentava-se explícita ou implicitamente que um elemento irredutível permitiria aos seres humanos se revoltar contra a opressão do capital. E o capitalismo era descrito de forma maniqueísta: de um lado, o pólo positivo, o proletariado, a classe libertadora; de outro, o pólo negativo, o capital. O capital, afirmado como necessário e como tendo revolucionarizado a vida dos seres humanos, era descrito como um mal absoluto em relação ao bem, o proletariado. No mínimo, o fenômeno que hoje emerge não desfaz a avaliação negativa do capital, mas nos força a generaliza-la à classe que outrora o antagonizou e era portadora de todos os elementos positivos do desenvolvimento humano, e à própria humanidade. Este fenômeno é a recomposição de uma comunidade e dos seres humanos pelo capital, refletindo a comunidade como um espelho. A teoria da visão do espelho só pode surgir quando o ser humano se tornou uma tautologia, um reflexo do capital. No mundo do despotismo do capital (é assim que a sociedade aparece hoje), não se pode distinguir nem o bem e nem o mal. Tudo pode ser condenado. A forças negadoras só podem emergir fora do capital. Dado que o capital absorveu todas as antigas contradições, o movimento revolucionário deve rejeitar a totalidade do produto do desenvolvimento da sociedade de classes. Este é o elemento crucial de sua luta contra a domesticação, contra a decadência da espécie humana. Este é o momento essencial do processo de formação de revolucionários, absolutamente necessário para produzir a revolução.
Jacques Camatte - Maio, 1973
Notas:
[1] Marx, Grundrisse, Londres : Pelican, 1973, p. 539.
[2] Ibid., p. 540.
[3] Ibid.
[4] Ibid.
[5] Ibid., pp. 540-541.
[6] Ibid., p. 541.
[7] Como é feito por Victor, em Revolution Internationale No. 7, série 1, p. 4 do artigo “Volontarisme et confusion”.
[8] Vários autores têm falado de estagnação e declínio da produção entre as duas guerras mundiais. Bordiga sempre rejeitou a teoria do declínio do modo de produção capitalista, afirmando que é uma deformação gradualista da teoria de Marx (ver “Le renversement de la praxis dans la théorie marxista”, em Invariance No 4, série 1).
[9] Marx, Grundrisse, p. 541.
[10] Ibid., p. 410.
[11] Ibid., P. 541.
[12] Ibid.
[13] É isso que Marx demonstra, quando analisa o capital fixo nos Grundisse e também no livro I do Capital, “onde ele analisa a transformação do processo de trabalho em processo de produção do capital” (ver também Un chapitre inédit du Capital, paris: Ed. 10/18, 1971).
[14] Marx, Grundrisse, pp. 541-542.
[15] Invariance, Série II, No. 1.
[16] Marx, Grundrisse, pp. 420-421.
Nota do grupo Autonomia:
Este ensaio foi originalmente publicado em Invariance (Anne 6, série II No. 3, 1973) com o título “DECLIN DU MODE DE PRODUCTION CAPITALISTE OU DECLIN DE L’HUMANITÉ ?”
Posteriormente, foi traduzido para o inglês por Fredy Perlman, assistido por Camatte, e publicado por Black & Red (Detroit) em 1973. Foi reimpresso em Autonomedia anthology Against Domestication, em 1995.
O texto que serviu de base para esta tradução pode ser encontrado na Internet: www.geocities.com/~johngray/camwan06.htm
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Assamblea final "De la autonomía obrera al anatagonismo difuso"
Asamblea final
Notas cogidas al vuelo en la asamblea final de las Jornadas "De la autonomía obrera al anatagonismo difuso", Barcelona, 10 y 11 de junio de 2000.
* las intervenciones no han sido grabadas, así que siempre son aproximadas (que no se enfade ni se ofenda nadie al reconocer sus palabras!)
