quarta-feira, 17 de outubro de 2012

CONTRA-REVOLUÇÃO NA ESPANHA - Capítulo 24

Capítulo 24 de « BILAN »: CONTRA-REVOLUÇÃO NA ESPANHA REFORMA E REVOLUÇÃO Outro estigma do período após 1917, em Bilan: a esquerda italiana atribui uma grande importância ao sindicato como lugar de luta e de reagrupamento dos operários. Ora, trata-se menos dos sindicatos eles mesmos do que da natureza das lutas conduzidas pelos operários. Segundo a esquerda italiana, posto que as reinvidicações, ainda que elementares, implicam uma oposição entre burguesia e proletariado, é apenas sobre esse terreno que a luta de classes poderá renascer e desenvolver, com a ajuda das minorias comunistas, os órgãos de luta do proletariado enquanto tal. A posição de Bilan e de Octobre enfatiza as lutas imediatas a fim de que a oposição proletariado-burguesia seja tão acentuada quanto possível, uma vez que toda ação propriamente política de envergadura está excluída. As ações de massa são inevitavelmente canalizadas pela Frente Popular. Ao contrário, "as batalhas reivindicativas" fazem surgir um "contraste orgânico, porque então se torna impossível suprimir o antagonismo entre o agente do inimigo e as reivindicações de classe dos operários, implantadas no antagonismo superior que opõe, no terreno econômico, proletariado e burguesia" [1]. Mas essa concepção encontra objeções. A primeira é a mais simples, porque concerne ao sindicato. A esquerda italiana, por não ter sido capaz de efetuar a crítica teórica e prática feita pela esquerda alemã, ignora a natureza contra-revolucionária do sindicato. Mas esta questão introduz outra, mais profunda. O argumento que justifica o caráter ´operário´ (e potencialmente revolucionário) do sindicato parte da idéia de que a organização sindical, qualquer que seja sua integração ao capital e ao Estado, estaria implantada nos movimentos elementares dos proletários. O que não se aplicaria aos partidos políticos (socialistas, stalinistas etc.) Assim, o terreno econômico permaneceria aquele em que o compromisso capital-operários será sempre precário e até mesmo questionado, porque nele se trata dos interesses vitais dos trabalhadores. Há, na esquerda italiana e em Bordiga, um formalismo operário e mesmo um economicismo, aos quais se superpõe uma idealização do partido. É próprio dessa visão – herdada da segunda internacional e retomada pela terceira – não superar a antinomia econômico/político. A um a priori econômico das lutas reivindicativas, que não poderiam senão impulsionar os proletários a atacar firmemente a sociedade capitalista, junta-se um partido formado graças à manutenção dos ´princípios´ que permitiria ao movimento operário elementar passar a um nível superior (político) tomando a direção de seus órgãos econômicos e orientando-os no sentido revolucionário.Teorizada ao extremo em certos textos de Bordiga e do P.C.I. atual, esta posição está mais ou menos presente em Bilan. A esquerda italiana da época entrevia os limites das lutas econômicas: "Uma coisa importante! Vossas lutas reivindicativas podem ser extraídas do clima social que as envolve. Ou seja, para adquirir uma função de classe, elas devem se conectar à luta contra a guerra… e também contra os mecanismos de guerra que o capitalismo hoje vos convoca a apoiar para melhor vos esmagar, amanhã. Se não agirdes como classe, a `Nação unificada´ vos arrastará para a guerra e cessareis de ser a classe proletária" [2]. Não basta provar que, na fase de dominação total do capital, toda organização permanente de defesa do salário está condenada a se tornar um instrumento de defesa do regime salarial. O problema não está tanto ao nível das organizações reformistas: é a atividade reformista dos próprios assalariados que os submete ao capital. Portanto, a experiência imediata é sempre a condição necessária, mas não suficiente, da ruptura e da luta contra o capital, e não somente contra os seus efeitos. As organizações políticas que teorizam as reações imediatas, vendo nelas o objetivo ou o conteúdo do movimento comunista, antes contribuem para fixar os proletários nesse nível. O que não impede que a experiência proletária se enraíze sempre nos conflitos imediatos. O primeiro ato com potencialidade revolucionária (isto é, que prepara a revolução) consiste em atacar o que se tem pela frente. O que é determinante para uma revolução comunista futura (hoje, como nos anos trinta) é a capacidade dos proletários de lutar contra suas condições de vida e trabalho, mas não se fixar nesse estágio. A dificuldade de tal processo é evidente, mas trata-se de uma contradição real, histórica, imposta pelas situações respectivas do capital e do proletariado, desde 1914. Essa contradição engendra uma verdadeira crise do proletariado, refletida entre outras pela crise de alguns agrupamentos revolucionários. Só uma revolução comunista poderá superar praticamente essa contradição. Ou, continuando nela aprisionada, fracassará. A