* los números indican quién habla, en lugar del nombre. Se puede seguir, así, el juego de respuestas, el número real de gente que participó, quién intervino sin parar, etc...
(1)- Centremos el inicio del debate en lo que ha sido el núcleo de estas jornadas: ¿valen, nos sirven, los principales conceptos de la Autonomía Obrera?
(2)- Creo que valdría la pena cambiar el nombre a aquello a lo que nos referimos: no se trata ya de hablar de Autonomía Obrera sino de luchas autónomas.
(3)- A ver: lo que hay que comprender es que el antagonismo difuso debe ponerse como problema y no como solución: con los cambios de estos últimos años hemos asistido al fin de un ciclo de 200 años que empezó con la revolución americana y francesa, es decir, al fin de un ciclo en el que las luchas se han venido comprendiendo como gestión de la totalidad.
(4)- Lo que se ha terminado, más bien, es una determinada comprensión de estos 200 años. Por otro lado, lo que quería plantear es: ¿es que alguna vez la contestación radical del mundo ha surgido de algo que fuera más allá del pequeño grupo (aunque fuera de obreros)?
(5)- Dos preguntas: 1- ¿han cambiado tanto las cosas, como para no tener en primer término que estamos bajo el dominio del capitalismo mundial? 2- ¿y cómo luchar contra eso? Hay dos opciones: a partir de microcosmos encerrados o a pecho descubierto...
##!*?!!#%Á@#!! (=jaleo)
(6)- A ver, ¿hay alguien aquí que se considere obrero?
##!*?!!#%Á@#!!
(7)- Todos los que nos consideramos autónomos es a partir de la experiencia, no de la teoría, y esta experiencia es la que nos sirve porque es la única que permite recrear luchas en cada lugar, después de cada derrota... nos da la flexibilidad que el mercado y el capitalismo nos piden, pero en otro sentido.
(8)- Contestando a la chica, no ser obrero no quiere decir no tener una raíz autónoma.
(3)- El problema no es a quién debemos dirigirnos. Lo que hay que hacer es celebrar la desaparición de x puestos de trabajo como soldador, que sean las máquinas las que pinten los coches. Otra cosa es: ¿sabremos qué hacer de las posibilidades que surgen de ahí? Entramos en el terreno de un posible-imposible...si no, sólo nos queda el videojuego, que es el ámbito de lo imposible-posible: te tocan tres muertes...
(3)- Todo esto es una trivialización, cuando hay tres cuartas partes del mundo que se muere de hambre, que no tiene más que trabajos horribles...
##!*?!!#%Á@#!!
(9)- Mira, si nos tenemos que hacer cargo de todo esto, entramos en el discurso de la impotencia. No podemos ser solidarios, porque esto es lo que hace el poder y el encuentro de hoy da todo eso por supuesto.
(5)- Esta actitud es conformarse, refugiarse en que no hay solución.
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(10)- La clase obrera, la Autonomía Obrera, la zona verde que yo reivindicaba en mi barrio, la reivindicación misma... pertenecen al pasado. Sin embargo, siguen existiendo un montón de miserias. No hay un paraíso perdido. Tenemos un problema: hacer vivible lo que ya no nos es vivible, y para eso tenemos que saber que, o bien no queremos nada o, que si queremos algo, tenemos que quererlo todo.
(2)- Yo veo que está todo por ganar, porque ahora, además hay una novedad muy importante: la precariedad que nos implica a todos, ya no es una cuestión interna a una clase. Sólo hay dos tipos de personas que puedan hacer la revolución: los que no tienen nada que perder y los que tienen conciencia.
(11)- Hay luchas, en estos momentos, en muchos frentes (...). Por eso creo que el debate debería hacerse más concreto.
(3)- Hay muchos frentes pero enfrente no hay nadie.
(1)- La práctica revolucionaria siempre ha tenido a la vez un componente lúdico y un componente emancipatorio. Este segundo ha caído: nadie se cree hoy que puede cambiar el mundo, mientras sí que nos creemos que podemos abrir un centro social. En todo eso hay el hombre anónimo: gente que pasa, que no va a votar... ¿Cómo tender un puente? Lo común. hoy, no es pertenecer a una clase social, sino querer vivir, un querer vivir que se expresa de muchas maneras: okupando, pero también pasando. ¿Cómo organizar esta fuerza anónima? ¿Cómo puede el quere vivir hacerse desafío? Por un lado se trata de establecer una red, de organizar espacios, de utilizar el espacio, etc (estrategia de objetivos). Pero para ello, por otro lado, hay que mirar el agujero negro. De ahí la utilidad de una encuesta. Las prácticas pueden así adquirir una proyección en el tiempo, más allá de las prácticas que nos dejan con buen sabor de boca pero insatisfechos.
(12)- Lo de la encuesta lo hemos conocido en otras ocasiones, pero ahora, tal como la planteáis, no se acaba de entender.
(1)- La encuesta obrera tuvo mucha importancia en Italia porque a partir de su trabajo en las fábricas, previó el otoño caliente. Hoy, lo que tenemos delante es un agujero negro que es silencio, sufrimiento, anonimato, etc. ¿Es posible penetrar este agujero negro? ¿Es posible, por ejemplo, ver cómo el paro puede ser vivido de otra manera? No es hacer una encuesta universitaria, sino de hacer lo que, de algún modo, un centro social está ya haciendo.
(12)- ¿Se trata, de algún modo, de una experimentación?
(1)- Sí, pero yendo más allá, haciendo el frente más amplio. Se trata de desvelar cómo se vive la precariedad, pero de verdad. Y ver, entonces, si se puede aglutinar...
(6)- Si es verdad que hay tantos mundos, cada uno con sus historias, ¿por qué parece que no se pueden juntar, conocer, etc? Cuando se plantea lo de la encuesta nos preguntamos: ¿para qué? Para hacer una serie de preguntas acerca de la soledad, el miedo, a partir de categorías que son las que nos atraviesan. Es, en definitiva, un instrumento.
(13)- Las prácticas del antagonismo difuso están muy por detrás de la evolución del régimen de producción. Se da un retraso, una pobreza discursiva y comunicativa. En Italia, la autonomía supo poner en conjunción un saber potente con las prácticas que se estaban dando. Poner en marcha una investigación-participante, tendría como objetivo hacer un discurso a la altura de las circunstancias, es decir, ahí donde el conocimiento se encuentra con la práctica vital. Así es como se produce subjetividad, porque se crea un tejido de relaciones antagonistas que además emprenden un proceso de desidentificación, cosa que no pasa en un centro social. Lo que se produce es la suma de investigación + diagnóstico + propuesta, por parte de la comunidad efímera que se ha formado.
(14)- Para mí, lo de la encuesta tendría más sentido como la apertura de espacios de lucha. La encuesta resultaría quizás muy estática: hay que conocer las necesidades de los otros luchando juntos.
(15)- ¿Y cómo los conocemos? Precisamente con la encuesta. En los centros sociales ya hacemos algo: ofrecemos conciertos, charlas, creamos así unas relaciones. Pero hay que ir más allá y no precisamente con discursos ideológicos, que sólo producen pasmo y tristeza.
(16)- Hay que elaborar una nueva explicación de la realidad.
(10)- Lo de la encuesta sitúa el tema. Casi siempre partimos de la idea de que siempre lo sabemos todo. ¿Y si vamos a dudar? El mundo es grande, complejo, nos hemos aislado. Vamos a pensar que no sabemos... Es algo que traspasar al otro pero también a mí. Lo que nos puede enseñar (como me lo ha enseñado a mí la experiencia de estos últimos dos años en el centro social de mi barrio) es que la vara de medir que teníamos ya no sirve.