esquerda alemã, em particular Gorter desde 1923 [2 bis], tinha visto que o movimento comunista havia sido derrotado pela ação dos operários reformistas. Nisso, a esquerda alemã era paradoxalmente menos ´obreirista´ do que a esquerda italiana. A maior parte dos grupos revolucionários dissimula hoje essa realidade, explicando-a pelo ´enquadramento´ e a ´mistificação´ dos operários nos sindicatos e partidos. Mas de onde os partidos e sindicatos tiram sua força e sua solidez? Em sentido contrário, alguns elementos saídos da esquerda italiana nos últimos anos foram tão seduzidos por essa realidade que se esqueceram do resto. Uns renunciaram aos conceitos marxistas, por esperarem da revolução um surgimento da vida, além de toda coerência e todo quadro [3]. Outros conservam as noções essenciais de Marx, mas consideram que os operários enquanto operários se comportam como capital variável e, assim, como parte integrante do capital. A luta de classes seria, então, o motor do capital, e a classe operária a mais capitalista de todas: os operários constituiriam o corpo do capital. Talvez uma grande crise lhe permitisse sair do impasse [4]. Essas análises, sobrecarregadas pelo peso das noções herdadas da esquerda comunista, traduzem em jargão marxista o que foi dito há muito tempo em termos mais simples: os operários estão integrados ao capitalismo. No entanto, o problema existe. E não se pode negar, com a ajuda de generalidades sobre a imbricação necessária da luta reivindicativa com a luta revolucionária, a primeira sendo o meio de passagem para a segunda. Que diríamos de um revolucionário que, em 1914-1918, não se pronunciou sobre a função dos sindicatos, pretextando que o problema não tinha nada de novo e que a realidade é mais complexa do que todos os esquemas e que os sindicatos evoluem (argumentos do gênero dos de Lênin e da terceira internacional contra a esquerda alemã)? Diríamos que tais afirmações escamoteiam a questão. Num período em que não se pode mais tudo explicar pelo ´peso da contra-revolução´ (antiga ou moderna), não cabe questionar a inexistência ou o desaparecimento de todo órgão operário radical de base depois da luta, assim como a incapacidade dos revolucionários para superar o estágio dos grupelhos que se reúnem mais nas editoras e jornais do que num órgão, mesmo modesto, de lutas efetivas num meio social qualquer. Não se pode ver o sinal de existência de um movimento comunista ainda subterrâneo, mas pronto para emergir com toda sua força; nem conclamar os operários a ´desenvolver as lutas´ sem pôr a questão do terreno sobre o qual podem se reagrupar e agir num sentido revolucionário; nem estabelecer entre ´reivindicação´ e ´revolução´ uma barreira que recolocará a necessidade de um salto, de uma passagem que não se sabe se é possível. A dificuldade – não resolvida – do movimento revolucionário desde 1914 era abandonar o quadro das organizações existentes (sindicatos e partidos) para agir com mais amplitude e coerência. Hoje, a dificuldade consiste em destruir uma não-organização (em grande parte, mas não totalmente inevitável) e agir, quando chegar o momento. Como em (e desde) 1914, não temos receita milagrosa nem garantia de sucesso. A única linha diretriz reside, como então, na enunciação a mais clara possível do conteúdo comunista e das tarefas (positivas e negativas) da revolução. Esta situação não depende dos ´revolucionários´, mas das condições gerais em que se encontra o proletariado, depois das derrotas posteriores à primeira guerra mundial. E dela decorre esta imensa dificuldade dos proletários para se organizar, sem entrar num quadro (formal ou não) de defesa dos assalariados enquanto assalariados; e dos revolucionários para se organizar, numa atividade coletiva que vá além de sua rotina habitual. A teoria tende a ser nada mais do que a teoria de qualquer coisa, dum movimento social do qual ela faz parte no sentido de que atua nele. Sua linguagem tende a se autonomizar. Ela se limita a se reenviar ao movimento que diz expressar, mas com o qual mantém pouca ligação, assim como o movimento mantém pouca ligação com seus diferentes componentes (e estes entre si). Na falta de uma atividade proletária efetiva, na qual as minorias revolucionárias teriam seu espaço, uns se contentam com ´representar´ a classe e exortá-la – inutilmente, aliás – para a luta. Outros se recusam a desempenhar este papel, mas negam a si mesmos como produto e elemento do proletariado, e se contentam com declamar sua teoria, reinterpretando tudo sobre a base de seu problema. Ou seja, fixados num ponto de vista particular, são incapazes de o compreender como parte e efeito da totalidade [5]. A atomização dos proletários avança juntamente com a fragmentação da teoria do proletariado. A guerra de Espanha (como, na mesma época e num contexto diferente, as duríssimas greves nos E.U.A.) marca o fim de uma época. Os acontecimentos de 1917-1921 