(17)- La encuesta parece algo estático porque la palabra tiene, en castellano, connotaciones que lo hacen parecer. La investigación-participante tiene que ser a la vez: transmisión de conocimiento, producción de subjetividad e intervención política.
(6)- La encuesta, como okupar, es sólo un instrumento, una vía.
(18)- Ya existen otros medios e instrumentos, como la contrainformación.
(13)- La contrainformación no sirve, para esto. Es inconcebible que el magrebí de tu barrio se ponga a leer el periódico que sacas o a hacer vida en tu centro social. Hay que ponerse a producir un lenguaje...
(19)- En Bélgica estamos haciendo la experiencia del carnet de transporte gratuito, que utilizamos cotidianamente. Lo enseñamos al revisor, frente a lo cual éste debe o bien jugar su papel o bien entrar en una discusión política o ética con nosotros. Es una forma de salir del ellos/nosotros. Ahora estamos realizando una investigación-acción para encontrarnos con algunos que trabajan en la SNCF (=RENFE) y establecer lazos, ver cómo viven su subjetividad y lanzar posibilidades de cooperación y de intervención política. Nosotros somos grupos de parados, ellos tienen problemas con la empresa. No nos vamos a intercambiar los papeles, pero podemos encontrar maneras compartidas de intervenir. En este sentido, la investigación-acción es importante para encontrarse con gente diferente y ver cómo vive en un territorio.
(6)- La encuesta no es para ver las miserias de la gente, sino para ver qué quiere cada uno cambiar.
(20)- Si ayer conté las polémicas que dividen al movimiento italiano, hoy contaré sus verdaderos problemas, los problemas que conciernen a todos. En sociología se acostumbra a decir que un sistema cerrado tiende a empobrecerse. Pues bien: muchas veces, la política no consiste más que en hablar entre 100 o 200 personas, y luego hacer una mani que recorre las calles exponiendo un problema. Hay poca interacción, poca comunicación. No estamos haciendo nuestra función, que es facilitar el protagonismo social. Somos autorreferenciales. Es entonces cuando nos empobrecemos y nuestras divisiones se exasperan. ¿Cómo superar esta situación? La encuesta puede ser una manera. Otro modo de hacer la encuesta es haciendo las luchas. La lucha es un momento de encuesta porque ves qué hace la gente en un determinado lapso de tiempo. Y ahora hay un espacio muy amplio para las luchas reivindicativas. Por ejemplo, donde yo vivo, que es la zona más rica de Italia, no hay casi parados pero sí muchos precarios, que no sólo estan aislados en sus casas, sino que muchos de ellos están trabajando juntos, en espacios muy grandes y mal acondicionados. En estos sitios nadie se organiza para luchar por sus condiciones. Hay que encontrar, pues, la manera de intervenir en estas nuevas realidades. Hay otro elemento importante: el lenguaje. No tenemos un lenguaje para entendernos con la gente. Hay que crear formas de lenguaje y de relación nuevas, incluso poniendo en cuestión la forma asamblea.
(3)- El sentido de la encuesta es ir más allá del encuentrismo y del campañismo. La encuesta podría llamarse maniobra: tarea que parte de la hipótesis de que hay otras muchas sediciones como la nuestra, de que hay un continente que no está higienizado totalmente.
(9)- La encuesta parte de una actitud: la que tomamos cuando la realidad se nos escapa en fragmentos: hay muchos mundos, silencios, etc, que no pueden ser recogidos en categorías fuertes. De lo que se trata es de redoblar nuestra presencia como problema. La encuesta empieza entonces como voluntad militante de preguntar: ¿hay complicidad entre estos fragmentos, para que su presencia pueda redoblarse? Así es como puede salirse de la autorreferencialidad.
(2)- Quiero contar una experiencia de 3 días en Almería, de la que aprendimos mucho. Hay organizaciones de inmigrantes con gran conciencia política, que están desarrollando formas de intervención autónoma, más allá los sindicatos. Uno de los problemas que tienen es el lenguaje (hay gente que ha empezado a hacer traducciones) y la escritura: no tienen ordenadores con teclado árabe...
(21)- Lo que hay detrás de la encuesta es una intención: abrirse, salirse de ese gueto que a veces nos autosatisface. Parece, entonces, que no estamos del todo satisfechos con nuestras acciones lúdico-subversivas... Acerca de la otra pregunta, ¿sirve o no la palabra antagonismo? Si lo que queremos es buscar el cara a cara permanente, no.
(22)- Quiero señalar lo que para mí serían las dificultades de la encuesta. Se trata de hacer más o menos lo que ya hacemos, pero en forma de encuesta. Entonces, 1- la perspectiva parece estar, aún, en la primera de las tres líneas que se exponían esta mañana: la de recomposición. Habría que ir más allá. 2- Tiene que haber una hipótesis a verificar y unas complicidades fuertes que se expongan. 3- El objetivo no tiene que ser abrirse, sino afirmarse más y mejor. 4- El principal problema no está en el agujero negro sino en los que estamos bajo el fluorescente.
(11)- Me puede explicar alguien de qué va esto de lo lúdico-subversivo???
(10)- Las prácticas lúdico-subversivas son cada vez menos lúdicas y menos subversivas. Se están buscando paraísos perdidos, cuando empieza el declive. Huyendo de la sociedad individualizada de mierda acabamos donde partíamos: huyendo, individualmente, hacia paraísos perdidos. Si queremos dar un paso más allá, no basta con okupar una casa, hay que llenarla de contenido.
(23)- El debate parece contradecirse: al mismo tiempo que queremos ir más allá de las acciones lúdico-reivindicativas, necesitamos nutrirnos de ellas.
(14)- Para mí lo nuevo sería encontrar espacios de lucha comunes. Es así como se saldría de la autorreferencialidad, de la identidad que cada uno tiene. Hay que buscar momentos de organización más estable, aunque no sea una oreganización política.
(11)- Yo creo que sí que sabemos bastante lo que hay por ahí. Lo que pasa es que no sabemos cómo conectar.
(24)- Sabemos muchas cosas de las que ocurren y no nos juntamos con ellas. Quizás habría que bajar el listón a la hora de decidir con quién nos juntamos y con quién no, porque parece que sólo podemos unirnos cuando hay marrones.
(25)- Pongamos como ejemplo el "Rompamos el silencio": un conjunto de movidas interesantes no han sabido movilizar a la gente. Este es el problema de la autonomía: encontrar formas de lucha que trasciendan a cada uno.
(6)- Buscar la comunicación con otros no tiene porqué partir de las acciones: hay muchas historias (reivindicaciones de los bomberos, policías, etc) que yo no voy a apoyar.
(16)- Un ejemplo de los límites que puede tener algo como la encuesta es lo que ocurrió en Madrid con la intervención que hicimos con la gente que trabaja en el Circo del Sol. Después de un tiempo de hablar con ellos, se convocó una manifestación a la que sólo acudieron 30 personas. Es, por lo tanto, un caso de autorreferencialidad en un conflicto que es de otros.
(2)- Lo que está claro es que hay que dar un paso más allá, afianzar el movimiento. Hay que pensar que esto es una guerra larga contra el capital: hay que ser constante y responsable. Ya estoy harto de esas actitudes horribles que parten del "no me apetece..."
(11)- Al aunar esfuerzos (lo hemos experimentado en el pueblo en el que estamos) chocamos con dos problemas: la diferencia generacional y la criminalización.
(24)- Lo que se hace importante es reforzar el contacto humano entre grupos, que la gente se conozca...
(6)- Intentar contactar con la gente a partir de manis y jornadas no aporta mucho. Habría que aprender a irrumpir en espacios que no son nuestros para forzar la comunicación con gente que está por otras historias.