foram o auge de uma longa série de lutas operárias radicais, começadas antes de 1914 e que se prolongam, com os movimentos na Inglaterra (1925), na China (1926-1927), na França, na Espanha, nos E.U.A. e em muitos outros países, inclusive os ´subdesenvolvidos´. Seria absurdo afirmar que a guerra de Espanha foi a última chama duma classe operária ainda radical, mas destinada a se comportar, no futuro, como fração do capital. Contudo, ela fecha a época das grandes lutas, quando existem ainda organizações operárias não totalmente integradas pelo capital (C.N.T., P.O.U.M.). Todo esforço visando a ´dar uma organização´ à classe (ou a que ela se auto-organize) caducou. Não se pode mais limitar-se a defender suas ´fronteiras de classe´, como Bilan, tomando a noção de classe num sentido ainda sociológico. Se os operários (ao menos uma parte) jogam um papel chave na revolução, não é isso que a caracteriza: a revolução comunista não é a hegemonia operária sobre a sociedade, mas a reapropriação das condições da vida e a produção de novas relações sociais. "Podemos afirmar que herdamos somente das batalhas revolucionárias dos operários, e que aquilo que eles [sindicatos e partidos] constroem sobre o que delas resulta não nos interessa? ... Um método semelhante seria empirismo... Temos ainda, como prioridade, a tarefa de submeter a uma análise séria meio século de luta de classes e isso não se pode fazer dizendo: ´aceitamos isto e rejeitamos aquilo´... Se, portanto, antes de tudo, trata-se de compreender os acontecimentos passados e não aceitar no todo ou em parte a fase superada da luta operária, não podemos herdar senão de experiências, ensinamentos que adquirem todo seu valor somente na medida em que somos capazes de traduzi-los na linguagem de nosso tempo..." [6]. Os berros de Hitler e o choramingar de Blum pertencem ao passado. Ditadura e antifascismo não só revestiram formas ultrapassadas do período entre duas guerras, mas continuarão a prosperar como irmãos inimigos no seio do capital. As lutas sociais agudas, mas que não irão até o assalto final contra o capital, verão sem dúvida um alinhamento das forças entre os dois campos igualmente capitalistas: um, reagrupando a burguesia tradicional; outro, respaldado pela esquerda institucional, unindo os ´setores democráticos´ do capital. Numa situação tensa, o conflito poderá até levá-los à violência aberta, sem no entanto mudar sua natureza capitalista. O antifascismo espanhol anseia reeditar, hoje, a Frente Popular de 1936. O P.C.E. dá o tom: liberdade política para os partidos da democracia burguesa, repressão contra os proletários radicais. E reivindica "o direito para todos os partidos, de esquerda e de direita, de poder se exprimir normalmente". Mas "se houver grupos proclamando sua vontade de destruir a democracia, caberá à justiça pô-los fora-da-lei". Realista, o P.C.E. previa, assim, dar ao exército "uma técnica e os meios que lhe permitam desempenhar o papel que a nação deve lhe atribuir nos seu próprio interesse" [7]. A posição revolucionária contra essas forças políticas não pode consistir numa repetição melhorada das análises da esquerda comunista de antes da guerra. Sua insuficiência não decorre de que a situação mudou de natureza, mas de que essa esquerda era já incapaz de apreender o conjunto do problema, de recompor a perspectiva comunista, em toda sua amplitude. E porque sua resposta foi, antes de tudo, negativa. Ela designa os inimigos da revolução. O texto de Gorter, em 1923 (cf. nota 2 bis) era já construído sobre esse plano, enumerando os adversários do comunismo. Uma simples denúncia (acompanhada pela exaltação das ´lutas operárias´) é hoje anacrônica. Ela não concerne, finalmente, senão ao que denuncia e a quem ela se dirige (a esquerda e o esquerdismo, que é o ´centrismo´ atual). O comunismo teórico não pode mais existir a não ser como afirmação positiva da revolução [8]. Notas [1] Octobre, no. 4. [2] Octobre, no. 3. [2 bis] L’internationale Communiste Ouvrière, em Invariance, 2e série, no. 5. [3] Invariance, 2a e 3a séries. [4] Cf. o grupo escandinavo em torno de Kommunismen, que rompeu com o P.C.I. a propósito da questão sindical, pois evoluiu nesse sentido. Cf. La gauche allemande et la question syndicale dans la IIIe Internationale, Bagsvaerd, Danemark, e Textes de travail parus à l’occasion de la scission.... id., 1972 (polycopiados). [5] Cf. Négation; Une Tendance Communiste, saída de Révolution Internationale, e autora de La révolution sera communiste ou ne sera pas, 1974; este grupo se dissolveu, logo depois. Cf. também Maturation Communiste, no. 1, 1975. E as revistas Théorie communiste e La Crise du communisme. [6] Bulletin de la L.C.I., abril de 1936. [7] In Le Prolétaire, no. 206. [8] Certos temas desse parágrafo foram desenvolvidos no Barrot, Crise du prolétariat ? Fim Biblioteca virtual revolucionária

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