(1)- Viendo hasta dónde hemos llegado en estas jornadas y, en concreto, en este debate, habría que empezar a plantearse cómo pensar la continuidad de todo esto. Posibilidades: 1- utilizar el espacio SinDominio, 2- pensar en otros encuentros, 3- pensar en la encuesta como otra manera de hacer política.
(26)- Hay dos maneras de entender lo que es la encuesta que, a mi modo de ver, son erróneas: la primera, pensar que todo lo que hacemos es encuesta; la segunda, pensar que la encuesta está separada de las luchas. Una y otra son mentira. Para poder hacer la encuesta tiene que haber una alianza previa, cosa que en Madrid nadie parece querer hacer. Podemos hacerla nosotros en Lavapiés, pero no podremos abarcar un análisis más amplio. Lo que hace difícil la alianza es la división entre los que se sienten autosatisfechos con lo que hacen y los que no.
(27)- Parece que hay una especie de complejo en este planteamiento de la encuesta: ¿es que el sujeto revolucionario siempre son los otros? Si lo que queremos es ponernos positivistas, experimentemos: metámonos en los ámbitos de trabajo, en la CGT, etc.
(28)- Yo no veo que una cierta autocomplacencia esté en contra de las ganas de hacer la encuesta...
(29)- Hay que llevar adelante la encuesta como uno más de los puentes que se deben ir tejiendo entre las distintas historias.
(26)- No sólo hay autocomplacencia: hay conformismo y pasividad.
(29)- Pero ¿hay que articular un movimiento desde arriba o hay que dejar que surja? La encuesta sería una manera de reforzar lazos sin forzar la articulación de un movimiento.
(28)- No creo que nadie aquí esté planteando la articulación de un movimiento.
(6)- Lo que sí es verdad es que hasta ahora hemos ido a salto de mata y que quizás valdría la pena hacer un esfuerzo para intentar ir más allá.
(2)- Tenemos que intentar saber qué tenemos delante...
(10)- ...e ir pensando maneras de salir del abatimiento.
DOSSIÊ: AUTONOMIA OPERÁRIA
ÍNDICE:
O MIL-GAC: Introdução- Sobre o MIL-GAC
1000 ou 10000- «Grupo Autônomo de Combate / setembro 1973»
A LUTA AUTÔNOMA - Lúcia Bruno
O QUE ENTENDEMOS POR AUTONOMIA PROLETÁRIA - Proletários Comunistas
NOTAS SOBRE COMPOSIÇÃO DE CLASSE - Kolinko
COMPOSIÇÃO DE CLASSE - Zerowork
A REDE DE LUTAS NA ITÁLIA - Romano Alquati
NOTAS SOBRE A AUTONOMIA OPERÁRIA NA ITÁLIA - Coletivo Rete Operaia (Precari Nati)
OS OPERÁRIOS NÃO QUEREM MAIS TRABALHAR - Potere Operaio
AUTONOMIA OPERÁRIA E AUTONOMIA DOS PROLETÁRIOS - Neg/azione
AUTONOMIA O QUE É E COMO FUNCIONA - kaos
TESES PARA A FORMAÇÃO DE UMA REDE DE INDIVÍDUOS, GRUPOS E ORGANIZAÇÕES AUTÔNOM@S - kaos
AÇÃO DIRETA - kaos
8 PONTOS SOBRE A AUTONOMIA OPERÁRIA - Senza Freni
NOTAS SOBRE A AUTONOMIA OPERÁRIA
AUTONOMIA OPERÁRIA VERSUS INTELECTUAIS E TEORIA
Encontro: DA AUTONOMIA OPERÁRIA AO ANTAGONISMO DIFUSO
Itália: Da Autonomia Operária aos Centros Sociais
Autonomia Operária ou Barbárie - AJOBRANCO
Sobre a Autonomia Operária em Barcelona - Etcétera
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